O segundo caso em questão trata do recrutamento de servidores públicos com a garantia de acesso ao trabalho, livre de qualquer preferência ou discriminação, do distrato de contratações temporárias, com pretensões irregulares permanentes ou indeterminadas, no Poder Legislativo do Estado do Pará, da renegociação de verbas orçamentárias no valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), para custear programas de capacitação de trabalhadores, e da recomendação para não adotar medidas desviantes do cumprimento da decisão judicial de distrato dos servidores beneficiados com regras de preferência. Tudo resultado de uma intensa atividade de diálogo institucional envolvendo o MPT, o Ministério Público estadual (MPE), o Estado do Pará, por intermédio do Poder Legislativo e do Judiciário Trabalhista.
Assim, o objeto da investigação e do diálogo desse caso é o recrutamento de servidores públicos com a garantia de acesso ao trabalho, livre de qualquer preferência ou discriminação19, haja vista as irregularidades nas contratações temporárias encontradas no Parlamento paraense. A proposta de acordo ministerial, por meio de TAC, previa: publicação de edital para a realização de concurso público no prazo de trinta dias; conclusão do concurso público no prazo de 6 (seis) meses após a data de publicação do edital; afastamento dos servidores temporários no prazo de dois meses após a conclusão do concurso, conforme ata de audiência extrajudicial de 27 de abril de 2005.
19 Esse caso teve início em 16 de março de 2005, com a instauração de procedimento administrativo que tomou o n.º 397/2005 e depois foi renumerado, passando a PA n.º 001182.2010.08.000/5.
O acordo foi firmado em 13 de março de 2005, por meio do TAC n.º 110/2005 (rectius: termo de acordo de concretização de direitos humanos (TACDH)), que impunha ao Estado as seguintes obrigações:
a) somente contratar servidores mediante prévia aprovação em concurso público, na
forma do artigo 37 da CRFB;
b) somente contratar servidores por tempo determinado nas hipóteses de necessidade
temporária de excepcional interesse público, nos termos da legislação vigente;
c) realizar concurso público, objetivando suprir as lacunas decorrentes do
afastamento dos servidores temporários até 30 de junho de 2006;
d) rescindir os contratos temporários realizados de forma irregular na mesma data;
e) comprovar o cumprimento da cláusula quarta do acordo (rescindir os contratos
temporários);
f) dar publicidade ao cumprimento das obrigações previstas no próprio TAC.
Em razão de circunstâncias não previstas inicialmente e da possibilidade de fracasso
da Reclamação (Rcl) n.º 4.290/PA20 proposta perante o STF, firmou-se, em 30 de junho de
2006, um termo aditivo ao TAC n.º 110/2005, pactuando as seguintes obrigações:
a) apresentar, até 15 de agosto de 2006, um cronograma para a efetivação das
medidas necessárias à criação de cargos para suprir carências e para a consequente realização de concurso público, com prazo final de execução em 31 de dezembro de 2006, com a autorização da Mesa Diretora para o início do processo legislativo de criação dos cargos e outras obrigações ligadas à realização do concurso;
b) realizar levantamento dos servidores temporários com mais de 10 (dez) anos e os
demais remanescentes, até 15 de agosto de 2006;
c) distratar os servidores temporários com menos de 10 (dez) anos de serviços até 30
de março de 2007;
20 Esse acordo foi impugnado judicialmente no STF, por meio da Rcl n.º 4.290/PA, em 17 de abril de 2006, sob a alegação de descumprimento do julgado na ADI n.º 3395, que decidiu pela incompetência da Justiça do Trabalho para julgar questões inerentes a regime de trabalho jurídico administrativo ou estatutário. Porém, a reclamação foi julgada improcedente, nos seguintes termos: “Reclamação: alegação de desrespeito do julgado do Supremo Tribunal na ADI MC n.º 3395: improcedência. O ato impugnado – TAC – firmado entre o MPT da 8.ª Região e a Alepa não sendo causa, não se compreende no objeto da decisão paradigma da ADI MC n.º 3395, relativa à demarcação de competência jurisdicional entre a Justiça do Trabalho e a Justiça Ordinária” (Rcl n.º 4290 AgR/PA. Órgão julgador: Tribunal Pleno. Relator: Min. Sepúlveda Pertence. Julgamento: 21 set. 2006. Publicação: DJ, 27 out. 2006, PP-00031, EMENT VOL-02253-02, PP-00234, LEXSTF, v. 29, n. 337, 2007, p. 216-219). Esse julgado transformou-se em precedente que serviu de paradigma para as Reclamações n.º 9.777/PI, n.º 8.978/MG e n.º 8.866/PI.
d) distratar os servidores temporários com mais de 10 (dez) anos de serviços até 31 de dezembro de 2007, dando-se preferência à dispensa dos contratados com menos tempo.
