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Segurança do Direito no Âmbito do Estado Democrático de Direito

CAPÍTULO 1 – O PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA

1. Segurança Jurídica no Estado Democrático de Direito

1.1. Segurança do Direito no Âmbito do Estado Democrático de Direito

Direito e segurança estão estreitamente relacionados, lembrando-se que o direito protege o “existente” axiologicamente relevante e conduz as modificações da sociedade em trilhos ordenados, proporcionando, respectivamente, estabilidade e calculabilidade44. Pode- se afirmar que uma das tarefas do direito é justamente a “fixação do futuro”, de modo que, como salienta Arnauld45, o direito, como técnica social, tem a função prioritária de assegurar expectativas46. Assim, vale fazer alusão à concepção defendida por Larenz47 de que paz jurídica – a qual alberga a segurança jurídica – e justiça são os principais componentes da “ideia de direito”, de modo que um se encontra em uma relação dialética em relação ao outro, servindo-se mutuamente48.

Direito’, como aos tempos do legalismo. A ação-tipo deve ser, prévia e adequadamente, conhecida por todos e, além disso, aplicada em um permanente estado de confiança em relação às condutas do Estado, com efetividade dos direitos fundamentais em todos os seus atos” (TORRES, Heleno Taveira. Direito constitucional tributário e segurança jurídica: metódica da segurança jurídica do Sistema Constitucional Tributário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 32-33).

Todavia, ainda que, no âmbito do Estado Democrático de Direito, a segurança jurídica não possa ser entendida meramente como o “direito ao Estado de Direito”, não há que se negar que aquela é componente deste: “O homem necessita de segurança para conduzir, planificar e conformar autônoma e responsavelmente a sua vida. Por isso, desde cedo se consideraram os princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança como elementos constitutivos do Estado de direito” (CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 2011, p. 257).

44 Cf. ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 76; ZIPPELIUS, Reinhold. Das Wesen des Rechts: eine Einführung in die Rechtstheorie. 6 ª ed. Stuttgart: Kohlhammer, 2012, p. 101.

45 Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 76.

46 Cf. FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Segurança jurídica e normas gerais tributárias. Revista de Direito Tributário, São Paulo, v. 5, n. 17-18, p. 51, jul./dez. 1981; LARENZ, Karl. Richtiges Recht: Grundzüge einer Rechtsethik. München: Beck, 1979, p. 36.

47 Richtiges Recht: Grundzüge einer Rechtsethik. München: Beck, 1979, p. 41.

48 “Nos dias de hoje, portanto, é perfeitamente possível partir da premissa de que não há segurança jurídica onde o direito não for em si mesmo seguro e justo. E embora essa harmonia no campo dos valores nem sempre se reflita na realidade concreta, cumprirá ao legislador, no primeiro plano, e ao juiz, secundariamente,

Dessa forma, com o estabelecimento da normatividade, cabe falar de relações deônticas, as quais proporcionam orientação e segurança. Nesse sentido, o direito tem o condão de assegurar as expectativas acerca do comportamento dos outros – destacando-se, assim, o caráter originalmente privatístico dessa concepção de segurança jurídica49 – e das instituições, trazendo à baila a previsibilidade. Está-se, assim, diante da segurança por meio do direito50.

Assim, a concepção de segurança por meio do direito relaciona-se à própria existência do Estado de Direito51. Essa noção acompanha, assim, o debate relativo às tarefas do Estado e ao seu papel protetor de direitos fundamentais. Nesse contexto, vale fazer alusão aos valores defendidos com o Iluminismo52 e com a Revolução Francesa53, lembrando-se que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão fez alusão à segurança – ao lado da liberdade, da propriedade e da resistência à opressão – como direito natural e imprescritível do homem54.

dar ao conflito a solução racional que importe no menor grau de sacrifício à segurança jurídica e à justiça” (BAPTISTA, Patrícia Ferreira. Segurança jurídica e proteção da confiança legítima no direito administrativo: análise sistemática e critérios de aplicação no direito administrativo brasileiro. 2006. 374 f. Tese (Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 29). 49 Arnauld destaca, assim, que “no núcleo dessa função de segurança do direito está a ideia da promessa, com a qual o homem se faz calculável aos homens” (tradução livre). No original: “Im Kern dieser Sicherungsfunktion des Rechts steckt dabei die Idee des Versprechens, mit dem sich der Mensch dem Menschen berechenbar macht”. Nesse contexto, destacam-se as relações contratuais e a noção de pacta sunt servanda (ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 77).

