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Sede do IPHAN Tiradentes

No documento renatasilvasantoscamargo (páginas 76-83)

Logo após minha conversa com o Sr. Denílson, e, após a superação das dificuldades de localização, entrei finalmente no casarão. Quando se adentra, vê-se ao fundo de um cômodo uma escadaria de madeira. É ela que dá acesso ao segundo andar, onde se localizam os funcionários. Naquele dia o Sr. Olinto não estava. Peguei o telefone do local para tentar um contato posterior com ele.

Nossa conversa ocorreu apenas dois meses depois. Devido a outras atividades em campo, acabei procurando o pesquisador apenas no final de julho, quando soube que ele estava de férias, mas retornaria em agosto. Após um primeiro contato, que ocorreu pessoalmente, me apresentei e expliquei sobre minha pesquisa e o desejo de uma entrevista, que foi agendada para a manhã do dia 25 de agosto.

No dia marcado, dez minutos antes do horário – que era 9:00h - eu estava na porta do IPHAN, que estava fechado. O Sr. Olinto chegou por volta de 9:15h, quando abriu o casarão. Em sua mesa de trabalho, iniciamos a entrevista. Natural de Tiradentes, é pesquisador do

IPHAN na área de história e história da arte e possui algumas publicações científicas sobre a arte e a história de Tiradentes.

Quanto à questão da madeira, segundo o Sr. Olinto, a cidade sempre possuiu uma tradição de marcenaria e mobiliário. Obviamente era algo menor. Contudo, o próprio desenvolvimento em cidades próximas da fabricação de objetos em madeira contribuiu para tal abundância, uma vez que os fabricantes venderiam seus objetos na cidade que possui maior visibilidade e visitação turística.

Outrossim o pesquisador também aponta que na década de 60 havia no município o Sr. Paulo Francês, que tinha uma marcenaria e fabricava móveis, nas palavras do pesquisador, de grande qualidade e que formou muita mão de obra.

Segundo Denilson, Supervisor da Secretaria de Turismo, este senhor – Paulo Francês – trouxe a primeira fábrica de móveis para a cidade, de pequeno porte, nada comparado ao que nós temos hoje, disse. Denilson disse que pode falar com propriedade porque seu pai foi o primeiro funcionário do senhor Paulo Francês, que se instalou na cidade após passear e se encantar com a cidade, onde ficou até sua morte.

Refletindo sobre o artesanato em si, questionei o Sr. Olinto se seria de fato uma vocação da cidade ou se houve o desenvolvimento dessa área pela oportunidade gerada pelo turismo. Para ele, as duas coisas são verdadeiras. O pesquisador relata que a cidade sempre teve uma tradição de artesanato, especialmente metais... prata nos anos 30/40 até 60, metais diversos, de produção de luminárias de metal...e como a cidade se tornou um pólo de turismo, foi agregando o artesanato regional, né!?No caso a tecelagem de Resende Costa e outras coisas mais que foram chegando e hoje você tem uma diversidade grande de artesanato regional.

Outro material em que se vê uma riqueza de objetos de decoração nas lojas é o ferro. Na esteira do entendimento da tradição do uso de matérias primas, a autora questionou ao Sr. Olinto sobre as formas utilizadas em tais artigos decorativos, quais sejam: muitas flores, folhagens, bichos. Segundo o pesquisador do IPHAN o artesanato em ferro é algo bastante recente como objeto decorativo: o que existia anteriormente era ferragem pra uso em construção: fechadura, dobradiça, trinco, etc e tal,né!? Que ainda tem bons ferreiros, né!? Herdeiros de uma tradição antiga. Essa ferragem decorativa é uma coisa bastante recente que eu acho que é mais por uma imposição – a forma – eu acho que é mais por uma imposição do mercado do que uma tradição, né!? de produção de arte mesmo.

Sobre a questão dos objetos serem produzidos para o mercado, uma discussão é feita quando relato as falas de alguns artesãos e relato também a opinião do Sr. Olinto. Nossa conversa durou cerca de trinta minutos e, quando terminamos, fiquei ainda cerca de uma hora no IPHAN pesquisando sobre a história da cidade em livros de propriedade do Instituto. Esta foi minha última atividade na cidade neste dia.

