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2. O INTERVENCIONISMO PENAL DO ESTADO

2.3. Segregação racial e seletividade punitiva

94 WACQUANT, Loïc op. cit. p. 32 95

―Sozinhos os contraventores da legislação sobre os estupefacientes representam 71% do crescimento da população detida.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 69)

96 ―(...) ficou comprovado que eles aumentam as chances de encarceramento dos habitantes das zonas

urbanas em situação de abandono. Segundo um relatório do FBI, perto de 75 mil jovens foram detidos por este motivo no decorrer do ano de 1992, ou seja, duas vezes mais dos que os presos por roubo.‖(WACQUANT, Loïc op. cit. p. 32)

97 WACQUANT, Loïc op. cit. p. 64 98 CHRISTIE, Nils op. cit. p. 13-14 99

WACQUANT, Loïc op. cit. p. 68

Nesse caminho, quando falamos de Estado penal americano e controle social das ―classes perigosas‖, fica evidente que o foco das políticas e medidas repressivas vem sendo lançadas sobre um público alvo específico, qual seja, a população afro-americana. Desta forma, quando analisamos o tema, percebemos que a segregação racial e a seletividade punitiva são as mãos desse Estado penal e, simultaneamente, o modo que o mesmo tem de viabilizar seu controle social sobre as populações indesejáveis, mais especificamente, a negra, conforme passaremos a examinar.

Em sua obra, Wacquant explica que, ao longo da história dos Estados Unidos, o país apelou a muitas ―instituições peculiares‖ para lidar com os afro-americanos, definindo (com o objetivo de desumanizar e/ou inferiorizá-los), confinando e controlando os mesmos. Primeiramente, a escravidão 101, em seguida, o ―sistema de Jim Crow‖ 102

e, em terceiro, o gueto 103. A similaridade encontrada nas três é ―o fato de terem sido instrumentos que visavam, ao mesmo tempo, a exploração da força de trabalho e a exclusão social de um grupo pária, considerado inassimilável‖. 104

Assim, na ótica do autor, o que se seguiu ao gueto, vindo a ser a era na qual nos encontramos, seria a prisão como a ―instituição peculiar‖ do momento. O motivo segundo o mesmo se encontra na:

necessidade de reforçar uma clivagem de castas que tem se desgastado, apoiando, ao mesmo tempo, o regime emergente do salariado insocializado, ao qual a maioria dos negros está fadada em virtude de sua carência de capital cultural solvível e ao qual os mais desamparados deles resistem, tentando escapar para a economia informal de rua. 105

101

―(...) pivô da economia das plantações e matriz original da divisão racial da época colonial até a Guerra Civil.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 107)

102 ―Este sistema consistia em um amontoado de códigos sociais e legais que prescreviam a separação

total das ―raças‖ e limitavam drasticamente as oportunidades dos afro-americanos, ligando-os aos brancos por laços de submissão sustentados pela coerção jurídica e pela violência terrorista.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 111)

103 ―(...) produto do cruzamento da urbanização e da proletarização dos afro-americanos‖ que, devido aos

―contratos discriminatórios na compra e locação de imóveis forçavam os afro-americanos a se amontoarem em um ―black belt” que logo ficou super povoado, sub equipado roído pelo crime , pela doença e pela deterioração, enquanto a discriminação no emprego os encurralava nas profissões subalternas mais perigosas, degradantes e mal pagas, tanto na indústria quanto nos serviços pessoais.‖(WACQUANT, Loïc op. cit. p. 107 e 113)

104

WACQUANT, Loïc op. cit. p. 109

Entretanto, antes de prosseguirmos no papel da prisão como ―instituição peculiar‖ moderna, é de vital importância compreender o funcionamento dessas ―instituições‖ a partir da história do povo negro nos EUA.

No século XVII, com o objetivo de garantir provisão e controle da força de trabalho para o desenvolvimento da economia (baseada no tabaco, arroz e agricultura mista) da então colônia inglesa americana, passou-se ao recrutamento da mão de obra escrava, importada da África e do Caribe. No final do século XVIII, o sistema escravagista na América já havia se tornado autossuficiente, isto é, não necessitava mais importar novos ―carregamentos humanos‖, tendo uma organização de trabalho altamente lucrativa. 106

Loïc explica que uma das consequências imprevistas da escravidão e da desumanização sistemática dos africanos e de seus descendentes em solo estadunidense foi a ―criação de uma barreira de casta de caráter racial, separando aquilo que se denominaria mais tarde ―brancos‖ e ―negros‖.‖ 107

Assim, a ideologia americana da diferença biológica das raças, somada ao princípio da hipodescendência, tornou possível a convivência da contradição entre democracia e escravidão. 108

Como a divisão racial na América foi uma consequência da escravidão, e não uma pré-condição, a emancipação em meados do século XIX pôs a sociedade branca, mais especificamente a sulista, diante de um duplo dilema: (1°) como garantir o controle da força de trabalho dos antigos escravos109 e (2°) como manter a distinção estatutária fundamental entre brancos e ―pessoas de cor‖. 110

Foi a esse duplo dilema que o sistema chamado de Jim Crow se impôs como solução, consolidando um verdadeiro apartheid.

