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Segunda etapa: Entrevistas com profissionais

Capítulo III - Percorrendo os caminhos da pesquisa: Procedimentos metodológicos,

3.2 Segunda etapa: Entrevistas com profissionais

112 3.1.3 Análise de dados.

Os documentos foram sistematizados por ano de publicação, conferindo uma sequência temporal à análise e, em seguida, adotou-se uma análise descritiva dos respectivos textos, tendo a dimensão da historicidade como eixo de análise, uma vez que a historicidade é um aspecto essencial na concepção de método do materialismo histórico dialético e possibilita levar em consideração o movimento, a processualidade e provisoriedade dos fenômenos. Assim, buscou-se identificar os elementos que caracterizaram a constituição histórica da política de educação integral ao longo do período de tempo considerado, apreendendo o movimento histórico implicado no desenvolvimento dessa política.

ensino-113 aprendizagem se coloca também nesse enfrentamento da vulnerabilidade social, tendo em vista a especificidade da escola em promover desenvolvimento através do acesso e apropriação do saber sistematizado. Em cada fase de entrevistas, participaram profissionais diferentes, e foram utilizados diferentes roteiros de entrevista. Porém, os procedimentos metodológicos adotados foram os mesmos. A seguir, tem-se o detalhamento desse processo.

3.2.1 Lócus.

Essa etapa da pesquisa foi realizada em formato on-line, através de plataformas de chamada de vídeo, e os participantes contemplaram seis escolas de tempo integral do município, localizadas em bairros diferentes. Considerando essas seis escolas onde os(as) participantes atuam, foram abrangidos cinco polos, dentre os nove polos que compõem a rede municipal de ensino. Os polos e bairros contemplados não serão citados aqui para resguardar a identidade dos(as) participantes e das escolas. Contudo, cabe demarcar que, de acordo com a Topografia Social da Cidade de João Pessoa (Sposati et al., 2010), levando em conta o exame dos índices de exclusão dos bairros das regiões orçamentárias, as regiões cujos bairros foram contemplados nesta pesquisa são marcados pela exclusão social, em maior ou menor grau, e apenas dois desses bairros apresentam, na Topografia Social, tendência à inclusão.

3.2.2 Participantes e amostra.

Os participantes foram 16 profissionais atuantes em seis escolas de tempo integral municipais – sendo oito profissionais na primeira fase, e mais oito na segunda fase –, abrangendo os níveis da educação infantil (pré-escola) e ensino fundamental (anos iniciais e finais). Foi obedecido o critério de atuar na instituição há, no mínimo, um ano, garantindo que o profissional tivesse elementos suficientes sobre a realidade daquele local. O número de participantes para cada fase de entrevistas não foi previamente definido, mas deve-se às possibilidades dos contatos que foram feitos pela estratégia “bola de neve” e que aceitaram participar da pesquisa.

114 Segundo Bockorni e Gomes (2021), a amostra em bola de neve, ou snowball, é uma técnica de amostragem geralmente utilizada em pesquisas qualitativas e que permite acessar populações de difícil acesso. Trata-se de uma forma de amostra não probabilística, que utiliza redes de referências e indicações. Para esse tipo de amostragem, é necessário haver um intermediário inicial, que pode localizar ou sinalizar pessoas com o perfil necessário para a pesquisa. Esse intermediário inicial pode também ser um participante. Em seguida, as pessoas indicadas são solicitadas a indicar outras, possibilitando expandir a amostra.

3.2.3 Técnicas e instrumentos.

Foi utilizada como técnica de coleta de dados a entrevista semiestruturada, procedimento que envolve perguntas fechadas e abertas e que dá ao participante a possibilidade de falar sem se limitar às questões feitas pelo pesquisador (Minayo et al., 2016). Como instrumentos, foram utilizados o roteiro de entrevista semiestruturada e o diário de campo.

O roteiro de entrevista serviu como guia para o desenvolvimento da entrevista e permitiu que novos temas e questões fossem levantados durante o diálogo (Minayo, 2014). Na primeira fase, o roteiro abordou os seguintes aspectos: horários, organização e desenvolvimento das atividades pedagógicas, documentos que fundamentam a prática na escola integral, alimentação, higiene, repouso, infraestrutura, articulação com outras instituições ou programas, relação com a comunidade local e utilização de espaços extraescolares. Foi utilizado um roteiro para gestores(as) e especialistas (apêndice B), com foco no funcionamento geral da escola e na articulação com outras instituições e comunidade, e outro roteiro para professores(as) e tutores(as) (apêndice C), com foco nas ações de ensino.

