• Nenhum resultado encontrado

Segundo Ato – Problemas para escolher a cena

No documento NA DRAMATURGIA E NO CINEMA (páginas 107-110)

III.I Sobre um certo escrito: preparação e escrita do roteiro cinematográfico

III.4 Transformação do texto teatral em texto cinematográfico

III.4.2 Segundo Ato – Problemas para escolher a cena

Para o segundo ato adotou-se a divisão em 12 cenas para um total de 8 planos- sequência. Assim como no ato anterior, as cenas são preparadas pelas rubricas já indicando os primeiros acontecimentos com os personagens.

(Quarto de Herculano que está Se vestindo. Sentado na cama põe talco nos pés. Entra Serginho. Para olhando o pai, que não o viu. Herculano assovia.) (RODRIGUES, 2005, p. 41).

Na CENA 1, exatamente como anuncia a rubrica, Serginho retorna à casa do pai e não está feliz com ele. Serginho se sente traído por acreditar que o pai havia abandonado o luto e não aceita o beijo oferecido por Herculano:

SERGINHO – E o seu luto, papai? (triunfo) Recuso. Recuso o teu beijo. E o senhor tirou o luto por quê? (RODRIGUES, 2005, p. 41).

A volta de Serginho não é casual, pois tem como objetivo controlar as ações do pai e se assegurar de que este não vai procurar companhia de outra mulher para assumir o lugar de sua falecida mãe.

No 15º PLANO-SEQUÊNCIA, que corresponde à primeira cena do segundo ato,

acontecem algumas alterações expressivas em relação à obra de Nelson Rodrigues. A escolha de cenário por Arnaldo Jabor para o filme nessa cena não é o quarto de Herculano, mas o cemitério em frente ao túmulo onde está enterrada a sua mulher. O diálogo entre pai e filho é muito tenso e, ao final, Serginho deixa Herculano sozinho no cemitério exatamente como no início da cena. Mesmo o fato de ela transcorrer durante o dia não retira o seu aspecto sombrio, o que é favorecido pelo ambiente.

É interessante observar que algumas mudanças realizadas por Arnaldo Jabor de cenários em estúdio para cenários externos indicam claramente processos de viagem: o passeio de carro de Herculano simbolizando o início de uma jornada, no primeiro ato, e o cemitério como o fim de todas as jornadas, a viagem definitiva, a descida para o seio da terra, no segundo ato.

A CENA 2 da peça tem Herculano de volta a casa e sua pressa denuncia a urgência com que procura por Serginho, mas as três tias não o deixam chegar ao garoto por um tempo. A insistência de Herculano acaba por lhe favorecer e volta a ocorrer novo diálogo entre pai e filho. A conversa não é tranqüila, o tom é dramático. Eles voltam a falar sobre a mãe morta de

Serginho, o qual cobra de Herculano o cumprimento da promessa feita, agravando o desentendimento entre eles. A cena termina com Herculano chorando.

A CENA 3 da peça traz de volta Geni, em um lugar esperando por Herculano, desesperada. Ela atendera ao chamado dele e esteve aguardando por ele por um bom tempo. Herculano chega e conta a ela sobre a conversa que teve com Serginho. Mas o motivo que o fez chamar Geni é outro: – Quer largar essa vida, agora, agora, neste minuto? (RODRIGUES, 2005, p. 50) – Ele então lhe fala sobre casamento e Geni lhe pergunta: – E

você, casa comigo? (RODRIGUES, 2005, p. 51) – Não há resposta por parte de Herculano e fecha-se a cena.

Na CENA 4, mais uma vez muda-se o foco. Herculano agora está com uma das tias que o repreende severamente, pois ele havia passado três dias e três noites com uma prostituta, quando deveria estar recolhido ao luto, atendendo ao pedido de Serginho.

Na CENA 5, há novo corte. Quando volta a cena, Patrício está no centro. Entra Herculano enfurecido, pega o irmão pela gola do paletó, pois acredita que Patrício é o responsável por todos saberem do seu envolvimento com Geni. Patrício diz que Herculano foi traído pelas próprias cuecas, ao que este retruca que deixará o irmão morrer de fome.

Na CENA 6, voltam Geni e Herculano. Ela deseja saber se ele quer casar. Herculano admite, falando até que quer levá-la para sua casa no subúrbio. Ele completa dizendo que pretende mandar Serginho em uma viagem a Europa.

Na CENA 7, após deixar Geni, Herculano procura o médico da família para encontrar um meio de cuidar de Serginho; segundo o médico, o rapaz deve ser afastado das tias.

A CENA 8 mostra Herculano falando para as tias sobre a viagem pretendida para Serginho, segundo a opinião do doutor. Elas dizem que a palavra do doutor não tem valor em razão de ele ter abandonado a mulher e “amigado” com a enfermeira de seu consultório. Na CENA 9, Herculano procura ajuda na igreja, mas o padre diz que não quer participar de tal discussão e que é contrário à viagem de Serginho.

