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SCHLICK E AS CONSTATAÇÕES (KONSTATIERUNGEN) ENQUANTO ENUNCIADOS

4 O PROBLEMA COM A FUNDAMENTAÇÃO DAS PROPOSIÇÕES BÁSICAS

4.1 SCHLICK E AS CONSTATAÇÕES (KONSTATIERUNGEN) ENQUANTO ENUNCIADOS

Como afirmamos, para BonJour, a dificuldade enfrentada pelos fundacionalistas é a de explicar como os julgamentos básicos empíricos se tornam verdadeiros pela experiência, mesmo tendo um caráter não proposicional. Uma das alternativas oferecida por fundacionalistas é a de explicar como os julgamentos básicos têm sentido. A controversa discussão surgida entre Otto Neurath 140 de um lado, e Moritz Schlick e C. G. Hempel 141 de outro, acerca da existência de afirmações de classes fundacionais incorrigíveis, é o ponto de partida para BonJour reforçar a dificuldade com a doutrina do dado. É inviável, dentro da proposta do nosso trabalho, expor a argumentação completa desta discussão. Optamos, portanto, em explorar apenas os seus pontos centrais.

A controvérsia entre Schlick e Neurath surge a partir da defesa alternativa de um sistema coerentista por Neurath. Ele considera que sentenças empíricas podem ser verdadeiras e justificáveis, assumindo-se que possuem um acordo mútuo dentro do contexto do sistema

136 L. BonJour, The Structure of Empirical Knowledge, p. 60. 137

M. Schlick, “The Foundation of Knowledge”. In: R. M. Chisholm, R. J. Swartz (Ed.). Empirical Knowledge, p. 413-30.

138 A. Quinton, The Nature of Things.

139 C. I. Lewis, Mind and the World Order (1929). In: C. I. Lewis, An Analysis of Knowledge and Valuation. 140

Ver O. Neurath, “Protocol Sentences”. In: A. J. Ayer, Logical Positivism, (1959) p. 199-208, apud L. BonJour

The Structure of Empirical Knowledge, p. 61.

científico, que a justificação para a verdade deve ser um acordo mútuo das crenças nesse tipo de sistema. Para ele, tal sistema é compreendido por enunciados de protocolo ou enunciados protocolares, que se assemelham aos enunciados observacionais no seu conteúdo, mas que não podem ser compreendidos como tendo qualquer relação especial com o mundo ou com a experiência. Mais especificamente, os enunciados protocolares devem ser vistos como hipóteses empíricas, com status lógico semelhante aos demais enunciados.142 Assim, Neurath considera que conceitos como os de mundo ou de experiência são ininteligivelmente metafísicos, e que, embora o sistema inclua enunciados protocolares, eles não passam de hipóteses empíricas.

A posição de Schlick é de que o acordo mútuo das sentenças empíricas dentro do contexto científico é insuficiente, pois ele permitiria tornar verdadeiras as crenças de um número ilimitado de sistemas incompatíveis entre si, incluindo contos de fadas, fatos de ficção, etc. O que Schlick está afirmando, espelha uma das principais objeções ao coerentismo, a saber, que não há como garantir que apenas o acordo mútuo (coerência) exigido dentro do sistema exclua a possibilidade de que crenças ficcionais sejam consideradas verdadeiras. Para o fundacionalismo de um modo geral, mas, mais especificamente, para versões fundacionalistas que recorrem ao argumento do dado como as de Schlick, a mera coerência não serve como critério para a verdade empírica, posto que ela não envolve sentenças que expressam fatos de observação imediata.143

Esse raciocínio é embasado na ideia de que uma teoria da coerência que pretenda servir como critério de verdade, não é capaz de garantir a verdade que pretende, porque permite que crenças arbitrárias sejam consideradas verdadeiras (já que o cerne de sistemas coerentes repousa na compatibilidade dos seus enunciados e não nos fatos de observação imediata).144 Em Neurath, por exemplo, essa compatibilidade parece estar pressuposta na afirmação inicial de que o critério para que as sentenças empíricas possam ser verdadeiras e justificáveis se encontra na sua adequação ou acordo mútuo dentro do sistema. Mas para Schlick, postular a semelhança entre os enunciados protocolares e empíricos, sugerindo que os primeiros podem ser escolhidos por conveniência, não fornece garantias de que a escolha não será arbitrária.

