O Espírito Santo transmite-nos a força de Deus
1. Se eu expulso os demônios com o dedo de Deus
A designação do Espírito Santo como “dedo de Deus” reconduz-se à frase de Jesus: “Se eu expulso os demônios com o dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou até vós” (Lc 11,20).
Em São Mateus, a mesma frase é referida com uma variante: “Se é em virtude do Espírito de Deus que eu expulso os demônios...” (Mt 12,28). Pergunta-se: qual das duas formulações será a originária, aquela que Jesus terá usado? Há razões a apoiarem tanto uma como a outra versão; a de São Lucas parece mais provável, pois, efetivamente, é mais fácil supor-se que terá havido necessidade de transformar a expressão metafórica “dedo de Deus” na expressão explícita “Espírito de Deus”, do que o contrário. Todavia, esta pequena incerteza nada tira à importância do texto. Deste modo, apenas se torna explícita e canônica a equação Espírito de Deus e dedo (mais frequentemente, mão) de
Deus, frequente na Bíblia (cf. Ez 3,14; 8,3).
Com ambas as expressões, pretende-se indicar a ação poderosa ou a própria força com que Deus age no mundo. O que Jesus afirma é que os Seus exorcismos se realizam pela força de Deus. É neste sentido que, para indicar o divino poder de agir, “dedo de Deus” é utilizado em Ex 8,19, onde, ao verem os prodígios realizados por Moisés e Aarão, os mágicos do Egito exclamam: “É o dedo de Deus!” (Ex 8,15).
Há um outro contexto em que a metáfora do dedo de Deus aparece na Bíblia. É o trecho em que se diz que as tábuas da Lei dadas a Moisés no Sinai foram “escritas pelo dedo de Deus” (Ex 31,18). Só que, neste caso, a identificação do dedo de Deus com o Espírito de Deus foi mais lenta. Jeremias afirma que, na Nova Aliança, Deus “escreverá” a Sua Lei nos corações (cf. Jr 31,33); segundo Ezequiel, essa mercê divina consistirá em Deus pôr o Seu Espírito no coração do homem (cf. Ez 36,26s); por fim, São Paulo dá o passo sucessivo, ao definir a comunidade da Nova Aliança como “uma carta de Cristo, escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações” (cf. 2Cor 3,3). Cedo se tornou comum, na Igreja, a equivalência entre Espírito de Deus e dedo de Deus, a propósito da Lei. Lê- se num opúsculo do século II: “Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas, no Espírito, pelo dedo da mão do Senhor”, e, num escrito mais tardio: “Os mandamentos de
versículo: “No coração derrama o amor”; vamos, por isso, referir apenas o outro contexto, que, como veremos, explica o lugar que o título “dedo da direita de Deus” ocupa no nosso hino.
Ocupamo-nos apenas das fontes latinas, que diretamente determinaram a tradição de que o autor do Veni creator é herdeiro, embora fossem, por sua vez, influenciadas por fontes gregas anteriores. Escreve Santo Ambrósio:
O reino da divindade é como um corpo indiviso, pois Cristo é a mão direita de Deus e o Espírito parece evocar a imagem do dedo, como o todo de um corpo que representa a unidade da divindade... Com o título “dedo” assinala-se a capacidade operatória (operatoria virtus) do Espírito, porquanto, tal como o Pai e o Filho, também o Espírito é autor das obras divinas320.
O título “dedo da direita de Deus” é utilizado, como se vê, para demonstrar a
unidade de natureza das três pessoas, mais do que a distinção entre elas. Santo
Agostinho acrescenta uma outra explicação. Diz-se dedo de Deus porque, “através dele, são dispensados os dons de Deus aos santos” e, no contexto do corpo humano, “é sobretudo nos dedos que surge a ideia de uma certa divisão”321.
Vejamos agora de que maneira estas várias vozes da Tradição confluem no título “dedo da direita de Deus” do Veni creator. Rábano Mauro escreve:
Nos Evangelhos declara-se abertamente que o Espírito Santo é o dedo de Deus... Além disso, a própria lei foi escrita com o dedo de Deus, cinquenta dias após ter sido morto o cordeiro; do mesmo modo, cinquenta dias depois da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, veio o Espírito Santo. Diz-se, pois, dedo de Deus para significar a capacidade operatória (operatoria virtus) que Ele tem em comum com o Pai e o Filho. É por isso que São Paulo diz: “Tudo isto o realiza o único e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um conforme lhe apraz” (cf. 1Cor 12,11)322.
O Veni creator é, na verdade, um maravilhoso “coletor”, no qual os diversos ribeiros e rios, que brotam da Bíblia e que atravessam a Tradição, se encontram reunidos e transformados em oração. Há quem considere que, com o título “dedo da direita de Deus”, o nosso autor tenha pretendido inculcar a doutrina do Filioque, isto é, o dogma da processão do Espírito Santo do Pai e do Filho: do mesmo modo que o dedo procede do braço e este procede do corpo, assim o Espírito Santo procederia do Pai e do Filho323.
Vamos encontrar esta explicação em época posterior, num São Boaventura324, por exemplo; nada há, porém, que permita atribuí-la também ao autor do Veni creator. A partir do contexto em que ele utiliza o título (a estrofe sobre os dons e os carismas) e a partir da explicação que, conforme vimos, ele dá sobre o mesmo em outro lugar, devemos concluir que o autor atém-se ao significado melhor atestado na Bíblia, ao usar o
título “dedo de Deus” para indicar a capacidade operatória (operatoria virtus) do Espírito Santo, que se manifesta em certas ações extraordinárias, como as expulsões de demônios e as ações miraculosas. Um autor medieval interpreta com precisão o nosso título, numa sua paráfrase do Veni creator:
O Espírito é Paráclito quando consola os desalentados é fonte viva quando dá refrigério aos sedentos,
é caridade quando pela fé e pelo costume reúne povos de culturas distintas, é fogo quando nos inflama de amor,
é unção espiritual quando com crisma celeste aquece e unge os fiéis, é dedo de Deus quando reparte os dons que adornam os fiéis325.