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2. SANEAMENTO NOS DOMÍNIOS DO AMBIENTE, SAÚDE E ENSINO

2.2 Saneamento como tema manifesto no Brasil

Atualmente as questões relacionadas ao saneamento ganharam destaque no Brasil e vários acontecimentos o levaram a se tornar um tema manifesto, dentre eles as epidemias de dengue, chikungunya e zika. O tema tornou-se motivo de diversas reportagens, manchetes de jornais e de pesquisas científicas. Diante disso, a seguir serão apresentadas informações que justificam, de certa forma, a causa do saneamento ser considerado um tema manifesto e discussões sobre o assunto nas diversas instituições que compõem a sociedade.

No ano de 2016, a campanha da fraternidade ecumênica da Igreja Católica abordou o direito dos cidadãos ao saneamento básico e debateu políticas públicas e ações que podem garantir a integridade e o futuro do meio ambiente. Com o tema “Casa comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”, a campanha ressalta o desenvolvimento da saúde integral e da qualidade de vida dos cidadãos (VERDÉLIO, 2016).

No mesmo ano, o líder mundial da Igreja Católica, papa Francisco, convidou as pessoas a se mobilizar por meio de suas comunidades, para promover a justiça e o direito ao saneamento básico com a mensagem: “O acesso à água potável e ao esgotamento sanitário é condição necessária para a superação da injustiça social, a erradicação da pobreza e da fome, a superação dos altos índices de mortalidade infantil e de doenças evitáveis e para a sustentabilidade ambiental.” (VERDÉLIO 2016). Resumindo, os serviços relacionados ao saneamento são imprescindíveis para a garantia da saúde pública e ambiental, além de contribuir para amenizar a desigualdade social.

Um dos representantes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), Dom Flávio Irala, também se manifestou sobre o assunto e ressaltou que enfocar o tema saneamento é fundamental porque ele nem sempre tem visibilidade em propostas públicas e em movimentos sociais. A grande preocupação, segundo ele, é que uma parte significativa da população permanece sem acesso à rede de coleta de esgoto. Mencionou que ninguém deve ser privado do acesso ao saneamento em função de sua condição socioeconômica e ainda destacou que o acesso promove a inclusão social e a garantia de instrumentos de proteção da qualidade de recursos hídricos e dos inibidores de doenças, como cólera, diarreia, febre amarela, chikungunya, dengue, entre outras (VERDÉLIO, 2016).

O Ministério das Cidades do Brasil possui uma Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental que divulga anualmente o diagnóstico dos serviços de água, esgoto e manejo de resíduos sólidos urbanos com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (SNIS). O diagnóstico mais recente, do ano de 2015, apresenta que o contingente de população urbana atendida por redes de água corresponde a 157,2 milhões de habitantes, representando um acréscimo de 0,5% quando comparado ao de 2014. Quanto ao índice de atendimento, a média nacional é de 93,1%, destacando-se as regiões sul, centro-oeste e sudeste, com os maiores índices médios, sendo 98,1%, 97,4% e 96,1%, respectivamente (SNIS, 2015).

Em relação ao atendimento por rede de esgotos, o contingente de população urbana atendida alcança 98,0 milhões de habitantes, evidenciando um acréscimo de 1,3% quando comparado à 2014. Quanto ao índice de atendimento, a média nacional é de 58,0%, destacando- se a região sudeste, com média de 81,9% (SNIS, 2015). A figura 4 apresenta os mapas do saneamento em se tratando de rede de água e rede de coleta de esgoto.

Figura 4. Mapas do saneamento no Brasil (adaptado).

Os mapas apresentam o percentual para cada região e permitem identificar o déficit no fornecimento de água tratada e principalmente na coleta de esgoto. Observa-se também a discrepância no atendimento da população brasileira em relação à rede de coleta de esgoto quando comparada a rede de água. Frente a situação, realçam-se apontamentos como os de Rezende e Heller (2008, p.51), ao mencionar que: “No Brasil, o acesso aos serviços de saneamento, em seus mais variados aspectos e tipologias, ainda está longe de caracterizar situação de universalização.” Isso porque os acréscimos no atendimento, por exemplo, sobre 2015 em relação ao diagnóstico realizado em 2014, caracterizam tímidos avanços para o setor.

A revista “Em Discussão!” publica mensalmente os principais debates do Senado Federal. Em 2016, o saneamento ganhou destaque na revista mencionada no mês de maio, sendo que o tema havia sido eleito como objeto de exame por três vezes. Nas duas primeiras, evidenciou a destinação inadequada dos resíduos sólidos e na terceira, a crise de abastecimento de água. O tema voltou a ser discutido sob a justificativa de que o país se defronta com uma série de fragilidades em matéria de infraestrutura e comportamento evidenciados pela tríplice epidemia (dengue, chikungunya e zika) provocadas pelo mosquito Aedes aegypty.

