Assim que realizei este levantamento inicial, dediquei-me a melhor desenhar o projeto de pesquisa. Então, comecei os estudos teóricos que fundamentaram a escrita do capítulo dois. Uma vez construído e estudado o referencial teórico para os temas centrais deste estudo, foi momento de buscar as bases teóricas para a estruturação metodológica deste trabalho.
Encontrei em Minayo (1994) a utilização do termo Ciclo de Pesquisa para referir-me ao processo percorrido durante uma investigação científica. A autora considera a pesquisa como um ato que é criativo pelo caráter único e ao mesmo tempo sistematizado por sua estrutura. Para Minayo (1994), este processo que se dá de modo contínuo e espiralado, possui etapas diferentes e complementares as quais chamou de “Fase Exploratória de pesquisa”, “Trabalho de campo” e “Tratamento do material”. É importante ressaltar que para ela, a ideia de ciclo se
justifica visto que uma pesquisa não acontece de modo estanque e linear. Minayo (1994) afirma que este ciclo é contínuo e que não se concluirá com o “fim” de uma pesquisa, já que compreende que dele emergirão novas perguntas que serão acrescidas aos conhecimentos produzidos, gerando assim, uma nova etapa posterior.
Esta primeira etapa de trabalho que descrevi no texto anterior seria o que Minayo (1994) chamou de Fase Exploratória extremamente importante segundo a autora, pois é quando o pesquisador se dedica às indagações iniciais. É neste momento então, que deve perguntar-se acerca daquilo que será pesquisado, os motivos que o levam a questionar-se e olhar de modo mais aprofundado ao fenômeno escolhido e o porquê de se constituir como um potencial problema de pesquisa. Uma vez lapidada a questão central, e os objetivos do trabalho, é momento de encontrar e percorrer o referencial teórico mais adequado, assim como de delinear metodologicamente suas diferentes etapas de trabalho encontrando os instrumentos de coleta de dados e seus procedimentos. Então uma vez com estes aspectos definidos é preciso sistematizá-los através de um projeto de pesquisa (MINAYO, 1994).
Segundo Deslandes (1994), é fundamental que o pesquisador organize e realize a fase exploratória de sua pesquisa consistentemente, de modo que sua investigação possa transcorrer do modo mais qualificado possível, caso contrário, certamente enfrentará dificuldades durante as etapas seguintes. Para a autora, a etapa exploratória está concluída quando o pesquisador:
[...] definiu seu objeto de pesquisa, construiu o marco teórico conceitual a ser empregado, definiu os instrumentos de coleta de dados, escolheu o espaço e o grupo de pesquisa, definiu a amostragem e estabeleceu estratégias para entrada no campo (p. 32).
O segundo momento deste ciclo, nomeado por Minayo (1994) como “Trabalho de campo” é constituído por diferentes processos. Primeiramente, deve-se realizar o levantamento bibliográfico disponível e pertinente. Segundo a autora, nossos estudos emergem a partir de uma pergunta central, um problema a ser descoberto, aprofundado, ou melhor, analisado. Estas perguntas são direcionadas em busca de possíveis respostas, que são trabalhadas sempre na perspectiva de algum
conhecimento anteriormente construído, de onde está embasado nosso olhar para aquele fenômeno, a ele chamamos de referencial teórico. As teorias são fundamentais porque nos auxiliam a “olhar” para os nossos objetos de investigação, a esclarecer questionamentos e pontos contextuais, ajudam-nos também a elaborar as questões a serem investigadas, a construir nosso caminho metodológico e a analisar e organizar os dados encontrados. A teoria, portanto, é a fundamentação de nossa ação investigativa (Minayo, 1994).
Além disso, é efetivamente neste momento do “Trabalho de Campo” que o pesquisador vai “concretizar” e realizar a coleta de seus dados. Nesta etapa exploratória poderá se utilizar de diferentes estratégias metodológicas. Ao abordar a questão da postura do investigador diante do trabalho de campo, Neto (1994) destaca a importância de que o pesquisador mantenha sua curiosidade epistemológica diante do fenômeno estudado, uma vez que boa parte das vezes, os pesquisadores “vão a campo”, muito mais em busca da confirmação das suas expectativas e hipóteses iniciais, do que imbuídos do ato de observar e investigar o campo como um universo a ser descoberto, revelando aquilo que lhe é desconhecido. Para o autor, esta postura manifestada pelo olhar “desvelador” é bem mais profícua e segura metodologicamente.
