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Sanjuro: a espada embainhada e o sangue que faltava

5. CAMINHOS VIOLENTOS: O SAMURAI MODERNO, O RONIN E OS CLÃS

5.1. UM CÃO QUE FAREJA SANGUE: O RONIN

5.1.2. Sanjuro: a espada embainhada e o sangue que faltava

Um ano após “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961), Kurosawa produziu “Sanjuro”, mais uma aventura do ronin solitário vivida por Toshiro Mifune. O roteiro é de Kurosawa e, como ficou registrado no livro de Richie (1998), devido a demandas da empresa produtora Toho, o herói pensado, inicialmente, como mais inteligente do que habilidoso com a espada foi trocado por Sanjuro, aproveitando o sucesso obtido pelo filme anterior. Não fica claro se a história se passa antes ou depois de “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961), mas, pela temática, pode-se enquadrá-la em um tempo anterior, embora, moralmente, o personagem seja mais evoluído que na sua primeira versão, o que contradiz a ideia de um “caminho” (do) de aprendizado. Enquanto “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961) retrata o final do período Tokugawa, quando houve uma ascensão da classe comerciante e a degradação do samurai, “Sanjuro” (1962) retrata um conflito no interior de um clã samurai, marcado pela hierarquia e submissão ao xogum. O filme conta a história de nove samurais idealistas que descobrem um esquema de corrupção no clã e tentam denunciá-lo. Um dos samurais conta ao seu tio, o chamberlain, uma espécie de oficial do local, que o orienta a não se envolver na história. Não satisfeito, o samurai vai ao superintendente do local, que estava envolvido na corrupção, tornando o grupo alvo de perseguição e tendo o chamberlain sequestrado e forçado a confessar o crime que não cometeu. Sanjuro salva os samurais da emboscada armada pelo superintendente na primeira sequência do filme, juntando-

se ao grupo e ajudando a libertar o chamberlain, sua esposa e filha. Ao final do filme, Muroto, o samurai que comanda as tropas do superintendente, desafia Sanjuro em um dos duelos mais famosos da cinematografia de Kurosawa, marcado pela reflexão sobre a violência que perpassa todo o filme.

Assim como em “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961), “Sanjuro” (1962) é recheado de pitadas de humor, principalmente ao revelar o contraste entre o protagonista e os demais samurais. Se ao lado dos antepassados dos yakusa, em “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961), o aspecto desleixado do ronin não chega a chamar atenção de espectadores ocidentais, em “Sanjuro” (1962), essa diferença se torna evidente. Do cabelo ao kimono surrado e aos gestos que marcam as reações do personagem, tudo diferencia o protagonista dos outros samurais no filme, que se apresentam sempre alinhados, com os topetes típicos no cabelo e o refinamento dos gestos de formalidade. A primeira sequência do filme revela uma série de quadros em que é possível ver essas disparidades. Os modos desleixados de Sanjuro ao sair de um quarto escuro, surpreendendo os jovens samurais que discutiam o caso de corrupção, ficam mais evidentes do que quando ele se coloca ao lado dos bandoleiros do filme anterior. A desconfiança do grupo com aquele samurai atípico só é dissipada quando a interpretação dos fatos feita por Sanjuro se confirma, e os samurais se veem numa armadilha preparada pelo superintendente.

Muitos soldados do superintendente cercam a cabana onde os homens se encontravam a discutir. Sanjuro os salva numa demonstração de coragem, habilidade e astúcia. Ele enfrenta os soldados que tentam entrar na cabana onde os jovens samurais estavam escondidos. O enfrentamento é cessado por ordem de Muroto, o comandante dos soldados do superintendente, que percebe a força de Sanjuro e a desnecessária luta contra aquele homem que não os interessava. Muroto é a força que antagoniza com Sanjuro no filme. Ele ainda oferece emprego ao ronin, percebendo suas qualidades. Na sua performance com a espada, no entanto, um detalhe simbólico marca sua conduta: ele não tira a espada da bainha, batendo em muitos homens sem causar ferimentos mortais. Mas é quando Sanjuro salva a esposa do chamberlain e sua filha do cativeiro em que se encontravam que essa simbologia se torna mais clara. Sanjuro mata dois dos três guardas que vigiavam as reféns, tornando o terceiro prisioneiro. Quando Sanjuro fala para os samurais que torturavam o prisioneiro para o matar, escuta da anciã que havia salvo as palavras que marcarão sua conduta durante todo o filme. Pedindo para que não matassem o prisioneiro, a anciã se volta para Sanjuro e o critica: “Você é muito severo, este é