Após a celeuma instaurada pelo STF sobre a incompetência da Justiça do Trabalho para apreciar relações de trabalho oriundas de regime jurídico-administrativo, na ADI n.º 3395, as negociações foram suspensas, mesmo diante de inúmeras notícias de descumprimento do acordo, de várias notificações ministeriais para prestar esclarecimentos acerca dos descumprimentos noticiados, de várias respostas evasivas e de algumas medidas de cumprimento do acordo pelo Parlamento paraense. Finalmente, em 29 de junho de 2009, o MPT iniciou uma nova rodada procedimental de diálogo institucional em parceria com o Ministério Público do Estado do Pará (MPE/PA), primeiro com o envio do acordo, depois com audiências para tratativas de concretização do acordo firmado. Tudo culminou, em 19 de
novembro de 2009, com o primeiro ofício conjunto21 endereçado à Assembleia Legislativa do
Estado do Pará (Alepa) solicitando várias informações e relatórios de fiscalização do acordo, bem como designando audiência para pactuar o descumprimento, em nova rodada procedimental, que fracassou por ausência do representante da Alepa em várias oportunidades.
A resistência injustificada de negociar culminou, em 30 de setembro de 2010, na propositura na Justiça do Trabalho de duas ações de execução ou de cumprimento de obrigações: uma por obrigação de fazer e não fazer, com o objetivo de rescindir os contratos irregulares e comprovar em juízo o cumprimento das obrigações22; outra de execução por quantia certa no valor de R$ 54.280.000,00 (cinquenta e quatro milhões, duzentos e oitenta
mil reais)23. Isso levou a Procuradoria-Geral do Estado do Pará (PGE/PA) e a Alepa a buscar
o diálogo institucional outrora reiniciado pelo Ministério Público24, dando ensejo a mais uma
rodada procedimental dialógica no campo extraprocessual, para posterior envolvimento do Judiciário Trabalhista tendo em vista a homologação judicial.
Entretanto, antes que o novo acordo de concretização fosse firmado, informações veiculadas pela imprensa sobre a iminente aprovação do projeto de Decreto Legislativo n.º 04/2012, que enquadrava os servidores contratados com mais de 10 (dez) anos de serviço no
21 Ofício n.º 309/2009/MP/CPJ/DC/P.
22 Processo de execução de obrigação de fazer e não fazer n.º 0001416-68.2010.5.08.0013, da 13.ª Vara da Justiça do Trabalho da 8.ª Região. O processo extrajudicial perante o MPT tomou o n.º 001182.2010.08.000/5. 23 Processo de execução por quantia n.º 0001371-64.2010.5.08.0013, da 13.ª Vara da Justiça do Trabalho da 8.ª Região. O processo extrajudicial perante o MPT tomou o n.º 001183.2010.08.000/0.
24 Depois as demandas de execução foram reunidas no processo de execução por quantia certa n.º 0001371- 64.2010.5.08.0013.
quadro de provimento suplementar em extinção e garantia estabilidade aos servidores contratados sem concurso público após a CFRB, levaram os dois ramos do Ministério Público
a exarar recomendação25 para que a Alepa cumprisse a decisão judicial, que garante a ordem
jurídica constitucional e legal, no que se refere à contratação de servidores públicos, e se abstivesse de adotar qualquer medida que direta ou indiretamente implicasse descumprimento da Constituição, das leis e das decisões judiciais, no que se refere ao teor das decisões
judiciais proferidas nos autos dos processos de execução da Justiça do Trabalho26 e da Ação
Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n.º 2.687-9 ADI-PA, que tramitou no STF e rejeitou solução idêntica.
O Legislativo estadual, após várias discussões interna corporis, abortou a solução inconstitucional, acolhendo a recomendação em claro processo dialógico de interpretação constitucional, admitindo a participação do Ministério Público como um dos atores políticos aptos a interpretar a Constituição no campo extraprocessual, como forma de participação no controle prévio de constitucionalidade das normas. Com isso o órgão legislativo estadual voltou a negociar os termos do cumprimento do acordo e da decisão judicial de distrato imediato dos servidores irregularmente admitidos no serviço público.
