• Nenhum resultado encontrado

2 OS ESTADOS E OS “LUGARES”: PATRIMÔNIO, POLÍTICA E MEMÓRIA

2.2 BENS TOMBADOS: A INVISIBILIDADE DO CONTESTADO

2.2.2 Santa Catarina: processo tardio de tombamento

As primeiras ações para dotar Santa Catarina de uma legislação específica sobre patrimônio cultural começaram a partir da década de 1960. O então governador, Ivo Silveira (1918 – 2007), nomeou uma comissão especial que se responsabilizaria pela criação de um Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado. Elaborou-se também uma versão preliminar de um projeto de lei, o que ficou a cargo do médico, professor e historiador, Oswaldo Rodrigues Cabral, um dos “signatários catarinenses do Compromisso de Brasília”.

Mas o que de fato passou a vigorar foi a Lei nº 2.975 de 18 de dezembro de 1961, que em seu artigo 6º atribuía ao Departamento de Cultura (vinculado à Secretaria de Estado de Educação e Cultura) a responsabilidade por “proteger obras e documentos de valor artístico, literário e histórico”.292

Apenas em 1974 Santa Catarina teve sua primeira lei especificamente dirigida às questões do patrimônio. A Lei nº 5.056, além de contar com os quatro tradicionais livros Tombo, como no caso do Paraná e do IPHAN, incluía um quinto livro que contemplava as

“Artes Populares, onde serão tombados os bens relacionados com manifestações folclóricas, características de épocas e regiões do Estado”. Para Janice, esse era um “dado bastante significativo em um estado que tem, desde a década de 1940, uma Comissão Catarinense de Folclore, à qual estiveram ligados alguns de seus mais destacados intelectuais (como Oswaldo Rodrigues Cabral)”.293 Os bens naturais não estavam incluídos nesta lei. Em seu parágrafo segundo constava que “A preservação dos monumentos naturais, as paisagens e os locais de particular beleza, é regulada por lei especial”.294 Por esta época ainda era o Departamento de Cultura o responsável por estes assuntos.

Em 1980, sob a responsabilidade da Fundação Catarinense de Cultura, revogou-se a lei de 1974 sendo substituída pela de nº 5.846. Em essência, não alterava os rumos adotados pelo estado em 1974. Em relação ao Paraná, um diferencial das leis catarinenses é que estas autorizavam, uma vez tombados, transferir os bens do Estado para a União ou para algum município e, se pertencente aos municípios, permitia-se a transferência para a União, o estado

292 GONÇALVES, Janice. Em busca do patrimônio catarinense: tombamentos estaduais em Santa Catarina. In:

Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011, s/n. Disponível em:

www.snh2011.anpuh.org.br. Acesso em: 02.11.2015.

293 Idem. Ibidem.

294 Lei nº 5.056 de 22 de agosto de 1974. Disponível em: www.alesc.sc.gov.br/portal_alesc/legislacao. Acesso em 03.11.2015.

ou a outro município. Em todos os casos a ressalva era que o bem deveria permanecer no

“território estadual”.295

Segundo Janice Gonçalves, comparando-se aos tombamentos realizados em nível nacional (DPHAN, SPHAN, IPHAN), houve uma “permanência de paradigma”, privilegiando as “construções ligadas ao aparelho estatal” e igrejas (séculos XVIII e XIX). O diferencial, no caso catarinense, era a “ênfase nas heranças culturais dos imigrantes e descendentes, sobretudo alemães e italianos”, resultando em uma abordagem de viés étnico tanto da história e da geografia quanto do patrimônio cultural a ser preservado. Geograficamente, Santa Catarina foi definida como alemã na região do vale do Itajaí; “luso-brasileira (quando não luso-açoriana)” em sua porção litorânea; italiana no vale do Rio dos Cedros e no sul; cabocla na região serrana e no oeste. Estes últimos “aliás, muito pouco representados nos tombamentos”.296

Na primeira década de tombamentos o viés étnico ainda não era tão marcado, embora o litoral “luso-açoriano” já tivesse seus exemplares e houvesse sinais de preocupação com as construções no vale do rio Itajaí por causa das enchentes de 1983 e 1984 bem como o início de um “inventário” sobre as correntes migratórias.297

Iniciado apenas em 1983, os tombamentos catarinenses dessa década se inscreveram principalmente naquela porção dedicada ao poder e a Igreja. Exemplo maior é o Palácio Cruz e Souza (Fig.11), tombado por meio do Decreto nº 21.326 de 26 de janeiro de 1984.

