4 SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA E (RE)INTERPRETAÇÕES DAS
4.1 SE EU FALAR EU POSSO ATÉ MORRER”: VIVENDO E APRENDENDO
A contextualização sobre os dados estatísticos e manchetes veiculadas nas diversas mídias sobre a violência na Bahia traz à baila a narrativa dos/as nossos/as interlocutores/as sobre as experiências de violência nas suas vidas. O título do subtópico surge da narrativa de Júnior, estudante do 3º ano do Ensino Médio, 20
anos de idade cor da pele parda, que, ao ser interpelado pelas lembranças da infância mais marcantes, se expressa com o seguinte comentário:
Tirando os amigos que você conhece quando guri e entra pro mundo das drogas, vai pro caminho errado. Tipo, eu tinha uns 20 amigos e todo dia a gente ia pro campinho, aí hoje em dia eu não falo mais com ninguém porque a maioria tá no tráfico das drogas. Se eu falar eu posso até morrer. Então... foi mais isso mesmo. (JUNIOR, 2016).
A narrativa acima nos releva a situação de violência estrutural presente na nossa sociedade, que é resultante das desigualdades sociais e do aumento da situação de pobreza, logo, é fruto de construção social, que tem como foco as camadas populares. No dizer de Briceño-León (2007) é uma violência de pobres contra pobres, pela qual se identifica uma vitimização dos próprios pobres.
Assim, quando Júnior nos revela na sua fala o medo de entrar nas estatísticas da violência urbana, nos reporta ao pensamento de Briceño-León (2007), que comenta sobre as consequências dessa violência, salientando que o mal-estar psicológico do medo é um dos efeitos que agrava a dor e sofrimento humano. Sendo assim, a opção estratégica do nosso interlocutor é não se comunicar com aqueles que um dia fizeram parte da sua vida.
Sabemos que a violência é uma cicatriz aberta na nossa sociedade e que está relacionada a múltiplos fatores sociais. Os dados supracitados, bem como a narrativa do nosso interlocutor, nos mostram que os/as jovens figuram no cenário nacional, e em especial baiano, como agentes e vítimas da violência. Eis o relato de Marconi, ao escolher uma de estratégia para superar a perda do irmão:
[...] aí quando meu irmão faleceu, eu fiquei muito jogado na rua, comecei a andar com gente que eu não gostava aí depois que aconteceram muitas coisas, poxa foi muito difícil. Andava com pessoas, negócio de policial e tal, e as pessoas me julgavam... comecei a usar um bocado de roupas que... aquelas roupas horríveis, que muitas pessoas.... vamos dizer que são bandidos que usam. Comecei a usar o cabelo... deixei diferente, comecei a me jogar mesmo [...]. (MARCONI, 2016).
A estratégia utilizada por Marconi para superar a ausência do irmão53, que faleceu, foi buscar apoio no grupo de pessoas as quais ele considerava
53
É importante situar o leitor que Marconi não explicitou o motivo e como o seu irmão morreu. Apesar de questionado, o estudante não respondeu, colocando outras questões durante a entrevista.
inadequadas, cujo principal fator é o fato de esse grupo apresentar conflitos com a Lei. Assim, ele passa a seguir e a incorporar uma nova masculinidade hegemônica, aquela adotada pelo grupo do qual ele estava participando no momento, como relatado, incluindo as mudanças no uso das roupas e dos cabelos.
Em relação à inserção dos jovens nos contextos de situações de violências coletivas, Minayo (2006) comenta que a violência de cunho coletivo vivenciada na atualidade nas grandes cidades é uma das formas de manutenção de negócios ilegais, de origem globalizada. E que um dos pontos mais perversos é a forma de inclusão dos pobres e dos jovens nos seus lucrativos negócios. A autora acrescenta:
O ato subjetivo de entrada no mundo do crime é secundado e contextualizado por uma situação de extremas desigualdades, de falta de oportunidade para o protagonismo, como cidadão, e de total descrença nas possibilidades de acesso ao consumo, à cultura e ao reconhecimento social. Por isso, o mercado da violência passa a se configurar como uma escolha viável, numa conjuntura de crescente desemprego e exclusão social, cultural e moral. (MINAYO, 2006, p. 33).
Ainda sobre inserção dos jovens nas vivências de violências é pertinente citar a pesquisa de Caio Silvia (2014) na sua pesquisa sobre “Masculinidades e Violência em Narrativas de Vida de Jovens em Conflito com a Lei”, que, apoiado nos discursos de Welzer-Lang (2004) e Grossi (2004), comenta que a relação entre masculinidade e violência perpassa pela exclusão social, bem como pelas diversas formas de violência sofridas e cometidas pelos/pelas jovens em todas as classes sociais.
A ausência de um apoio emocional para o sentimento de perda e o próprio sistema social de construção das masculinidades que não permite que os meninos expressem seus sentimentos pode ter sido o elemento motivador para que Marconi se agrupasse com os jovens em conflito com a lei.
