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Segundo a Causa morte

No documento Carolina Becker (páginas 30-43)

Dos 158 registros, 84 declararam a causa morte e 74 não declararam (ver Gráfico 6). Uma dificuldade ao identificar as informações registradas nos documentos de óbitos quanto à causa morte ocorre devido às diferenças do que atualmente são definidas como causa. Nos registros do século XIX, são consideradas causas morte elementos, hoje, tratados como sintomas de doenças e não a doença propriamente dita. Alguns exemplos que aparecem nesses documentos são: inflamação, febre e dor de cabeça. Causas como: de repente, morte natural, de doença e doença crônica, também são elementos quase impossíveis de se classificar. Estas

doenças mal definidas também pode ser consequência de várias doenças distintas, que muitas vezes, por apresentar sintomas parecidos, têm sua identificação dificultada.

158 84 74 0 50 100 150 200 Total de assentos

Assentos que citam a causa morte Assentos que não citam a causa morte

Gráfico 6: Distribuição total dos registros de óbitos.

Fonte: Registros de óbitos de Alegrete Livro 1. Arquivo da Cúria Diocesana de Uruguaiana.

Também se deve levar em consideração o fato de que muitas das epidemias que assolaram o Rio Grande do Sul, na segunda metade do século XIX, não se refletem nos registros de óbitos. Isto ocorria porque os períodos epidêmicos costumavam desorganizar as atividades cotidianas e, muitas vezes, os enterramentos eram feitos de forma apressada a fim de evitar os riscos de contágio, tão temido pela população (WITTER, 2007). Logo, os registros têm falhas profundas em termos estatísticos, o que não invalida o seu uso, em especial pela História da Saúde.

De acordo com os dados encontrados nos registros de óbitos, classificamos as causas morte em oito grupos de doenças: I) Doenças Infecciosas e Parasitárias; II) Doenças do Aparelho Respiratório; III) Doenças do Aparelho Digestivo; IV) Complicações de parto; V) Acidentes, lesões e outras violências; VI) Doenças da Pele e do Sistema Celular Subcutâneo; VII) causas morte mal definidas e VIII) Doenças do Sistema Nervoso (ver Gráfico 7 e

0 5 10 15 20 25 30 Doenças Infecciosas e Parasitárias Doenças do Aparelho Respiratório

Doenças do Aparelho digestivo Complicações de gravidez e parto

Acidentes, lesões e outras violências

Doenças da Pele e do Sistema Celular Subcutâneo

Causas de morte mal-definidas Doenças do Sistema Nervoso

Gráfico 7: Distribuição dos óbitos de acordo com a causa morte.

Fonte: Registros de óbitos de Alegrete Livro 1. Arquivo da Cúria Diocesana de Uruguaiana.

Entre os óbitos assentados encontramos 22 ocorrências (26,2% do total de assentos com motivo do falecimento assinalado) no grupo Doenças Infecciosas e Parasitárias. Desses, 9 assentos são referentes a varíola. A varíola era também denominada na época de bexiga e é uma das causas morte com maior incidência, 10,7% do total. Segundo Amantino (2007), o contágio desta doença se dava de forma direta (suor ou espirro) ou pelo contato com as secreções de um doente que poderiam contagiar outra pessoa que não estivesse imunizada ou pela vacina ou por já ter tido a moléstia. Nessa categoria temos a tuberculose, que também apresentava outro termo de classificação neste período, a “tízica”.

Algumas regiões, por possuírem determinadas características, como umidade ou insalubridade, seriam mais propicias ao desenvolvimento de certas enfermidades. No caso dos escravos, a situação se agravava em razão das condições de vida favoráveis as infecções: a aglomeração nos navios negreiros e depois nas senzalas, as condições sanitárias desfavoráveis, a alimentação precária, o desgaste físico intenso e a quase inexistência de cuidados profiláticos. A alimentação era uma questão que, com certeza, influenciava as condições de saúde dos cativos, mas que não aparece de forma direta nas fontes, assim como o trabalho de sol a sol que também levava a uma baixa expectativa de vida.

As “Doenças do Aparelho Respiratório” representam 11,9% das causas morte com destaque para o defluxo, que era relacionado aos sintomas de gripe, como coriza e entupimento das vias nasais. Entre as doenças registradas também aparecem: pleuris, tosse, pneumonia, moléstia ar, pontada e ataque de asma.