2.3 – Artesanato e souvenir em Tiradentes e a internet

Hoje sites de busca e redes sociais fazem parte da dinâmica da atividade turística e do escopo de informações de que um turista se utiliza quando vai visitar uma localidade. Assim, considerei importante também adentrar um pouco o universo virtual para identificar o que se encontra de maneira geral sobre o artesanato e os souvenirs de Tiradentes.

Além disso, a realização de uma pesquisa na internet é hoje uma prática entre aqueles que decidem realizar uma viagem. Para Gastal (2005) há em comum nos diversos tipos de deslocamento realizados na contemporaneidade a presença de imagens e imaginários que constituem uma experiência antecipada dos turistas:

Imagens porque, na própria cidade ou no estrangeiro, antes de se deslocarem para um novo lugar, as pessoas já terão entrado em contato com ele visualmente, por meio de fotos em jornais, folhetos, cenas de filmes, páginas na Internet ou mesmo por intermédio dos velhos e queridos cartões-postais. Imaginários porque as pessoas terão sentimentos, alimentados por amplas e diversificadas redes de informação, que as levarão a achar um local “romântico”, outro “perigoso”, outro “bonito”, outro “civilizado”. A esses sentimentos construídos em relação a locais e objetos (e, por que não, a pessoas?) temos chamado de imaginários. (GASTAL, 2005, p.13)

Para limitar o universo de minha busca, usei separadamente os termos “artesanato em Tiradentes – MG” e “souvenir em Tiradentes – MG”. Primeiramente digitei tais expressões no google e minha escolha por este site de busca se deve ao fato de ser o que uso em meu cotidiano. Posteriormente fiz a mesma pesquisa na rede social facebook, também por ser a que faço uso no meu dia a dia.

Em relação ao site de busca, como, normalmente, ele disponibiliza cerca de 10 páginas com informações sobre a expressão digitada, delimitei observar apenas as duas primeiras

páginas, pois meu objetivo era verificar se havia informações que poderiam contribuir com esta pesquisa, mas não pretendia um aprofundamento sobre a questão da pesquisa na internet.

De modo geral, o que aparece como opções em relação ao artesanato são nomes com endereço e telefones de lojas que vendem artesanato. Mas na primeira página aparece também o link de um site chamado “Tiradentes Net”. Trata-se de um portal que traz informações diversas sobre a cidade, desde como chegar, pincelando um pouco da história da cidade, e fornecendo informações gerais sobre hospedagem, alimentação e atrativos turísticos. É perceptível que o site é voltado para turistas, mas ao mesmo tempo é possível verificar os planos financeiros existentes para aqueles que desejam ser parceiros, ou seja, desejam ter seus negócios e empreendimentos anunciados no portal.

Um dos itens em destaque no portal é sobre artesanato. Quando se clica, um pequeno texto fala sobre a variedade do artesanato mas não apenas de Tiradentes, usa a expressão “artesanato da região de Tiradentes e das Minas Gerais” e discorre sobre algumas características de tal artesanato dizendo que ao barroco são adicionados elementos e técnicas modernas que possibilitam uma releitura do passado. Passa então a destacar o nome de estabelecimentos que comercializam artesanato.

Claro está que este é um site comercial, portanto, terá destaque quem pagar por isso e chamou minha atenção o fato de que dos 55 nomes de estabelecimentos anunciados na parte principal, 27 não se localizam em Tiradentes, mas em cidades como São João Del Rei, Santa Cruz de Minas, Bichinho e Prados.

As demais informações, como hotéis e pousadas, restaurantes e atrativos são mais específicas e basicamente de Tiradentes. Encontrei apenas um anúncio de restaurante no Bichinho e no setor de hotelaria, todos estão com endereço de Tiradentes. Porém, quando se trata de artesanato há uma expansão geográfica. É como se o nome Tiradentes fosse usado por ser mais conhecido e realmente usado como pólo de turismo para que outros anunciem seus produtos.

