4.3 Resíduos Sólidos
4.3.5 Gerenciamento de Resíduos de Serviço de Saúde
4.3.5.1 Manejo dos resíduos de serviço de saúde
4.3.5.1.1 Segregação dos resíduos de serviço de saúde
A NBR 12.807 (ABNT, 1993) define segregação como a operação de separação de resíduos no momento da geração, em função de uma classificação previamente adotada para esses resíduos.
Para que a segregação dos resíduos seja eficiente, é necessária uma classificação preestabelecida dos resíduos a serem separados. Assim, deve-se estabelecer uma hierarquia em função de uma ou mais características dos resíduos, considerando as questões operacionais, ambientais e sanitárias. Desta forma, a segregação em diferentes categorias é indicada como meio para assegurar que cada categoria receba manejo apropriado e seguro, tratamento e disposição final (RISSO, 1993 apud SCHNEIDER et al., 2001).
As vantagens de praticar a segregação na origem são:
• redução dos riscos para a saúde e o ambiente, impedindo que os resíduos potencialmente infectantes ou especiais, que geralmente são frações pequenas, contaminem os outros resíduos gerados;
• diminuição de gastos, já que apenas terá tratamento especial uma fração dos resíduos e não todos;
• aumento da eficácia da reciclagem.
Portanto, a segregação é a ferramenta de gestão utilizada para evitar a mistura e um aumento de volume dos resíduos com maior potencial de risco, pois estes resíduos, mesmo em pequenas quantidades, quando não são separados adequadamente, acabam por comprometer a massa total de resíduos, sendo necessário tratar o todo como resíduo perigoso. Assim, os custos empregados no tratamento e disposição final dos resíduos serão minimizados, haja vista que será encaminhado, para tratamento especial, apenas uma fração dos resíduos gerados.
Assim sendo, é de suma importância que todos os envolvidos recebam orientação e treinamento específico para segregarem os resíduos na fonte e no momento de sua geração, pois, conforme ANVISA (2006), sem uma segregação adequada, cerca de 70 a 80% dos resíduos gerados em serviços de saúde, que não apresentam risco, acabam potencialmente contaminados.
Conforme a Resolução nº. 316 (CONAMA, 2002), os RSSS, quando suscetíveis ao tratamento térmico (autoclavagem, microondas e incineração), devem obedecer, segundo a sua classificação, ao que se segue:
• grupo A: resíduos que apresentam risco à saúde pública e ao meio ambiente, devido à presença de agentes biológicos;
• grupo B: resíduos que apresentam risco à saúde pública e ao meio ambiente devido as suas características físicas, químicas e físico-químicas;
• grupo D: resíduos comuns.
Segregação dos resíduos químicos
De acordo com Jardim (2005), os produtos químicos podem reagir de forma violenta com outra substância química, inclusive com o oxigênio do ar ou com a água, produzindo fenômenos físicos tais como calor, combustão ou explosão, ou então produzindo uma substância tóxica. Na avaliação dos riscos devidos à natureza física, devem-se considerar os parâmetros de difusão (pressão saturada de vapor e densidade de vapor) e os parâmetros de inflamabilidade (limites de explosividade, ponto de fulgor e ponto de auto-ignição).
As reações químicas perigosas tanto podem ocorrer de forma exotérmica quanto podem provocar a liberação de produtos perigosos, fenômenos que muitas vezes ocorrem simultaneamente. Para prevenir os riscos devido à natureza química dos produtos, é necessário conhecer a lista de substâncias químicas incompatíveis de uso corrente em laboratórios a fim de observar cuidados na estocagem, manipulação e descarte.
A NBR 12.807 (ABNT, 1992), recomenda que os resíduos ou substâncias químicas que, ao se misturarem, provoquem efeitos indesejáveis como fogo, liberação de gases tóxicos, ou ainda, facilitam a lixiviação de substâncias tóxicas, não devem ser colocados em contato. O Quadro 2 mostra os resíduos químicos incompatíveis e seus prováveis efeitos indesejáveis resultantes da mistura desses.
Quadro 2 Incompatibilidade de resíduos químicos e prováveis efeitos indesejáveis quando misturados entre si.
