3 A TRAJETÓRIA DA INDUSTRIALIZAÇÃO NO ESPAÇO CEARENSE
3.1 A formação do espaço industrial cearense
3.1.2 Segundo Período Industrial: 1960 até 1985
O segundo período de industrialização do Ceará é marcado pela criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), através da Lei nº. 3.692 sancionada em 15 de dezembro de 1959. O foco principal é canalizar recursos originários de regiões mais desenvolvidas do país, essencialmente do Sudeste, visando promover uma industrialização no Nordeste brasileiro, em especial no Ceará, Bahia e Pernambuco,
Segundo Oliveira (2013, p. 2) “somente em 1956 sob o Governo de Juscelino Kubitschek, formou-se o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), cujo relatório preconizou reformas estruturais na economia nordestina”.
O GTDN apontou como condição necessária para tirar o Nordeste do atraso uma profunda transformação agraria e agrícola, além da industrialização. A política de industrialização deveria ter três objetivos: dar emprego à massa populacional flutuante, criar uma classe dirigente nova, imbuída do espirito de desenvolvimento, e fixar na região os capitais formados em outras atividades econômicas, que tendem a migrar. Para cumprir o que recomendava o GTDN, seria necessário criar uma estrutura administrativa adequada, já que nessa época, não havia no Nordeste nenhum órgão capacitado para implementar suas diretrizes propostas. Sendo assim surge a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). (OLIVEIRA, 2014).
Segundo o relatório do GTDN - Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste foi proposto que:
No relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN) foi proposto, segundo Araújo (1995, p. 143 apud Amora 205, p.374), “uma ação governamental de caráter transformador das tradicionais e consolidadas estruturas socioeconômicas do Nordeste. Propunha ações típicas de estado reformista e modernizador de diversas estruturas”.
A Região Sudeste nesse período mantinha uma estabilidade industrial, porém a ideia era canalizar essas indústrias modernas para a Região Nordeste através de isenção de impostos, e transformar indústrias tradicionais que estavam obsoletas em relação ao parque industrial brasileiro e não possuíam uma estrutura para competir com as modernas empresas do sul. Por outro ângulo, buscava-se favorecer setores
das indústrias modernas como o metalúrgico, material elétrico e material de embalagem. A dinâmica industrial de produtos industrializados e semi- industrializados foi aderida por outras regiões do país causando uma desordem nas relações sociais e espacial do Nordeste. Haja vista que a maior parte da produção de manufaturados era destinada ao consumo nacional, diferente da fase anterior em que a produção era comercializada pelo comércio local e regional. Para tanto, os resultados obtidos com implantação das indústrias na região não foram suficientes para promover o desenvolvimento econômico.
Grupos influentes como políticos, membros da igreja e empresários, viram na ideia uma oportunidade de ampliar o capital e centralizá-lo cada vez mais. Por fim, o órgão criado para diminuir a diferença entre um Nordeste com altos índices de pobreza e uma região sul-sudeste industrializada, a SUDENE falhou. O número de empregos industriais criados foi insuficiente para resolver os problemas estruturais na região; a miséria continuou com índice alarmante, as migrações para o sudeste não acabaram. Um processo que concentrou renda e aumentou os grandes latifúndios, caracterizou a paisagem regional de uma maneira perversa, levando ao declínio de pequenos produtores que até então conseguiam sobreviver com a pouca renda, impactos gerados pela dinâmica estrutural do capital.
À luz do pensamento de Amora (2005), o que se verificou para o Estado do Ceará, sobretudo para Fortaleza, foi uma transformação da estrutura industrial. Com a atuação das políticas de incentivos fiscais, há maior participação de novos ramos da indústria, principalmente o metalúrgico. A composição desse ramo, entretanto, está orientada principalmente para o fornecimento de material de embalagem para as fábricas de beneficiamento de produtos agrícolas. Portanto, para Amora (1978, p. 91). “é uma atividade complementar da indústria tradicional e que não se enquadra no rol das atividades mais dinâmicas, ao contrário das indústrias que se instalaram em Pernambuco e mais ainda na Bahia.”