Construído ainda na segunda metade do século XVIII, sofreu grande reforma durante o governo de Hercílio Luz (1860 – 1924) entre os anos de 1894 e 1898, adquirindo as características que carrega até hoje. A partir de 1986 passou a sediar o Museu Histórico de Santa Catarina cujo acervo “é composto por móveis e objetos diretamente ligados à história política do Estado, especialmente ao exercício do Poder Executivo”.298

295 Lei nº 5.846, de 22 de dezembro de 1980. Disponível em: www.alesc.sc.gov.br/portal_alesc/legislacao.

Acesso em: 03.11.2015.

296 GONÇALVES, Janice. Op. Cit. Note-se a aproximação quanto ao recorte turístico do território catarinense apresentado anteriormente.

297 SANTA CATARINA. Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa, na sessão de 30 de abril de 1986, pelo governador Esperidião Amin Helou Filho. Florianópolis, Abril de 1986. Acervo do APSC.

298 FUNDAÇÃO CATARINENSE DE CULTURA. Disponível em: http://www.fcc.sc.gov.br/mhsc/. Acesso em: 08.11.2015.

Ainda com relação ao “Poder Executivo” providenciou-se o tombamento (Decreto nº 25.800 de 05 de junho de 1985) da casa de campo do governador Hercílio Luz (Fig.12).

Construção do início do século XX, localizada no município de Rancho Queimado, possui características trazidas pela imigração alemã e foi adquirida em 1911 por Hercílio Luz (em seu segundo mandato) e passou por reformas e ampliações. O conjunto tombado (casa e chácara) possui uma área de 184.431 m².299

299 FUNDAÇÃO CATARINENSE DE CULTURA. Disponível em: http://www.fcc.sc.gov.br/mhsc/. Acesso em: 08.11.2015.

FIGURA 11 – Palácio Cruz e Souza (MHSC). Florianópolis, SC.

Fonte: paulinezenk.com/blog/memoria-lucida; ASCOM/FCC.

FIGURA 12 – Casa de Campo do Governador Hercílio Luz.

Rancho Queimado, SC.

Fonte: www.fcc.sc.gov.br

Florianópolis, como geralmente acontece nas capitais, concentrou o maior número de tombamentos. Além do Palácio Cruz e Souza, entraram na lista a Estação de Elevação Mecânica (Decreto nº 31.255 de 31 de dezembro de 1986), o Teatro Álvaro de Carvalho (Decreto nº 1.304 de 29 de janeiro de 1988) e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (Decreto nº 1303 de 29 de janeiro de 1988). O mais curioso destes é mesmo a estação que fazia parte da antiga rede de saneamento da cidade. Construído no início do século XX chegou a abrigar o Museu do Saneamento a partir de 1980, instituição que deixou de funcionar na década de 1990. O espaço serviu até como banheiro público e hoje está fechado. Na cidade de São José, bem próximo da capital, tombou-se o Solar Ferreira de Mello (Decreto nº 26.608 de 15 de julho de 1986).300

Retomando observação anterior de Janice Gonçalves a respeito da pouca atenção dada aos caboclos nos processos de tombamentos, observa-se que durante a década de 1980 (incluindo-se o governo Amin que tanto falou no Contestado), nenhum bem tombado fez lembrar a cultura cabocla e muito menos o Contestado. Embora neste último caso nomes caros ao assunto tenham sido lembrados (embora não atrelados ao conturbado período do início do século) com o tombamento do Grupo Escolar Vidal Ramos (Fig.13) e do Conventinho Frei Rogério (Fig.14), ambos em Lages.

