Na segunda aula realizada o plano se concentrou na perspectiva técnica criativa das circunstâncias dadas (Stanislavski, 1997, 1998) e na ampliação de conflitos cênicos criados por meio de improvisações livres de acontecimentos
costumeiros, com foco na apresentação do “O que? Como? Onde?” proposto
por Spolin (1979). Nesta perspectiva entendemos ser importante para os alunos perceberem a primeiro momento a importância da pesquisa individual e coletiva, referente ao trabalho de criação da personagem, que envolve uma das tantas atividades ligadas ao universo de tarefas do ator.
A proposta das circunstâncias dadas apresentadas pelo encenador Constantin Stanislavski (2007) são de extrema importância.
Elas constituem um dos pilares básicos do sistema. K. Stanislávski lhes atribuiu grande valor, pois elas envolvem todo o processo da criação, desde nossa posição e constituição como artistas, a escolha da obra, a sua análise, até as condições da criação e a criação em si.” (DAGOSTINI, 2007, p. 34)
Entendemos desta forma, que as circunstâncias dadas se referem muito ao entendimento pessoal do ator enquanto ser humano e cidadão e suas percepções sobre os acontecimentos e fatos ocorridos na história, no mundo e em sua própria vida. Além das questões dramáticas textuais que nos colocam frente a acontecimentos ocorridos no universo de uma obra, é importante também lembrar, que este mesmo acontecimento terá diversas interpretações nos sujeitos que tiverem contato com a mesma. Para tanto, cabe levar em conta a interpretação do ator sobre determinado fato, e também a interpretação da personagem, que é justamente o que foi trabalhado neste encontro.
Antes da realização das improvisações foram realizados alongamentos, aquecimentos corporais e trabalhos coletivos voltados à dicção e respiração. Entre os exercícios iniciais destacamos os que trabalhavam com os membros do corpo. Num objetivo inicial de busca por uma consciência corporal, dos movimentos, ações e gestos. Os atos de descer, subir, criar codificações dos membros corporais, trabalhar movimentos fluídos e outros mais destacados foram os primeiros trabalhos desenvolvidos. Em questões técnicas corporais foi perceptível que a maioria dos alunos apresentavam fragilidades que aparentemente, se mostravam como sedentarismo, tais como dificuldades de sentar no chão, levantar, fazer exercícios mínimos de corpo etc.
No que se refere ao trabalho de voz, dicção, articulação e respiração, trabalhamos com a iniciação à respiração diafragmática, na qual colaboraria na projeção e entonação de voz. Iniciamos com os exercícios de praxe conhecidos: contagem de tempo da respiração com a contração do abdômen, articulação trabalhada com travas línguas, realização de movimentos com foco na percepção da respiração, trabalho de entonação das palavras e projeção da voz, canto de notas para a percepção de tons, trabalho de articulação da boca e realização de caretas na máscara facial.
Com o objetivo de detectar a percepção auditiva de tons dos alunos, o professor levou uma flauta-doce que colaboraria tanto na ampliação de sensibilidade das notas cantadas pelos alunos, quanto na detecção de como estes envolvidos retransmitiam os sons e suas respectivas percepções sobre eles. Este momento se deu através da proposta de cantar uma escala de notas
musicais, das quais devia conter do dó maior até o dó menor, alcançando uma oitava, que deveria ser encontrada pelos alunos com o auxílio do som da flauta.
Percebemos na maioria dos alunos uma dificuldade na emissão da voz e no alcançar nas notas determinadas pela flauta. Apenas alguns conseguiram identificar sons mais agudos e mais graves, enquanto outros de forma intuitiva realizavam o exercício. Em momentos de realização de caretas e dilatação da boca por meio de trava-línguas, alguns participantes se sentiram incomodados e com muita vergonha. Vindo desta forma a não realizarem o exercício proposto. No entanto, estas ações já cabiam como colaboradoras no desenvolvimento das próximas práticas, levando em conta as dificuldades de resistências desses participantes (experimentadores cênicos).
Após os momentos iniciais, os alunos foram convidados a realizarem pequenas improvisações cênicas, sempre atentos às questões-temas lançadas pelo coletivo. As improvisações baseavam-se na formação de roda e na entrada de dois participantes em seu meio para a encenação, enquanto o restante escolhia um tema para ser encenado. No decorrer da cena os espectadores poderiam entrar e intervir provocando conflitos ou soluções para o melhor encaminhamento da improvisação.
Os participantes que improvisavam cenicamente recebiam ao mesmo tempo pequenas orientações do professor, e criavam acontecimentos cênicos partindo de estímulos de imaginação dos próprios companheiros de experimentação que compunham a roda e estavam na condição de espectadores.
Num primeiro momento o professor-diretor encenou um assalto no ônibus, proposto pelos espectadores, com dois alunos-atores. Enquanto o professor encenava o assaltado, uma aluna-atriz fez o papel da cobradora de ônibus e o outro aluno-ator interpretou o assaltante. A cena encerrou com a morte do assaltado e em nenhum momento a plateia interviu, tentando evitar tal acontecimento. Como já percebido na primeira etapa do projeto, a maioria dos estudantes encerravam as improvisações com mortes ou fugas, que se apresentam como ações clichês de finalização de cenas ou textos dramáticos.
Após um novo convite do professor aos alunos, alguns destes se comprometeram em realizar outras cenas e tentar detalhá-las e afiná-las
melhor. Uma aluna disse que faria uma cena “bem dramática”, no qual ela
interpretava uma jovem contando ao namorado que estava com câncer terminal, encerrando-a com um desmaio. Outros dois alunos interpretaram um caso de homofobia no meio da rua, da qual se estendeu muito com textos falados. Esta cena foi cortada com a entrada de espectadores que tentaram melhorar o acontecimento cênico.
As experimentações encerraram com uma cena de revelação de gravidez de uma namorada ao companheiro, que acabou sendo finalizada com uma grande briga de família, realizada pela entrada de vários espectadores, o que de certa forma interferiu na estética das ações e reações cênicas.
No decorrer das improvisações os alunos sentiram dificuldade com o pouco espaço na sala de aula, uma vez que haviam 30 estudantes em sala; bem como por conta dos ruídos provocados por alunos de outras turmas que estavam caminhando pelo corredor.
No que se refere à interpretação e verdade cênica, alguns dos participantes se apresentavam vergonhosos e resistentes na realização das ações que condiziam com as propostas das cenas. Ainda que os mesmos apresentassem imaginação aguçada ao desenrolar das improvisações, a encenação destes mesmos pensamentos, acabavam não sendo tão bem estruturadas e realizadas. Por conta disso em alguns momentos o entendimento não ficava claro, e a potencialidade do enredo criado se perdia cenicamente.
Entre as observações técnicas também se fizeram presente as subjetivas relacionadas aos discursos dos alunos. Estas, uma vez analisadas colaboraram na temática do espetáculo a ser montado, já que a maioria dos casos refletiam a realidade dos mesmos sujeitos envolvidos no processo e a contemporaneidade social que vivemos. Desta forma, foi possível perceber que temas como: homofobia, machismo e marginalização, eram encenadas nas propostas cênicas que foram improvisadas pelos mesmos, cabendo a partir daí serem refletidas e dialogadas.