Nesse contexto, vale fazer referência à noção de pacta sunt servanda (ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 77).

50 Cf. PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 19.

51 “En una versión elemental de la seguridad jurídica, podríamos decir que la misma consiste en la propia existencia del Derecho. La existencia de un orden jurídico es ya de por sí una garantía de seguridad y la seguridad fundamenta y justifica el surgimiento de las instituciones jurídicas y del Estado mismo. La existencia del Estado expresa la seguridad de una autoridad capaz de componer eventuales conflictos, a través de un sistema sancionador y de imponer heterónomamente, por medio de lo que RÜMELIN, llama una ‘instancia supraindividual’ – “überindividuelle Instanz” –, determinadas formas de comportamiento” (GARCÍA NOVOA, César. El principio de seguridad jurídica en materia tributaria. Madrid: Marcial Pons, 2000, p. 22-23).

52 Cf. VOGEL, Klaus. Rechtssicherheit und Rückwirkung zwischen Vernunftrecht und Verfassungsrecht. Juristenzeitung, Tübingen, n. 18, p. 833, 1988.

53 CASÁS, José Osvaldo. Seguridad jurídica y tributación. Revista Jurídica de Buenos Aires. Buenos Aires, p. 65, 2001.

54 Nesse sentido é o artigo 2 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: “Le but de toute association politique est la conservation des droits naturels et imprescriptibles de l'Homme. Ces droits sont la liberté, la propriété, la sûreté, et la résistance à l'oppression” (FRANÇA. Déclaration des droits de l’homme et du citoyen de 1789. Disponível on-line em: <http://www.conseil-constitutionnel.fr/conseil- constitutionnel/francais/la-constitution/la-constitution-du-4-octobre-1958/declaration-des-droits-de-l-homme- et-du-citoyen-de-1789.5076.html >. Acesso em 01 dez. 2012).

Todavia, Savigny, ainda em 1840, fez referência à segurança jurídica como característica do próprio direito. Interessante anotar, que, segundo Savigny, essa concepção de segurança jurídica remonta à noção romana de ius certum55, na qual já estava contida a ideia de que o direito em si pode ser inseguro e de que a segurança jurídica pode exigir a própria segurança jurídica do direito56.

A partir da concepção de segurança do direito, o direito deixa de ser compreendido como um instrumento para o alcance de objetivos extrajurídicos, de modo que a ideia de segurança passa a compor uma qualidade do próprio direito Há que se destacar, neste ponto, a possibilidade de a própria norma que visa à realização da segurança (segurança por meio do direito) ser insegura, em virtude de sua vagueza ou da incerteza relativamente à sua aplicação57. Dessa forma, a segurança jurídica assume caráter reflexivo, por fazer referência ao próprio direito58. Chega-se, assim, à concepção segurança do direito. Nesse sentido, passa-se a exigir que atos oriundos dos Poderes estatais sejam dotados de confiabilidade e calculabilidade59.

Nessa esteira, tem-se que, originariamente, a segurança do direito, mormente no âmbito tributário, foi vista tão somente a partir do aspecto da certeza60, de modo a se assegurar a segurança por meio do controle da observância da lei, da previsibilidade e da estabilidade temporal das regras jurídicas. Todavia, essa concepção relacionada à noção formalista do Estado é insuficiente para a determinação da segurança jurídica no âmbito do Estado Democrático de Direito61e62.

55 ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 88.

56 Cf. SAVIGNY, Friedrich Karl. System des heutigen römischen rechts. V. 1. Berlin: Veit und Comp.: 1840, p. 322. A esse respeito cf. ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 88-89.

57 ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 87.

58 A segurança jurídica do direito passa a depender de instituições estatais que a garantam. Assim, Arnauld relaciona,essa mudança de perspectiva a uma “publicização” do direito, a qual se situa no centro da escola kantiana (ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 80-83).