O grupo escolar foi fundado na cidade de Lages ainda no período da Guerra do Contestado, em 20 de maio de 1913, como parte da reestruturação que o então governador,

300 Seguindo a tendência dos tombamentos o imóvel faz referência a uma tradicional família da região. Abriga a biblioteca municipal desde 1988.

FIGURA 13 – Antigo Grupo Escolar Vidal Ramos, atual Centro Cultural Vidal Ramos. Lages, SC.

Fonte: Foto do autor, 2016.

Vidal Ramos, estava promovendo no estado. Por conta disso seu nome passou a ser lembrado por este investimento na estrutura educacional. O prédio do Grupo Escolar Vidal Ramos foi tombado em 26 de janeiro de 1984 pelo Decreto nº 21.327. Posteriormente passou a ser uma escola estadual e desde 11 de agosto de 2016 é sede do Centro Cultural Vidal Ramos, administrado pelo SESC. Ao seu lado encontra-se o Memorial Nereu Ramos, inaugurado em 1992, dedicado ao único catarinense a ser presidente do Brasil (novembro de 1955 a janeiro de 1956), reforçando ainda mais o nome da família Ramos em SC.

O Conventinho Frei Rogério foi tombado pelo Decreto nº 25.116 em 29 de março de 1985. Sua construção, sob as ordens de Frei Rogério, data da última década do século XIX.

Henrique Neuhaus nasceu na cidade alemã de Borken em 29 de novembro de 1863. Ingressou aos 17 anos no convento holandês de Harreveld, iniciando sua formação como franciscano.

Recebeu o burel e passou a chamar-se Frei Rogério em 03 de maio de 1881. Na Alemanha, em 17 de agosto de 1894, ordenou-se sacerdote. Aportou no Brasil com outros franciscanos em 02 de dezembro de 1891, seguindo para Santa Catarina, estabelecendo residência em Lages a partir de fevereiro de 1892. Neuhaus estabeleceu contatos com os caboclos do Contestado e com o monge João Maria que apareceu em Santa Catarina na última década do século XIX. Frei Rogério, vitimado pelo câncer, faleceu no Rio de Janeiro em 23 de março de 1934.301

Uma ausência que merece ser apontada é a cidade de Laguna, no sul do estado.

Fundada em 1678, invariavelmente tem sua história relacionada ao Tratado de Tordesilhas

301 Disponível em: http://www.franciscanos.org.br/?page_id=917. Acesso em: 09.11.2015.

FIGURA 14 – Conventinho Frei Rogério. Lages, SC.

Fonte: www.cultura.lages.sc.gov.br.

(1494), à Revolução Farroupilha (1835 – 1845) e ao nome de Anita Garibaldi (1821 – 1849).

Com centenas de casarões ainda preservados, teve este conjunto tombado pelo IPHAN em 1985. Curioso o fato de o governo do estado ter ignorado a cidade em seus planos de tombamento. Só em 1996, na localidade de Pescaria Brava (hoje município) um imóvel foi tombado. Trata-se da Igreja do Bom Jesus do Socorro (Decreto nº 1.290 de 29 de outubro). É uma edificação que fica bem distante do conjunto histórico tombado pelo IPHAN e mostrou, neste caso, um grande descompasso entre as esferas nacional e estadual.

Nesta fase entre 1990 e 2012, como ocorria no Paraná, os monumentos em “pedra e cal” continuaram como os alvos principais. Também aqui alguns conjuntos tiveram notório acréscimo. As igrejas e capelas, já bastante visadas em outros tempos, continuaram a ser acrescidas ao patrimônio, principalmente no litoral, especialmente em Florianópolis. Entre 1998 e 2001, incluindo-se a catedral, a capital catarinense teve sete unidades tombadas. A maior parte capelas luso-brasileiras.

