• Nenhum resultado encontrado

SDQ – Questionário de Capacidades e Dificuldades – comparação

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

5.2. Dados descritivos das variáveis estudadas

5.2.4. SDQ – Questionário de Capacidades e Dificuldades – comparação

Nas Figuras 22 e 23 referem-se à comparação dos resultados obtidos nas avaliações realizadas por pais e professores, quanto ao escore geral, impacto e para as subescalas, avaliadas pelo SDQ.

FIGURA 22 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para os escores gerais, segundo as avaliações de pais e professores. 10% 23% 13% 28% 77% 49% 0 10 20 30 40 50

Normal Limítrofe Anormal

SDQ ‐ Escores Gerais

Pais Professores

FIGURA 23 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para os escores de impacto, segundo as avaliações de pais e professores.

25% 38% 15% 8% 60% 54% 0 10 20 30 40

Normal Limítrofe Anormal

SDQ ‐ Impacto

Pais Professores

Em relação ao repertório comportamental e à prevalência de problemas de comportamento e/ou relacionados à saúde mental das crianças participantes deste estudo, obtida a partir do total de dificuldades do SDQ, observou-se índice baixo de crianças que apresentaram escore compatível com a classificação normal ou que não apresentam dificuldades (10% para os pais e 23% para os professores). Os resultados revelam também alto índice de prevalência de problemas comportamentais/saúde mental com classificação anormal, entre as crianças com necessidades educativas especiais, tanto na avaliação de pais (77%) como de professores (49%), indicando necessidade de intervenção especializada. Sendo que os problemas apresentados foram considerados de alto impacto no desenvolvimento das crianças, em pelo menos 50% dos casos, para ambos os grupos de informantes. No entanto, é importante ressaltar que os pais avaliaram, mais frequentemente que os professores, os problemas de comportamento/saúde mental das crianças como tendo índices anormais de ocorrência e de impacto.

As Figuras 24 a 28 referem-se à comparação dos resultados obtidos nas avaliações de pais e professores, quanto aos escores obtidos para as subescalas, avaliadas pelo SDQ.

FIGURA 24 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para a subescala de avaliação de sintomas emocionais, segundo as avaliações de pais e professores.

25% 68% 15% 9% 60% 23% 0 10 20 30 40 50

Normal Limítrofe Anormal

Sintomas Emocionais

Pais Professores

FIGURA 25 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para a subescala de avaliação de problemas de conduta, segundo as avaliações de pais e professores.

15% 52% 7% 3% 78% 45% 0 10 20 30 40 50

Normal Limítrofe Anormal

Problemas de Conduta

Pais Professores

FIGURA 26 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para a subescala de avaliação de hiperatividade, segundo as avaliações de pais e professores.

29% 40% 8% 8% 63% 52% 0 10 20 30 40

Normal Limítrofe Anormal

Hiperatividade

Pais Professores

FIGURA 27 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para a subescala de avaliação de problemas nos relacionamentos com os colegas, segundo as avaliações de pais e professores.

29% 68% 15% 3% 56% 29% 0 10 20 30 40 50

Normal Limítrofe Anormal

Relacionamento com Colegas

Pais Professores

FIGURA 28 – Comparação entre as quantidades de crianças com classificações normal, limítrofe e anormal, identificados pelo SDQ, para a subescala de avaliação de comportamento pró-social, segundo as avaliações de pais e professores.

80% 70% 7% 5% 13% 25% 0 10 20 30 40 50

Normal Limítrofe Anormal

Comportamento Pró‐Social

Pais Professores

Comparando-se a avaliação dos professores em relação a taxa de prevalência dos problemas relacionados ao repertório comportamental e/ou à saúde mental das crianças percebe-se índices menores de classificação anormal do que os apresentados pela avaliação dos pais, seja no escore geral, como para as subescalas e para a avaliação do impacto. A única exceção diz respeito à escala de comportamento pró-social, em que os pais avaliam maior número de crianças com classificação normal do que o s professores.

Com relação aos aspectos avaliados nas subescalas percebe-se que, tanto na avaliação dos pais como na dos professores, as subescalas que indicam problemas de conduta e de hiperatividade foram as que apresentaram os mais elevados índices de problemas e as que tiveram menores índices de classificação Anormal foram as que se referem aos relacionamentos com os colegas e comportamento pró-social. Estes resultados assemelham-se aos encontrados por Stivanin; Scheuer e Assumpção Jr (2008), que em seu estudo também verificaram que, tanto pais como professores, relataram maiores problemas relacionados à hiperatividade e menos problemas nos relacionamentos.