Entre as “Doenças do Aparelho Digestivo” a causa mais representativa é a “hidropizia”. Um caso foi identificado como hidropizia alta, que, por não encontrar

referências, supõe-se tratar da mesma doença. Também se verificou um caso de morte por constipação e outro causado por obstrução. Esse grupo só apresentou mortes entre os homens.

Entre as causas que mais acometiam os inocentes está mal de sete dias (Grupo I) e defluxo (Grupo II), que representam 41,2%. Porém, dos 60 registros de óbitos para esta categoria (0 a 7 anos), somente 17 apresentaram a causa morte, o que dificulta saber qual a doença que tinha maior incidência. Mas se pode inferir que as complicações pós-parto entre os recém-nascidos, e as precárias condições de salubridade e falta dos cuidados necessários eram as principais causas morte, pois dos 60 casos, 12 ocorreram até os 12 dias de vida, 30 até os seis meses de idade e 45 até o primeiro ano de vida.

O grupo com mais causas morte é o VII (causas morte mal definidas), com destaque para a moléstia interna8 que apresentou 10 casos. Espasmo representou 6 mortes, sendo 4 homens e 2 mulheres. Porém, com os estudos feitos até o momento não podemos classificar a que grupo de doenças pertence. Sabemos que espasmo significa uma contração muscular e que pode estar associada a dores localizadas, mas nos diversos relatos deste período encontrou-se associado a diversas patologias, espasmo de ar, espasmo de umbigo, espasmo na coluna.

O fato de as Doenças Infecciosas serem uma das principais causas mortes nos leva a pensar que a má alimentação, condições insalubres e o trabalho intenso deixassem o organismo do cativo suscetível à contaminação de agentes externos. Assim, a falta de higiene somada a alimentação carente de nutrientes e o pouco descanso, necessário à recuperação, impedia a melhora dos escravos.

Por fim, ressaltamos a validade de uma metodologia baseada no estudo demográfico quantitativo, mesmo estando ciente de suas limitações. Este tipo de abordagem nos mostra apenas uma parcela da realidade vivenciada pelos escravos, porém nos traz considerações pertinentes ao aprofundamento da pesquisa quando relacionada a trabalhos qualitativos. Podemos usar essas informações como indicadores, ainda que iniciais, das condições da vida cativa em Alegrete neste período.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em meados do século XIX, encontram-se algumas tentativas dos governos brasileiros de modernizar as condições sanitárias do País, porém nenhuma delas se preocupa com a prática médica voltada para a força de trabalho escrava. O escravo era visto como sujeito transmissor de doenças, como a causa de muitos males. Durante muito tempo, sua presença nos ambientes familiares representava perigo tanto moral, quanto físico. Por isso, é importante pensar o estudo da saúde dos escravos relacionado ao surgimento de propostas de políticas compensatórias, ou seja, perceber as propostas de discussão sobre formas de enfrentamento do racismo no país, na medida em que a sociedade e os setores públicos vão reconhecendo atualmente as desvantagens sofridas pelos negros ao longo da História, preparando a criação de uma política direcionada para a população negra brasileira.

A consolidação de um projeto político de melhoria da saúde pública passa, assim, pela necessidade do desenvolvimento de dados estatísticos que evidenciem as diferenças entre brancos e negros na área da saúde. Por isso, a importância de usar a História Demográfica aliada a História Social a fim de combinar levantamentos quantitativos com análises qualitativas sócio-antropológicas e históricas para se estimar os efeitos do racismo, bem como traçar passos que busquem a recuperação desta sociedade. Neste contexto, a História da Saúde nos traz uma nova abordagem sobre os efeitos da escravidão, percebendo o escravo como agente histórico e não passivo a sua condição.

Como era prática comum no Brasil, na época, é possível supor que a população da paróquia de Alegrete, em geral, também buscava o serviço de curandeiros, parteiras, boticários e os remédios caseiros. Por isso, devem-se levar em consideração as crenças desta sociedade escravista que percebia como causa das doenças também a desventura ou os feitiços e que somente um contra feitiço, ou a proteção de um amuleto poderiam livrar do mal. A maioria da historiografia precedente coloca os escravos e ex-escravos como figuras titulares do ofício de curar. Porém, pedir a ajuda de um curador dependia do conceito que ele tinha na comunidade, das concepções que os doentes tinham de cura e das formas com que a doença se expressava. O cuidado com as doenças era um fator importante nas negociações entre os diferentes grupos sociais deste período, principalmente entre senhores e escravos.