E a preocupação com a arquitetura alemã por conta das enchentes na década de 1980 teve um novo capítulo nas décadas seguintes. A arquitetura “enxaimel” e outros remanescentes da colonização alemã roubaram a cena neste período. Só em Blumenau foram perto de 40 imóveis, além do teatro Carlos Gomes e de algumas igrejas. Outras cidades de colonização alemã tais como São Pedro de Alcântara, Joinville, São Bento do Sul, Jaraguá do Sul e Timbó tiveram imóveis representativos da colonização alemã tombados.302

Na região do Contestado poucos tombamentos foram efetivados entre 1990 e 2012.

Em Itaiópolis, de acentuada colonização polonesa e ucraniana, apenas a Igreja de Santo Estanislau (polonesa) foi tombada em 1998. Em Mafra, embora não assolada pela guerra mas visada na Questão de Limites, a ponte metálica da estrada de ferro (Fig.15) teve seu processo de tombamento concluído em 2002, a mesma que havia sido

302 Construções italianas não foram esquecidas, embora em menor número.

FIGURA 15 – Ponte metálica entre Rio Negro e Mafra.

Duplamente tombada. Antigamente caminho do trem, atualmente é passagem para carros e pedestres.

Fonte: Foto do autor, 2014.

tombada pelo Paraná em 2000. E como vimos anteriormente, o lado paranaense da “Estação União”, em União da Vitória, tinha sido incluído no patrimônio paranaense em 2000. Antes disso, em 1998, a parte catarinense da estação já havia sido considerada patrimônio estadual.

Apesar de ser um local fora da região do Contestado e dos espaços da guerra, o município de Rio Negrinho recebeu parte da EFSPRG por meio da construção do ramal entre São Francisco do Sul e União da Vitória. Na localidade construiu-se uma estação em 1913, tombada em 1998.

***

Tanto no Paraná quanto em Santa Catarina os esporádicos tombamentos nas cidades afetadas pela Questão de Limites ou pela Guerra do Contestado não se relacionavam com a guerra. O mais perto que se chegou de um tombamento relacionado ao Contestado foi a promessa, ainda no início da década de 1980, de transformar em patrimônio estadual o “Sítio Histórico do Contestado”, na cidade de Irani. Como a ideia não vingou, a Guerra Sertaneja do Contestado segue até hoje sem ser a baliza principal para um tombamento estadual.

2.3 MUSEUS ESTADUAIS E O CONTESTADO: DO POUCO CASO ÀS EXPOSIÇÕES DO CENTENÁRIO

Além dos bens tombados, Paraná e Santa Catarina também contavam com seus respectivos museus estaduais para representarem passados pretendidos bem como forjarem memórias/identidades. Apresentaremos a seguir algumas características destas instituições, procurando demonstrar a atenção dada (ou não) ao Contestado.

2.3.1 Museu Paranaense: uma longa história

O atual Museu Paranaense (MP), o mais antigo dentre os dois, nasceu num período em que as exposições universais convidavam as nações a demonstrarem seu grau de desenvolvimento, de “civilização”. Iniciadas em Londres em 1851 (quando da construção do famoso Cristal Palace), tornaram-se eventos de grande importância econômica tanto quanto de exibicionismo das potencialidades dos países expositores. No Brasil, seguindo o rastro das exposições universais, realizaram-se exposições provinciais (e posteriormente estaduais) e nacionais que, além de atenderem a demandas internas, serviam como preparação para a participação nos eventos internacionais. O período foi marcado também por outra característica, a forte atuação dos museus nacionais etnográficos e de história natural:

Foi no período que vai de 1870 a 1930 que os museus nacionais – o Museu Paulista, o Museu Nacional (RJ) e o Museu Paraense de História Natural – começavam a desempenhar um importante papel como estabelecimentos dedicados à pesquisa etnográfica e ao estudo das assim chamadas ciências naturais. E se os primeiros museus de arte podem ser considerados uma criação da Ilustração, já os estabelecimentos etnográficos remontam a um período de refluxo do imperialismo europeu. O mesmo momento que marca o enfraquecimento do domínio colonial favorece a criação desse tipo de museu, que conserva em seus recintos as produções de todo esse mundo extra-europeu. É a partir dessa perspectiva que se pode entender a instalação e o desenvolvimento desses estabelecimentos no Brasil (...).303

Os próprios fundadores do Museu, o desembargador Agostinho Ermelino de Leão (1834 – 1901) e o médico José Cândido da Silva Murici (1827 – 1879) estavam ligados à confluência desses condicionantes (exposições e museus etnográficos e de história natural).