Com efeito, a fim de extinguir o processo, em 28 de março de 2012, foi entabulado um acordo de concretização de direitos humanos (ACDH) para:
a) distratar todos os contratos temporários até 4 de abril de 2012;
b) repassar para a Secretaria de Trabalho, Emprego e Renda do Estado do Pará
(Seter) o valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais) até 30 de abril de 2012, para custear programas de capacitação de trabalhadores;
c) apresentar um programa específico para aplicação dos recursos oriundos da
cláusula anterior, o qual não poderá resultar em redução ou corte em outros programas de governo para fins de compensação dos valores a serem repassados, total ou parcialmente, de forma a permitir que os valores repassados sejam efetivamente adicionais aos programas de governo existentes em benefício da classe trabalhadora, devendo a Auditoria Geral do Estado do Pará (AGE/PA) aferir essa situação em relatório;
d) comprovar perante a PGE/PA, a AGE/PA e o MPT do Estado o cumprimento de
tais obrigações, sob pena de multa.
25 Recomendação exarada no ofício n.º 22.856/2012-MPE/PRT/8ª, de 26 de março de 2012.
O acordo prosseguiu em plena execução, sem qualquer indício de descumprimento. A
Auditoria Geral do Estado do Pará27 informou que, do valor do acordo firmado, foi executado
R$ 1.205.898,00 (um milhão, duzentos e cinco mil oitocentos e noventa e oito reais), restando o saldo de R$ 794.102,00 (setecentos e noventa e quatro mil cento e dois reais), restando as demais obrigações pendentes de cumprimento, fiscalização e constatação.
Em resposta, de 18/06/201528, a outro questionamento formulado pelo Ministério
Público do Trabalho a respeito da execução das ações de qualificação a cargo desta Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda - Seaster, que sucedeu a Secretaria de Estado de Trabalho, Emprego e Renda – Seter em direitos e obrigações, na forma da Lei Estadual nº. 8.096/2015 informou a seguinte posição do cumprimento do acordo:
a) os recursos aplicados nas qualificações até o momento realizadas não importaram
em redução ou corte em outros programas de qualificação do Governo do Estado para fins de compensação dos valores repassados, total ou parcialmente, tendo sido acrescidos ao orçamento dos programas de qualificação social e profissional existentes na época;
b) o montante de valores repassados, acrescidos os rendimentos de aplicação, o órgão
executor das ações de qualificação empregou, até o momento, R$1.925.418,00 (um milhão e novecentos e vinte e cinco mil e quatrocentos e dezoito reais) na contratação 08 (oito) entidades executoras, mediante processo licitatório, tendo realizado 87 (oitenta e sete) cursos de qualificação social e profissional em 20 (vinte) municípios paraenses, capacitando, até o momento, 2.670 (dois mil e seiscentos e setenta) trabalhadores. Dentre as entidades contratadas, 07 (sete) concluíram todas as etapas da qualificação, mas uma delas (COOCEFET) foi recentemente punida com a aplicação da penalidade de impedimento de licitar e contratar em razão da inexecução parcial do contrato, consubstanciado no descumprimento do quadro de metas físico-financeiras, além da obrigação de devolver os recursos não empregados e do pagamento de multa contratual;
Por fim requereu para consecução da meta de qualificação definida inicialmente 2.910 (dois mil, novecentos e dez) trabalhadores capacitados, o prazo mínimo de 180 (cento e oitenta) dias como tempo razoável e suficiente para a realização de processo licitatório e contratação de nova entidade para substituir sociedade empresária punida
27 A notícia foi dada por meio do Ofício n.º 730/2012 – GETEC/CORREGEDORIA, de 4 de dezembro de 2012. 28 A notícia foi dada por meio do Oficio n. 555/2015 – GAB/SEASTER, de 18 de junho de 2015.
administrativamente, a realização das ações faltantes de cumprimento do acordo e para liquidação financeira do futuro contrato. Considerando o exposto e por constatar a execução de mais de 90% (noventa por cento) do montante do recurso repassado pela ALEPA, o MPT concordou com a prorrogação do prazo solicitado, encontrando-se agora em fase de cumprimento da nova avença ou deliberação dialógica provisória com vistas a atender a exigibilidade imediata, contínua e gradual dos direitos sociais.