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Scripts sexuais e representações da sexualidade dos homens

No contexto da sexualidade masculina destaca-se a perspetiva que enfatiza a construção do mundo social pelos atores sociais que nele se situam, que incluiu as suas representações e identidades. Segundo Policarpo (2011), pode-se situar teoricamente a

24 emergência do conceito de Scripts (Gagnon & Simon, 2005)2 no interacionismo simbólico3, pela importância dada à interação social, enquanto forma de produzir significados para o domínio sexual.

Alferes (1997) afirma que no interior de uma dada sociedade, o número de encenações culturais da sexualidade é limitado, tal como as orientações ou as ideologias que lhe estão subjacentes. Neste âmbito, o autor enfatiza os cinco tipos de scripts considerados por Nass, Libby e Fisher (1981): o script religioso tradicional, o script romântico, o script das relações sexuais baseadas na amizade, o script da infidelidade e o script utilitário/predador, aludindo às conclusões de Forgas e Dobosz (1980) que, ao analisarem as representações de 25 episódios interpessoais heterossexuais, concluem que os sujeitos classificam os scripts interpessoais em função de três dimensões: sexualidade (sexo físico vs. mero envolvimento afetivo), valoração e equilíbrio das relações (relações frustrantes vs. satisfatórias; relações simétricas vs. desiguais) e amor e compromisso (relações efémeras vs. duradouras).

A concetualização de scripts sexuais desenvolvida por Simon e Gagnon (1987) articula três níveis de abordagem: os scripts intrapsíquicos que reenviam para as formas de interiorização e de apropriação subjetiva dos cenários culturais (organizam-se em esquemas cognitivos estruturados e assumem a forma de sequências narrativas, planos e fantasias sexuais); os scripts interpessoais que orientam e codificam as relações entre indivíduos situados em contextos diferentes e especialmente entre os paceiros sexuais (de acordo com as condições sociais da interação); e os cenários culturais que dizem respeito às representações gerais da sexualidade que são desenvolvidas no espaço público e que incluem os saberes periciais e o senso comum (constituem prescrições coletivas acerca

2 A obra Sexual Conduct: the social sources of human sexuality, de Gagnon e Simon foi publicada

em 1973 e constituiu-se como um marco na história da sociologia da sexualidade. Nela foi definido o conceito de script como aquilo que pode descrever o comportamento humano e foi também englobada a critica ao que poderia ser designado de espontâneo. Os autores consideram que os scripts estão envolvidos na aprendizagem dos significados dos estados internos, na organização das sequências dos atos sexuais específicos, na descodificação de novas situações, no estabelecimento dos limites nas respostas sexuais, e na ligação dos significados dos aspetos da vida que não são sexuais à experiência sexual específica.

3 No Foreword da 2ª edição da obra de Gagnon e Simon (2005), Plummer enfatiza a importância

da interação social para o enquadramento do campo das novas sexualidades e para a abordagem social construcionista da sexualidade. O autor refere que ‘The core of their approach was to challenge the view that sex was simply “natural”- that most obvious and commonsensical view of sex and the available sex research. Drawing on the work of the literary critic Kenneth Burke for whom symbolism was so central; utilizing their Chicago-based training in symbolic interactionism; influenced by dramaturgical metaphors of Erving Goffman; and just being good sociologists who recognized “the social” when they saw it, they argued that the study of sexuality would be most rewarding if analytically located within the realms of the social and the symbolic.’ (Plummer in Gagnon & Simon, 2005 p. X)

25 do licito e do ilícito sexual). Alferes (1997) mobilizando Simon e Gagnon (1987) afirma que a comunicação representa um dos aspetos centrais nos scripts interpessoais permitindo que “um encontro sexual potencial” se transforme “numa troca sexual explícita”.