A edição “Saneamento: a linha divisória da saúde pública” apresenta o posicionamento de representantes sociais, que vinculam os problemas no saneamento com a tríplice epidemia. O relator da Organização das Nações Unidas, Léo Heller, comentou que: “Há uma forte ligação entre os sistemas deficientes de saneamento com o surto atual do mosquito transmissor do vírus zika, bem como de dengue, febre amarela e chikungunya.” A senadora Simone Tibet também manifestou sua opinião: “Estamos colhendo, infelizmente, frutos amargos. A falta de saneamento causa mortalidade infantil por conta de diarreia, doença de pele. E a sociedade como um todo, está sendo prejudicada por causa do Aedes aegypty." (EM DISCUSSÃO, 2016).

Outra importante ação relacionada ao saneamento é o manejo de águas pluviais. A falta de atenção com o serviço mencionado tem sido evidente no contexto brasileiro por meio da ocorrência de inundações e enchentes em várias regiões. As consequências são inúmeras e refletem diretamente na qualidade de vida da população e do meio ambiente. Dentre elas destacamos a perda de vidas, aumento das chances de transmissão de doenças, danos em patrimônios públicos e privados, entre outros (EM DISCUSÃO, 2016).

As consequências das inundações para o ambiente em função da urbanização são comentadas por Carolline Gomes, coordenadora de fiscalização da Superintendência de Drenagem Urbana da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (ADASA), do Distrito Federal. Segundo ela, à medida que a urbanização avança ocorre a deterioração da qualidade dos rios, devido ao aumento do escoamento por conta da impermeabilização de

superfícies; à elevação da produção de sedimentos por conta da erosão e dos resíduos sólidos; e à alteração da qualidade da água por causa da lavagem de ruas, transporte de material sólido e ligações clandestinas de esgoto às redes de galeria pluvial (EM DISCUSSÃO, 2016).

A precariedade do saneamento cria ambientes propícios a muitas outras doenças, além das transmitidas pelo Aedes aegypty, algumas são acometidas pela ingestão de água contaminada, outras pelo contato da pele ou mucosas com a própria água, lixo ou solo infectados. Grande parte dessas doenças possuem o ciclo de transmissão fecal-oral, ou seja, os agentes causadores presentes em fezes humana ou animal são ingeridos, provocando a contaminação. Também podem ocorrer pela falta de cuidados com a higiene ou falta de destinação adequada dos resíduos sólidos (EM DISCUSSÃO, 2016).

Em se tratando de manejo de resíduos sólidos, o diagnóstico sobre esse serviço referente ao ano de 2015, revelou que a coleta domiciliar é igual à do ano anterior, com atendimento à 98,6% da população urbana do Brasil. Entretanto, o percentual acusa o déficit de atendimento a aproximadamente 2,6 milhões de habitantes das cidades brasileiras, sendo que praticamente 50% são moradores da região Nordeste, 20% da região Sudeste, 19% da região Norte e outros 6% para as regiões Sul e Centro-Oeste. Em termos de população rural aponta um déficit aproximado de 15 milhões de habitantes sem atendimento, o que corresponde a 47% do contingente rural do País (SNIS, 2015).

Os dados acima permitem a interpretação de que o manejo e a destinação adequada dos resíduos sólidos ainda são carentes, bem como a seletividade da coleta. Recentemente, Silva, Morejon e Less (2014) fizeram um estudo com o intuito de traçar um panorama atual das condições de saneamento rural e urbano no Brasil, considerando os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de resíduos sólidos. Por meio do estudo os autores chegaram à conclusão de que as condições do saneamento brasileiro são precárias e que as pessoas são expostas diariamente a enfermidades provenientes da falta de acesso adequado aos serviços mencionados.

Mas para superar as dificuldades e alcançar a universalização dos serviços relacionados ao saneamento, de acordo com Rezende e Heller (2008), é necessária maior interação entre o operador dos serviços, o poder público e a população. A incorporação dos avanços tecnológicos, o aumento da produtividade, a qualidade dos serviços prestados e o desenvolvimento de mecanismos de regulação democrática também são elencadas como questões que precisam ser consideradas.

Frente a gama de informações apresentadas e mesmo diante da pluralidade de fatores, não é muito difícil relacionar a precariedade do saneamento com algumas mazelas que

acometem a sociedade brasileira. Sobretudo, pode-se dizer que os serviços de abastecimento e drenagem de águas, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos e coleta de esgotos, são de fundamental importância e contribuem significativamente para o controle de doenças, colaborando para a melhoria da qualidade de vida da população e do meio ambiente.