seu problema. Você está como uma espada afiada, nua, sem uma bainha. Você cortou bem, mas boas espadas devem ser embainhadas” (SANJURO, 1962, 28min/46s).

Aqui, a simbologia da espada ganha proeminência apontando para uma reflexão sobre a violência. Em “O Guarda-costas (Yojimbo)” (1961), vimos a disputa simbólica entre a arma de fogo e a espada, mas essa última não chegou a ser alvo de algum tipo de reflexão, nem Sanjuro se apega a alguma espada em especial59, um tema comum ao gênero. A fala da anciã

alinha-se discursivamente com a crítica do uso indiscriminado da espada por parte da classe guerreira. Como vimos, os samurais tinham o monopólio do uso da espada no período Tokugawa (1603‒1868), que poderia ser usada contra membros de outra casta que não se comportassem da forma esperada, que poderiam ser executados no local se procedessem de forma inconveniente para com os samurais (BENEDICT, 2014). Nitobe (2005, p. 93), ao comentar os abusos cometidos pela classe samurai, questiona-se: “o bushido justifica o uso promíscuo da arma? A resposta sem dúvida, é não! Como ele dava grande ênfase ao seu uso próprio, também denunciava e execrava o seu mau uso”. A fala da anciã nos remete para um refinamento do bushido que Nitobe (2005) se refere como um ideal pregado por sacerdotes e moralistas, enquanto os samurais seguiam praticando e exaltando características marciais. O autor usa ditos populares como “a melhor vitória conseguida é aquela obtida sem derramamento de sangue” para afirmar que o ideal supremo do bushido seria a paz (NITOBE, 2005, p. 94). Podemos ver a mesma formação discursiva em uma máxima presente em a A Arte da Guerra, tratado militar escrito por Sun Tzu (2011, p.17) no século IV a.C.: “lutar e conquistar todas as batalhas não consiste em excelência suprema; a suprema excelência consiste em quebrar a resistência do inimigo sem ter que lutar”.

A partir da fala da anciã, Sanjuro, diferentemente do filme anterior, carrega o peso das mortes que causa. Ele busca um caminho que permita a resolução de forma pacífica, mas, no jogo estratégico que se estabelece, no qual o superintendente quer forçar o chamberlain a confessar um crime não cometido e capturar os seus apoiadores, Sanjuro é forçado a matar para

59 Em tempos de paz, como o período Tokugawa (1603‒1868), com sua utilidade simbólica de diferenciação de

castas acentuada, a dimensão artística das espadas foi cultivada. “Um objeto tão precioso não pode deixar de ser notado por muito tempo pela habilidade de artistas nem pela vaidade de seu dono” (NITOBE, 2005, p. 92). Materiais nobres e técnicas complexas eram usados na confecção do punho, da bainha e em especial da lâmina, que envolvia elementos ritualísticos na sua forja.

salvar quatro dos nove samurais que haviam sido capturados. Os jovens samurais foram pegos por desconfiarem dos planos de Sanjuro, que havia aceitado a oferta de emprego oferecida por Muroto, a fim de descobrir a localização do chamberlain. Para salvá-los, Sanjuro engana Muroto, matando inicialmente três guardas que iam chamar reforços, um prelúdio de uma ação ainda mais violenta. Após tirar Muroto do local, Sanjuro mata dezenas de guardas que faziam os quatro samurais de reféns. Terminada a ação, Sanjuro se mostra muito irritado, como se as palavras proferidas pela anciã lhe fizessem pesar aquelas mortes desnecessárias. Ele solta os samurais e fala “você me forçou a fazer isso”, e estapeia com raiva os rostos dos recém-libertos. Essa é uma atitude impensada no filme antecessor, em que Sanjuro colecionava cadáveres e se divertia com a violência que catalisou na cidade.