No mais, há nas páginas alguns links com informações específicas sobre lojas, na verdade, sites de lojas específicas, dicas de compras de um blog especializado em dar dicas de viagem e uma matéria sobre onde comprar na cidade.

Quando usei a outra expressão “souvenir em Tiradentes” para depurar minha pesquisa, informações de artesanato apareceram, bem como matérias sobre a cidade que citavam a palavra souvenir. No entanto, a predominância era de referências à cidade de Ouro

Preto. Na segunda página apareciam links com informações sobre a cidade e até um indicando onde se hospedar.

Na rede social Facebook, a expressão “artesanato em Tiradentes” trouxe a informação de quatro páginas de loja e/ou artesãos autônomos: um em madeira, dois em tecidos, sendo que um era uma página pessoal, não comercial e um em EVA. Em relação à expressão “souvenir em Tiradentes” não houve nenhuma página encontrada.

Diante de tal escassez, tentei também digitar apenas o nome da cidade e o que se abriram foram páginas com comentários positivos sobre o município e seus atrativos turísticos, algumas páginas de pousadas na cidade e um grupo fechado, que descreve sua criação como um espaço para publicações daqueles que têm laços afetivos com a cidade, mas nada em relação especificamente a artesanato ou souvenir.

Também realizei uma pesquisa com a expressão “artesanato em Tiradentes” no site You Tube. Aparecem vídeos com uma diversidade de assuntos e o site dá a informação que aproximadamente 2940 (dois mil novecentos e quarenta) resultados foram encontrados. Nem todos referem-se ao artesanato. Alguns falam de eventos na cidade e muitos são de atrativos turísticos, publicados por visitantes. Há alguns que são matérias jornalísticas sobre a cidade e sobre alguns artesãos. Há também informações sobre cidades da região.

Ao passar para a expressão “souvenir em Tiradentes” , os resultados caem para 33 (trinta e três) e nenhum, na verdade, se refere realmente à cidade de Tiradentes. Apenas a palavra “Tiradentes” direciona para histórias e informações sobre o filho ilustre da cidade e “Tiradentes MG” demonstra aproximadamente 32300 (trinta edois mil e trezentos) resultados, onde, obviamente há uma infinita diversidade: vídeos pessoais, informações sobre atrativos, pousadas, etc.

Esta busca virtual demonstrou a mim uma considerável distância do que é pesquisar in loco, o que se encontra como realidade da cidade e o que está na internet. Na verdade, no mundo virtual há informações direcionadas ou de cunho estritamente comercial ou extremamente pessoais, de visitantes que gostam de postar suas experiências.

2.4 – O souvenir e a dádiva: uma relação possível?

Pensar o souvenir a partir da dádiva é adotar o pressuposto de que, muitas vezes, tal objeto é procurado por visitantes de uma localidade para ser adquirido para outrem: um

familiar, um amigo, um colega de trabalho. Neste sentido, se torna mediador de uma relação social, podendo mesmo se constituir em um instrumento de manutenção do vínculo.

Nos materiais etnográficos das sociedades que estudou, Mauss percebeu que o fundamento da sociabilidade passava pela circularidade da “tríplice obrigação de dar, receber e retribuir” sendo esta a base para a formação dos vínculos sociais e alianças.

Mauss afirma que, nas sociedades analisadas, as trocas que os indivíduos realizavam não eram “exclusivamente bens e riquezas, bens móveis e imóveis, coisas úteis economicamente. São, antes de tudo, amabilidades [...]” (MAUSS, 2003, p.191). Para usar os princípios da dádiva na identificação e análise de códigos e símbolos que operam em torno do processo de aquisição de uma lembrança de viagem, conjectura-se, neste trabalho, que os usos e destinos dados aos souvenirs atestam trocas que ultrapassam a utilidade de tais objetos e abarcam ternuras, gentilezas e reforço de laços afetivos, pois “os que se dão mutuamente presentes são amigos por mais tempo se as coisas conseguem se encaminhar bem5” (MAUSS, 2003, p.186)

Outrossim, usar a dádiva para compreender melhor os usos e sentidos atribuídos ao souvenir turístico corrobora com o pensamento de autores contemporâneos que defendem uma revalorização da teoria da dádiva e sustentam que ela pode ser usada como um instrumento interpretativo de fenômenos, pois compreender o sentido sociológico que a teoria possui faz com que se introduza “a ideia da ação social como a síntese de uma pluralidade de lógicas não redutíveis umas às outras, e muito menos às determinantes econômicas”. (MARTINS, 2002, p.9).

