2. CHEIRO DE BORBOLETAS MORTAS: CONFIDÊNCIAS PARTILHADAS EM TEMPOS
2.3 A ESPUMA DAS ONDAS
2.3.1 Segunda carta a André Macedo
Os vínculos iniciados com André, no segundo semestre do ano de 2018, foram expandidos por meio da troca de nossas correspondências por cartas. Tudo o que experienciamos juntos, naquele período, foi reacendido pela leitura de nossas palavras grafadas no papel. André manifestou, em uma de suas cartas, seu desejo de continuarmos a nos corresponder, por isso, aguardei um momento especial para lhe escrever uma segunda carta.
Blumenau, 10 de setembro de 2021 Querido André,
Algum tempo se passou desde que li suas cartas. Lembro da emoção sentida ao recebê-las em minhas mãos! Naquele dia, ou melhor, naquela tarde, eu estava faxinando a casa e fui levar meu lixo até o depósito do prédio. Quando voltei, o porteiro me parou e disse que havia uma carta para mim. Que alegria! Em meio a esse caos pandêmico, foi um respiro profundo.
Terminei a faxina, acendi um incenso e abri seu envelope. Quero partilhar duas imagens que me ocorreram enquanto li sua primeira carta. Você contou que levantara da cama tarde da noite para escrevê-la, lendo essa passagem, criei uma imagem em que via você sentado, com uma luz baixa iluminando sua fronte e suas mãos sobre a caneta e o papel. No momento em que você descreveu o dia passado na cachoeira, imaginei a gente desfrutando um dia juntos na cachoeira que vou, sempre que dá, aqui na área montanhosa da minha cidade, no bairro da Nova Rússia. Penso que estamos juntos enquanto nos confidenciamos através do papel.
Estamos juntos enquanto escrevemos um para o outro, assim como enquanto lemos um a carta do outro.
Me sinto muito grato, André, por tudo o que você partilhou nas suas cartas. Adorei conhecer a sua letra! Fiquei bastante intrigado ao imaginar uma pessoa imagem/energia, como você me descreveu em suas palavras. Percebo que, em nossas pesquisas, atravessamos por sensações que se conversam, e então, vejo que comungamos alguns pensamentos sobre o mundo, isso me deixa feliz. Também penso que “o que podemos fazer, está na performance, no corpo fluindo”, como você escreveu. E sim, a performance permeava, estava ou eram aqueles encontros que desfrutamos juntos quando cursamos a disciplina na UDESC. Aliás, aquela
experiência foi catártica, você não acha? Considero que, como turma, desmascaramos os
“modos de sujeição” que, de certa maneira, a academia e a arte também se utilizam para desestimular nosso florescer. Acho que isso ficou evidente para mim quando fui informado pelo professor que não precisaríamos fazer um trabalho final para a disciplina, pois todo o trabalho já havia sido feito. Tenho muito orgulho de ter feito parte daquela turma, de ter conhecido você e tantas pessoas especiais. Que tempos turbulentos vivemos juntes, naquele segundo semestre de 2018.
Sobre o que se passa por aqui com a pesquisa, vou lhe dizer que confrontar o modo como eu performo o gênero que me foi atribuído em meu nascimento e do qual me identifico, tem sido bastante complexo e doloroso. Às vezes, André, me sinto em uma sala de operações
IMAGEM 35. Imagem aproximada da segunda carta encaminhada a André
Fonte: Elaborada pelo autor.
onde sou, ao mesmo tempo, a pessoa que sofrerá a cirurgia e a pessoa que a realizará sem nunca ter feito isso antes na vida. Nessa sala, não há instrumento algum para operar sobre os acontecimentos que estão por vir, simplesmente porque não existem instrumentos para isso, eles precisam ser criados. Nessa sala, estou só e com o corpo aberto. Então aceito que isso é uma autocirurgia, uma performance, que parte desse corpo aberto e que se estende para o corpo coletivo, que tenta criar novos órgãos, outro corpo, outra sociedade. Tudo é pensado, articulado e escrito dentro dessa sala, que é a minha casa, por entre as roupas, os cômodos, os incômodos, os livros, a comida, as plantas, o casamento, as sujeiras, as videochamadas, as aulas remotas, e absorvido por entre esse cheiro intragável de borboletas mortas.