303 SCHWARCZ, Lilia Moritz. A “era dos museus de etnografia” no Brasil: o Museu Paulista, o Museu Nacional e o Museu Paraense em finais do XIX. In: FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves; VIDAL, Diana Gonçalves, (orgs).

Museus: dos gabinetes de curiosidades à museologia moderna. 2. ed. Belo Horizonte: Fino Traço, 2013, p. 130.

Mesmo considerado o terceiro mais antigo em atividade no país e sendo um museu etnográfico no período analisado pela autora, o Museu Paranaense não foi mencionado neste texto. Quando da inauguração do “Muzeo de Coritiba” em 25 de setembro de 1876, estavam em atividade o Museu Imperial (fundado em 1818 como Museu Real) e o Museu Paraense (1866). O Museu Paulista foi fundado em 1895.

Ambos participavam das comissões que organizavam as exposições provinciais no Paraná e queriam dotar o estado de um museu seguindo o exemplo de outros estados. Em 14 de janeiro de 1874 encaminharam um Ofício ao então presidente do estado, Francisco José Cardoso de Araujo Abranches (1844 – 1903) com o “intuito de coligir os riquíssimos produtos industriais e agrícolas desta Província, pretendemos levar a efeito a criação de um museu agrícola e um jardim de aclimação nesta cidade”.304 Tratava-se de uma forma de dar um destino a expressivas quantidades de produtos devolvidos das exposições bem como “coletar amostras da produção agrícola e industrial da província e de expor e difundir as riquezas do Paraná”.305 O Jardim de Aclimação surgiu primeiro, em 1875 (mas teve vida curta). O MP, inaugurado em 1876, iniciou suas atividades como instituição particular em um imóvel que antes servira ao Mercado Municipal de Curitiba.306Até 1882 seguiu como instituição particular, embora recebendo apoio financeiro do governo do estado e da população. Sofria com a falta de espaço adequado e com a umidade em virtude de estar instalado às margens do rio Ivo. Obtendo ajuda de algumas pessoas, loterias e do governo, a primeira sede pode ser ampliada.307 A partir de 01 de janeiro de 1883 foi transferido para o estado por meio do Ato nº 393 quando o Paraná era governado por Carlos Augusto de Carvalho (1851 – 1905). A partir de então mudou o nome para Museu Paranaense e teve aprovado seu primeiro regulamento que, entre outras coisas, organizou-o em quatro seções:

1ª: antropologia, zoologia e paleontologia animal; 2ª: botânica em geral e paleontologia vegetal; 3ª: mineralogia e geologia e 4ª: arqueologia, etnografia e numismática. Numa análise da divisão interna da instituição pode-se perceber que esta se enquadrava como um museu de história natural e de “gabinete de curiosidades” e que, se não era ainda preocupação de seu diretor estabelecer critérios para expor o acervo do Museu Paranaense, já se notava, porém, a intenção da exibição de riquezas naturais da província, ao lado da variedade de objetos curiosos, aos olhos do público.308

304 Ofício de 14 de janeiro de 1874 enviado ao presidente da província do Paraná sobre a criação de um museu agrícola e um jardim de aclimação. In: TREVISAN, Edilberto. A gênese do Museu Paranaense (1874 – 1882):

auspiciosa experiência de aclimação cultural na província. In: Arquivos do Museu Paranaense. Nova Série, História, n° 1, 1976, p. 43. Disponível em: www.museuparanaense.pr.gov.br. Acesso em: 19.11.2015.

305 CARNEIRO, Cíntia Braga. O Museu Paranaense e Romário Martins: a busca de uma identidade para o Paraná. Curitiba: SAMP, 2013, p. 49.