Assim, através do estudo dos problemas da saúde e da doença é possível compreender melhor as relações entre “os problemas privados e os negócios públicos”. Podemos perceber que a saúde é determinada pelas políticas públicas de saúde e higienização, que para este período estudado, priorizava as camadas mais altas da sociedade, e os escravos, o foco do nosso trabalho, tinham uma assistência ínfima. Realidade que foi ignorada por muito tempo, e

vem sendo abordada em estudos mais recentes. O escravo enquanto mercadoria tinha maior valor se apresentasse boas condições de saúde.

A presença dos escravos era inevitável na pecuária, economia predominante em Alegrete. Esta atividade era baseada tanto no trabalho familiar, como na mescla entre o trabalho livre e o escravo. Esta região vinha sofrendo com guerras desde fins do século XVIII, tornando-se palco de inúmeros conflitos. O contato entre os dois países, Brasil e Uruguai, era inevitável, e as estratégias para sobreviver e crescer socialmente eram imprescindíveis. O ambiente de guerras trazia uma insegurança aos habitantes desta região, o que refletiu na construção do processo histórico. As guerras na região de fronteira, as secas e as doenças nos campos, prejudicaram a produção agrária e o seu desenvolvimento, retraindo a economia local.

Assim, percebemos que a partir da História da Saúde é possível refletir sobre as condições de vida destes escravos em uma região de fronteira, usando Alegrete como foco. Com a abolição da escravatura no Uruguai houve um reflexo direto nas relações entre escravos e senhores, pois os brasileiros que possuíam propriedades no Uruguai continuavam levando seus escravos, mas, neste momento, tentavam disfarçar a escravidão com contratos de trabalhos. Entretanto, a fiscalização das autoridades uruguaias tornou mais difícil esta atividade. Porém, os próprios escravos começaram a aproveitar a oportunidade que tinham de fuga e de se tornarem livres, mesmo enfrentando uma desigualdade social bastante forte. Este contato com o país vizinho será um fator decisivo nos processos que levarão à liberdade de muitos escravos no Rio Grande do Sul nos anos seguintes. É interessante entender que a escravidão existiu nesse Estado de forma significativa, mesmo que não com a mesma intensidade dos grandes canaviais ou na exploração do ouro, que ocorriam no restante do país. Por isso é necessário analisar a sociedade escravocrata nesta região, e mostrar que a participação destes cativos existiu na pecuária, como nas estâncias de Alegrete e aqui tiveram também suas peculiaridades.

Nossa opção na escritura deste estudo teve como ponto primário a utilização de registros de óbitos relacionada a uma tentativa de conhecer um pouco mais as condições de vida dos escravos. É, contudo, uma amostragem e, como tal, seus resultados não devem ser vistos como absolutos. O uso dos dados retirados dos registros de óbitos nos leva a perceber uma parte desta sociedade através de métodos usados em estudos na História da Saúde. Percebemos que as doenças foram se diversificando ao longo do tempo. O tráfico negreiro facilitou o transporte de vírus e bactérias e o contato entre diferentes povos levou a diversificação das microbactérias, porém não podemos atribuir aos africanos a

responsabilidade pela transmissões de doenças deste período. Ao usar informações destes documentos retiramos diversos elementos que nos ajudam a elucidar este trabalho.

Verificamos que, assim como ocorria na maior parte da província, a maior incidência de mortes era entre os inocentes, porém as causas morte desta categoria não podem ser inferidas pela falta desse dado nestes óbitos. Sabe-se que a maioria das mortes ocorreu até o primeiro ano de vida e um terço destes assentos antes de completar treze dias. Assim, a maior parte das mortes de crianças dava-se ainda nos primeiros meses, quando os riscos de vida eram maiores pela exposição às moléstias e a causa morte de maior incidência foi mal de sete dias. As mortes dos inocentes também ocorriam devido às lesões durante o parto que, em geral, era realizado por parteiras ou curiosas que pouco ou nada podiam fazer quando nasciam crianças prematuras, e os dias que se seguiam ao parto tornavam-se críticos devido à ameaça do tétano neonatal. Dessa forma, percebe-se que a mortalidade infantil representa um importante índice de uma situação social, tanto no passado quanto nos dias atuais.

Em relação aos óbitos entre os sexos vemos que alguns dados reforçam a tese do peso do fator biológico, como o fato de morrer mais homens e eles terem uma expectativa de vida menor que as mulheres. Essas diferenças podem ser explicadas pela resistência física. Mas essas diferenças não podem ser explicadas somente pelo fator biológico. Durante séculos os benefícios femininos no campo biológico foram neutralizados pela sua inferioridade social. As mulheres ficavam expostas aos riscos da gravidez e recebiam tratamentos inferiores quanto à alimentação, higiene e cuidados.

