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3.2 Objetivos específicos

6.2 Sandra e sua família

Durante a gravidez, Sandra se mostrou principalmente irritada, sendo esta uma queixa constante, que aparecia principalmente com Guilherme, mas também no trato com Laura. Contudo, foi ao final de sua gestação que seu humor sofreu as maiores alterações, quando brigou com a irmã e os pais. Apesar de estar passando por uma situação muito difícil, a gestante acabou compartilhando conteúdos importantes sobre sua estória, que se ligavam e explicavam em parte, a forma como Sandra estava vivenciando sua nova maternidade. Assim, neste tópico serão enfatizados os elementos que reforçaram a hipótese de que a entrevistada apresentou dificuldades relativas à fase do concernimento e a integração de sua agressividade, e como estes elementos emergiram ao final da gestação e puerpério.

Antes de brigar com a irmã, Sandra falou pouco sobre sua família, mas trouxe um elemento importante sobre a mãe, dizendo que ela era muito brava, e batia nas filhas, que muitas vezes nem sabiam por que estavam apanhando, e depois vinha chorando pedir desculpa. Ao contar isto, a própria Sandra se identificou com a mãe, referindo-se a sua dificuldade em lidar com Laura, e como perde a paciência e depois sente remorso. Ou seja, estava falando de um padrão da mãe, no qual a agressividade tornava-se violenta, como algo que saia do controle e ia além do objetivo de educar, uma dificuldade em viver o impulso agressivo já presente na família. No entanto, foi em meio à briga com a irmã, que Sandra acabou falando mais sobre sua família. Maria é apenas um ano e meio mais nova, e segundo a entrevistada, ela foi uma criança que teve problemas desde o nascimento, quando a mãe teve complicações no parto, depois por volta de três anos passou a ter convulsões, desmaiava repentinamente e já um pouco maior falava errado, de forma que sofria gozações na escola. Assim, sempre teve acompanhamento médico e mais atenção dos pais. A mãe inclusive batia nas crianças que brigavam com Maria.

Quantas vezes minha mãe não foi na porta da escola, e a inspetora tinha medo dela, porque ela muito brava, e ela ia lá dentro da escola, pegava o moleque e dava uns cascudos, e com certeza ela provocava e tudo mais, mas minha mãe não queria ouvir estória, ela chegava chorando, minha mãe ia atrás do moleque. Eu cansei de ver minha mãe dar cascudo em moleque, eu nem tinha essa noção ainda, mas eu achava um absurdo, eu tinha vergonha sabe?

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A entrevistada diz que entendia que a irmã precisava de mais cuidados e nunca teve problemas com isso. Contudo, acredito que Sandra era muito nova para uma compreensão e empatia tão madura. E relatando uma discussão com a irmã, acabou mostrando uma competição entre elas, apesar de enfatizar que nunca precisou da mesma atenção.

Mas acho que falo isso também, por causa da minha experiência, te falei neh, que minha irmã sempre foi preferida, teve mais atenção, eu de verdade assim, eu falo isso e as pessoas acham que eu to me achando, que eu sou superior ‘Ah, como eu sou bem resolvida’, mas não, desde criança pra mim isso foi bem resolvido sabe, tudo bem ela tem mais atenção, mas e se fosse diferente, e se eu não soubesse lidar com isso, aí eu fico pensando nisso sabe, eu soube lidar com isso, mas e se ela não souber?

É provável que Sandra tenha se sentido “deixada de lado”, justamente como temia que Laura se sentisse, mas ao invés de reagir expressando raiva ou frustração, retraiu-se, por não encontrar um ambiente suficientemente bom, capaz de sobreviver aos seus aspectos destrutivos, no caso uma mãe que apresentava problemas em administrar a própria agressividade. Seguindo esta linha de análise, Sandra teria vivido uma falha ambiental durante a dependência relativa, não podendo expressar, nem viver sua raiva, e consequentemente, teve problemas para integrar o amor e o ódio em si mesma, na figura da mãe ou qualquer outra pessoa. O retraimento seria resultado de uma desesperança ambiental, que a levaria a uma independência patológica, ou seja, há uma independência constituída que não é baseada na autonomia e na força de ego, próprios de um desenvolvimento saudável, mas sim em uma recusa à dependência.

Desde a primeira entrevista Sandra declarou que prefere guardar seus problemas para si, tendo dificuldade de compartilhar sentimentos muito íntimos. Não falou com ninguém sobre o terror de seus pensamentos durante o puerpério de Laura, assim como quando descobriu a gravidez de Bianca escondeu o tempo que conseguiu, e posteriormente nas entrevistas confirmou que sempre foi assim “Porque eu tenho um pouco de dificuldade de compartilhar isso com as pessoas próximas, o que eu penso...o que eu penso nem tanto, mas aquela coisa que tá no intimo mesmo, eu tenho dificuldade, eu prefiro guardar, e eu tenho medo de alguém falar assim ‘Poxa,

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você é louca’.”. Mostra orgulho de sua independência, dizendo que nunca deu trabalho, e que apesar de não falar sobre seus problemas sempre conseguiu lidar com os mesmo, desde cedo tinha seu próprio dinheiro, e com vinte anos ao vir sozinha para São Paulo, cortou totalmente a dependência financeira de seus pais.

