3 QUEM VEIO? OS SUJEITOS-PRIMEIROS
3.2 O DISCURSO DAS PROFESSORAS-PRIMEIRAS SOBRE A VINDA
3.2.2 O segundo “NÓS” = o desejo do “EU” no desejo do “ELE”
Em alguns momentos podemos observar uma abertura do desejo do EU (eu-mesma), essa unidade múltipla de EUS que são/estão manifestas por entre o NÓS e que quer fazer frente ao NÓS-ELE (posição-sujeito pioneiro). Mas sim, a concretude desses múltiplos EUS formadores da forma-sujeito e, dentre eles, um que estudaremos, o sujeito-professora. Esse EU (eu-mesma), forma-sujeito, deseja, sempre dentro do desejo da posição-sujeito pioneiro, também alçar novos voos profissionais. O discurso se torna uníssono neste NÓS = ELE+EU quando o desejo de visualizar uma nova profissão/trabalho se torna possível e alcançável. Mas se o marido tinha por objetivo alcançar uma situação econômica mais favorável para si e sua família, em outras palavras, crescer profissionalmente, como poderia a mulher, a esposa e mãe, crescer profissionalmente em Cláudia?
Entramos, agora, em um campo de divisão social, trabalhista e de gênero. Os homens, quando se mudavam para Cláudia, tinham como perspectiva instalar uma serraria,
trabalhar na terra, ou mesmo de peão em alguma firma ou propriedade rural. Diferente da situação das mulheres: algumas migravam para seguir seus maridos e trabalhar na terra, outras já chegaram a Cláudia sabendo que seriam professoras e, uma grande maioria, donas-de-casa com atividade econômica adicional esporádica. As famílias já instaladas em Cláudia nestes anos iniciais, ao se comunicarem com parentes e amigos de outras regiões, costumavam informar sobre as atividades profissionais que havia na região e, inclusive, sobre a falta de professores, o que dificultava a educação das crianças.
Pergunta: Como o EU, posição-sujeito pioneira se comporta ao lado deste ELE, posição-sujeito pioneiro ao compor este NÓS? Este EU, quem era? O que desejava? Que futuro pretendia alcançar?
A professora Aurora nos conta a sua história nos dias que antecedeu a sua chegada a Cláudia e descreve como a professora Roseli entrou em contato com o esposo dela, o qual a incentivou a que viesse o mais rápido possível.
(67) Aurora: Já antes, [Roseli] tinha conversado com meu esposo e falado que precisava de
professor e que eu viesse o quanto antes, porque precisavam urgente de professores.
A professora Aurora possuía o Curso Normal e trabalhava como professora em uma escola multisseriada. Tinha uma vida profissional estabelecida, no Paraná, um Estado que proporcionava possibilidades de educação continuada, com novos cursos e faculdades, não obstante, ao final do ano de 1979, encerrou suas atividades e foi viver em Cláudia. Na sequência acima, notamos que a posição-sujeito da professora Aurora se identifica com os saberes das mulheres que se encontravam incluídas no mercado de trabalho. Ela estava sendo esperada para trabalhar na docência, inclusive com o esposo alertando à possibilidade de que havia escola em Cláudia, que ela assim teria emprego garantido, o que seria mais um motivo para partir do Paraná. “Precisava de professor” no masculino, na forma que envolve o gênero masculino e feminino. Desta mesma maneira ela se lembra dos(as) professores(as) que teve, da seriedade com que levava os estudos na época de criança e adolescente, de como gostava de estudar, gostava da escola e do desejo de ser professora.
(68) Aurora: Olha, era ótimo, porque era uma coisa que eu gostava, então, a gente levou a
sério. Desde pequena eu sonhava em ser professora, talvez seja isso, também, que... levou-me a optar por esta profissão. Então eu gostava muito, tinha professores bons. Parece que o estudo, naquela época, era mais puxado do que hoje, ou não sei se é que a gente levava mais a sério, também. Enfim, foi muito bom.