No desenrolar da trama, Sanjuro é capturado, mas, com astúcia, consegue resolver o conflito na cidade, enganando o superintendente e salvando o chamberlain. Porém, o binômio de forças que se estabeleceu com Muroto é resolvido no desafio final. Um dos mais famosos duelos da cinematografia de Kurosawa é marcado tanto pela reflexão sobre a violência, quanto pelo jorrar de sangue que proporciona. Sanjuro não quer lutar, não vê necessidade. Mas Muroto tem a sua honra abalada, por ter sido enganado por Sanjuro em diversos momentos. Ele também pode ser visto como o polo negativo do binômio, representando o mal, como ele mesmo se definiu na cena em que conversa com Sanjuro e o chama para trabalhar com ele e enganar a todos. Mas as semelhanças entre os dois são muitas, além da força em combate que os dois representavam, Muroto queria manipular o clã, assim como fez Sanjuro no primeiro filme, manipulando os grupos rivais. Tal semelhança é representada através do quadro simétrico onde os personagens ficam frente a frente.

Um longo silêncio toma a cena antes dos movimentos derradeiros dos combatentes. No quadro, os nove samurais que haviam sido auxiliados por Sanjuro observam a contenda ao fundo, com olhares atentos e de espanto. Eles vinham a procura de Sanjuro para que o chamberlain pude-se agradecer formalmente ao seu salvador. O duelo de ki é retratado num quadro marcado pela simetria e semelhança entre os lutadores, que lentamente tiram suas mãos de dentro do kimono. A ausência de ruídos acentua a importância dos pequenos gestos. A quase inércia da cena é então quebrada por complexos e rápidos movimentos de iajutsu, a arte de desembainhar a espada. O som retorna pontuando o ápice da cena e Muroto parece jorrar todo sangue ausente nos dois filmes protagonizados por Sanjuro. “Esplêndido”, diz um dos jovens

samurais que assiste a peleja, sendo veementemente repreendido por Sanjuro: “Idiota! Você não sabe nada!… Ele estava exatamente como eu. Uma espada nua. Ele não a deixou na sua bainha. A senhora estava certa. As boas espadas sempre ficam em suas bainhas. Vocês ficariam melhor com as suas nas bainhas” (SANJURO, 1962, 1h/33min/30s). Sanjuro ordena que os samurais não o sigam e vai embora sem receber os agradecimentos formais do chamberlain.

Figura 22 — Fotogramas do filme Sanjuro — O duelo final.

Como no filme anterior, o herói solitário deixa a cidade da mesma forma que entrou. Dessa vez, no entanto, traz uma mensagem humanista mais clara, e ele não é um agente do caos. Sanjuro se aproxima muito mais do modelo ideal de samurai difundido pelo bushido no segundo filme, embora em alguns momentos o contraste visual entre ele e os samurais do clã conferisse um tom cômico. Aqui, desde o início, o personagem posiciona-se em favor dos menos favorecidos. Embora tenha pedido dinheiro como forma de agradecimento na primeira cena do filme, quando salva os nove samurais da emboscada, motivo pelo qual em um momento posterior os próprios samurais duvidem da sua honra, o seu engajamento e lealdade ao grupo provaram o seu valor enquanto samurai. Sanjuro segue o seu caminho, levando consigo, desta vez, a lição de manter sua espada na bainha, que simbolicamente significa trilhar o caminho dos altos ideais do bushido apontados por Nitobe (2005), o caminho da paz.