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5 ANÁLISE DAS CANÇÕES

5.2 De canto a canto

5.2.4 Se tudo pode acontecer

Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit/ Alice Ruiz/ João

Bandeira)

se tudo pode acontecer se pode acontecer qualquer coisa um deserto florescer

uma nuvem cheia não chover pode aparecer alguém e acontecer de ser você um cometa vir ao chão um relâmpago na escuridão e a gente caminhando de mão dada

de qualquer maneira

eu quero que esse momento dure a vida inteira

e além da vida ainda de manhã no outro dia se for eu e você

se assim acontecer (ANTUNES, 2001, faixa 4)

Uma marcha38 inicia e leva, até o final da canção, um mesmo e bem marcado ritmo, que parece simular as batidas do coração. Embora outros elementos se juntem à interpretação, como o som do violão e do teclado que acompanha a voz, ou mesmo o destaque dado à entrada mais melodiosa do saxofone, são os sons da

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marcha – composição em compasso binário ou quaternário, com forte acentuação no primeiro tempo, servindo como acompanhamento para desfiles militares, procissões etc. (HOUAISS, 2009).

caixa baixa39 e dos chimbaus40 que conduzem, em um só e repetido ritmo, o desenvolvimento de toda a canção.

Enquanto temos na melodia essa clara regularidade, a letra menciona a possibilidade de eventos improváveis, como o de “um deserto florescer” e “uma nuvem cheia não chover”. Ao lado de eventos como esses, o enunciador traz a possibilidade de acontecer alguém que o acompanhe, unida e descontraidamente, durante a vida inteira – e até mesmo “além da vida” –.

À primeira audição, podemos perceber aí uma adesão do enunciador ao ideal romântico de um par perfeito e eterno, como se esse enunciador se mostrasse disposto a esperar o tempo que fosse preciso para viver eternamente ao lado de seu par amoroso. Contudo, esse outro sequer participa da enunciação. A expressão “você”, que poderia remeter diretamente ao coenunciador, dele se distancia, tratada mesmo como uma abstração.

Em “pode alguém aparecer / e acontecer de ser você”, vemos que, embora “alguém” sugira indefinição e “você” não, ambos os pronomes sinalizam um

mesmo sujeito – uma abstração do par idealizado, esse alguém indefinido por quem

o enunciador parece esperar.

Assim como em Exagerado, o enunciador da canção só superficialmente parece posicionar-se no discurso do amor romântico. Ele aparenta expressar seu

desejo de estar eternamente junto ao outro – como podemos observar na derradeira

estrofe:

e a gente caminhando de mão dada

de qualquer maneira

eu quero que esse momento dure a vida inteira

e além da vida ainda de manhã no outro dia se for eu e você

se assim acontecer (ANTUNES, 2001, faixa 4, fragmento)

No entanto, “você”, como dissemos há pouco, não é alguém já atingido, e

sim alguém a ser atingido, a ser alcançado – é o alguém que supostamente satisfaz

39 caixa baixa – também chamada de caixa clara, é um tipo de tambor que produz um som repicado,

característico das marchas militares, geralmente usada na marcação dos contratempos ou na execução de células rítmicas ou exercícios musicais mais complexos.

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chimbau – originalmente chamado hi-hat (inglês), é um dos pratos da bateria, que tem a função de conduzir o ritmo.

às condições de par ideal. Segundo a canção, o acaso, então, é o que faria a realização do sentido centrado na expressão “você”, que é uma idealização do par almejado pelo enunciador. Acontece que a canção coloca em uma mesma perspectiva a possibilidade de acontecer esse alguém e de acontecer outros eventos normalmente tidos como improváveis, ou mesmo impossíveis.

se tudo pode acontecer se pode acontecer qualquer coisa um deserto florescer

uma nuvem cheia não chover pode aparecer alguém

e acontecer de ser você (ANTUNES, 2001, faixa 4, fragmento)

O trecho que destacamos anteriormente poderia mesmo nos levar ao reconhecimento do discurso romântico, contudo, ao atentarmos para a perspectiva dada à possibilidade de realização desse ideal, vemos que, de fato, há aí certa ironia. Nessa canção, pelo que vemos, o enunciador coloca-se em oposição ao sujeito romântico, denunciando a inviabilidade de se constituir um par que o acompanhe, de um mesmo jeito, pela vida inteira.

Notamos três principais investimentos que atuam para a construção desse sentido na canção. Embora só tenhamos destacado até aqui o sentido da letra, dois desses investimentos nós já mencionamos – a regularidade, expressa pela marcha; e a probalidade do impossível, expressa pela letra. O terceiro elemento, que viemos articular aos demais nessa construção, é o tratamento melódico da voz.

Embora não tratemos aqui de analisar detalhadamente a tensão entre letra e melodia, podemos observar que, enquanto o ritmo marcado pela marcha é segmentado; a voz prolonga a duração das vogais e, investindo assim na modalidade do ser41, o cancionista parece mesmo envolver-se na sentimentalidade de estar com o outro.

É claro, segundo nossa análise, que essa adesão não encontra coerência na letra. E o mais interessante é que a marcha, com sua persistente regularidade, justamente se opõe à imprevisibilidade de realização desse sentimento, assim como de qualquer outro dos improváveis fenômenos a que se refere a letra. De forma que, se podemos reconhecer certa disjunção entre o dito na letra e os impulsos melódicos da voz, a marcação do ritmo, por outro lado, dá base, não somente ao andamento

41 Quando, na tensão letra-melodia, o cancionista amplia a duração e a frequência da voz, ele, assim,

da melodia – como já lhe é a função primeira – mas consolida a força da regularidade a que o enunciador adere e que o afasta a possibilidade de realização desse par ideal, assim como a de outros eventos não menos improváveis. A voz atua, então, como uma estratégia de disfarce para a oposição do enunciador ao discurso romântico, cuja evidência talvez dificultasse a adesão do público.

O sujeito desse discurso, portanto, é aquele que apoia suas expectativas no real e não no ideal. Mesmo que possamos supor seu desejo de que aquele par perfeito aconteça, o enunciador deixa claro seu reconhecimento de que isso é pouco provável. De forma característica ao sujeito tribalista, esse enunciador reconhece a instabilidade das relações, uma vez que não aposta na eternidade dos laços nem no amor ideal. Ao contrário, investe no reconhecimento da regularidade que rege os acontecimentos naturais, como não deixa de ser na própria relação amorosa.