Tomando ainda como suporte o supracitado diálogo com Marconi, vê-se que o estudante aponta para os padrões de vestuários e do imaginário social, no que se refere ao modo de vestir e de ser, revelando-nos que a discriminação e a exclusão presentes na nossa sociedade são resultantes do preconceito com relação aos sujeitos sociais que não atendem aos atributos considerados “normais e naturais”.
Vejamos o que ele relata sobre as roupas que vestia no período em que, segundo ele, andava usando “aquelas roupas horríveis” (MARCONI, 2016).
Elisete: você falou que andava com pessoas que usava certo tipo de
Marconi - Vamos dizer assim, como as pessoas julgam, por exemplo, se
você colocar uma camisa pólo e uma bermuda jeans, as pessoas vão olhar para você... porque julgam pela aparência, certo? Então a primeira aparência é que vale. Se ela me olhar com uma camisa pólo e uma bermuda Jeans, tudo bem, eu posso ser uma pessoa direita, mas por trás poderia ser uma pessoa ruim, como qualquer outra, mas o que elas julgam... mas por exemplo, se eu botar um boné, um boné da Nike ou um tênis da Nike, cheio de anel no dedo de prata, aí as pessoas vão me julgar diferente, vão falar “ah, ali usa drogas”, “ah, ali deve roubar”, “ah, como ele conseguiu dinheiro pra comprar essas roupas?”, porque geralmente essas roupas são caras e as pessoas julgam muito isso. Mas eu também não ligava não, porque minha cabeça era meu guia, eu trabalhava pra comprar [...].
Nessa narrativa de Marconi a violência apontada aqui está associada à forma de vestir, pois na nossa sociedade, marcada pelo preconceito e discriminação, a aparência física desempenha um papel fundamental na formação dos estereótipos sociais. Goffman (2008, p.149) no seu livro Estigma comenta que o “estigmatizado não são as pessoas, e sim perspectivas que são geradas em situações sociais”. Assim, nas relações de poder estabelecidas em uma sociedade eurocentrada, todos os atributos “indesejáveis” e que fogem ao estabelecido como “normal” são considerados desviantes. Dessa forma, vão se estabelecendo o preconceito e a discriminação que atua em todas as esferas da vida.
Sendo assim, a forma como os acessórios vestem esses corpos, em especial os corpos de jovens negros, balizam as relações de poder e hierarquizam os diferentes grupos sociais. É pertinente dialogar com Quijano (2005) na discussão que faz sobre colonialidade e poder, ao comentar que as relações sociais direcionadas pelos colonizadores se configuraram de forma a estabelecer uma hierarquização com base nos lugares e papéis sociais preestabelecidos para negros/as, indígenas, gays, transexuais, argumentando que “identidade racial foram estabelecidas como instrumentos de classificação social básica da população” (QUIJANO, 2005, p.117).
No Brasil o corpo do jovem negro convive com vários estereótipos que englobam não só as questões raciais, mas também as relacionadas a gênero e classe social. Essa relação é expressa na narrativa de Marconi, quando caracteriza a discriminação pela roupa que utiliza e pela forma como o outro social o definirá. Isso porque Marconi é um jovem negro, morador de um bairro onde, na sua maioria, agrega pessoas com baixo poder aquisitivo de Salvador. E no imaginário social esse
jovem não pode usar certas marcas de roupas que, culturalmente, foram determinadas para um público do qual esses jovens não fazem parte.
O imaginário social subsidiado pelo pensamento colonizado determina espaços, roupas para os sujeitos sociais, e assim o jovem negro não pode ocupar o mesmo espaço que um jovem branco, pois ele é subalternizado na nossa sociedade, e como tal suas vestimentas devem acompanhar o lugar da subalternização. Quando o jovem negro foge a essa determinação cultural, ele é olhado com desconfiança, pois ele assume “um lugar que não é seu”, ele assume um papel de “impostor”. Para além do papel de impostor, ele é marginalizado duplamente: primeiro porque é um subalternizado e segundo porque, no imaginário social, para ele usar uma roupa de grife, ele precisa ter roubado. Assim, observamos o impacto do processo de colonização não somente do Brasil, mas também do imaginário social. Quijano (2005) nos diz que o controle das classes subalternizadas articulada com raça/gênero estruturou-se de tal forma na nossa cultura que essas diferenças e esse lugar de subalterno são naturalizados.
Aqui o nosso interlocutor expressa também o lugar da marginalização da masculinidade, pois, como advoga Connell (1995), a masculinidade do homem negro está subordinada à autorização da masculinidade hegemônica dominante, que nesse contexto associa a raça e classe. Pinho (2004) nos convida a desconstruir a masculinidade hegemônica negra construída culturalmente, bem como a sua marginalização.
4.2 DANÇANDO VALSA: SUPERANDO AS VIOLÊNCIAS E VIOLANDO AS