2 REVISÃO DA LITERATURA
10 Segundo M ARKUS Y Z AJONC (1985) ; F ISKE Y T AYLOR (1991).
indivíduo, atribuindo-lhe características que estão associadas com o papel desempenhado e não com a sua actuação e atributos reais.
Como se pode verificar após a enumeração de muitos dos factores condicionantes da formação de percepções, esta reveste-se de um carácter subjectivo. Uma mesma pessoa ou a mesma situação – a formação de um Agrupamento Vertical de Escolas ou o funcionamento de um órgão (Conselho Pedagógico) constituído por indivíduos – pode ser percepcionada de tantas maneiras distintas quantas forem as pessoas que o estiverem a fazer. No decurso das entrevistas e do grupo focal cada docente será convidado a reflectir sobre as vantagens e desvantagens da formação do Agrupamento, o funcionamento do seu Conselho Pedagógico antes e depois da integração do 1º ciclo nesse órgão, as dificuldades e benefícios para as escolas do 1º ciclo e para os professores que as representam por aí terem assento e por não serem o Coordenador de Estabelecimento. As suas respostas – as suas percepções – estarão sujeitas a todas as variáveis enunciadas.
2.2.1 - A Auto-Percepção
Percepcionar pessoas e situações é um acto que se pratica a todo o momento. No entanto, pode ser também um virar para o interior da própria pessoa que constrói a percepção, tentando compreender-se através da observação da sua actuação em várias situações, ou seja, contextualizando a conduta adoptada.
As acções praticadas por cada indivíduo afectam o relato que faz do seu comportamento. Na tentativa de saber quais os motivos que o determinam, os psicólogos sociais avançam com três tipos de explicações11: a teoria da auto-apresentação, a teoria da auto-percepção e a teoria da dissonância.
Segundo a teoria da auto-apresentação, os indivíduos tendem a relatar os seus comportamentos de forma a torná-los consistentes com as suas acções, para tentarem criar uma boa impressão nos que os rodeiam. Há uma preocupação em relação ao que os outros vão pensar, apesar que também podem ocorrer alterações de comportamento genuínas. MORALES
et al. (1996, p.78) referem-se a esta teoria como uma hipótese na área da interacção social mencionando:
“... la conducta ante otros se entendía como un intento de controlar o reaccionar a una autoimagem pública. Al aparecer ante otros, el sujeto pone en juego una autoimagem idealizada y normativa, que reivindica un cierto estatus ante los otros y obliga al sujeto a presentearse en consonancia com ella,”
A teoria da auto-percepção diz-nos que é feita uma inferência sobre o próprio comportamento a partir da sua observação e das circunstâncias que o rodearam noutras situações anteriores, em que o indivíduo actuou como observador externo.
MORALES et al. (1996, p.595) referem que, segundo a teoria da auto-percepção de DARYL
BEM (1972), as pessoas recordam o que fizeram ou disseram no passado sobre um
determinado indivíduo ou situação, tirando daí inferências quanto a si próprias e aos seus comportamentos. Se a sua reacção no passado foi positiva a sua inferência é feita igualmente segundo essa perspectiva, o mesmo acontecendo no caso contrário, excepto se existir uma justificação externa bastante consistente.
Segundo MYERS (1996, p.150) quando alguém está inseguro sobre as suas atitudes – se as
considera fracas ou ambíguas – faz inferências sobre as mesmas como se outra pessoa estivesse a olhá-las a partir do exterior. A análise feita em relação aos próprios comportamentos e atitudes toma como modelo as reacções que essas mesmas atitudes provocariam se fossem tomadas por outras pessoas. O conhecimento de si próprio deve ser procurado não apenas pela auto-contemplação, mas também pela acção12. Todos os actos cometidos livremente por cada indivíduo são reveladores da sua personalidade, não podendo sempre ser atribuídos a causas externas. Então, é importante olhar para si próprio – ouvir o que se diz e o que se faz – para tentar compreender-se.
MYERS (1996, p.161) refere que, segundo a teoria da auto-percepção, pode acontecer que
quando se recompensa alguém por possuir determinada atitude, mesmo que essa atitude se relacione com algo que o indivíduo goste, este pode atribuir o seu comportamento a essa recompensa, transformando-o em algo que passa a detestar.
Por outro lado, a teoria da dissonância de FESTINGER (1957), afirma que uma atitude
contraditória em relação às crenças do indivíduo provoca um estado de tensão e desagrado, que é diminuído, tornando as suas condutas mais consistentes com essas crenças, devido à intervenção de um processo cognitivo. Essa tensão aparece porque o indivíduo está consciente de que possui em simultâneo duas cognições inconsistentes. Sentir que há inconsistência em relação a duas crenças provoca um mal-estar, que pode forçar a uma mudança na forma de pensar. O comportamento deve ser alterado por uma escolha consciente e não devido a uma forma de pressão que envolva alguma punição ou recompensa. O comportamento é justificado para diminuir o desconforto interno que se sente. Quanto maior ou mais importante for a decisão a tomar, maior o estado de tensão a que o indivíduo fica sujeito.
Comparando as teorias da dissonância e da auto-percepção, MYERS (1996, p.156) afirma: “... the dissonance-theory assumption that we justify our behaviour to reduce our internal discomfort and the self-perception theory assumption that we observe our behaviour and make reasonable inferences about our attitudes, as we do when observing other people.“
Embora parecendo apontar em diferentes direcções, é lembrado por MYERS (1996) que, como
teorias que são, elas são diferentes tentativas de explicação de um mesmo facto.
Como alternativa às teorias da dissonância e da auto-percepção, MORALES et al. (1996, p.602)
referem a “teoria da manipulação da impressão”13, defendendo que as pessoas se preocupam com a impressão causada nos outros, procurando apresentar-se perante eles como indivíduos consistentes, mesmo implicando a manipulação das impressões dos outros, por forma a que as suas percepções conduzam à formação de uma imagem positiva e socialmente aceite. Pode não existir uma real mudança de comportamento.
Durante a realização das entrevistas e do grupo focal, assistir-se-ão a interacções entre o entrevistador / moderador e os docentes participantes no estudo e, simultaneamente, a interacções entre os próprios (no caso do grupo focal). Serão estas interacções que irão permitir uma abordagem diferenciada em relação às questões colocadas, que poderá enquadrar-se em qualquer uma das teorias referidas consoante as características de cada um dos docentes. Quando forem convidados a reflectir sobre as questões propostas poderão sentir algum desconforto, ambiguidade de pensamento ou necessidade de mostrar uma opinião que consideram positiva. Essas ou outras situações que ocorram podem influenciar as respostas dadas ou as reflexões feitas. A forma como cada um dos participantes se vê a si próprio