5.5 ANÁLISE DOS PERSONAGENS
5.5.1 Sandro & Alê Monstro e Nina: desajustados
Relacionar os personagens Sandro e Alê Monstro (Última parada 174)e Nina (Nina) à primeira vista pode causar estranheza, sobretudo se levarmos em conta as
opções estéticas que se apresentam na condução da narrativa dos referidos filmes. Mas, se os olharmos mais detidamente, veremos que de fato há semelhanças consideráveis entre eles. A condição de orfandade na trajetória errática desses personagens é o primeiro elemento que os aproxima.
Os altos e baixos na vida do Sandro marcam as diversas peripécias que terá de enfrentar na cidade do Rio de Janeiro. Ele tem sua mãe assassinada quando ele era ainda criança, o que o tornou órfão – não há informações acerca de seu pai. Viveu um breve período com a tia materna até tornar-se um “menino de rua”. Sobrevive à Chacina da Candelária. Após, é protegido por Valquíria na ong Infância para todos. É flagrado com drogas e enviado a uma instituição para cumprimento de medida socioeducativa. Reencontra Alê Monstro na instituição e após a fuga tornam-se parceiros no crime. Por equívoco, Sandro é tomado pelo filho perdido de Marisa, cujo lugar ocupa por um breve período. Por fim, a perturbação causada pela descoberta da “traição” de Alê/Monstro e Soninha e a recusa de Marisa em aceitá-lo de volta encaminham a catástrofe que se anuncia com o incidente do ônibus e prenuncia o seu desfecho trágico.
Alê Monstro não conheceu seus pais biológicos. Ele foi criado pelo traficante Meleca que assumiu tal incumbência ao tomá-lo de Marisa ainda um bebê por conta de uma dívida de droga não paga. Ele então pode ser considerado um órfão. Meleca morre e Alessandro criança fica “solto no mundo”. Com o tempo irá tornar-se também um traficante. Antagonistas na Candelária, Alê Monstro e Sandro se aproximam quando se reencontram na instituição para cumprimento de medida socioeducativa. Isto ocorre após Sandro assumir a responsabilidade pela posse de uma trouxa de cocaína que pertencia a Alê Monstro. A ironia ganha a forma de uma mal-entendido, uma vez que Alê Monstro incentiva o parceiro para assumir-se como filho “desaparecido” de Marisa.
Nina vive sozinha na capital paulista. Ela aluga um quarto no apartamento onde mora dona Eulália, a avarenta proprietária. Seu pai é falecido e a mãe casou com um homem mais jovem. Nina reprova tal relacionamento. Em vista dessas circunstâncias, a personagem pode ser tomada como uma órfã. Contribuem para essa situação os escassos recursos financeiros que dispõe em vista dos ganhos obtidos como atendente na lanchonete para fazer frente às suas despesas pessoais. Porém a dívida de moradia que tem com a senhoria e a opressão que esta exerce sobre Nina
a deixarão mais desamparada. A crescente perturbação psicológica e o aperto financeiro da personagem encaminham a catástrofe que se anuncia.
Tais circunstâncias remetem à condição social dos personagens, segundo elemento a ser considerado. Embora Nina e sua senhoria possam até pertencer à mesma classe social, a jovem está em nítida desvantagem financeira frente àquela, considerando que só dispõe para se manter os parcos recursos obtidos como atendente de lanchonete, ainda que possa receber esporadicamente auxílio financeiro de sua mãe. Sua situação agrava-se quando decide abandonar o emprego. Assim, se compararmos a condição social de Nina com a de Sandro e de Alê Monstro, os três estão numa posição mais próxima do que possa parecer à primeira vista, uma vez que os dois rapazes ambos vivem na incerteza dos ganhos obtidos com os assaltos praticados e com os quais garantem seu sustento. E Nina, embora tenha um “teto para morar”, está na iminência de ser despejada e sem um outro local onde possa se estabelecer, além de não condições de manter-se. Somam-se a esses aspectos as poucas ou inexistentes informações acerca da escolaridade dos personagens: Sandro é analfabeto, Alê Monstro possui alguma instrução formal e quanto à Nina presume-se que tenha escolaridade mais elevada em relação a eles, fica subentendido que presume-se situa entre o ensino fundamental e o médio, uma vez que mantém um diário.
Se um personagem não nos comove, seremos indiferentes ao seu destino. A
piedade que um personagem pode suscitar no espectador está diretamente
associada à familiaridade que mantemos com ele. Nesse sentido há um terceiro elemento que aproxima Sandro, Alê Monstro e Nina: as situações de humilhação às quais são submetidos: os dois rapazes são expostos à violência física na instituição para cumprimento de medida socioeducativa para qual são enviados: a descoberta de entorpecente durante uma revista no pátio da instituição visibiliza as práticas disciplinares que ali se fazem presentes para os internos. Já Nina sujeita-se ao constrangimento de “vender” a calcinha que estava usando para Carlão e a comer a ração de gato, quando se vê em sérias dificuldades financeiras.
O quarto elemento em comum diz respeito a uma ação transgressora, a qual, no caso de Nina e de Sandro, pode ser compreendida como catástrofe. Mesmo que a morte de Dona Eulália tenha sido atribuída às suas condições clínicas prévias, não se vinculando, portanto, à ação da Nina, as imagens pregressas sugerem, todavia, que ela de fato cometeu o assassinato. E é essa ação praticada por Nina que chama a atenção, justamente por se tratar de uma conduta incomum para personagem
feminina no cinema nacional recente, sobretudo em se tratando de personagem feminina jovem. Ainda que por razões distintas Alê Monstro e Sandro também cometam assassinatos, tal conduta violenta não causa o espanto com a situação protagonizada por Nina, pois se trata de personagens masculinos. Há, é claro, uma diferença marcante entre Alê Monstro e Sandro no que que tange às mortes que praticam: enquanto o primeiro não aparenta qualquer remorso por esses atos criminosos, o segundo fica em estado de estupor ao constatar que a passageira do ônibus, usada como escudo para descer do coletivo, foi atingida pelo disparo de sua arma. As consequências do assassinato para Nina se apresentam sob a forma de alucinações que passa a ter, as quais dão forma a seu remorso.
Por último, mas não menos importante, há um quinto elemento a ser arrolado. Há uma clara a intenção de desfrute da vida por meio de drogas e de sexo aos três personagens – ainda que Nina não venha a cometer crimes para garantir esse prazer. Esse desfrute está centrado no aqui e no agora, alicerçado em valores hedonistas. Chama a atenção a maneira fortuita com que as situações ligadas a sexo são vividas por Nina, diferentemente daquelas protagonizadas por Sandro, pois seu interesse sexual é também afetivo e estão dirigidos à figura de Soninha, com quem teve sua iniciação sexual. Alê Monstro, por sua vez, busca mulheres somente para satisfação de seus desejos sexuais.
Em vista dos elementos destacados, a identificação que se estabelece com esses personagens decorre das situações de infortúnio e perigo e das faltas por eles cometidas, além do temor e da piedade que evocados por tais ações. Tais traços conformam a categoria desajustados.
Quadro 10 – categoria desajustados
Filme Personagem Condição social Catástrofe diante da vida Perspectiva
Última parada 174
Sandro Alê Monstro
Sandro & Alê Monstro Orfandade Analfabeto Orfandade Escolaridade não informada Atividades criminosas Assassinato --- Ênfase no aqui e no agora
Nina Nina “Orfandade” Escolaridade não informada (presumida) Emprego precário
Assassinato Ênfase no aqui e no agora
Elaborado pela autora (2020)