3. PCC e FDN: Origens e Estrutura das Organizações Criminosas
3.1. Primeiro Comando da Capital – Paz entre os ladrões e Guerra contra a polícia
3.1.2. Segunda fase: 2001 a 2006
O próximo período vai de 2001 a 2006, marcado incialmente pela ampla exposição
do grupo na mídia com a megarrebelião de 2001, o que gerou uma resposta repressiva do
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Estado, principalmente com o Regime Disciplinar Diferenciado
40(RDD), mas ao mesmo
tempo legitimou e conferiu respeito ao grupo, facilitando sua rápida disseminação pelos
presídios (DIAS, 2009a).
A megarrebelião do dia 18 de fevereiro de 2001 contou com 29 penitenciárias da
capital e interior de São Paulo e cerca de 28 mil presos envolvidos, que foi articulada na
Casa de Detenção de São Paulo e sincronizadas por meio de telefones celulares dentro das
instalações, havendo destruição, incêndios, reféns, morte de prisioneiros e ferimento de
agentes. Essa rebelião tinha como objetivo pressionar a volta dos lideres da facção, que
tinham sido removidos dias antes para o anexo da Casa de Custódia de Taubaté, além de
pedirem o fim do anexo com suas rígidas regras disciplinares. Somente no dia posterior é
que as pautas de melhoria das condições prisionais, como alimentação, assistência médica
e fim dos maus tratos foram adicionadas ao pleito (FERREIRA, 2017c; BIROL; JUNIOR,
2011; SALLA, 2006).
O dia da rebelião foi estratégico, justamente no domingo, dia de visita. A presença
das famílias no interior dos presídios tornava a situação muito mais complicada para as
autoridades, que tinham que lidar com a situação sem causar mortes. O saldo foi, segundo
alguns autores, de 16 mortos e 77 feridos (FERREIRA, 2017c), já outros falam da morte de
20 presos, grande parte deles provavelmente inimigos e desafetos da organização. É
importante ressaltar que essa rebelião não excedeu os limites das prisões (SALLA, 2006).
Foi só a partir deste grave acontecimento que o Estado de São Paulo reconheceu o
ANEV e entre as estratégias de enfrentamento a esse cenário, foi criado o RDD, sendo a
única contramedida que se efetivou. Esse regime de encarceramento era muito mais rígido,
com ausência de visita íntima, uma hora de banho de sol e controle de comunicação com
visitas e advogados. Ainda que não possa ser plenamente comprovado com as pesquisas
até então desenvolvidas, de maneira informal, acredita-se que as penitenciárias tentaram
fragmentar o poder do grupo, incentivando a formação de grupos rivais, como o Comando
Democrático da Liberdade (CDL) e o Comando Revolucionário Brasileiro da
Criminalidade (CRBC). Outra ação, na penumbra ente o legal e do ilegal, foi o Grupo de
Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância (Gradi), que por meio do apoio de parte do
judiciário, realizou grampos ilegais, torturas, sequestros e infiltração de presos e policiais
em ações do PCC (ALVAREZ; SALLA; DIAS, 2013).
40 Primeiramente adotado no Estado de São Paulo e depois em todo o país, o regime disciplinar diferenciado consiste no isolamento do preso indisciplinado por até um ano, com direito somente a duas horas de banho de sol por dia (BIGOLI; BEZERRO, 2015).
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Porém, da mesma forma que se criou unidades especiais para conter os líderes
desses grupos organizados por meio do RDD, o controle sobre os presos é quase sempre
frouxo e falta atividades que ajudam na segurança, como o trabalho, esporte, educação e
lazer (ADORNO; SALLA, 2007). Assim, esse mecanismo se mostrou falho, pois não
conseguiu impedir a rebelião posterior e acabou por dar mais respeito da massa carcerária
aos indivíduos que cumprem pena nesse regime, pois o RDD é usado basicamente para
tentar isolar os principais integrantes das organizações criminosas do convívio com os
outros presos (BIGOLI; BEZERRO, 2015).
Outro momento de extrema importância desse período é a mudança da estrutura e
da liderança do ANEV. Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola,
acusou Geleião e Cesinha, líderes da facção, de cometerem atrocidades ainda maiores das
que prometeram combater, motivo que teria levado a divergência entre esses integrantes
41.
E o estopim desse atrito veio com o assassinato da ex-esposa de Marcola em circunstâncias
até hoje não esclarecidas, mas que foi atribuída pela mídia à esposa de Cesinha, um dos
fundadores
42(MARQUES, 2010).
Após o debate da cúpula, Cesinha e Geleião foram expulsos da organização,
Cesinha pelo suposto envolvimento com o crime e Geleião por ter delatado o PCC para
reduzir sua pena e da sua mulher, o que o levou a ser jurado de morte, pelas regras do
proceder. Juntos, teriam criado o TCC (Terceiro Comando da Capital). Cesinha foi
assassinado em 13 de agosto de 2006, enquanto cumpria o RDD com integrantes de seu
grupo, o que criou especulações sobre se sua morte foi motivada pelas divergências do
Marcola ou foi ocasionada por um aliado em resposta a outros problemas (MARQUES,
2010; AZEVEDO, 2009).
Com a ascensão de Marcola, a facção passou por uma democratização, que levou
ao fim da estrutura piramidal e fez com que as decisões fossem tomadas por uma cúpula,e
não mais isoladamente, como era anteriormente por Cesinha e Geleião. Assim, além da
adição do lema de igualdade a bandeira do grupo, passou-se a adotar uma estrutura celular,
41 Mais uma vez, não se pode afirmar que essas informações não podem serem tomados como a única verdade. As informações que tratam sobre crime organizado geralmente são escassas, pois o segredo é a principal proteção do crime organizado contra o Estado e contra inimigos, o que dificulta o trabalho do pesquisador. E muitas vezes, das informações que existem, eles não necessariamente se complementam, nem se pode afirmar categoricamente sua validade como “verdade”.
42 A advogada Ana Maria Olivatto morreu em outubro de 2002, alvejada por tiros na porta da sua casa e segundo parte da mídia, sua morte teria sido ocasionada pelo fato que Geleião afirmou que Cesinha desconfiava que ela tivesse passado informações do grupo para a Secretaria da Administração Penitenciária (AZEVEDO, 2009).