“Talvez seja isso”, ela “sonhava em ser professora”, mas não tem certeza qual o motivo que a levou a exercer esta profissão. “Gostava muito”, “professores bons”, ajudaram a fortalecer o vínculo com a docência, pelo exemplo, pela dedicação, a formação desta profissão-professora deu-se desde criança. A posição-sujeito professora identificada na posição-sujeito das professoras que teve na escola, vinculada à formação discursiva da educação, de uma época em que “a gente levava mais a sério” e que o estudo “era mais puxado”. Se “era mais puxado” quando ela era aluna, agora que é professora, não é? “A gente levava mais a sério”, hoje não leva?, - o que provoca essa polaridade entre os dizeres de uma mesma formação discursiva é a sua própria heterogeneidade em seus próprios saberes. Assim, “[...] da mesma forma que a formação discursiva é heterogênea, o sujeito também o é, pois a forma-sujeito mostra-se fragmentada, em virtude da dispersão das posições de sujeito em que a forma-sujeito se divide, revelando-se bastante desigual a si mesma.” (INDURSKY, 2000, p. 76). A sujeito da aluna nos traça um discurso da dedicação, no entanto a posição-sujeito da professora nos apresenta um discurso sem uma retribuição a essa dedicação.
Da mesma maneira que se dedicou quando em idade escolar, também se dedicou enquanto trabalhava, através do aperfeiçoamento em cursos, e manteve-se filiada à posição-sujeito da professora concordante de uma qualidade na educação.
(69) Aurora: [...] foram feito alguns cursos no Paraná, mesmo eu fiz um curso de reciclagem,
leitura e alfabetização.
E a faculdade? A posição-sujeito da professora dedicada a se qualificar continuamente, perde para a posição-sujeito esposa. As diferentes posições assumidas pela professora Aurora, e pelos sujeitos, pertencem a um mesmo real, esse que está aí. É no interior desse real, que a tensão entre as diversas posições-sujeito entra em ebulição.
(70) Aurora: Não estudei porque nasci em Arapongas, mas fui criada lá no norte do Paraná,
cidade de Colorado. Lá, eu fiz até à 7ª. série. Aí, a 8ª. série e o 2º. grau, eu fiz em Assis Chateaubriand, e quando eu ia começar a faculdade, eu vim pra Mato Grosso, vim pra Cláudia, em 79.
Quando ela ia começar a faculdade, o esposo decidiu mudar para o Mato Grosso. A faculdade de Pedagogia ficou para um segundo lugar nas prioridades da família, naquele momento, ela mudou-se para Cláudia. A aparente adesão ao desejo d’ELE. O desejo d’ELA ficou para depois. A posição-sujeito professora se assujeita ao dizer “foi muito fácil”, e a situação tranquilizadora se estabeleceu entre as diversas posições da forma-sujeito. A professora Roseli, responsável pela Sala Escolar Extensão da Escola Estadual Nilza de Oliveira Pipino entrou em contato, e a professora Aurora passou a fazer parte do corpo de professoras de Cláudia. A posição-sujeito pioneira, de redefinir os parâmetros sobre as necessidades mais urgentes para si e sua família, de interpretar esta cidade e este novo momento, posição aliada à de esposa, de suporte do esposo, de compromisso com os filhos, falou mais alto do que o desejo de qualificação profissional da posição-sujeito professora.
(71) Aurora: Daqui foi o seguinte: como vinha aumentando bastante o número, a população,
a professora Roseli me procurou. [...] Eu cheguei, foi muito fácil. Cheguei, já, ela veio na minha casa, conversou comigo. [...] tinha umas 30 famílias.
Se o desejo dela era ser professora, conseguiu realizá-lo parcialmente no Paraná, pois o Curso Normal era específico para o primário. Faltava o curso de Pedagogia, que não havia nem em Cláudia, Sinop ou mesmo em toda a Gleba Celeste99. Mas enquanto trabalhava, continuava a fazer cursos de aperfeiçoamento. O desejo de continuar estudando, se dedicando como nos tempos escolares, foi mais forte do que a distância ou as inconveniências de sair para estudar:
99
(72) Aurora: E depois, aqui, foi feito vários cursos. Em Sinop, a gente fez. Aqui mesmo
[Cláudia], aquela época não vinha, a gente tinha que se deslocar, para Sinop. [...] teve sobre Língua Portuguesa, teve sobre Matemática, Geografia e História.