Na segunda fase foi utilizado um único instrumento (roteiro de entrevista) para todos os segmentos de trabalhadores (apêndice D), abordando: aprofundamento sobre as atividades pedagógicas curriculares e extracurriculares; como as atividades do contraturno podem contribuir para o ensino curricular; a contribuição das atividades pedagógicas nos dois turnos

115 para o enfrentamento da vulnerabilidade social; a experiência das atividades pedagógicas no ensino remoto no contexto da pandemia; a contribuição da ludicidade no processo de ensino-aprendizagem; a articulação entre as diferentes áreas do saber; formação profissional para atuação na escola de tempo integral; e participação da gestão escolar e da família no processo de ensino-aprendizagem.

Para Minayo (2014), a entrevista possibilita acessar a fala dos participantes de maneira formal; por isso, ao ser analisada, faz-se necessário considerar o contexto em que tais falas foram produzidas e, se possível, ser complementada por informações oriundas de tal contexto.

Nesse sentido, o outro instrumento utilizado, o diário de campo, constituiu um importante instrumento para registro de informações necessárias ao contexto da pesquisa, mas que não faziam parte da entrevista formal – impressões pessoais, conversas informais, observação de comportamentos e hábitos – considerando que esse tipo de informação pode tornar a pesquisa mais verdadeira e favorecer a qualidade e profundidade das análises (Minayo, 2014; Minayo et al., 2016).

3.2.4 Procedimentos.

Primeiramente, foi realizada a validação semântica dos instrumentos e, em seguida, entrevistas piloto – para cada roteiro de entrevista, foi realizada uma entrevista piloto –, procedimentos que permitiram adequar os roteiros para melhor entendimento do participante, com reelaboração de questões já colocadas e acréscimo de outras que se julgou necessário.

Após os ajustes nos roteiros de entrevista, a pesquisadora entrou em contato com possíveis informantes, ou seja, pessoas com quem já se tinha um contato prévio e que poderiam indicar profissionais com o perfil requerido pelo estudo, caracterizando a estratégia “bola de neve”; posteriormente, foi feito o contato com os(as) profissionais indicados. Os contatos foram feitos on-line – pelo aplicativo de mensagens WhatsApp –, nos quais se explicou os objetivos da pesquisa, os procedimentos, e foi feito o convite para a participação.

116 Com aqueles(as) que aceitaram participar, foi agendado dia e horário, à escolha do(a) participante, bem como acordada a ferramenta de chamada de vídeo que lhe fosse mais propícia e acessível. Em seguida, procedeu-se à realização das entrevistas, de forma individual e on-line, pelos aplicativos Skype, Zoom e Google Meet. Elas foram gravadas em formato de áudio e vídeo, mediante consentimento oral dos participantes, registrado na gravação (Resolução nº 510/2016), após o esclarecimento oral feito pela pesquisadora e envio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em arquivo digital. Posteriormente, as entrevistas foram transcritas na íntegra para tratamento dos dados.

Quanto ao diário de campo, após cada entrevista, a pesquisadora dedicava-se a fazer os registros, que foram sistematizados e organizados em um roteiro (apêndice E), inspirado no modelo proposto por Oliveira (2014), a fim de facilitar o processo reflexivo e a posterior leitura de questões importantes para as análises e a escrita. Foram registradas no diário de campo questões relacionadas ao contexto da pesquisa on-line, envolvendo os contatos com os(as) profissionais, os desafios, imprevistos, situações relacionadas ao trabalho no espaço residencial, e que precisavam ser administradas no decorrer da entrevista, como também impressões e reflexões da pesquisadora e possíveis articulações entre o conteúdo da entrevista e o referencial teórico.

3.2.5 Análise de dados.

No material das entrevistas foi feita uma análise de conteúdo temática, com sistematização dos dados no software MAXQDA. Segundo Kripka, Scheller e Bonotto (2015), a análise de conteúdo tem por finalidade explicar e sistematizar o conteúdo da mensagem e seu significado. Assim, o pesquisador descreve e interpreta o conteúdo das mensagens, buscando respostas para o problema de pesquisa.

A análise de conteúdo temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que existem em uma comunicação e cuja presença ou frequência tenham algum significado para o objeto

117 analisado. O conceito central desta análise é o tema, que consiste em uma série de relações e pode ser apresentado de diversas formas, como através de uma palavra, uma frase ou um resumo (Minayo, Deslandes, & Gomes, 2016). Tal análise é constituída por três etapas: pré-análise; exploração do material; e tratamento e interpretação dos resultados.