Para Beserra (2007, p. 25-26) “a política industrializante desenvolvida pela SUDENE não foi capaz de alterar de modo significativo o perfil industrial cearense, embora tenha contribuído para sua dinâmica, com a diversificação da produção”. Permaneceu a mesma estrutura industrial existente antes da política da SUDENE, onde predominavam as atividades industriais que utilizavam matérias-primas locais e que absorviam maior quantidade de mão-de-obra.
SUDENE aprovou projetos industriais para cerca de 200 empresas do Ceará, equivalendo apenas a 7,2% do investimento total aprovado para o Nordeste, contra 43,5% da Bahia e 21,7% de Pernambuco”. Ceará, nesse período, foi excluído tanto pelos empresários externos como também, pelo Governo Federal, das alternativas locacionais.
Essa exclusão deveu-se, entre outras razões, ao fato de o Estado não dispor ainda de condições mínimas de infraestrutura para o funcionamento industrial. Havia deficiência no suprimento de energia elétrica; insuficiência de infraestrutura portuária, rodoviária e de comunicações; além de fatores como a inexistência de economias externas, o reduzido mercado local e a maior distância dos mercados fornecedores e consumidores de bens intermediários e finais. A exclusão do Ceará o colocou em posição de desvantagem em relação aos demais estados brasileiros, e do Nordeste em particular. Seus indicadores econômicos e sociais no final dos anos 70 evidenciavam essa desvantagem. Na época, o Estado tinha, por exemplo, um dos níveis de renda per capta mais baixos do Brasil e do Nordeste (AMARAL FILHO; ROCHA, 2006).
Numa perspectiva da industrialização, este perfil do Estado começa a sofrer uma metamorfose com o esforço industrializante do Governo Virgílio Távora, 1963- 1966, quando para Amaral Filho (2003, p. 11) “na medida em que este tirou o Ceará do isolamento do fornecimento federal de energia hidrelétrica, do sistema Chesf de Paulo Afonso, quando prolongou o abastecimento da região do Cariri para Fortaleza”.6
Neste período também é criado o Plano de Metas Governamentais (PLAMEG) com o objetivo de dotar o Estado de condições para a atração de novos investimentos. Este é considerado, para Pontes (2001), o primeiro plano de governo a fixar diretrizes para o desenvolvimento das atividades produtivas no Ceará. Neste Plano que estabeleceu metas para o período 1963-1966, o Governo do Ceará teve na industrialização a principal fonte de promoção do desenvolvimento estadual dada às características físicas do território do referido estado.
Na visão de Pereira Júnior (2005), é dessa fase (principalmente durante os anos 1960) que o Governo Estadual se mobiliza no intuito de aparelhar o Ceará para maior acesso aos investimentos regionais e aos investimentos externos.
6 No Ceará, a energia elétrica de Paulo Afonso chegou primeiro ao Cariri em 1963 e só posteriormente foi prolongada para a Capital Fortaleza.
Inicialmente, concentra-se maior esforço no aperfeiçoamento das condições infraestruturais para, em seguida, o Estado buscar facilitar a penetração dos mecanismos de produção e reprodução capitalista do espaço cearense.
As principais políticas de infraestrutura e industriais adotadas no período foram às relacionadas a seguir: expansão da área de atracação do porto do Mucuripe, bem como o aumento da sua profundidade, de forma a permitir a atracação de navios de grande porte; aumento da oferta de energia elétrica, de forma a disponibilizar energia para todo o estado; atração de investimentos industriais por meio de incentivos fiscais e criação e implementação dos distritos industriais de Fortaleza, Sobral e Juazeiro do Norte-Crato-Barbalha; criação de órgãos visando à promoção do desenvolvimento industrial: Superintendência de Desenvolvimento do Ceará (SUDEC), Companhia de Desenvolvimento do Ceará (CODECE) e Banco do Estado do Ceará (BEC). (OLIVEIRA apud NUNES, 2005).
Esse esforço industrializante tem sequência no segundo governo de Virgílio Távora, 1979-1983, quando diversos mecanismos financeiros foram criados como a implantação da Lei que deu lugar à Política de Atração de Investimentos e a criação do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI)7, no intuito de facilitar a liberação de recursos para financiamento de novos projetos.