As médias, desvio padrão e valor de p, das pontuações obtidas no SDQ para pais e professores, podem ser observados na Tabela12.

TABELA 12. Média e desvio padrão para cada subescala do SDQ, para pais e professores. Informante Sintomas Emocionais M (DP) Problemas Conduta M (DP) Hiperatividade M (DP) Problemas Relacionamento M (DP) Pró- Social M (DP) Geral M (DP) Impacto M (DP) Pais 5,3 (2,5) 5,1 (2,3) 7,1 (2,6) 3,9 (2,2) 7,8 (2,3) 21,4 (5,5) 2,35 (2,2) Professores 3,3 (2,3) 3,3 (3,1) 6,2 (3,0) 2,8 (2,7) 7,1 (2,8) 15,6 (6,9) 1,8 (1,8) p 0,0147* NS < 0,0001** NS NS 0,0074** NS

M=Média; DP=Desvio Pardão; NS=Não significativo; *p<0.05; **p<0.001

Observando-se as médias e desvios padrão apresentadas na Tabela 12 percebe-se que os pais relataram, em média, mais problemas do que os professores na escala geral e em todas as subescalas (com exceção da subescala comportamento pró-social). Essa diferença de avaliação entre pais e professores também foi encontrada em outros estudos em que os pais relatam mais problemas que professores na maioria das subescalas (FLEITTLICH; CORTAZAR; GOODMAN, 2001; CURY e GOLFETO, 2003; STIVANIN; SCHEUER; ASSUMPÇÃO JR, 2008).

Essas diferenças podem ser explicadas, segundo Stivanin, Scheuer e Assumpção Jr (2008), pelo fato de uma criança poder apresentar diferentes comportamentos, de acordo com o lugar em que se encontra, com quem se relaciona e dependendo das demandas do ambiente multivariado, e também porque o professor tem dados de observação da criança na sala de aula, em um ambiente em que as regras são impostas pela escola e os comportamentos são mais controlados, enquanto que os pais podem notar os comportamentos em casa, em lugares públicos e em outros contextos.

Encontramos diferenças estatisticamente significativas na pontuação das subescalas que indicam sintomas emocionais e hiperatividade, bem como na escala geral. O alto índice de classificação anormal para as subescalas problemas de conduta e hiperatividade verificada entre as crianças com necessidades educacionais especiais deste estudo é superior ao encontrado em estudos epidemiológicos para a população em geral e próximo aos valores encontrados para crianças com dificuldades de aprendizagem e baixo desempenho acadêmico.

Dentre os fatores que pode ter contribuído para os altos índices encontrados destacamos o acúmulo de iniqüidades ou eventos estressores que essas crianças podem ter vivenciado ao longo de seu desenvolvimento (tendo em vista o alto índice de eventos estressores vivenciados pelas crianças do presente estudo), que são passíveis de se constituir em fatores de risco para problemas de

conduta e hiperatividade, fato este, que necessita maiores investigações para verificar as correlações entre estas variáveis.

A presença desses problemas recorrentes nos dois ambientes pesquisados (escolar e familiar) pode caracterizar sinais psicopatológicos. No entanto, deve-se levar em conta que os índices extremamente elevados de problemas de conduta e hiperatividade (apontados em maior grau por pais do que por professores) podem estar também vinculados a outros aspectos como: dificuldade de imposição de limites durante o desenvolvimento, ou ainda reações decorrentes de dificuldades de aprendizagem.

Com relação aos resultados encontrados a partir do instrumento SDQ, é importante ressaltar a prevalência elevada de problemas de comportamento/saúde mental entre as crianças com necessidades educacionais especiais, com classificação “anormal” em quase todas as áreas avaliadas, sendo estas classificações mais elevadas que a prevalência encontrada na população geral e compatível com os resultados encontrados entre crianças com dificuldades de aprendizagem, que podem indicar muito mais do que um quadro psicopatológico, mais sim reflexos, expressões ou conseqüências de situações vivenciadas pelas crianças (tanto no campo escolar como familiar ou pessoal).