306 Aliás, a instituição perambulou por várias sedes. Foram sete ao todo. A primeira de 1876 a 1900; a segunda de 1900 a 1913; a terceira de 1913 a 1928; a quarta de 1928 a 1965; a quinta de 1965 a 1973; a sexta de 1973 a 2002, quando então passou a ocupar o atual e, por hora, definitivo endereço. Na prática os prazos são até mais dilatados já que a mudança oficialmente determinada não acontecia logo em seguida como foi o caso da sexta sede que efetivamente abriu as portas ao público em 1974.

307 CARNEIRO, Cíntia Braga. Op. cit., p. 53.

308 Idem, p. 55.

Agostinho Ermelino de Leão tomou posse como o primeiro diretor da nova instituição pública. E é dele um documento que mostra, de maneira embrionária, a formação de um acervo histórico dentro de uma instituição que inicialmente tinha maior vigor em outros campos. Seu “Guia do Museu Paranaense”, publicado em 1900 (mesmo ano em que o MP passava a ocupar a sua segunda sede) e que tinha a finalidade de “facilitar aos visitantes do museu, a procura das secções que mais lhes interessarem”309 apontava para descrições e grupos de artefatos que agregavam um valor histórico. Exemplo é o das “flechas tomadas no Ribeirão da Prata, Matto Grosso, aos selvagens que atacaram a expedição de 30 homens sob o comando do Major Jorge Lopes da Costa Moreira, Director da Colonia Militar de S.

Lourenço”, exposta no “2º corredor”.310 Há algo de histórico e etnográfico (embora não determine de qual tribo) nesta descrição.

Em duas das salas, a da “Monarchia” e da “Revolução”, um período e um fato históricos definiram as coleções. No primeiro caso, o período monárquico brasileiro é representado por quadros a óleo de D. Pedro II, bandeiras do império, “entre as quaes a que foi desfraldada ao primeiro presidente da Provincia Conselheiro Zacarias de Goes e Vanconcellos, na ocasião da posse”, além de farda, casacas e floretes pertencentes a figuras consagradas oficialmente. No segundo caso, tratava-se de fato recente à época, a Revolução Federalista. Nesta sala estavam expostos espada, chapéu e faixa de Gumercindo Saraiva, faixa do “revolucionário Piragibe”, lanças, espingardas, granadas, fotos “mais de 800” referentes

309 LEÃO, Agostinho Ermelino de. Guia do Museu Paranaense. Impresso por ordem do Exm.º Sr. Dr.

Governador do Estado. Curytiba: Typ. da Impressora Paranaense, 1900, p. 2. Disponível em:

www.museuparanaense.pr.gov.br. Acesso em: 18.11.2015.

310 LEÃO, Agostinho Ermelino de. Op. Cit., p. 3.

FIGURA 16 – Rudolfo Doubeck. Primeira sede do Museu Paranaense. Bico de pena, 1976.

Fonte: TREVISAN, Edilberto. op. cit., s/n.

aos legalistas. Na mesma sala encontravam-se também (por falta de espaço, segundo o próprio Ermelino de Leão) um bugio e uma onça empalhados e lanças da Guerra do Paraguai.311 Estas últimas provavelmente colocadas aí pelo mesmo motivo, demonstrando as dificuldades de se organizar um acervo heterogêneo em espaço ainda pouco propício para tal finalidade.

Destacamos ainda o “Salão de Honra”, formado por retratos a óleo de personagens como Zacarias de Góes e Vasconcelos (1815 – 1877), Adolfo Lamenha Lins (1845 – 1881), Visconde de Nacar (Manuel Antônio Guimarães – 1813-1893), Barão do Serro Azul (Ildefonso Pereira Correia – 1849-1894), entre outros, além de representações da Guerra do Paraguai.

Fazia parte do MP um pequeno zoológico. Ir ao museu também era uma oportunidade tanto para ver animais empalhados como para observar espécimes vivas em jaulas e gaiolas

Fazia parte do MP um pequeno zoológico. Ir ao museu também era uma oportunidade tanto para ver animais empalhados como para observar espécimes vivas em jaulas e gaiolas