Na CENA 10, não restando mais nenhuma alternativa, Herculano procura novamente seu irmão Patrício. Este não perde a oportunidade de tirar alguma coisa de Herculano, mas se compromete em ajudá-lo a recuperar a confiança do filho.

A CENA 11 traz de volta Herculano e Geni. Ambos estão muito nervosos e acabam brigando. Geni ameaça deixá-lo e voltar para a zona. Ela afirma que pretende ser de qualquer um menos de Herculano.

Na CENA 12, alguém bate à porta insistentemente, aos gritos. É uma das tias, a número 1, à procura de Herculano: – O ladrão boliviano. O ladrão boliviano.(RODRIGUES,

2005, p. 67) – Ele recebe a notícia do estupro e se assusta. Apavorado, deixa a casa depois de ouvir que Serginho servira de mulher para o ladrão boliviano. Depois da saída de Herculano, a tia conversa com Geni maldizendo um cem números de pessoas e, por último, os pederastas. Ela diz que Serginho era um santo: – Meu menino era impotente como um santo. (RODRIGUES, 2006, p. 69).

Do 16º ao 22º PLANOS-SEQUÊNCIA, dentro do segundo ato, as mudanças realizadas por Arnaldo Jabor continuam aparecendo no roteiro adaptado. Herculano não procura Serginho. Ele vai ao encontro de Geni em uma das muitas ruas do Rio de Janeiro em um dia de sol. A conversa entre eles leva ao desfecho desejado por Geni e, por influência de Patrício, Herculano diz que quer se casar com ela. Geni, então, começa a cantar e a rir na calçada.

Não ocorre uma discussão perigosa entre Patrício e Herculano e tampouco sua busca por ajuda para o filho, além de uma possível viagem para a Europa. Estes são fatos que acontecem no texto dramático: desde a busca de ajuda para mandar Serginho para a Europa ao confronto verbal entre Herculano e as tias.

Herculano leva Geni para o imóvel no subúrbio, no qual morara com a esposa. Mais uma vez confirma que se casarão e que levará Geni ao leito nupcial, onde pretende deflorá-la. Em seguida, vai embora, enquanto ela abre a casa e começa a descobrir os móveis e a abrir as janelas. O recurso de remover os lençóis que cobrem os móveis funciona como uma quebra desse teor sombrio que envolve a casa. De um lado, vemos Herculano deixando a área da casa exultante, mas, dentro da casa, Geni se mostra triste e angustiada. Segundo a versão de Arnaldo Jabor, Herculano retorna à casa da família para falar com Serginho, que está sendo lavado pelas tias, e tudo quanto consegue é ficar de fora do banheiro.

Na casa do subúrbio, Geni anda de um lado a outro. No mesmo momento, na casa da família, Serginho olha para um terno. Volta a imagem para Geni, comendo à mesa, sozinha, servida por uma empregada branca. Herculano chega à casa do subúrbio e se entregam ao ato sexual. Vão para fora da casa e, no jardim, são flagrados por Serginho. Enfurecido, este deixa a casa correndo e entra em um bar onde um bêbado o provoca e acontece uma briga. Serginho acaba preso e, na cadeia, enquanto os presos cantam Bandeira branca, ele é violentado pelo ladrão boliviano. Aqui uma mudança importante, pois ao longo de todo o texto original o ladrão boliviano é apenas citado, não há cenas em que ele aparece.

Arnaldo Jabor, então, conduz o espectador de volta à casa no subúrbio, onde se vê Herculano e Geni, nus, deitados em um sofá. Eles começam uma discussão que somente termina quando alguém bate à porta. Ele procura as calças desesperado, pois se trata de sua

tia. Ela entra na casa e dá a notícia sobre o terrível destino de Serginho, violentado pelo ladro boliviano. Temendo pela vida do filho e furioso com a polícia, Herculano deixa a casa e Geni fica sozinha com a tia, que condena todos pela fatalidade do garoto.

Assim sendo, fica claro que a ordem estabelecida no texto dramático de Nelson Rodrigues foi modificada também no segundo ato. A partir do 16º ao 22º PLANOS- SEQUÊNCIA, várias partes foram retiradas, como a conversa com o padre, a busca de ajuda no consultório médico e, finalmente, o próprio Patrício não aparece mais e não responde por Serginho ter descoberto o romance de Herculano e Geni. Todo o segundo ato está reduzido, com várias cenas removidas durante o processo de adaptação realizado por Jabor. Entretanto, isso não prejudicou o texto; pelo contrário, ajudou a dar mais agilidade ao roteiro. O espectador não chega a se sentir cansado ou sem respostas. A maneira como o foco passa de Geni para Herculano e retorna aos dois, quase como o olhar do espectador, assegura a manutenção da atenção quanto aos fatos que se desenrolam na tela e apenas o desfecho do segundo ato se aproxima mais do texto original.

No documento NA DRAMATURGIA E NO CINEMA (páginas 107-110)

Documentos relacionados