Mauss era sobrinho de Émile Durkheim e com ele foi um dos principais animadores da Revista Année Sociologique, fundada em 1896. Sua atividade intelectual se deu com estreita colaboração de Durkheim. “Não apenas ele acompanhou de perto e sofreu influência da produção intelectual de Durkheim, [...] como ambos pensaram e escreveram em conjunto sobre assuntos sociológicos os mais diversos.” (MARTINS, 2012, p.47). Em sua obra mais conhecida, o Ensaio Sobre a Dádiva, percebe-se, inclusive, “um prolongamento- renovação da teoria durkheiminiana da coesão social, da relação indivíduo-sociedade.” (FOURNIER, 1992).

Para Martins (2012, p.48), a elaboração da Teoria da Dádiva está intensamente ligada aos desdobramentos presentes no pensamento de Durkheim da chamada terceira fase, em que

o autor se empenhou na inclusão do tema do indivíduo em sua teoria das representações coletivas. Pois

Se por um lado esta [a dádiva] é concebida como um sistema geral de obrigações coletivas (reforçando a tese de Durkheim a respeito da sociedade como fato moral), por outro Mauss faz questão de adentrar o universo da experiência direta dos membros da sociedade, o que lhe permite introduzir um elemento de incerteza estrutural na regra tripartida do dar-receber- retribuir, escapando da hiper-presença de uma obrigação coletiva que deveria se impor tiranicamente sobre a liberdade individual. (MARTINS, 2012, p.48-49)

Talvez para muitos intelectuais a maior referência de Mauss seja justamente ser sobrinho de Émile Durkheim, um clássico, com lugar inquestionável no panteão das Ciências Sociais. No entanto, o resgate, por parte de alguns autores, da Teoria da Dádiva demonstra que sim, Durkheim tem grande importância na formação de Mauss como intelectual e também na base da sistematização de seu pensamento (MARTINS, 2008), contudo, demonstram também avanços feitos pelo sobrinho ao tio, especialmente quando se trata de refletirmos sobre fato social e sobre a categoria do simbólico.

No entanto, é importante ressaltar que há diferença entre o fato social de Durkheim e o fato social total de Mauss. Para Durkheim o fato social “é toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior [...] é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais”. (DURKHEIM, 2007, p.13)

O autor estabelece alguns princípios para que um fato possa ser considerado social. O primeiro deles é que os fatos sociais devem ser considerados como coisas. “É coisa, com efeito, tudo o que é dado, tudo o que se oferece, ou melhor, se impõe à observação.” (DURKHEIM, 2007, p.28). O entendimento é que os fenômenos devem ser considerados em si mesmos e vistos como coisas exteriores aos sujeitos. A exterioridade demonstra que o fato é definido fora do sujeito e é assimilado por este.

Outra característica de um fato social é sua coercitividade, que pode ser reconhecida pela existência de algum tipo de sanção ou mesmo pela resistência do fato a toda tentativa individual de violação do mesmo. “A coerção é fácil de constatar quando se traduz exteriormente por alguma reação direta da sociedade, como é o caso em relação ao direito, à moral, às crenças, aos costumes, inclusive às modas.” (DURKHEIM, 2007, p.10).

E, por fim, o fato social é dotado de generalidade, que faz com que o mesmo determine um estado do grupo que se repetirá por meio de crenças e práticas transmitidas pelas gerações. Em Tiradentes, é comum ver em alguns estabelecimentos, bem como na porta de entrada de algumas residências uma cruz, que é um símbolo católico e tem relação com uma crença de proteção.

No documento renatasilvasantoscamargo (páginas 76-83)