Insatisfeitos diante de um cenário de (I) brutalidade da opressão no sul, (II) declínio da cultura do algodão e (III) necessidade de mão de obra nas fábricas do norte, milhões de negros emigraram para o norte durante a primeira metade do século XX.

106 WACQUANT, Loïc op. cit. p. 109-110 107 WACQUANT, Loïc op. cit. p. 110

108 ―A crença religiosa e as teorias pseudocientíficas sobre as diferenças entre as ―raças‖ reconciliava a

realidade crua do trabalho servil com a doutrina da liberdade fundada nos direitos naturais, reduzindo a escravidão à categoria de propriedade viva.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 110)

109 ―Graças ao monopólio perene dos brancos sobre as terras e à extensão do sharecropping, que levava os

meeiros negros ao endividamento perpétuo, o sistema de plantação manteve-se praticamente intacto enquanto os antigos escravos transformavam-se em ―um campesinato dependente e sem propriedade, nominalmente livre mas enclausurado pela miséria, pela ignorância e pela nova servidão do arrendamento‖.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 112)

110 Ideias e Placas com as expressões ―colored‖, ―negros only‖, ―darktown‖, ―nigger galleries‖ nos mais

diversos locais (escolas, entradas e assentos de estabelecimentos, igrejas, etc.) além da proibição legal do casamento entre negros e brancos garantiu o respeito a ―lei suprema da preservação das raças‖.

Contudo, os mesmos se viram, mais especificamente durante a década de 1960, ―fechados em uma situação de marginalidade econômica estrutural e confinados em um microcosmo dependente, dotado de sua própria divisão do trabalho, de sua estratificação social interna, (...) uma cidade na cidade‖. 111 Em virtude desse quadro social, a década de 60 foi marcada por uma série de confrontos e revoltas contra o estado humilhante dos afrodescendentes, isto é, excluídos e explorados.

Se por um lado a resposta do Estado a essa série de manifestações pela integração, em tese, foi positiva, 112 por outro, na prática, é possível perceber a manutenção de uma linha de ação em sintonia com a herança da escravidão, isto é, excluir e explorar o negro. Assim, a fim de manter o abismo social, a classe branca desertou das escolas e espaços públicos, emigrando aos milhões para as zonas suburbanas. Em seguida, segundo Wacquant:

Voltaram-se contra o Estado providência e contra os programas sociais dos quais dependiam estreitamente os avanços socais coletivos dos negros. E, a contrário, ofereceram um apoio entusiástico às políticas da segurança ―da lei e da ordem‖ (Law and order), que deveriam reprimir com firmeza as desordens urbanas percebidas como ameaças raciais. Estas políticas apontavam para uma outra instituição especial, capaz de confinar e controlar, senão a comunidade afro-americana em seu conjunto, pelo menos aqueles dentre seus membros que se mostravam demasiado disruptivos, desviantes ou perigosos: a prisão.113

Nesse processo de explicar o repentino encarceramento em massa da população negra nos EUA a partir dos anos 70, o autor busca traçar um paralelo de relações entre o gueto e a prisão. Para isso, Wacquant elenca quatro elementos de similaridade entre o gueto e a prisão: estigma, coação, confinamento territorial e segregação institucional. Para ele o gueto opera à maneira de uma prisão etnoracial 114, enquanto a prisão seria um gueto judiciário115, análogos por sua estrutura e funcionamento.

111 WACQUANT, Loïc op. cit. p. 112-114 112

―Tendo conquistado seus direitos cívicos e o direito de voto, os negros tornaram-se cidadãos no sentido pleno, não tolerando mais o encurralamento no mundo separado e inferior do gueto.‖ (WACQUANT, Loïc op. cit. p. 115)

113 Ibid,. p. 115

114 ―põe na gaiola, por assim dizer, um grupo desprovido de honra e amputa gravemente as chances de

vida de seus membros a fim de assegurar ao grupo estatuário dominante que reside em suas paragens a ―monopolização dos bens e das oportunidades materiais e espirituais‖ (Weber, 1975:935).‖ (Ibidem 117)

115 ―um espaço à parte que serve para conter sob coação uma população legalmente estigmatizada, no seio

da qual esta população desenvolve instituições, uma cultura e uma identidade desonrada que lhe são específicas.‖ (Ibid,. p. 117)

Assim, na pós-modernidade, a prisão estaria exercendo o papel de ―limpar o corpo social da infâmia temporária que lhe é infligida por aqueles entre seus membros que cometeram um crime‖, portanto, atentaram contra a integridade sociomoral da coletividade.

Diante disso, resta claro que o papel da segregação racial expresso na seletividade punitiva do Estado faz do gueto negro um instrumento de exclusão, pela contração simultânea da esfera do trabalho assalariado e da assistência social; ao mesmo tempo em que é desestabilizado ainda mais pela penetração crescente do aparelho penal. Assim, o sistema carcerário se ligou ao gueto:

por uma tripla relação de equivalência funcional, de homologia estrutural e de sincretismo cultural, tanto que eles constituem hoje um único e mesmo

continuum carcerário que encerra uma população redundante de jovens

homens (e cada vez mais mulheres) negros(as) que circulam em circuito fechado entre esses dois pólos, segundo um ciclo de auto perpetuado de marginalidade social e legal de consequências pessoais e sociais devastadoras. 116