Segundo Schlick ainda – que chama os enunciados básicos de constatações (Konstatierungen) – as constatações diferem dos enunciados protocolares sugeridos por

142 L. BonJour, The Structure of Empirical Knowledge, p. 61. 143

M. Schlick, “The Foundation of Knowledge” (1959). In: R. M. Chisholm e R. J. Swartz, (Ed.). Empirical

Knowledge, p. 149. Ver também BonJour, ibid., p. 62.

Neurath, por serem formuladas usando pronomes demonstrativos tais como, “aqui”, “agora”, “isto”. Elas são ocorrências que, enquanto tais, não podem ser falsas, mas são semelhantes às proposições analíticas, cuja verdade depende do sentido de suas partes.145 O sentido da constatação depende do apontar para o fato, pelo ato verificador, o que significa que, ao apreender o seu significado, apreendemos a sua verdade. Schlick concebe os julgamentos a priori como sendo analíticos: verdadeiros em virtude do seu significado. As sentenças empíricas básicas, que não são analíticas, assemelham-se às sentenças analíticas, e somente será possível compreendê-las se reconhecermos que são verdadeiras. Ele sugere que é preciso reconhecer que a linguagem baseia-se em dois tipos de regras constitutivas do significado, que podem ser assim postas:

(i) Definições discursivas que articulam palavras a palavras e, assim, às verdades gerais analíticas;

(ii) Definições ostensivas que articulam certas palavras a certas coisas observáveis. Sem a regra (ii), dirá Schlick, a linguagem carece de conteúdo empírico. Para ele, os julgamentos observacionais são aqueles que envolvem termos demonstrativos ou indexicadores, que denotam algum item presente na consciência; e a compreensão de um termo indexicador em uma situação particular de uso deve enfocar um item relevante. Neste ponto há uma parte essencial: os termos observáveis podem ser compreendidos fenomenologicamente, isto é, aplicados a como as coisas podem ser experienciadas pelo indivíduo. Quer dizer: quando expressamos um pensamento do tipo “isto é branco”, não é preciso que este pensamento exprima algo material, mas apenas que a “brancura”, ou a ideia de brancura, esteja presente na experiência.

Schlick também defende que para compreendermos um termo predicável é preciso que se tenha aprendido quais coisas são apropriadamente chamadas de branco em virtude de como elas se parecem. Assim, segundo ele, julgamentos falsos seriam o resultado de uma focalização errônea de um item, sendo essa a indicação de que um termo indexicador não foi compreendido. Indicaria, ainda, o uso equivocado da regra para “branco”, o que, por sua vez, apontaria para a incompreensão de um componente predicável. Por fim, para Schlick, o apelo ao bom senso é fundamental, pois com atenção e evitando-se uma focalização errônea não há como se julgar falsamente. Um erro, nesse sentido, seria verbal e não factual:

145 M. Schlick, “The Foundation of Knowledge”. (1959), apud Michael Williams “Doing without Immediate

Em outras palavras: Eu posso entender o significado de uma constatação (Konstatierungen) apenas e quando compará-la aos fatos, trazendo à tona assim o processo necessário para a verificação de todos os enunciados sintéticos[...] Eu alcanço o seu significado ao mesmo tempo em que alcanço a sua verdade. 146

Em última instância, Schlick sugere que é preciso verificar frases do tipo “Essa catedral tem duas torres” comparando-a ao fato, isto é, comparando-a aquilo que se vê, pois as coisas são como são.