Segundo Giami, Moreau e Moulin (2015), existe uma multiplicidade de elementos que contribuem para a construção de scripts e de cenários da sexualidade e que integram o desenvolvimento do conhecimento “pessoal-profissional” dos profissionais de saúde. Realçam que um questionamento socio-histórico sobre o lugar e o protagonismo da sexualidade no campo da medicina pode ter como ponto de partida a medicalização da sexualidade e a "especialização informal" dos profissionais (Giami, 2010) relativamente ao lugar da sexualidade na atividade dos profissionais de saúde. Neste âmbito Giami et al. (2015), remetem o lugar da sexualidade na prestação de cuidados de saúde para os cenários profissionais da sexualidade, tendo em conta a articulação entre:

• as informações científicas (médicos, psicólogos, sexólogos e outros peritos) recentes/validadas e as antigas/desatualizadas sobre sexualidade;

• a cultura e a identidade dos profissionais de saúde;

• a organização institucional dos cuidados e os valores culturais e morais dominantes; • a dimensão subjetiva ligada à história individual de cada um e às relações de género.

No seguimento da abordagem proposta, emerge a pertinência do mapeamento das representações dos profissionais sobre a sexualidade em geral, do lugar que lhe reconhecem nas suas vidas, da importância que lhes atribuem no campo da saúde e, por fim, a visibilidade que lhe atribuem no contexto da prática profissional.

Num estudo realizado por Giami et al. (2015), procurou-se distinguir as conceções de sexualidade do senso comum (ligadas à experiência comum, ao discurso dos media, aos valores morais e às conceções relacionadas com o género), das conceções científicas da sexualidade, mais ou menos medicalizadas. Por outras palavras os autores, procuraram perceber se os profissionais de saúde na sua prática, usavam definições do senso comum e se essas definições eram combinadas com definições mais técnicas e medicalizadas da sexualidade. De realçar que as análises empíricas por eles realizadas permitiram identificar sobreposições entre as esferas ideológicas e temáticas do conhecimento científico e do senso comum. No que diz respeito à sexualidade, ainda segundo os mesmos autores, torna-se fundamental perceber se os profissionais consideram que estão a lidar com um problema moral, pessoal, orgânico, médico ou psicológico.

26 Ainda no contexto deste estudo, considerando a literatura especializada, os autores distinguem os médicos dos enfermeiros, em que os médicos se situam mais num nível de abordagem da patologia e os enfermeiros mais num nível das pessoas. O outro aspeto desta visão idealizada da sexualidade é a partilha da representação socialmente difundida sobre a ligação da sexualidade ao bem-estar, por um lado, e da ligação à (boa) saúde, por outro. Essa ideia reitera implicitamente a definição de saúde sexual veiculada pela WHO em 2015 e na qual é mencionado que:

A saúde sexual hoje é amplamente entendida como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade. Engloba não apenas certos aspetos da saúde reprodutiva – tais como a capacidade para controlar a fertilidade através do acesso à contraceção e ao aborto, sendo livre de infeções sexualmente transmissíveis (IST), disfunções sexuais e sequelas relacionadas com a violência ou a mutilação genital feminina - mas também, a possibilidade de ter experiências sexuais prazerosas e seguras, livres de coerção, discriminação e violência. De facto, ficou claro que a sexualidade humana inclui muitas formas diferentes de comportamento e de expressão, e que o reconhecimento da diversidade do comportamento e da expressão sexual, contribui para a sensação geral de bem- estar das pessoas e para a sua saúde. (p.1).

O desenvolvimento técnico-científico que ocorreu nas últimas décadas, particularmente na sequência da pandemia do HIV, contribuiu para a emergência da constatação de que a discriminação e a desigualdade social interferem de forma significativa na obtenção e manutenção da saúde sexual. A estes aspetos acresce ainda o facto da privação ou a dificuldade de acesso a informações e a serviços relacionados com a sexualidade e a saúde sexual, implicar uma vulnerabilidade aumentada aos problemas de saúde sexual.

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