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«O Jornal» convida um jornalista Guia espiritual

Rui Osório*

«Uma democracia que se abandona a si mesma, uma democracia sem guias espiritu- ais é uma democracia decapitada» - afirmava Raul Proença.

[...] Vem isto a propósito de Maria de Lurdes Pintasilgo, a quem classifico de «guia espiritual» da democracia.

Antes de mais, sem qualquer lisonja e menos ainda culto da personalidade, o que mais me chama a atenção em Maria de Lurdes Pintasilgo é a sua convicção de que «a grande empresa é mudar a vida», traduzida nesta sua afirmação:

«Mudar a vida é esboçar em cada momento os novos valores e suscitar as condições de experiências que os tornam reais; é captar na experiência a que a Historia nos con- duz os valores insuspeitados, desconhecidos ou ignorados». Afirmação que logo a seguir concretiza deste modo: «Só posso mudar a sociedade mudando-me com ela, criando nela o espaço onde consigo ser, respirar, trabalhar, amar, pensar, de modo diferente por que anseio».

[...] Não admira que Maria de Lurdes Pintasilgo na sua linguagem escrita e falada e na sua praxis fale constantemente de Revolução, experiência, processo, transformação, futuro...como não admira a sua recusa do conformismo.

[...] Maria de Lurdes Pintasilgo entende que a Revolução deve ter um «carácter permanente e incessante» e revestir-se de uma «inesgotável novidade» que só a fé, na sua opinião, «reforçar, intensificar e agudiza». [...] [MLP] faz, entre outras, as interrogações seguintes:

«Queremos ou não um mundo mais justo, mais fraterno, mais solidário? Queremos ou não um mundo mais aberto à imaginação, mais livre, mais conducente à criatividade? Queremos ou não um mundo novo?»

Curiosamente, é uma mulher de fé evangélica que desde há uns vinte ou mais anos acompanhou de perto o itinerário que arranca, aí pela década de 50, da então chamada "teologia do laicado", até àquilo que hoje se designa por "teologia ou teologias políticas e de libertação".

[...] Assim se compreende que Maria de Lurdes Pintasilgo afirme não procurar em teorias políticas, mais ou menos experimentadas, a segurança de um horizonte messiânico próximo.

Está também convencida que «a presença de cristãos (na política) não é garantia de qualquer nova ordem a instaurar» [...] já que a nova ordem por que luta, concebida em termos de justiça, de fraternidade e de solidariedade, é, como diz, «matéria histórica que tem algo a ver com o reino de Deus, não porque nele desemboque, de forma ingénua e tendencial, mas porque a sua procura é, de forma não dita, parte da procura do Reino de justiça que Cristo veio instaurar».

Do itinerário de uma mulher como Maria de Lurdes Pintasilgo, cuja aposta decisiva aponta para um futuro novo, julgo que se poderá dizer que estamos perante um «guia espiritual» da democracia.

[...] O que importa é que nuns e noutros habite a fé que julgará a Revolução, decorrendo dela a esperança num mundo novo que há-de vir, dando razão ao poeta, citado por Maria de Lurdes Pintasilgo, que diz:

«...cantar

É empurrar o tempo

Ao encontro das cidades futuras Fique embora mais curta a nossa vida».

Quero mesmo apostar que esta mulher, que prefere o diálogo com todos ao anátema com alguns, será mesmo imparcial e isenta na tarefa que lhe caberá no próximo acto eleitoral.

O título do próximo texto "Só colagem de Soares derrubará Lurdes Pintasilgo"(p.5) reflecte,

no essencial, as tensões e lutas político-partidárias face à apresentação do Programa do

Governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, na Assembleia da República. Não é tanto a pes-

soa de Maria de Lourdes Pintasilgo que é visada, mas sim as sinuosas concordâncias ou

distâncias políticas entre partidos políticos observadas pela imprensa.

[...] O Parlamento fará acender a luz verde, mas em relação à direita, a primeira mulher portuguesa a chefiar um governo em Portugal encontrará o sinal de circulação proibida.

A direita que recusaria a Lurdes Pintasilgo uma praxe democrática, decidiu conter-se no extremo limite das suas conveniências [...] Os seus oradores mais fluentes e influentes irão metralhá-la, sem dó nem piedade, revesando-se [sic] no fogo

nutrido que sobre o seu governo irão despejar. [...]. O CDS [...] juntará Lurdes Pintasilgo e Nobre da Costa na galeria daqueles que jurou abater. [...].

Tudo indica pois que [...] Lurdes Pintasilgo poderá encarar sem apreensões o arranque para a sua rota de cem dias, deixando, findo esse prazo, abertas as por- tas para quem vier a seguir, como declarou ser seu propósito em entrevista à Rádio Nacional de Espanha.

De autoria de L. P. A. [sic] sob o antetítulo "Política Externa" e o título "Sensibilidade da

questão africana" aborda questões de política externa presentes em Maria de Lourdes

Pintasilgo, (p.6):

Apesar da manutenção em funções de Freitas Cruz como ministro dos Negócios Estrangeiros, não será arriscado prever-se durante a vigência do V Governo Constitu- cional uma «mudança qualitativa» na orientação da política externa portuguesa. [...].

A nomeação de Maria de Lurdes Pintasilgo, antigo embaixador na UNESCO, para Primeiro-Ministro do V Governo Constitucional suscitou nos especialistas em política externa natural curiosidade sobre o modo como vão decorrer as nossas relações com os países estrangeiros.

O interesse e a experiência de Lurdes Pintasilgo pelas questões internacionais iniciou-se ainda antes do 25 de Abril de 1974, mais precisamente em 1971, quando foi nomeada pelo então Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, para a delegação de Portugal à Assembleia Geral da ONU. [...] Lurdes Pintasilgo [...] cedo se apercebeu da necessidade de uma solução política para a "questão ultramarina", vindo mais tarde a entusiasmar-se com a publicação do livro de Spínola "Portugal e o Futuro".

Após a Revolução de Abril foi embaixador na UNESCO, onde desenvolveu intensa actividade diplomática, em prol de uma "nova ordem internacional" [...].

Este seu interesse pelo equilíbrio Norte-Sul e pelo Terceiro Mundo tem preocupado sectores da direita que vêem no actual Primeiro-Ministro «emanações perigosas» das ideias e concepções do tenente-coronel Melo Antunes.

«Aquilo a que aqui provincianamente se chama 'melo-antunismo' – diz Lurdes Pintasilgo – não é senão uma expressão de valores reconhecidos e aceites no contexto das Nações Unidas, como parte do movimento mundial para uma nova ordem inter- nacional baseada no desenvolvimento endógeno de cada sociedade».

Estas opções do Primeiro-Ministro, que em múltiplas circunstâncias tem servido de conselheiro ao Presidente da República, levam a acreditar em «dificuldades» de relacionamento com o Palácio das Necessidades, «fórum» essencialmente conservador e de «ideias estreitas» quanto à política externa portuguesa pós-25 de Abril.

Maria de Lurdes Pintasilgo declarou já que um dos vectores importantes na definição e orientação das relações externas passa pelo Presidente da República, não só por imposição constitucional como também por interesse conjunto de São Bento e Belém.

O Programa do Governo, que será apresentado na próxima segunda-feira [...] abordará em traços muito gerais, como é habitual nestes casos, a política externa.

Fernando Antunes assina um conjunto de artigos cuja interrogação, como título, vai direc-