Porém, conforme explicou André (1995) de modo bastante claro, embora haja bom arcabouço teórico para fundamentar o trabalho de campo de uma pesquisa do tipo estudo de caso, ele sempre necessita de abertura e flexibilidade, pois, muito embora seja essencial um bom e organizado planejamento para as diferentes etapas da pesquisa, ele deverá estar atento e aberto às mudanças circunstanciais que a própria coleta pode gerar.
Decidir o que constitui realmente o caso, como os dados serão coletados, quem será entrevistado ou observado, que documentos serão analisados, é uma atividade que pode apenas ser esboçada num primeiro momento, mas terá que ser repensada, redefinida, modificada ao longo da pesquisa, segundo defendeu André (1995). Esta etapa do trabalho dependerá de como serão os contatos iniciais do pesquisador, de sua forma de entrada em campo, de sua aceitação ou não, de sua interação com os participantes e só então que poderá ir sendo mais especificada. Além dessa flexibilidade no próprio esquema de trabalho, as decisões sobre como analisar e apresentar os dados também não podem ser predeterminadas, a não ser em linhas bem gerais. É com base na forma como a pesquisa vai se desenvolvendo
e em decorrência dela que essas decisões vão ficando mais claras (ANDRÉ, 1995). Portanto, esta proposta, embora estruturada com rigor e cuidado esteve sempre flexível e sensível, de acordo com os movimentos naturais que foram “dançados” durante o “Trabalho de Campo”.
A partir do problema de pesquisa retomado neste capítulo e da caracterização do objeto de estudo, comecei a buscar também à luz de referencial teórico o recorte que me ajudaria a delimitar a amostragem da pesquisa e, consequentemente, os instrumentos de coleta de dados.
Para Deslandes (1994, p. 42), ao delimitarmos a amostragem em uma pesquisa de cunho qualitativo é fundamental que nos perguntemos sobre “quais indivíduos sociais têm uma vinculação mais significativa com o problema a ser investigado”, e enfatiza que uma amostra é bem selecionada quando nos possibilita a maior abrangência possível do problema investigado.
Neste trabalho, utilizei dois instrumentos de coleta: fontes documentais e
entrevistas.
Na primeira etapa de Coleta de dados analisei as fontes documentais, onde busquei contato e leitura detalhada das diferentes versões existentes do Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Dança, da Universidade Federal de Pelotas, RS, seus textos e propostas com relação ao projeto de formação de professores de Dança. Além deste documento, também foram utilizadas documentações anexadas ao processo de reformulação curricular que me foram disponibilizados. Quanto a isso, Gil (2010) defende a importância da realização de análise de documentos em um trabalho baseado em estudo de caso, pois eles podem contribuir sobremaneira com a compreensão e interpretação do pesquisador. Nesta etapa da pesquisa, que descreverei de modo mais detalhado no capítulo seguinte, procurei realizar uma leitura bastante atenta e minuciosa. Analisei o que diziam tais documentos sobre o projeto de formação de professores de Dança, através de sua proposta curricular: a constituição e caracterização das disciplinas, o papel da prática pedagógica no percurso formativo do curso, a estruturação dos estágios, o perfil do egresso, a modalidade de ingresso, a dimensão das disciplinas teórico-metodológicas e do campo da Educação, a proposta artística, entre outros aspectos que puderam ser “focados”, sempre tendo em vista a questão central de pesquisa.
semiestruturadas, totalizando oito entrevistados (Apêndice I). Cinco professores que estiveram na coordenação do curso desde sua abertura em 2008 fizeram parte deste grupo. Este recorte se justifica porque a partir das reflexões iniciais sobre a trajetória do Curso, parece-nos que é esta figura que esteve “à frente” do corpo docente, conduzindo e mobilizando os processos de reformulação curricular no curso. Além destes cinco professores, foram entrevistados mais três docentes que fazem parte do Colegiado e que ingressaram no curso até o ano de 201231.
Conforme explicou Neto (1994, p.56), a entrevista é “uma conversa a dois com propósitos bem definidos”. Nesta experiência relacional, explica Szynanski (2004), não podemos esquecer que estarão presentes, inevitavelmente, as concepções, sentimentos e interpretações tanto do entrevistador, quanto do entrevistado. É fundamental, segundo André (1995), que haja entre pesquisador e entrevistados uma relação de confiança e segurança em que lhe possam ser garantidos o controle e aprovação daquilo que será publicado.