No grupo que identificamos causas mortes classificadas por “acidentes, lesões e outras violências” (Grupo V) verificamos algumas diferenças entre os sexos, e as incidências de causa morte. Os ferimentos por arma branca ou por arma de fogo, os assassinatos, os desastres e outras situações violentas somente fizeram vítimas entre o sexo masculino, enquanto as queimaduras fizeram vítimas entre o sexo feminino. Isso leva a perceber os riscos ocupacionais de homens e mulheres o que pode refletir certos ofícios desempenhados por esta população. O trabalho escravo era importante na região de fronteira. Os escravos do sexo masculino podiam trabalhar em todas as atividades da produção agrária. Entre as mulheres, além de ofícios semelhantes aos dos homens, como a de roceiras, também desempenhavam os serviços domésticos, cuidavam das esposas de seus senhores nos partos e da família nas suas enfermidades, e ajudavam a cuidar dos filhos das mesmas. Este estudo poderá ser enriquecido com o estudo dos inventários, em que os senhores declaravam os escravos e sua função.

Dos 158 registros, 84 declararam a causa morte e 74 não declararam. Uma dificuldade ao identificar as informações dos registros de óbitos quanto à causa morte ocorre devido às diferenças do que atualmente são definidas como causa: inflamação, febre e dor de cabeça.

Causas como: de repente, morte natural, de doença e doença crônica, também são elementos quase impossíveis de se classificar. Isso, às vezes, dificulta o trabalho do historiador de compreender, sob a ótica nosológica moderna, as doenças dos escravos e libertos. Estas doenças mal definidas também pode ser conseqüência de várias doenças distintas, que muitas vezes, por apresentar sintomas parecidos, têm sua identificação dificultada.

O grupo “Doenças Infecciosas e Parasitárias” representou um importante índice de óbitos, entre as principais causas morte encontramos a varíola. Doença que acometia em todo o Brasil e representava um grave problema de saúde publica para as autoridades brasileiras. As formas de contágio dessa doença são facilitadas em regiões que possuem determinadas características, como umidade ou insalubridade, propícias ao desenvolvimento desta e de outras enfermidades. No caso dos escravos, a situação se agravava em razão das condições de vida favoráveis as infecções: a aglomeração nos navios negreiros e depois nas senzalas, as condições sanitárias desfavoráveis, a alimentação precária, o desgaste físico intenso e a quase inexistência de cuidados profiláticos. A alimentação era uma questão que, com certeza, influenciava as condições de saúde dos cativos, mas que não aparece de forma direta nas fontes, assim como o trabalho de sol a sol que também levava a uma baixa expectativa de vida.

O fato de as doenças infecciosas serem uma das principais causas morte nos leva a pensar que a má alimentação, condições insalubres e o trabalho intenso deixassem o organismo do cativo suscetível à contaminação de agentes externos. Assim, a falta de higiene somada a alimentação carente de nutrientes e o pouco descanso, necessário à recuperação, impedia a melhora dos escravos. Podemos usar essas informações como indicadores, ainda que iniciais, das condições da vida cativa em Alegrete neste período. Estudar esta sociedade, enquanto maioria ou minoria oprimida pode contribuir para os estudos e a compreensão dos escravos de maneira geral, bem como as especificidades de uma região de fronteira, como Alegrete.

Assim, a nossa intenção foi colaborar para um estudo significativo e bastante atual no meio acadêmico. A partir da História da Saúde podemos construir enredos que nos levam a perceber uma sociedade escrava diferenciada do resto do país, porém não menos expressiva. Suas peculiaridades nos trazem o desejo de aprofundar estudos que nos mostrem, principalmente, como eram as relações dos cativos com uma sociedade altamente hierarquizada e como estes conseguiram sobreviver num espaço em que às condições de acesso as melhorias sanitárias eram pequenas, mas que mesmo assim, levaram muitos destes negros ao destaque entre as práticas terapêuticas a exemplo da cura. A continuidade deste trabalho trará novas fontes de pesquisas, como os inventários post mortem, que nos ajudarão a

avaliar a quantidade de negros existentes nas estâncias e compreender de forma mais qualificada a colocação destes escravos na sociedade sulina.

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No documento Carolina Becker (páginas 30-43)

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