Os resultados das análises de correlações em relação a escala geral e subescalas, na perspectiva dos professores, são apresentados na Tabela 13.

TABELA 13 - Correlações entre as subescalas do SDQ, de acordo com a avaliação de pais e professores.

SDQ Problemas

Conduta

Hiperatividade Problemas

Relacionamento

Pró-Social Geral Impacto

Sintomas

Emocionais Pais NS Prof. NS NS NS NS NS NS NS NS 0,5494** 0,2627* NS

Problemas

Conduta Pais ---- Prof. ---- 0,6492** 0,3266* -0,4697** 0,2638* NS -0,2629* 0,5611** 0,7953** 0,3725** NS

Hiperatividade Pais ---- ---- NS NS 0,6560** 0,2545*

Prof. ---- ---- NS NS 0,7292** NS

Problemas

Relacionamento Pais ---- Prof. ---- ---- ---- ---- NS ---- -0,4580** 0,6236** 0,5850** 0,4890** NS Comportamento

Pró-Social Pais ---- Prof. ---- ---- ---- ---- ---- ---- ---- -0,4905** NS -0,3513** NS

Geral Pais ---- ---- ---- ---- ---- 0,3042*

Prof. ---- ---- ---- ---- ---- 0,5917**

Nas avaliações dos pais e professores os problemas de conduta foram os que mais apresentaram correlações significativas com as outras áreas avaliadas, indicando sua interferência nos diversos âmbitos da vida da criança. Assim, quanto maiores os índices de problemas de conduta, maiores as chances da criança apresentar problemas relacionados à hiperatividade, aos relacionamentos interpessoais e ao comportamento pró-social. Devido aos prognósticos desfavoráveis deste tipo de comportamento, que pode ocasionar impactos negativos tanto no ambiente familiar como no escolar, estes resultados indicam a necessidade de intervenções psicoeducacionais, que envolvam ambos os ambientes, para reduzir os riscos psicossociais/educacionais e os problemas de saúde mental/comportamental na infância para as crianças com necessidades educativas especiais.

Outro fator a ser destacado é que, tanto para os pais como para os professores, em relação à avaliação geral de problemas de saúde mental/problemas de comportamentos, em quase todas as habilidades analisadas foi verificada correlação positiva com o estado geral de saúde mental/problemas de comportamentos, o que indica que quanto maiores as dificuldades relacionadas a qualquer uma dessas áreas, para as crianças que apresentam necessidades educativas especiais, maiores as chances de se constituírem em fatores de risco para problemas de saúde mental/problemas de comportamento, no ambiente familiar e/ou escolar. Também não se pode deixar de considerar que as dificuldades apresentadas pelas crianças possam estar relacionadas às conseqüências das situações vivenciadas ou representarem formas de expressão e estratégias/habilidades adquiridas (ou falhas nesta aquisição) ao longo do seu desenvolvimento.

Tendo em vista os altos índices de dificuldades encontrados em todas as áreas avaliadas no que diz respeito à saúde mental/problemas de comportamento, essas dificuldades podem estar denunciando ainda, possíveis falhas nos sistemas sociais de suporte por exceder os recursos de enfrentamento disponibilizados pelos mesmos.

Este quadro, juntamente com os melhores índices no comportamento pró-social podem sugerir que estes resultados são passíveis de alteração, dependendo das estratégias aprendidas pelas crianças ao longo de seu desenvolvimento. Desta forma, é importante salientar a importância e a necessidade

de se buscar formas de compreender esta realidade e planejar ações efetivas destinadas às crianças com necessidades educacionais especiais, tanto no âmbito da saúde como no campo da educação, bem como a necessidade de envolvimento de professores e pais nas ações a serem executadas.

E, tendo em vista que pesquisas alertam para o fato que dificuldades relacionadas à saúde mental (ASSIS et al., 2009; D’ABREU e MARTURANO, 2010) ou problemas de comportamento tendem a trazer prejuízos ao processo de desenvolvimento, desempenho de habilidades, aumentando as chances da criança ter problemas escolares, de relacionamento, ou desenvolver transtornos psicossociais na vida adulta (MRAZEK e HAGGERTY, 1994; FLEITLICH \e GOODMAN, 2001), esta é uma situação que necessita melhor reflexão e investimentos das esferas de atenção e das políticas públicas.