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1.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

1.3.5 Saneamento descentralizado e fatores sociais

A promoção da universalização do acesso aos serviços públicos de saneamento básico é um dos princípios fundamentais definidos na Lei Federal 11.445/2007. Para efeito de tal Lei, a universalização é definida como a “ampliação progressiva do acesso ao saneamento básico para os domicílios ocupados no país”. Desse modo, a universalização remete à possibilidade de atendimento de todos os brasileiros com serviços de esgotamento sanitário, sem quaisquer barreiras de acessibilidade, sejam elas legais, econômicas, físicas ou culturais.

No entanto, conforme evidenciado pelos dados fornecidos pela ANA (2017), os índices de coleta e tratamento de esgotos no Brasil apresentam expressivos déficits.

A população não atendida pelos serviços públicos de esgotamento sanitário está localizada, sobretudo, em regiões de baixa densidade demográfica, áreas periurbanas e rurais, comunidades tradicionais, condomínios residências isolados, municípios de pequeno porte e em áreas onde, em função das condições topográficas existentes, a ligação aos sistemas de tratamento centralizados é inviável (HIGUEREY; TRUJILLO, 2017; OLIVEIRA JÚNIOR, 2013; PAZ; ALMEIDA; GÜNTHER, 2012). Adicionalmente, Santos et al. (2019) citam que déficits expressivos na provisão de serviços de esgotamento sanitário são verificados em zonas vulneráveis que abrigam populações de baixa renda nas grandes cidades brasileiras.

18 A inviabilidade econômica do atendimento centralizado nas áreas citadas compromete a universalização dos serviços de saneamento e conduz à reflexão a respeito do paradigma técnico dos projetos de saneamento básico no Brasil, que se baseiam, predominantemente, na adoção de sistemas centralizados.

Promover a inclusão de áreas não atendidas com serviços de saneamento ambiental de boa qualidade, compatíveis com aqueles realizados em áreas centrais, é uma das diretrizes estabelecidas pela política federal de saneamento básico. Tal política determina que a União deverá priorizar ações que promovam a equidade social e territorial no acesso ao saneamento básico (BRASIL, 2007).

Desse modo, verifica-se que os entraves para a inclusão social em saneamento urbano e rural não estão relacionados à ausência de regulamentação que defina a inclusão como ação prioritária, mas, sobretudo, a questões econômicas. Diante desse contexto, é imperativo considerar abordagens diferentes, avaliando-se modelos de gestão capazes de pulverizar o tratamento de esgotos ao longo do território brasileiro a custo reduzido (GIKAS; TCHOBANOGLOUS, 2009; OLIVEIRA JÚNIOR, 2013).

Uma das alternativas citadas para promover a universalização do atendimento, tem como princípio a incorporação de sistemas descentralizados aos sistemas centralizados (CRUZ et al., 2019; LIBRALATO; VOLPI GHIRARDINI; AVEZZÙ, 2012; MASSOUD; TARHINI; NASR, 2009).

As soluções individuais de afastamento e destinação final dos esgotos sanitários estão incluídas na Lei Federal 11.445/2007 como uma das alternativas para o saneamento em locais que não dispõem de sistemas públicos. De acordo com o PLANSAB, o atendimento dessas populações com tanques sépticos sucedidos por pós-tratamento ou unidade de disposição final é considerado apropriado (BRASIL, 2013).

No entanto, o modelo de saneamento descentralizado em clusters ainda é pouco discutido no Brasil.

Segundo Libralato, Volpi Ghirardini e Avezzù (2012), a abordagem descentralizada está relacionada à utilização de mais de uma estação de tratamento de esgotos, as quais servem populações de uma área específica, utilizando uma variedade de tecnologias de tratamento. Baseado em tal definição, verifica-se que apesar dos sistemas descentralizados em clusters serem pouco citados, existem numerosos sistemas com as características descritas pelos autores mencionados em operação no Brasil, sobretudo, em regiões onde o acesso aos serviços públicos coletivos de tratamento de esgotos é limitado.

19 Sistemas descentralizados são, comumente, utilizados em condomínios no Brasil, sendo possível encontrá-los em condomínios verticais e horizontais, sejam eles de alto padrão ou populares. A ampla utilização de tais sistemas nesses locais parece estar relacionada às imposições estaduais e/ou municipais e dos prestadores de serviços de esgotamento sanitário. Tais imposições, por vezes, definem que nenhum loteamento poderá ser aprovado pelo município na ausência de projetos de coleta e tratamento de esgotos, quando verificada a impossibilidade de ligação à rede pública de coleta.

Adicionalmente, a frequência de utilização de sistemas de tratamento descentralizados em conjuntos habitacionais populares ocorre em função das determinações da Lei nº 11.977/2009, que dispõe sobre o Programa Minha Casa Minha Vida, e da Resolução CONAMA 412/2009, que estabelece critérios e diretrizes para o licenciamento ambiental de novos empreendimentos destinados à construção de habitações de interesse social.

As referidas regulamentações determinam que os locais de instalação de habitações de interesse social devam possuir infraestrutura básica que inclua solução de esgotamento sanitário. Tendo em vista que é permitida a construção de tais habitações em áreas de expansão urbana (que, por vezes, carecem de infraestrutura instalada de esgotamento sanitário), a implantação de ETEs faz-se necessária para a aprovação dos projetos junto aos órgãos competentes.

A ampla utilização de ETEs descentralizadas nos locais citados contribui para a diminuição da parcela da população sem acesso aos serviços apropriados de saneamento básico. No entanto, vale ressaltar que, além da implantação de ETEs, é fundamental a adoção de programas de monitoramento e gestão efetivos (MASSOUD; TARHINI; NASR, 2009). Isso se faz necessário tendo em vista que a falta de suporte às comunidades, após a construção dos sistemas de tratamento, pode resultar em problemas operacionais, que levam à baixa qualidade do efluente final.

Adicionalmente, é desejável que a concepção dos sistemas de tratamento seja realizada de forma participativa com a população atendida, utilizando estratégias que busquem desenvolver o compromisso dos usuários com a integridade dos sistemas (MASSOUD; TARHINI; NASR, 2009).

Massoud, Tarhini e Nasr (2009) consideram a aceitação social, aliada à viabilidade econômica e à sustentabilidade ambiental, um dos principais fatores a serem avaliados durante a seleção de uma alternativa tecnológica de tratamento de esgotos em uma comunidade. No entanto, segundo Libralato, Volpi Ghirardini e Avezzù (2012), os

20 aspectos sociais em ETEs descentralizadas, frequentemente, são subestimados em comparação com os fatores econômicos e ambientais.

Em ETEs descentralizadas, a participação da população é mais efetiva sobre a prestação destes serviços essenciais, tendo em vista a proximidade das residências com as unidades de tratamento (LIBRALATO; VOLPI GHIRARDINI; AVEZZÙ, 2012). Essa proximidade faz com problemas operacionais e inconvenientes, tais como entupimentos e incidência de odores sejam rapidamente observados pela comunidade e reportados aos prestadores de serviço (LARSEN et al., 2009).

Desse modo, conforme citado por Suriyachan, Nitivattananon e Amin (2012), para o sucesso de sistemas descentralizados é necessário que programas efetivos de gestão de efluentes e de educação ambiental sejam implementados, tendo em vista a necessidade de fomentar nos usuários o compromisso com a integridade dos sistemas.

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