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Capítulo II – Vênus e a puella

2. A puella elegíaca

2.4. Scripta puella

A imagem da puella é na maioria das vezes apresentada como a de alguém que não segue exatamente o comportamento esperado pela sociedade romana para uma mulher: ela é sensual, ela vive livre da tutela do paterfamilias, ela é versada na dança, música e poesia, ela se envolve com outros homens e não tem constância naquilo que diz; tudo isso segundo a persona criada por meio do discurso do poeta.

Acontece que, em alguns momentos, o mesmo poeta aponta para atitudes que revelam uma face mais condizente com o ideal para uma mulher; por exemplo, na elegia 1.5, o poeta diz que ela não se iguala às jovens levianas, às uagis puellis, àquelas que são inconstantes no

amor (FEDELI, 1980, p. 157):

non est illa uagis similis collata puellis:

molliter irasci non solet illa tibi. (Prop. 1.5.7-8) Ela, comparada a essas meninas levianas, não é igual: ela não costuma irar-se contigo de forma branda.

Quanto ao gosto por produtos estrangeiros e presentes caros com que a puella foi apresentada na segunda elegia do Monobiblos, na elegia 1.8 temos outra situação em que o poeta diz que sua amada trocaria reinos por ele e que a conquistou com o canto, não com ouro ou joias estrangeiras:

illi carus ego et per me carissima Roma dicitur, et sine me dulcia regna negat. illa uel angusto mecum requiescere lecto et quocumque modo maluit esse mea,

quam sibi dotatae regnum uetus Hippodamiae, 35 et quas Elis opes ante pararat equis.

quamuis magna daret, quamuis maiora daturus, non tamen illa meos fugit auara sinus. hanc ego non auro, non Indis flectere conchis,

sed potui blandi carminis obsequio. (Prop. 1.8b.31-40) 40 Diz que eu lhe sou caro e por mim Roma é mais cara ainda

e que, sem mim, nega doces reinos.

Ela prefere descansar comigo em um leito estreito e ser minha seja qual for o modo,

a receber o reino antigo, dote de Hipodâmia 35 e os tesouros que Élida ganhara antes com seus corcéis.

Ainda que ofertem muito, ou que mais ainda prometam dar, ela, porém, não fugiria, ambiciosa, de meus braços. Não com ouro, nem com pérolas da Índia, eu a abrandei,

mas pude com o regalo de suaves versos. 40

Nesse trecho, percebe-se que a imagem da puella criada pelo discurso do poeta difere daquela apresentada em boa parte das elegias como foi visto anteriormente.

Quanto às acusações de infidelidade da amada, a elegia 2.29b conta um episódio em que o amado chega durante a madrugada e procura saber se a puella dorme sozinha ou com outro. Quando ela acorda repreende-o dizendo:

―quid tu matutinus,‖ ait ―speculator amicae? me similem uestris moribus esse putas? non ego tam facilis: sat erit mihi cognitus unus, uel tu uel si quis uerior esse potest.

apparent non ulla toro uestigia presso, signa uolutantis nec iacuisse duos.

aspice ut in toto nullus mihi corpore surgat

spiritus admisso motus adulterio.‖ (Prop. 2.29b.31-38) ―Por que espionas, logo de manhã, a tua amada?‖, ela disse. ―Julgas que meus modos são iguais aos teus?

Não sou tão fácil: para mim será suficiente conhecer um único homem, ou tu ou aquele que puder ser mais sincero.

Nenhuma evidência aparece no leito liso, nem sinais de que um casal se revirando aí tenha deitado.

Vê como em todo o meu corpo nada exala,

nenhum odor suscitado por um adultério cometido.

Ainda em relação a essa temática, a elegia 4.7 mostra um exemplo contrário em que o amado é que aparece traindo a esposa, e que ela o repreende por sua perfídia (Prop. 4.7.13- 14)52.

