5 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA DE CAMPO
5.3 DISCURSOS DO SUJEITO COLETIVO
5.3.2 Segundo tema: envolvimento profissional / social
Este tema que os DSCs da primeira questão nos apontam é o envolvimento de seus atores com o processo de Reforma Psiquiátrica. Todo processo de mudança precisa contar com a compreensão de seus objetivos pelos que fazem parte do contexto a ser mudado e que estes sejam percebidos como valores significativos. Não é tarefa fácil conseguir isso.
A Reforma Psiquiátrica é uma proposta ousada, que não se restringe a mudanças técnicas, seria simples se assim o fosse. Ela apresenta uma visão diferente de algo conceituado há muito tempo, conceitos sedimentados em um saber que foi um dia considerado um avanço, assim como se apresenta hoje o seu processo.
Há de se empregar tempo no trabalho de desconstrução de um modelo assistencial que, para muitos, significa segurança e proteção aos pacientes e familiares. Por isso, o empenho na criação de espaços para a discussão da assistência à saúde mental tem de se intensificar. O DSC denuncia a falta de integração entre profissionais como uma das causas da dificuldade de aceitação da sociedade ao novo modelo.
Parece que a resistência de muitos profissionais em se integrar, se envolver com a causa desta Reforma está relacionada ao pouco entendimento dos objetivos da proposta. O que sabem ainda não é suficiente para perceberem a significância dos objetivos da proposta para a qualidade de vida dos pacientes.
A psiquiatria evidenciou a doença e colocou o sujeito entre parênteses para melhor se ocupar dela. Basaglia (1982) propõe o inverso: a doença deve ser colocada entre parênteses, não em sinal de negação da mesma, mas para que o sujeito tome o lugar de prioridade da atenção e do cuidado. Isso ainda não é compreendido por muitos profissionais da área, é o que se constatou no DSC: “Conheço psiquiatras, médicos jovens pautando o
“As Unidades Básicas de Saúde - médicos, enfermeiros e toda a equipe de saúde - deveriam buscar mais conhecimento deste processo de Reforma Psiquiátrica”. Compartilha-se com a idéia do DSC, no entanto,
acredita-se que a iniciativa deve partir da equipe de saúde mental; o diálogo sobre a Reforma Psiquiátrica na comunidade deve fazer parte do cotidiano dos profissionais que atuam nos serviços assistenciais.
As medidas que a divulgação das propostas da Reforma Psiquiátrica promove, é uma concepção diferente sobre a doença mental e assistência, que precisam alcançar a sociedade como um todo e não se restringir às escolas e aos grupos de familiares dos pacientes. A reabilitação psicossocial acontece quando a sociedade está preparada para receber o paciente como um cidadão recuperado, com limitações, mas capaz. E quem, senão o profissional de saúde, vai tornar isso possível?
Nos DSC alusivo à não-integração, ao não-engajamento de todos os profissionais da área de saúde no processo de Reforma Psiquiátrica e pouco conhecimento da sociedade sobre o mesmo, foram citados dois órgãos que, no decorrer da história, têm influenciado fortemente na formação da opinião pública e, conseqüentemente, nas transformações sociais, são eles: as escolas e a mídia.
As escolas têm responsabilidade na formação de uma nova mentalidade e nas inovações técnicas profissionais. O meio acadêmico é o espaço privilegiado para o debate das idéias e avaliação da prática cotidiana e as implicações em seu contexto. Entende-se que as idéias relacionadas a recursos técnicos são mais facilmente expostas, discutidas, assimiladas e descartadas. Quando a questão envolve conceitos, crenças, a disponibilidade para o debate é, por vezes, bloqueada. Mudanças de concepções não acontecem do dia para a noite, e o ponto de partida são todos: trabalhadores, usuários e familiares (Prandoni, Padilha e Spricigo, 2006).
Sobre a doença mental, há conceitos milenares que fazem parte da concepção de vida de muitas pessoas; a aversão, a piedade, a indiferença para com as pessoas doentes não são percebidas como problemas a serem resolvidos ou mesmo expostos. Afinal, elas não faziam parte de seu ambiente social. A maioria dos enfermeiros só teve seu primeiro contato com
uma pessoa em sofrimento psíquico no momento dos estágios, o mesmo ocorre com outros profissionais. Fora da área de saúde, há pessoas que nunca tiveram uma aproximação com o este tipo de doente.
É neste contexto que está o desafio das escolas, em formar profissionais com potencial de transformar esta realidade. Não há aqui a intenção de análise dos currículos escolares ou mesmo dos planos de ensino, mas o endosso ao DSC; “as escolas deveriam dar mais ênfase para a disciplina de Enfermagem
Psiquiátrica e Saúde Mental”. Neste sentido, a atuação interdisciplinar, de modo
que o tema Reforma Psiquiátrica não seja restrito à disciplina.
O docente da área de Saúde Mental tendo a iniciativa em criar e ampliar os espaços de apresentação e debate do processo de Reforma Psiquiátrica, assim como o profissional da assistência, junto aos serviços assistenciais estariam acelerando a divulgação do processo de Reforma Psiquiátrica, possibilitando maior conhecimento e envolvimento de mais seguimentos da sociedade.
Formar enfermeiros e instrumentá-los para atuarem nos serviços assistenciais é um desafio que vem sendo vencido para as escolas. Mas o processo é complexo, tenhamos em mente que a transformação não se fará em curto prazo. A legislação por si só não faz a Reforma Psiquiátrica. É preciso que se construa no dia-a-dia dos serviços e das instituições formadoras espaços potenciais de intercâmbio e renovação (Prandoni, Padilha e Spricigo, 2006).
Quanto à abordagem da Reforma Psiquiátrica pela mídia, ter ênfase nas denúncias de falhas dos serviços induz a uma reflexão: quando os profissionais têm procurado este meio para a educação em saúde, para a divulgação de suas atividades? Os meios de comunicação têm divulgado conteúdos, dos quais têm acesso. Fica o questionamento: Por que não possibilitar o acesso de conteúdos mais esclarecedores sobre o cotidiano dos serviços de atenção à saúde mental?
Tem-se o exemplo do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, em Campinas, no Estado de São Paulo, que tem utilizado a mídia, o jornal, o rádio e a televisão, com o objetivo de desmistificar a loucura na sociedade, sendo importantes veículos de formação de opinião pública para a diminuição de
preconceitos e aumento da inclusão social (Roldão e Moreira, 2007). O serviço conta com um jornalista em sua equipe e parte das atividades, da rádio, o jornal tem a participação dos usuários. É uma particularidade incomum nos serviços de assistência à saúde mental, mas que pode contribuir para que outros serviços busquem espaço nos meios de comunicação local para a integração com a sociedade.
No estudo sobre a Reforma Psiquiátrica e mídia realizado no Estado de São Paulo, foi constatado que os textos publicados no jornal estudado representam “...quase de forma fidedigna a dicotomia presente no campo da
Saúde Mental.” (Machado, 2004; p.490). Vale considerar que os meios de
comunicação funcionam como um disparador para a reflexão e formação de opinião pública de qualquer área.
5.3.3 Terceiro tema: necessidade de mudanças na administração do