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CAPÍTULO 1: AVANÇOS E RETROCESSOS DOS

1.2 Histórico da Legislação Florestal no Brasil

1.2.3 Período Republicano (a partir de 1889)

1.2.3.2 Segundo Código Florestal (Lei n°4.771/65)

De acordo com Ahrens (2003), em decorrência das dificuldades verificadas para a efetivação do Código Florestal de 1934, elaborou-se proposta para um novo diploma legal que pudesse normatizar adequadamente a proteção jurídica das florestas brasileiras (BRASIL, 1934). O projeto, remetido ao Congresso Nacional em 1950, procurou avançar no entendimento jurídico da matéria, sem alterar, entretanto, a essência do seu conteúdo conceitual legal, incorporando percepções bastante avançadas para a época, ainda preservadas na atualidade.

A nova lei trouxe muitos aspectos positivos para proteção ambiental, a começar pela consideração de todas as florestas como bens de interesse comum

a toda população. Ao fazer esta declaração, impôs limitações às propriedades privadas ponderando os cuidados necessários às áreas a serem preservadas, e também, antecipou à noção de interesse difuso sendo o precursor da Constituição Federal.

De acordo com Laureano e Magalhães (2011), os avanços na legislação de 1965, podem ser facilmente verificados. Segundo os autores, enquanto o Código de 1934 tratava de proteger as florestas contra a destruição do patrimônio florestal do país, limitando aos proprietários rurais o irrestrito poder sobre suas propriedades, o Código de 1965 refletia uma política intervencionista do Estado sobre a propriedade imóvel, na medida em que as florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação foram consideradas bens de interesse comum a todos os habitantes do país (BRASIL, 1934, 1965).

Kengen (2001) possui a mesma visão conservacionista quando relata que o novo Código Florestal apresentou um viés intervencionista ao permitir ao Estado uma interferência direta e ostensiva no uso da propriedade para a proteção das florestas, visando o interesse coletivo.

No entendimento de Siqueira e Nogueira (1993), o novo código definiu duas linhas de política para recursos florestais brasileiros. A primeira, de proteção, estabelece as florestas de preservação permanente, reserva legal e as áreas de uso indireto (Parques Nacionais e Reservas Biológicas) e, a segunda, de conservação, por meio do uso racional, isto é, a exploração das florestas plantadas e nativas vinculando o consumo com a reposição florestal, o uso múltiplo através de exploração de áreas públicas (Florestas Nacionais) e privadas, e por fim, pelo incentivo a reflorestamento através de deduções fiscais.

Outro aspecto positivo da Legislação de 65 pôde ser verificado com a mudança da nomenclatura de “florestas de preservação permanente” para Área de Preservação Permanente (APP). A nomenclatura antiga abria lacunas para distorções da hermenêutica, pois consideravam como preservação permanente

apenas formações vegetais compostas por florestas. Mais tarde em 2001, para tornar indubitável o entendimento das APPs, foi promulgada a Medida Provisória 2166-67 de 24 de agosto de 2001, que consagrou a terminologia dessas áreas. Pela mesma medida, toda área, mesmo aquela desprovida de vegetação passa ser considerada de preservação permanente (BRASIL, 1965, 2001).

Juras (2004) afirma que a Lei n°4.771/65 foi especialmente importante tanto para conservação da APP, que protegeu a vegetação marginal de lagos e rios, encostas e topos de morros, manguezais e restingas e outras formas de vegetação, proporcionando o habitat necessário à sobrevivência da flora e da fauna silvestre, quanto para a RL que a princípio tinha como função a produção de madeira e outros produtos florestais, e agora são reconhecidas e valorizadas pela sua função ecológica de conservação da biodiversidade (BRASIL, 1965).

O então novo código passou a ser um considerável instrumento disciplinador das atividades florestais, entretanto, o órgão criado para se fazer cumprir a legislação, estava vinculado ao ministério da agricultura e se tratava do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) (MAGALHÃES, 2002). Vale salientar aqui, que no caso de alguma restrição ao crescimento agrícola proporcionado pela proteção florestal, a expansão do setor seria, sem dúvida alguma, privilegiada sob todas as circunstâncias.

Apenas por meio dos acontecimentos da década de 70, com as pressões internacionais para proteção ambiental, que a ideia de crescimento econômico a qualquer custo seria substituída pelo desenvolvimento sustentável, onde deveria haver o equilíbrio entre produção versus proteção, para garantia de recursos às futuras gerações.

A década de 70 foi marcada por grandes eventos e manifestações em prol do meio ambiente, devido a sucessivas ocorrências de impactos negativos acarretados à natureza desde o início da década de 50 com o advento da

industrialização. O evento de maior destaque ocorrido na época foi a conferência de Estocolmo na Suécia em 1972, que além de ser o precursor do conceito de Desenvolvimento Sustentável, levou o Brasil, a transformar suas bases políticas. Neste evento, a delegação brasileira defendeu posições polêmicas como a de que a poluição seria desejada desde que trouxesse crescimento e desenvolvimento para o país. Contudo, por pressões externas, o governo acabou adotando um comportamento preventivo e alinhado à tendência nacional de criar e reforçar as instituições específicas para conduzir melhor as questões ambientais (RIBEIRO, 2001). A partir daí foi criado a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) visando dotar a administração pública federal de um espaço institucional destinado à gestão dos recursos ambientais (KENGEN, 2001).