GRUPO 1-A GRUPO 1-B
• Lama de acetileno
• Líquidos fortemente alcalinos • Líquidos de limpeza alcalinos • Líquidos alcalinos corrosivos • Líquido alcalino de bateria • Águas residuárias alcalinas
• Lama de cal e outros álcalis corrosivos • Soluções de cal
• Soluções cáusticas gastas
• Lamas ácidas • Soluções ácidas • Ácidos de bateria
• Líquidos diversos de limpeza • Eletrólitos ácidos
• Líquidos utilizados para gravação em metais • Componentes de líquidos de limpeza
• Banhos de decapagem e outros ácidos corrosivos • Ácidos gastos
• Mistura de ácidos residuais • Ácido sulfúrico residual Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 1-A com
os do GRUPO 1-B Geração de calor, reação violenta
GRUPO 2-A GRUPO 2-B
• Resíduos de asbestos • Resíduos de berílio
• Embalagens vazias contaminadas com pesticidas • Resíduos de pesticidas
• Outras quaisquer substâncias tóxicas
• Solventes de limpeza de componentes eletrônicos • Explosivos obsoletos
• Resíduos de petróleo • Resíduos de refinaria • Solventes em geral
• Resíduos de óleo e outros resíduos inflamáveis e explosivos
Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 2-A com
os do GRUPO 2-B Geração de substâncias tóxicas em caso de fogo ou explosão
GRUPO 3-A GRUPO 3-B
• Alumínio • Berílio • Cálcio • Lítio • Magnésio • Potássio • Sódio
• Zinco em pó, outros metais reativos e hidretos metálicos
• Resíduos do GRUPO 1-A ou 1-B
Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 3-A com
os do GRUPO 3-B Fogo ou explosão, geração de hidrogênio gasoso inflamável
GRUPO 4-A GRUPO 4-B
• Álcoois -
• Soluções aquosas em geral • Resíduos concentrados dos GRUPOS 1-A ou 1-B • Cálcio • Lítio
• Hidretos metálicos • Potássio
• Sódio
• SO2Cl2.SOCl2.PCl3.CH3SiCl3 e outros resíduos
reativos com água Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 4-A com
os do GRUPO 4-B
Fogo, explosão ou geração de calor, geração de gases inflamáveis ou tóxicos
Continuação do Quadro 2
GRUPO 5-A GRUPO 5-B
• Álcoois • Aldeídos
• Hidrocarbonetos halogenados
• Hidrocarbonetos nitrados e outros compostos orgânicos reativos, e solventes
• Hidrocarbonetos insaturados
• Resíduos concentrados do GRUPO 1-A ou 1-B • Resíduos do GRUPO 3-A
Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO5-A com
os do GRUPO 5-B Fogo, explosão ou reação violenta
GRUPO 6-A GRUPO 6-B
• Soluções gastas de cianetos e sulfetos • Resíduos do GRUPO 1-B Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 6-A com
os do GRUPO 6-B
Geração de gás cianídrico ou gás sulfídrico
GRUPO 7-A GRUPO 6-B
• Cloratos e outros oxidantes fortes • Cloro
• Cloritos • Ácido crômico • Hipocloritos • Nitratos
• Ácido nítrico fumegante • Percloratos
• Permanganatos • Peróxidos
• Ácido acético e outros ácidos orgânicos • Ácidos minerais concentrados
• Resíduos do GRUPO 2-B • Resíduos do GRUPO 3-A
• Resíduos do GRUPO 5-A e outros resíduos combustíveis ou inflamáveis
Efeitos da mistura de resíduos do GRUPO 7-A com
os do GRUPO 7-B Fogo, explosão ou reação violenta
Fonte: NBR 12.807 (ABNT, 1992)
O PORTAL DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP) (2006) também recomenda que haja a segregação dos resíduos químicos em grupos compatíveis, para que estes não apresentem reatividade entre si podendo ocorrer riscos de explosões (ver Quadro 3).
Para os produtos químicos incompatíveis entre si, devem-se providenciar áreas separadas de estocagem, pois, esses produtos podem reagir e criar uma condição de perigo (JÁCOMO, 2004). Alguns exemplos destes produtos químicos incompatíveis são listados no Quadro 4.
Quadro 3 Compatibilidade de algumas substâncias químicas para procedimentos de segregação.