Enfim, cursou a faculdade de Pedagogia em 1996. O desejo d’ELA de titular-se demorou dezessete anos para tornar-se acontecimento. No entanto, o ingresso na profissão “foi muito fácil” (formulação 71).
(73) Aurora: E, aí, quando surgiu a primeira oportunidade, que foi a faculdade de extensão
da UNEMAT, aqui em Cláudia, em 96, aí, então, eu comecei o curso de Pedagogia.
“A primeira oportunidade” “surgiu” e ela participou. Foi um curso de extensão, com a seleção feita por meio de vestibular, em que a turma foi dividida em duas, A e B, formando-se ao todo 58 alunos.
Quando pergunto sobre a pós-graduação, ela responde:
(74) Aurora: Não fiz. Não fiz pelo seguinte, pensei em descansar um ano. Depois você perde
o pique. Aí acabei não fazendo. Aí saiu minha aposentadoria, eu falei: agora não vou fazer. E estou assim, não sei, de repente, ainda, quem sabe. Surge uma oportunidade aí, a gente entra. Mas, por enquanto, estou parada.
Apesar de algumas mulheres chegarem a Cláudia sabendo que seriam professoras, em nenhuma entrevista encontramos como motivo da migração o de trabalhar em uma escola, nem para homens nem para mulheres. O motivo da migração pertence ao gênero masculino. Na “ordem das sucessões”, “[...] em nossas sociedades, encarna a linhagem, ou seja, o pai, e o que constitui, sem dúvida, o essencial da herança paterna, ou seja, essa espécie de ‘tendência a preseverar no ser’, perpetuar a posição social” (BOURDIEU, 2008, p. 231). O pai, como aquele que “encarna a linhagem”, que, como filho trabalhou a terra com seu pai, que recebeu de herança a terra de seus antepassados, se vê obrigado a sair de seu local com a construção da Usina Itaipu, por exemplo. Com o valor restituído pela terra, consegue superar o seu pai e
compra uma quantidade maior de terra em outro Estado, “[...] é preciso, muitas vezes, distinguir-se dele [o pai], superá-lo e, em certo sentido, negá-lo” (BOURDIEU, 2008, p. 231). O pai migra com sua família, o filho solteiro migra, em ambas as situações a ação de migrar é pensada como uma ruptura na condição social dada em vista de um retorno econômico para si e sua família maior.
A ruptura de sair de um lugar e dirigir-se a outro, de sair de seu local de origem com proventos suficientes para adquirir mais terras, se manifestou no desejo de superar o passado e projetar um futuro com mais condições de bem-estar. O pai jovem que migrou com sua família, com sua jovem esposa e filhos pequenos, as famílias constituídas de avôs, pais e filhos, o filho solteiro, todos rompendo com este modelo de assujeitamento ao Outro (às suas circunstâncias nas cidades de origem) e desejando o assujeitamento ao Outro-Cláudia, em um local onde mais terras significava mais comida, mais roupa, mais carro, mais escola, mais vida. A família estaria mais estável, e o pai permaneceria como o principal provedor desta.
Para a grande maioria das mulheres, a proposta de trabalho nas escolas se dava quando lá chegavam, tendo ou não escolaridade para exercer a profissão de professora. Uma ruptura em seu modelo de donas-de-casa: trabalhar fora. Para as mulheres que nunca tinham exercido uma profissão, foi a oportunidade de trabalhar como professoras que rompeu com a condição da mulher da casa e da roça: agora ela superava essa condição trazendo o seu salário para dentro de suas casas e participando politicamente nas decisões das escolas.
Outras professoras já atuavam antes de emigrarem, como a professora Aurora e a professora Roseli. Inclusive, a professora Roseli tinha graduação em Pedagogia, era concursada pelo Estado do Paraná, mas, por motivos de novas perspectivas econômicas do marido, ela mudou-se para o Mato Grosso. Como em 1978 ela estava em sala de aula no Paraná, esperou terminar o ano letivo para, em dezembro, mudar-se para Cláudia. Preocupada com o propósito do marido em instalar uma serraria em Cláudia, com as incertezas que poderiam decorrer durante este processo de mudança, preferiu primeiro esperar, para ver se era possível a conquista deste desafio, para depois embarcar na viagem de ida.