Szynanski (2004) pondera que as entrevistas mais abertas, sem uma estrutura prévia estabelecida podem dificultar a coleta de dados “mascarando” as expectativas e propósitos do trabalho realizado, assim se perdendo o potencial maior deste tipo de levantamento. Por outro lado, ressalva a autora, uma entrevista muito “fechada”, pode levar a um engessamento por parte do entrevistador e de certo modo, interferindo na qualidade de uma coleta que busque aspectos mais subjetivos e pontos importantes e inesperados emergidos naquele momento da entrevista. Estes dois aspectos, associadas às características do trabalho que objetivei desenvolver e com as necessidades colocas pelo problema de pesquisa de onde parte este estudo, me levaram a optar por realizar entrevistas semiestruturadas.
É importante destacar ainda, conforme bem assinala Szymanski (2004), que é necessário, antes de qualquer outro momento da entrevista, uma apresentação inicial, através da qual fique claro ao entrevistado, a que se refere o trabalho proposto e quais os principais objetivos que o constituem. O que realizei, com cada
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Apenas uma das professoras, que ingressou no Curso no ano de 2012, não pode ser considerada no estudo, visto que não houve compatibilidade de horários para realizar a entrevista. Ficariam “de fora” da amostragem os professores temporários e substitutos que passaram pelo curso e duas professoras que ingressaram no ano de dois mil e treze e, portanto, não fizerem parte por maior tempo dos movimentos de constituição curricular.
um dos entrevistados.
A proposta de trabalho foi de utilização de roteiros flexíveis que permitissem, em um primeiro momento, chamado por Szymanski (2004) de “aquecimento”, uma aproximação mais “informal” na qual podiam ser levantados dados iniciais e importantes sobre o entrevistado, como sua formação, tempo de exercício da docência e de vivência artística e sua breve trajetória profissional, assim como sua escolha pela docência.
Conforme também orienta Szymanski (2004), as questões norteadoras da entrevista deverão estar diretamente ligadas aos objetivos do pesquisador. No caso deste trabalho, com as questões elencadas, sempre de modo que possam ser desencadeadoras e “reveladoras” de informações direcionadas à questão central da pesquisa. Neste tipo de coleta, explica a autora, a postura atenta do entrevistador é muito importante. Podendo o mesmo valer-se de questões de “esclarecimento”, “focalizadoras” ou de “aprofundamento” sempre que necessário (p. 43-51). Sua intervenção através de cada uma delas poderá auxiliá-lo em busca das “respostas” que busca. Estes recursos de coleta são possibilitados pela organização flexível de uma entrevista semiestruturada.
Das oito entrevistas pertencentes ao recorte deste estudo, sete foram realizadas presencialmente, sendo uma delas feita via skype. Em três delas o local de coleta foi o próprio prédio do Curso de Dança, em ambientes reservados. Duas delas foram realizadas na casa dos professores, uma na cidade de Rio Grande e outra na cidade de Santa Maria. Uma entrevista foi feita em duas etapas, sendo a primeira parte na casa da professora e a segunda em espaço reservado na Biblioteca Pública de Pelotas e a última entrevista foi feita integralmente, neste mesmo espaço. Todos os encontros foram extremamente agradáveis, sendo que era perceptível a alegria de cada um ao falar do curso e grande seriedade e disponibilidade em contribuir com o estudo. Foi um misto de emoção e alegria, foram trocas. A média de tempo das entrevistas foi de 1h10min. Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas e analisadas.
Como cabe ao pesquisador uma postura ética e o estabelecimento de confiança e segurança com o depoente, acordei com os professores que o texto, já com os dados analisados e em que fossem citados, seria enviado para que pudessem aprovar a “versão final” da escrita. Outra questão também partilhada com o grupo de professores foi a decisão de nomeá-los durante o trabalho, sendo que
todos são identificados pelo nome. Esta foi a opção de todos os entrevistados que justificaram existir uma autoria no conteúdo dos depoimentos que precisa ser respeitada e citada como tal e devido à natureza deste estudo de caso, seu universo pequeno e muito específico, concluindo que seria praticamente impossível eles não serem identificados em virtudes de cargos, datas e áreas de aproximação.
Acredito que o “cruzamento” dos dados oriundos das entrevistas e fontes documentais ajudam a “compor” este amálgama de informações e percepções que serão apresentados minuciosamente no capítulo a seguir. Na continuidade da escrita, procurarei abordar o processo de tratamento destes materiais coletados.