Substância Química Substâncias compatíveis
Organoalogenados
Qualquer resíduo que contenha compostos orgânicos organoalogenados (Cl, Br, I, F), quer seja em pequenas porções ou traços: clorofórmio, diclorometano, tetracloreto de carbono, 1,2 – dicloroetano, hexafluorobenzeno, bromofórmio, aldrin, dialdrin, Hexaclorocicloexano (BHC), dicloroetano, percloroetileno, tricloracético, trifluoracético, clorofenol, brometo de etídio, diclorodifeniltricloretano (DDT), tricloroetileno, clorobenzeno, ácido flúor salicílico, eficloridrina, 1,2,4– triclorobenzeno, cloreto de sebacoila, 1,1,2,2 – tetracloroetano, 2–clorofenol, ácido- orto-fenódico, ácido dicloacético, policloreto de vinila, betacloretano, 1 clorobutano (n butyl chloride), betabromoestireno, clorexidina, biocid, dentre outros.
Hidrocarbonetos e outros compostos orgânicos
Óleos lubrificantes, combustíveis e graxas, estopa/papel contaminados por estes materiais, “thiner”, tintas em geral, querosene, benzeno, cicloexano, benzina, hexano, pentano, éter de petróleo, tolueno, n-heptano, dietilenoglicol (DEG), propilenoglicol, álcoois em geral, cetonas em geral, ácidos (tais como: ácido acético, ácido butílico, ácido fórmico) formol, hexanol, heptanol, propanol, etanol, aldeído benzóico, acrilato de metila, éteres (éter etílico = éter sulfúrico, laurileter), piretróides, xileno, dentre outros.
Medicamentos
Incluem todos os medicamentos que devem ser embalados sem serem retirados das respectivas embalagens* e sem levar em consideração a classe química a que eles pertencem. Não podem se encaminhadas vacinas ou qualquer outro medicamento contendo material biológico (sangue, partes anatômicas, dentre outros), pois estes deverão ser encaminhados para sistemas especialmente licenciados para este fim, de acordo com Resolução nº. 316 (CONAMA, 2002).
Compostos Nitrogenados
Se houver uma pequena quantidade de compostos nitrogenados na mistura, esta deverá ser classificada dentro da classe do maior componente exceto se for um organoalogenado. Os itens incluem: Acetonitrila, aminas em geral (anilina, trietilamina,etilamina, succinimida, isoprapilamina, diisopropilamina, nitrofenol, nitrobenzeno, fenilglicina e outros aminoácidos, amidas (acrilamida, acetamida, dimetilformamida, etc.), piridina, dentre outros.
Organofosforados Herbicidas, pesticidas dentre outros o Diazinon**, Roundup**, Perfekthion**, Baysistem**. Organometálicos n-butil litio, fenil litio, brometo de metil magnésio, metil litio, brometo de fenil magnésio, dentre outros. * Entende-se por embalagens envelopes de comprimidos, blister, ampolas, frascos de vidros e plásticos de
tamanhos variados. ** Nomes comerciais.
Fonte: Adaptado PORTAL DA UNICAMP (2006)
O PORTAL DA UNICAMP (2006) informa, ainda, que alguns compostos não podem ser incinerados por provocarem a geração de compostos tóxicos quando submetidos a altas temperaturas. Pode-se citar, por exemplo, a formação de ácidos alogenados, que podem provocar acidificação da água e do solo; e ainda, formação de dioxinas e furanos, que são altamente tóxicos, entre outras. Os compostos que não devem ser incinerados são:
• compostos sulfurados (compostos inorgânicos contendo enxofre). Os itens pertencentes a esta classe são: dimetilsulfeto, mercaptoetanol, dissulfeto de carbono, ácido sulfosalicílico, ácido sulfanílico, metil-sulfóxido, dimetil-sulfóxido, supracid 400, dentre outros;
• ácido nítrico (água régia), ácido clorídrico (ou ácido muriático), bário, ácido fosfórico, pentóxido de fósforo, sulfato de cobre, carbonato de potássio, nitrito de sódio, sulfito de sódio, bisulfato de sódio, iodeto de potássio, enxofre, cloreto de mercúrio, sulfato de sódio, nitrato de sódio, sulfatos em geral, e todos os outros compostos inorgânicos;
• compostos radioativos;
• compostos com mercúrio, tálio, cádmio e chumbo; • peróxidos;
• ascarel.
Quadro 4 Incompatibilidade de algumas substâncias químicas para procedimentos de segregação.
