3.1 Troço da Costa da Caparica
3.1.1 Sector norte
Este sector, que corresponde à praia de São João da Caparica (PCC1 a PCC8), apresenta características de praia intermédia no que diz respeito ao declive (≈ 0.08) (Figura 30 à Figura
37), apresentando, pontualmente, valores de declive típico de praias refletivas (≈0.14) e
Atualmente a praia atinge um máximo de 15 m de largura, a norte, valor que diminui progressivamente para sul, até se anular em condição de PMAV junto ao esporão a sul. A norte, exibe habitualmente uma berma e uma duna frontal ativa, cuja face barlavento atinge cerca de 5 a 6 m de altura; no terço sul o aparelho dunar natural foi substituido por uma duna artificial construida em continuidade lateral a um enrocamento (Figura 38).
A observação dos perfis de praia mostra que estes se comportam de forma distinta ao longo do período de monitorização dependendo da sua localização. Um dos indicadores que mostra este comportamento é a volumetria. Os perfis PCC1 a PCC4 apresentam uma volumetria média entre 300 e 400 m3/m, em PCC5 e PCC6 a volumetria média varia entre 160 e 200 m3/m e os perfis PCC7 e PCC8 apresentam valores entre 40 a 50 m3/m. A expressão da sazonalidade típica da praia (aumento de volume de areia nos meses de verão e perda nos meses de inverno), foi observada nos perfis PCC5, PCC7 e PCC8, mas não nos nos restantes (PCC1, PCC2, PCC3, PCC4 e PCC6).
Esta variabilidade espacial do comportamento sazonal foi também verificada na resposta morfológica dos perfis ao evento de tempestade de 19 de janeiro de 2013 e nos meses seguintes. Este evento de temporal induziu alterações morfológicas sobre as praias, medidas em levantamento pós-temporal realizado a 21 de janeiro 2013. Todos perfis registaram rebaixamento geral da superfície da praia com diminuição generalizada do volume retido, atingindo, em alguns casos, os valores mínimos registados no período de monitorização. O cálculo da retenção volumétrica foi por vezes impossibilitado (PCC2 e PCC4) por os perfis não atingirem, a cota zero (NMM), valor acima do qual é calculado este indicador. Todos os perfis de praia, excepto PCC3 e PCC4, adotam uma forma praticamente retilínea, sem berma (Figura
30, Figura 31 e Figura 34 a Figura 37); os perfis PCC3 e PCC4, localizados na zona central da
praia (Figura 32 e Figura 33), mantiveram (ou desenvolveram) berma e faces de praia com geometria côncava. Outra das alterações registadas no sistema após o temporal foi a acumulação de sedimentos na alta praia, danificando alguns apoios/equipamentos de praia e causando a obstrução de acessos (Figura 39).
No levantamento de março de 2013, 6 semanas após o temporal, a situação de recuperação da praia foi igualmente distinta no espaço. Os perfis PCC2 e PCC5 mostram sinais de recuperação evidenciados pelo aumento de volume e pela formação de berma (ainda que incipiente) enquanto os restantes conservam sinais de erosão, heradad ou continuada no tempo, ilustrada pela diminuição do volume e aumento do declive. No campo, observou-se também a presença de escarpas com cerca de 1,5 m de altura, junto aos perfis PCC3 e PCC4, Figura 40.
Em junho e contrariamente ao observado na campanha de março, os perfis PCC1, PCC3, PCC4, PCC7 e PCC8 registaram aumento de volume, PCC5 e PCC6 registam diminuição da retenção volumétrica e no perfil PCC2 não se observaram modificações significativas relativamente à situação de março. Todos os perfis, excepto PCC7 e PCC8, exibem berma. A presença de uma escarpa com 0,5 m de altura foi observada nos perfis PCC1 a PCC4 (Figura 41).
O padrão de resposta desta praia à tempestade de 19 de janeiro de 2013 traduziu-se num decréscimo generalizado de volume em toda a sua extensão. Na campanha de março (6
semanas após o temporal) foram observados dois focos distintos de acreção evidenciando o início da recuperação volumétrica da praia apenas em locais bem definidos; a restante área registava continuação da erosão que alcançou, nalguns casos, valores mínimos de volume observados no período de monitorização. Os comportamentos distintos observados em perfis levantados na mesma praia, reflectindo resposta quer a um evento tempestivo, quer ao período de bonança que lhe sucedeu são interpretados como resultando de trocas sedimentares longitudinais entre segmentos da praia, que se sobreimpõem às de natureza transversal. Tal permite que diferentes segmentos de um mesmo areal mostrem sinais erosivos ou de acreção, sem que ocorra fornecimento ou perda líquida de sedimento do, ou para o, exterior do sistema.
Na campanha de junho observa-se um aumento de volume em quase toda a extensão da praia, verificando-se assim generalização da recuperação volumétrica. Os perfis apresentam berma, excepto num pequeno trecho que engloba os perfis PCC5 e PCC6, onde se registou erosão.
Figura 30. Representação gráfica do perfil de praia PCC1 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 31. Representação gráfica do perfil de praia PCC2 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 32. Representação gráfica do perfil de praia PCC3 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 33. Representação gráfica do perfil de praia PCC4 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 34. Representação gráfica do perfil de praia PCC5 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 35. Representação gráfica do perfil de praia PCC6 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 36. Representação gráfica do perfil de praia PCC7 e da variação das suas características morfológicas (volume área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 37. Representação gráfica do perfil de praia PCC8 e da variação das suas características morfológicas (volume, área e declive) ao longo das várias campanhas de campo executadas entre março
Figura 38. Aspeto geral do sector norte do troço da Costa da Caparica (praia de São João da Caparica), a 1 de março de 2013: A – perfil PCC2 (A1 - vista para norte, e A2 – vista para este,); e B – perfil PCC6 (B1 -
vista para norte, e B2 – vista para este, alta praia, observando-se a duna artificial).
Figura 39. Efeitos do temporal de 19 de janeiro de 2013 no sector norte do troço da Costa da Caparica (praia de São João da Caparica), fotos tiradas em 21 de janeiro de 2013: A e B – acumulação de sedimentos na alta praia causando danos nos equipamentos de praia e obstrução de acessos, e; C – vista
geral para norte.
A1 A2
Figura 40. Escarpa formada no sector norte do troço da Costa da Caparica (praia de São João da Caparica), junto aos perfis PCC3 e PCC4, 1 de março de 2013.
Figura 41. Escarpa presente no sector norte do troço da Costa da Caparica (praia de São João da Caparica), em 11 de junho de 2013: A vista para norte da escarpa, intersetando os perfis PCC1 e PCC2, e;
B – vista para sul da mesma escarpa intersetando os perfis PCC3 e PCC4.
A classificação do diâmetro médio dos sedimentos, nesta praia, foi realizada a partir das colheitas efetuadas nos perfis PCC2 e PCC6. Os valores do diâmetro médio classificam este sedimento como areia fina a média, maioritariamente no campo da areia média (valores médios de Mz 1.80 e 1.75 em PCC2 e PCC6, respetivamente (Figura 42 e Figura 43).
Figura 42. Variação sazonal do diâmetro médio dos sedimentos da face de praia, berma de praia e duna (quando presentes) no perfil de praia PCC2.
Figura 43. Variação sazonal do diâmetro médio dos sedimentos da face de praia, berma de praia e duna (quando presentes) no perfil de praia PCC6.