Segundo Dias, na fase do concernimento, o que é reprimido não é uma fantasia ou uma representação, mas o próprio impulso agressivo, ou seja, o que é reprimido é um modo de ser que faz parte do desenvolvimento emocional normal. A destrutividade que não tem vazão, não pode ser testada e experimentada na realidade, e ao objeto, não é dada a chance de sobreviver por suas próprias qualidades, quanto menos ser reparado por um gesto de amor. Assim, o que Winnicott chamou de ciclo benigno não se completa, de maneira que tanto o objeto subjetivo quanto a agressividade ficam presos a uma fantasia.

Contudo, a sensibilidade aumentada e os conflitos vividos durante a gestação deixaram expostos alguns conteúdos agressivos de Sandra, que adotou uma posição maniqueísta e pôde expressar seu ódio. Em relação à irmã, ficou claro a existência de um ciúme e um rancor, que apareceram em discussões, críticas e fantasias de violência ou morte. “(...) falei até para minha mãe ‘a hora que ela aparecer boiando no rio pinheiros, eu vou falar que eu avisei e ninguém fez nada’ triste neh, não que a gente torça para que aconteça, mas pode acontecer alguma coisa com ela...”. Em outro momento, “Estou torcendo pra acontecer alguma coisa, pra ele dar um soco nela, ela cortar o supercilho, e ela precisar tomar três pontos sabe? Depois vai se olhar no espelho, e dizer ‘poxa! Olha que ponto eu cheguei!’ Você fica pensando...tipo é uma saída.” Já em relação aos pais, Sandra demandou deles uma posição em relação à briga, desejando que os mesmos a apoiassem e pensassem da mesma forma, e quando não o fizeram, foram atacados verbalmente.

A conversa com minha mãe sobre isso, foi assim, minha mãe falou ‘ah, sua irmã conversou com ele, e ele falou que nunca mais vai pra Piracaia’, ótimo sabe, que bom neh, daí passa uma semana que minha mãe fala isso e o cara já está lá enfiado sabe? Eu briguei com a minha mãe no domingo por conta disso sabe, eu até fui meio grossa, falei assim ‘do mesmo jeito que eu tenho nojo da Maria, agora eu estou com nojo de você’, ok, magoei muito, (voltou a chorar) mas eu fiquei muito brava na hora, muito, muito, muito. Tipo, igual ontem, to lá

118 trabalhando e recebo a foto do meu pai do lado do cara, ah, vai pro inferno meu, vai pro inferno!

Sandra chegou a estender esta demanda a outros membros da família como tios e primos, expondo a vida pessoal da irmã. Outras pessoas dizem à Sandra que ela sente ciúme da irmã, por ter tido menos atenção, contudo, ela nega veemente, sempre dizendo que soube lidar com isto, mostrando uma forte ambivalência, e uma necessidade de manter separados o amor e o ódio. Ao mesmo tempo em que Sandra ama muito a irmã e diz serem melhores amigas, que uma sabe tudo sobre a outra, diz também que Maria não fala com ela sobre seus problemas, e prefere conversar com a mãe.

Isto posto, foi possível acompanhar duas linhas marcantes na gestação de Sandra, que se entrecruzaram, sendo a primeira uma identificação com Laura, e consequentemente, a necessidade de protegê-la de um sentimento de exclusão, assim como um distanciamento e uma dificuldade de se entregar à Bianca, que parecia não ter espaço nesta relação. A segunda característica importante foi uma retomada do próprio conflito com a irmã, que permitiu uma expressão aberta do ciúme e ódio existentes em seu mundo interno. Apoiados no conflito atual, estes sentimentos puderam ser vividos e integrados como algo tolerável, apesar de toda a dor causada pelo ataque às pessoas amadas.

Após o nascimento de Bianca, Sandra voltou aos poucos a retomar o contato com a irmã e os pais, abandonando sua posição maniqueísta, mas deixando clara sua posição em relação ao namorado da irmã, isto é, não queria que ela nem suas filhas convivessem com ele, porém não iria deixar de falar com a família por causa disto. Apesar de dizer que não confiava mais na irmã para deixá-la sozinha com as filhas, por achar que ela mentiria se caso encontrasse Sérgio, a retomada do contato com a família foi fundamental para o bem estar de Sandra. Depois de toda a briga e expressão do ódio, a entrevistada pôde ver também a sobrevivência das relações.

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