A posição de Schlick foi criticada por C. G. Hempel em um famoso artigo. 147 Nele, a ideia elementar defendida é de que uma comparação entre enunciados e a realidade não pode ser feita, pois os primeiros só podem ser comparados entre si. O que parece haver de mais importante na posição de Hempel, como forma de renuncia ao que propõe Schlick, é a afirmação de que a única maneira de conseguirmos justificação para a crença de um enunciado é comparando-o a coisas que estão em relação lógica com eles, a saber, outros enunciados. Quer dizer, enunciados só podem ser comparados a enunciados. 148 Logo, para Hempel, não é possível que se adquira justificação para a crença nas proposições nos moldes propostos por Schlick.

Voltemos agora para BonJour. Segundo ele, esse entendimento fornece suporte fundamental para que o problema do dado se configure. Vejamos. De acordo com Hempel, a comparação sugerida por Schlick entre a frase “Essa catedral tem duas torres” e a realidade deriva da experiência de contar as torres, cujo resultado deve ter a forma de uma segunda proposição do tipo “vejo agora duas torres”. 149

O ponto crucial é que a última forma, “vejo agora duas torres”, também é ela própria uma proposição com a qual a primeira é comparada. É fácil imaginar que para garantir a verdade dessa segunda proposição precisemos recorrer a uma terceira e assim por diante, caindo em um regresso ao infinito. BonJour resume esse raciocínio dizendo que a alternativa proposta por Schlick apenas suscitaria a questão de como a nova proposição é justificada; e se para justificá-la outra comparação com os fatos fosse necessária, esses mesmos fatos deveriam ser alcançados pela experiência, o que repetiria o problema: teríamos de justificar uma segunda proposição por apelo a uma terceira proposição, em uma sucessão infinita de comparação com os fatos. 150

146 “In other words: I can understand the meaning of a Konstatierung only by, and when, comparing it with the

facts, thus carrying out the process which is necessary for the verification of all synthetic statements…I grasp their meaning at the same time as I grasp their truth” Schlick, 1973, p. 428-9, apud L. BonJour, The Structure of

Empirical Knowledge, p. 63

147 C. G. Hempel, “On the Logical Positivist‟s Theory of Truth”. Ver também BonJour, ibid., p. 63. 148

C. G. Hempel, “On the Logical Positivist‟s Theory of Truth”.

149 C. G. Hempel (1934/5b), Some remarks on “facts” and propositions, p. 94, cf. BonJour, ibid., p. 64. 150 L. BonJour, The Structure of Empirical Knowledge, p. 64.

Certamente, para BonJour, o quadro é suficiente para se afirmar que uma teoria que apela à doutrina do dado, como a de Schlick, só será capaz de responder ao problema do regresso se a exigência de um novo julgamento ou a necessidade de justificar outra proposição não existir. Segundo ele, uma solução do problema do regresso pela doutrina do dado ocorrerá “apenas se for possível construir a experiência imediata através da qual o conteúdo dado é apropriado de modo a não envolver a aceitação de outra proposição, [...] enquanto retém a capacidade de tal experiência justificar a crença básica”. 151

Há, no entanto, considerações que podem ser feitas sobre a validade do argumento acima referido. Não é certo que a proposição “Essa catedral tem duas torres” seja tornada verdadeira pela verdade da proposição “Vejo agora duas torres”, resultante de se contar as torres, isto é, que a última proposição seja mais básica do que a primeira. Podemos contar as torres usando o pronome demonstrativo „essa‟ que aparece na primeira frase. Ao que parece “Vejo agora duas torres” apenas discrimina melhor o conteúdo que normalmente já está presente na primeira proposição, adicionando que a observação está sendo feita no presente e pelo sentido da visão. Mas isso já está usualmente implícito quando dizemos “Essa catedral tem duas torres”, inclusive o fato de termos distinguido duas torres e não um outro número qualquer de torres. Assim, o que fazemos não parece ser comprovar uma proposição básica por outra mais básica, mas simplesmente discriminar linguisticamente o conteúdo implícito de uma mesma proposição básica. Se for assim, porém, nenhum regresso precisa ocorrer.