A etapa de pré-análise consiste em escolher o material que será analisado, retomando os objetivos iniciais da pesquisa. Subdivide-se em três momentos: leitura flutuante, no qual é feita a leitura geral do conjunto de documentos; constituição do corpus, levando em conta as normas de validade qualitativa – exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência; e formulação e reformulação de hipóteses e objetivos, com a leitura exaustiva do material, norteada pelas indagações iniciais, havendo a possibilidade de abertura para novas indagações e correção de rumos interpretativos (Minayo, 2014).

A segunda etapa, a exploração, consiste em classificar o material analisado, identificando os núcleos de sentido. Para isso, busca-se categorizar o material de modo a organizar o conteúdo, através de um processo de redução do texto a palavras e expressões significativas. Já na terceira etapa, de tratamento e interpretação dos dados, são realizadas inferências e interpretações, em articulação com a fundamentação teórica adotada no trabalho (Minayo, 2014).

Esse processo de categorização e análise aconteceu mediante o uso do software MAXQDA. O uso de softwares para análise de dados qualitativos pode auxiliar no processo da análise de conteúdo, possibilitando explorar os dados de forma mais ampla, através da facilidade de visualização das relações entre os conjuntos de dados (Nodari, Soares, Wiedenhoft, & Oliveira, 2014).

Especificamente, o software MAXQDA possibilita organizar, avaliar e interpretar os dados coletados. Nele, as informações importantes podem ser destacadas com cores, símbolos e elementos gráficos, mas todo o processo de atribuir nomes às categorias, selecionar os

118 fragmentos de texto e atribuí-los a cada categoria, é realizado pelo pesquisador. Portanto, não exclui a importância do conhecimento do pesquisador, mas pode aumentar a velocidade de resposta das análises e a produtividade nos trabalhos (Nodari et al., 2014).

O procedimento consiste em, inicialmente, inserir os arquivos de entrevista no software, que passam a ser chamados de “documentos”, como pode-se ver na figura 4. Os números que aparecem após o nome do documento referem-se à quantidade de trechos categorizados.

Figura 4: Janela “Lista de Documentos” - Software MAXQDA.

Em seguida, na janela específica para codificação, o(a) pesquisador(a) nomeia as categorias e subcategorias, podendo atribuir cores diferentes para cada uma. Através da leitura analítica e reflexões, o(a) pesquisador(a) passa a inserir os fragmentos de texto nas categorias que julgar mais adequadas. A figura 5 mostra a organização das categorias e subcategorias. Ao clicar em cada categoria, recupera-se os trechos inseridos em cada uma.

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Figura 5: Janela “Lista de Códigos” - Software MAXQDA.

O uso do software auxiliou no processo de codificação e análise, pois permitiu organizar os dados de forma mais rápida e facilitou a exploração e manipulação do material, já que cada trecho codificado pode ser recuperado no contexto onde ele está inserido no documento, o que favorece visualizar o todo e tomar decisões – como mudar trechos para outro código que se julgue mais coerente no decorrer da codificação. A sequência de apresentação das categorias neste trabalho segue a ordem em que o material foi trabalhado e não representa uma hierarquia entre elas.

Além disso, é possível grifar trechos dos documentos com diferentes cores, criando um sistema de organização para recuperação de informações importantes; como também fazer anotações referentes a cada segmento de texto codificado, o que possibilitou a organização de reflexões feitas no decorrer da análise e a fácil recuperação posterior, no momento da escrita da tese. O programa utiliza o termo “código” para a classificação dos segmentos de texto;

120 porém, para a apresentação dos resultados aqui, serão adotados os termos “classes temáticas”,

“categorias” e “subcategorias”.

Quanto à análise do diário de campo, foi feita a leitura cuidadosa do material registrado, e, nesse momento, buscou-se identificar trechos importantes para a compreensão do contexto pesquisado, mas que não identificassem os(as) participantes e as escolas onde atuam. Nesse processo, foram feitos alguns recortes nos registros para dialogar com os resultados das entrevistas na escrita do texto e na interpretação e análise dos dados. Esses recortes trazem informações relacionadas aos sentimentos que os(as) participantes manifestaram, a diálogos e acontecimentos ocorridos antes, durante e após as entrevistas, percepções da pesquisadora no momento da entrevista, etc.

Na figura 6, visualiza-se a sistematização das etapas da pesquisa.

Figura 6: Sistematização das etapas da pesquisa.