Na maioria dessas elegias e naquelas em que a puella é apresentada com comportamento diverso, Cíntia é nomeada e então retornamos à questão do início do capítulo: como compreender a puella properciana ou Cíntia diante de tantas contradições?

A nosso ver, esses exemplos revelam, antes de qualquer coisa, pontos de aproximação entre o poeta e sua amada, ambos praticam e avaliam poesia, ambos cobram fidelidade e ambos traem e ambos acusam o outro de descumprimento de promessas.

Ainda nesse sentido, não podemos esquecer o relacionamento dos dois em relação à sociedade, pois como mostra Martins (2015, p. 135-136):

Wyke53 acertadamente observa que a elegia augustana representa seu herói como um homem fiel à sua amada que é sempre desleal. Apesar desta oposição inicial entre lealdade masculina e deslealdade feminina, ambos os ἤζε funcionam em espelho, uma vez que, se ele está sempre engajado na metáfora da servidão sexual e da guerra erótica, absolutamente fora de suas obrigações civis, portanto; ela, por sua vez, atua fora dos papéis convencionais de esposa e de mãe romana, agindo mais em conformidade com ἦζνο de uma cortesã do que com o de uma matrona. Nesse sentido, pode-se inferir, analogamente ao homem elegíaco, a existência de uma

recusatio matronae, ou seja, uma mulher romana que se recusa a cumprir e

seguir o modus uitae, um papel negociado tradicionalmente nessa sociedade.

Outro detalhe é o fato de as personagens femininas que mantêm um relacionamento cantado na elegia serem referidas pelo termo puella. Não é nem necessário dizer que isso funciona para Cíntia, Délia, Corina e Nêmesis (as puellae por excelência, por assim dizer), ou para aquelas que são nomeadas esporadicamente como Licina na elegia 3.15 de Propércio, e mesmo quando o termo é usado sem a nomeação de qualquer puella. Nesse sentido, ainda

52 Ver p. 71.

mais interessante é o fato de o termo ser usado mesmo nas elegias em que aparecem matronae (Gala e Aretusa nas elegias 3.12 e 4.3 respectivamente)54:

ter quater in casta felix, o Postume, Galla! moribus his alia coniuge dignus eras.

quid faciet nullo munita puella timore, cum sit luxuriae Roma magistra suae? sed securus eas: Gallam non munera uincent,

duritiaeque tuae non erit illa memor. (Prop. 3.12.15-20) Três, quatro vezes feliz, Póstumo, pela casta Gala!

Pelos teus hábitos, és digno de outra esposa. O que faria uma jovem, sem a proteção do medo, quando Roma é a professora da sua luxúria? Mas vais seguro: presentes não conquistarão Gala,

e ela não recordará tuas insensibilidades.

sed tua, sic domitis Parthae telluris alumnis, pura triumphantes hasta sequatur equos; incorrupta mei conserua foedera lecti!

hac ego te sola lege redisse uelim: armaque cum tulero portae uotiua Capenae,

subscribam SALVO GRATA PUELLA VIRO. (Prop. 4.3.67-72) Mas, assim, quando dominares as terras dos filhos dos Partos que a tua lança siga sem ferro os cavalos que triunfam; Conserva intacto o pacto feito em meu leito!

Apenas com essa condição quero que retornes. 70 Levarei tuas armas como votos à porta Capena,

e escreverei AMADA GRATA POR MARIDO SALVO.

Desse modo, percebe-se que há um fio que interliga todas as características das puellae propercianas, o fato de serem todas referidas como puella, o que designa apenas a sua condição de amante, e independe da qualificação de cortesã ou de matrona, da classe à qual pertença ou de suas condutas; o fato de estarem na poesia elegíaca e serem amantes já as torna puellae. Isso ajuda a compreender por que tanta variedade nessa (s) figura (s), visto que a amada de Propércio e as dos demais elegíacos não correspondem apenas a uma, mas a tantas quantas estejam nos episódios amorosos que o poeta deseje expressar na sua poesia.