Contudo, André, tenho a impressão de que as descobertas da pesquisa se confundiram com as coisas todas que estavam a minha volta e com os desacontecimentos causados durante o período de isolamento social. Isso fez com que, muitas vezes, eu me sentisse um tanto ensimesmado. Intuí que era tempo de criar um outro caminho, de me jogar para outros lugares, assim, com o corpo aberto mesmo e permitindo que o que tem dentro escorra e seja exposto.
Você termina sua segunda carta dizendo assim: “o ritual do casamento, pode ser por meio de uma foto, como foi o teu caso, mas a convenção não legitima apenas o rito”. Reflito sobre isso. A utilidade, muitas vezes, toma conta das relações pessoais, não só em casamentos ou namoro, mas até mesmo nas relações familiares e de amizade. A ideia produtivista e mercantilista tá cooptando tudo o que é relativo ao subjetivo. É uma tristeza. Mas aí, novamente André, a performance como transformação de si e como poéticas do cotidiano para a transformação de práticas existenciais é o que me dá tesão. No entanto, as vezes o meu querer é mais forte do que aquilo que, de fato, consigo planejar e realizar. Isso me deixa um pouco aflito, mesmo assim, acredito que tenho caminhado, tropeçado, me equivocado algumas vezes, mas tenho também me arriscado do jeito que consigo.
Você disse também, em sua primeira carta, que a intimidade pode ser um meio de rompermos o véu social e partilharmos, juntes, sentimentos sobre a vida e sobre o mundo.
Tenho pensado a mesma coisa André. Por isso, tenho arquitetado meios para que as Artes da Cena possam se infiltrar no cotidiano social durante o período de isolamento. Tendo em vista que nossa vida social está, neste momento específico, pautada pelas relações digitais, achei oportuno embrenhar-me em uma plataforma virtual e intervi-la com uma ação performativa.
O aplicativo do Tinder me pareceu uma arena de tensões atraente para a pesquisa. Muitas pessoas estão aderindo o uso desse aplicativo na tentativa de conhecer novas pessoas, como é o caso de sua amiga que você mencionou na primeira carta, de viver um romance, e por aí vai... Depois de ter experimentado algumas vivências artísticas via modo remoto, encontrei um caminho de criação para poder trabalhar as reverberações da pesquisa, criando um perfil com meu retrato no aplicativo Tinder.
Saiba que essa carta está sendo escrita a você e pensada para encerrar uma parte do trabalho. Estou aprendendo que encerrar não significa findar algo por completo, mas sim contornar o que foi feito de modo que sua forma possa se mover depois ao ser colocada frente aos sentidos e sentires de outrem. Cada pessoa poderá dar um significado ou não a isso que estou fazendo. Espero conseguir estar gerando algo gelatinoso para que outros corpos consigam tomá-las para si e criar outros formatos. Essa, ao menos, é a intenção.
Espero também que possamos continuar a nos corresponder pelo papel. Em tempos de cheiro de borboletas mortas, quem sabe essa nossa comunicação íntima, por entre a viagem que fazem os envelopes, seja um voo colorido entre mim e você, e que pode se estender para nossas redes de relação? Essa carta encerra, por aqui, uma etapa importante para início de uma outra. Prometo lhe escrever outra carta quando tiver mais novidades.
Ah, querido, vou lhe contar um episódio ocorrido há uns dois meses atrás, para depois então me despedir. Depois que foram autorizadas algumas atividades presenciais, decidi voltar a nadar, estava sentindo muito falta. Certo dia, Sabrina, minha companheira, estava me aguardando na saída do ginásio de natação, eu estava no vestiário tomando banho depois de uma aula. Um dos professores da academia, que nos conhece, mas que não sabe nada a respeito da pesquisa, passou por ela e perguntou “estais esperando a noiva?”, ela sorriu e respondeu “sim”.
Até breve André!
Um beijo do seu amigo Fabricio
PERFORMANCE TRÊS
3. AS NOITES DE NÚPCIAS: DESDOBRAMENTOS DE UMA AÇÃO