(75) Roseli: Depois eu vim no final do ano, que quando eu fui autorizada a sair [da escola],
que deram a minha licença, lá no Paraná. Daí eu cheguei aqui e eu não pedi demissão lá, porque pensei, talvez não dê certo e eu possa voltar, né. E fomos [a Cláudia] pensando em montar uma livraria. [...] Eu já tinha feito todas as experiências que eu precisava, né. Tinha
sido professora, secretária, tudo, tudo, tudo, é. Então, estava satisfeita, eu queria montar uma livraria, sabe.
Nesta sequência, várias posições cruzam-se, a da EU-esposa preocupada com a família, a da EU-esposa preocupada com o esposo, a da EU-professora preocupada com seus alunos, a da EU-mesma preocupada com si mesma. O desejo de EU-mesma: abrir uma livraria100. O discurso do EU independente economicamente, com um trabalho conquistado com o próprio estudo é reforçado com o “eu não pedi demissão lá”. O discurso do EU independente no relacionamento familiar, assumindo que “talvez não dê certo”, não se filiando cegamente ao discurso da propaganda oficial de colonização do interior brasileiro ou interesses de cunhados em abrir uma nova serraria. Dois “nãos” seguidos que permitem analisá-los dentro de uma posição uníssona: a da incerteza. Caso não desse certo, o marido voltaria sem a serraria, pois tinha vendido a do Paraná, mas ela teria como sustentar a família, uma vez que estaria empregada. O discurso da responsabilidade do EU-esposa, da mulher zeladora de sua família, provedora, companheira.
Diferente situação foi a vivida pela professora Aleixa. Ela exercia outra profissão, técnica de enfermagem.
(76) Aleixa: Eu trabalhava [como] técnica de enfermagem. Eu trabalhava no hospital [...] da
Providência. Trabalhei cinco anos. [...] Não, não porque eu já vim com o objetivo de não continuar esse trabalho, porque é um trabalho, assim, que não tem momento, não tem hora, e aqui, pior ainda. [...] Chegando em Cláudia, como morava numa barraca, e não tinha o que fazer e, entre umas conversas de senhoras, [...] que havia, hã, necessidade de alguém que tivesse, um estudo pra poder estar ministrando umas aulas. [...] E aí eu falei pra ela [Roseli] que eu tava disposta a ajudá-la, né, mas que eu não tinha experiência nenhuma, nenhuma.
Para Aleixa, a posição-sujeito pioneira, que em um primeiro momento se unificava em torno do desejo do marido, como esposa, ficando em “casa” (barraca), em outro momento se “cansou” da situação apresentada – antes de migrar já era uma esposa que trabalhava fora – e traçou as possibilidades de romper com a situação, conseguindo emprego. Entre suas metas,
100
sabia que não queria seguir com a profissão exercida antes da migração e encontrava-se aberta a novos desafios. Sem muitos afazeres para o papel feminino que não estivessem ligados à terra, como carpir, plantar, criar animais domésticos, além dos papéis de esposa de limpar, cozinhar, lavar, a colona Aleixa preferiu seguir o convite de ministrar aulas. A posição-sujeito professora era um reconhecimento maior do que outras posições assumidas por outras colonas, que tinham suas vidas traçadas a um trabalho considerado pesado, como os ligados à terra. Mesmo leiga, sem os conhecimentos específicos necessários para exercer a profissão de professora, ela confiou na ajuda das outras professoras que trabalhavam na escola para ter êxito em um desafio que ela própria se impunha.
A posição-sujeito da professora pioneira apresenta, como característica, o apego à oportunidade de obter uma garantia salarial, mensal, fixa, por meio da profissão exercida, ao mesmo tempo em que aponta à necessidade de empenhar-se para enfrentar desafios do exercício da profissão, inclusive o de qualificar-se constantemente, buscando crescer dentro da profissão.