Substância Química Incompatível com
Acetileno Bromo, cloro, flúor, cobre, prata, mercúrio e seus compostos. Acetona Ácidos sulfúrico e nítricoconcentrados
Ácido acético Ácido nítrico, peróxidos, permanganatos, etilenoglicol, compostos hidroxilados, ácido perclórico e ácido crômico. Ácido crômico Ácido acético glacial, cânfora, glicerina, naftaleno, terebentina, álcoois de baixo peso molecular e muitos líquidos inflamáveis. Ácido hidrociânico Ácido nítrico, álcalis.
Ácido fluorídrico anidro,
fluoreto de hidrogênio Amônia (aquosa ou anidra).
Ácido nítrico (concentrado) Ácido acético, sulfeto de hidrogênio, líquidos e gases inflamáveis, ácido crômico e anilina. Ácido Oxálico Prata e mercúrio
Ácido perclórico Anidrido acético, bismuto e suas ligas, álcoois, papel, madeira e outros materiais orgânicos. Ácido sulfúrico Clorato de potássio, perclorato de potássio, permaganato de potássio e compostos similares de outros metais leves. Alquil alumínio Água
Amônia anidra Mercúrio, fluoreto de hidrogênio, hipoclorito de cálcio, cloro e bromo. Anidrido acético Compostos contendo hidroxil tais como etilenoglicol, ácido perclórico. Anilina Ácido nítrico e peróxido de hidrogênio
Bromo, cloro Amônia, gases de petróleo, hidrogênio, sódio, benzeno e metais finamente divididos. Carvão ativado Hipoclorito de cálcio e todos os agentes oxidantes.
Cloro Amônia, acetileno, butadieno, butano, outros gases de petróleo, hidrogênio, carbeto de sódio, turpentine, benzeno, metais finamente divididos, benzinas e outras frações do petróleo.
Cianetos Ácidos e álcalis
Clorato de potássio Ácido sulfúrico e outros ácidos e qualquer material orgânico.
Cloratos, percloratos Sais de amônio, ácidos, metais em pó, enxofre e substâncias orgânicas finamente divididas ou combustíveis. Cobre metálico Acetileno, azidas e peróxido de hidrogênio.
Dióxido de cloro Amônia, metano, fósforo, sulfeto de hidrogênio.
Flúor Isolado de tudo.
Fósforo Enxofre, compostos oxigenados, cloratos, percloratos, nitratos, permanganatos. Halogênios Amoníaco, acetileno e hidrocarbonetos.
Continuação do Quadro 4
Substância Química Incompatível com
Hidrocarbonetos (propano,
benzeno, gasolina) Flúor, cloro, bromo, peróxido de sódio e ácido crômico.
Iodo Acetileno, amônia e hidrogênio.
Líquidos inflamáveis Nitrato de amônio, ácido crômico, peróxido de sódio, ácido nítrico e os halogênios.
Mercúrio Acetileno e amônia.
Metais alcalinos Tetracloreto de carbono (é provável agente carcinogênico para o homem), dióxido de carbono, água e halogênios. Metais alcalinos (alumínio
ou magnésio em pó) Tetracloreto de carbono ou outro hidrocarboneto clorado, halogênios e dióxido de carbono. Nitrato de amônio Ácidos, líquidos inflamáveis, metais em pó, enxofre, cloratos, qualquer substância orgânica finamente dividida ou combustível. Nitrato de sódio Nitrato de amônio e outros sais de amônio.
Óxido de cálcio Água.
Óxido de Cromo (VI) Ácido acético, glicerina, benzina de petróleo, líquidos inflamáveis, naftaleno. Oxigênio Óleos, graxas, hidrogênio, líquidos inflamáveis, sólidos e gases.
Pentóxido de fósforo Água.
Permaganato de potássio Ácido sulfúrico, glicerina etilenoglicol.
Peróxido de hidrogênio A maioria dos metais e seus sais, álcoois, substâncias orgânicas e quaisquer substâncias inflamáveis. Peróxido de sódio Álcool etílico ou metílico, ácido acético glacial, dissulfeto de carbono, glicerina, etilenoglicol e acetato de etila. Prata e sais de prata Acetileno, compostos de amônia, ácido oxálico e ácido tartárico.
Sódio Dióxido de carbono, tetracloreto de carbono, outros hidrocarbonetos clorados. Sulfeto de hidrogênio Gases oxidantes e ácido nítrico fumegante.
Fonte: Adaptado de Hirata; Filho (2002) apud Jácomo (2004).