A criação e o reforço de instituições ocorreram em um momento político decisivo para o país, pois coincidiram justamente com o início da discussão e implementação dos Planos Nacionais de Desenvolvimento (RIBEIRO, 2001), cujo objetivo primordial era preparar a infraestrutura necessária para o desenvolvimento do Brasil, além de prever investimentos em tecnologias e expansão de alguns setores industriais (ALMEIDA, 2006).

A partir da década de 80, com a criação da Lei n°6.938 de 1981 que dispôs sobre a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), encerra-se o período de evolução do direito ambiental, surgindo leis, decretos e resoluções para de efetivar a tutela ambiental (BRASIL, 1981). A fim de se cumprir esta política criou-se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, composto pela junção das extintas Sudhevea (Superintendência da Borracha), SEMA (Secretaria do Meio Ambiente), Sudepe (Superintendência da Pesca), IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), com atribuições de fiscalização, controle o fomento de recursos naturais.

Visando tornar o Código Florestal e as normas que tutelam o meio ambiente, ainda mais exequíveis às diversas conjunturas que o indivíduo pode se deparar, foi instituído neste período, pela PNMA, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), com o propósito primordial de assessorar o Governo através da formulação de parâmetros, padrões ambientais, diretrizes e de resoluções. Segundo Borges, Rezende e Pereira (2009), o direito ambiental neste período foi marcado por força e personalidade, com uma legislação eficiente e com grande poder de ação no contexto nacional, estando todas as decisões políticas a reservar espaço para a proteção ambiental.

Com a constituição de 1988, consolida-se a evolução do direito ambiental e reforça-se a importância do meio ambiente através do Artigo 225, pelo qual, o meio ambiente foi tratado como bem de uso coletivo e comum a todos os cidadãos, sendo dever de cada um proteger os recursos naturais para presentes e futuras gerações. Ao acentuar o prestígio do meio ambiente, a constituição estimulou a ocorrência de vários eventos para o aperfeiçoamento da proteção ambiental, que a partir daí foram acontecendo sucessivamente (BRASIL, 1988).

De acordo com Kengen (2001), o projeto de proteção ambiental mais importante foi o Programa Nossa Natureza, cujos objetivos se pautaram na contenção antrópica sobre o meio ambiente e recursos naturais, na estruturação do sistema de proteção ambiental, na proteção das comunidades indígenas, na regulamentação da ocupação e exploração da Amazônia, no desenvolvimento da educação ambiental e conscientização pública para a conservação da natureza, e na regeneração do complexo de ecossistemas afetados pelas atividades humanas. Mais um evento que merece destaque por ter marcado o aperfeiçoamento do Direito Ambiental foi a realização das Conferências das Nações Unidas sobre o meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO-92), cujo resultado final promoveu importantes recomendações para a tutela

ambiental através de documentos como Agenda 21, Convenção sobre o clima e Convenção sobre biodiversidade.

Ainda em 1992 outra conquista para as questões ambientais atribui-se à criação do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMARHAL) para articular a administração ambiental do país e anteceder o que seria em 1999, o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Nesta época também surgiram as principais normas que asseguram a proteção

ambiental: Lei de Crimes Ambientais (Lei n° 9.606/98); SNUC (Lei n° 9.985/00), Lei das Águas (Lei n° 9.433/97) que institui a Política Nacional de

Recursos Hídricos (BORGES; REZENDE; PEREIRA, 2009; BRASIL, 1997, 1998, 2000).

Pode-se perceber que após a instituição do segundo código florestal, vários eventos ocorreram com intuito de aprimorar as medidas de controle e gestão ambiental. O próprio Código Florestal foi alterado no período 1965 a 1999, para corrigir falhas e criar mais restrições, que por sua vez geraram preocupações por parte da sociedade, o setor rural.

A partir destas preocupações, começaram a surgir diversas propostas de mudanças no Código Florestal Lei n° 4.771/65 culminando com o primeiro Projeto de Lei, o PL n° 1.876/1999 de autoria do deputado Sérgio Carvalho que dispôs sobre APPs, RLs, exploração florestal e propôs sobre a revogação do Código Florestal de 1965 (BRASIL, 1965, 1999).

A proposta foi arquivada e desarquivada várias vezes até ganhar força em 2009, quando foi instalada a Comissão Especial do Código Florestal para deliberar sobre o projeto e dez apensos, sob o comando do relator Aldo Rebelo e do presidente deputado Moacir Micheletto. Após tramitações, foi aprovado em abril de 2012 o projeto do relator e deputado Paulo Piau, e posteriormente sancionado, em maio do mesmo ano, pela presidente Dilma Roussef, o novo Código Florestal sob Lei n° 12.651/12 (BRASIL, 2012a). Ao vetar parcialmente

o texto, a presidenta promoveu 32 modificações que resultaram na medida provisória MP571/12, convertida em Lei n° 12.727 em 17 de outubro de 2012 (BRASIL, 2012b).