59 Note-se, portanto, que, onde a mera “promessa” deixa de ser suficiente, passa-se a empregar meios jurídicos para a garantia das expectativas dela decorrente (ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 79). 60 SMITH, Adam. A riqueza das nações. V. 2. Trad. port. de Alexandre Amaral Rodrigues; Eunice Ostrensky. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 1046- 1047.

61 Cf. TORRES, Heleno Taveira. Direito constitucional tributário e segurança jurídica: metódica da segurança jurídica do Sistema Constitucional Tributário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 30.

De fato, atualmente, a concepção dominante de segurança jurídica relaciona-se à ideia de segurança jurídica do direito63, a qual, entretanto, deve desprender-se da vinculação à concepção formalista de Estado, de modo que deve ser interpretada com vistas às peculiaridades do Estado Democrático de Direito. Assim, como anota César García Novoa, a carga valorativa da segurança jurídica64 decorre da própria “substancialização” do Estado, que perde seu caráter estritamente formalista65, caracterizando-se como Estado Democrático de Direito66. Diante disso, utilizar-se-á, neste

62 Para considerações acerca da formação histórica da segurança jurídica cf. PÉREZ LUÑO, Antonio- Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 13 e ss.

63 ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 89.

64 Nesse sentido, o autor faz referência à recorrente tensão entre segurança e justiça e observa: “Aquí es donde aparece en toda su plenitud la dimensión valorativa de la seguridad, valor que debe ser construido a través de su vinculación a otro valor como es la justicia. Como señala NAVAS VÁSQUEZ, <aquí la seguridad no puede prescindir, para ser funcional, del valor justicia>. El haber sabido compatibilizar el concepto de seguridad con el de justicia-valor supone un hito decisivo a la hora de superar una visión de la seguridad basada en presupuestos positivistas y conservadores, esbozada a partir de una concepción del Derecho como orden normativo desligado de la idea de justicia material. Estamos hablando de lo que PAREJO ALFONSO, denomina ‘seguridad constitucional’, que contribuye a una sociedad bien ordenada, entendida ‘como una sociedad y un Estado justos’. Así, pues, debemos concluir que no resulta posible admitir otro concepto de seguridad jurídica que no sea el de seguridad a través de un Derecho merecedor de un juicio positivo de racionalidad” (GARCÍA NOVOA, César. El principio de seguridad jurídica en materia tributaria. Madrid: Marcial Pons, 2000, p. 25).

65 “É lógico que o modelo de Estado de Direito não permaneceu estanque desde o seu surgimento. A concepção (formal) do Estado de Direito como um Estado de leis, surgida no século XIX, foi abandonada no curso do século XX em favor de um conceito material de Estado de Direito. Nesse conceito material, mantém-se a vinculação do juiz e da Administração à lei, mas acrescenta-se a vinculação do próprio legislador, do juiz e da Administração aos princípios constitucionais e aos direitos fundamentais. (...) O conceito de Estado de Direito material, portanto, corresponde ao conceito de segurança jurídica material a que mais atrás já se aludiu” (BAPTISTA, Patrícia Ferreira. Segurança jurídica e proteção da confiança legítima no direito administrativo: análise sistemática e critérios de aplicação no direito administrativo brasileiro. 2006. 374 f. Tese (Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006, p. 32).

66 “La progresiva perfección de la fórmula clásica del Estado de Derecho va a añadir a su conceptualización la llamada cuestión de la legitimación democrática del poder del Estado. El componente democrático unirá a esta definición del Estado el dato de que sólo es posible garantizar esa limitación del poder a través de la participación popular en la creación del ordenamiento, de forma que tal participación se revela como el esencial principio formal que determina la validez del orden jurídico. En otras palabras, sólo existirá un orden normativo que promueva la seguridad jurídica en el marco de un Estado configurado a partir de la fórmula democrática, la cual se basa en la soberanía popular y en la garantía de una permanente conexión entre el poder y los ciudadanos. A partir de este momento, Estado de Derecho y Estado democrático se identifican. (…)

Los derechos fundamentales son, por tanto, parte esencial de la misión aseguradora del Estado de Derecho, al convertirse en el contenido valorativo de este tipo de Estado. En el Estado de Derecho la Constitución deja de entenderse <como una simple articulación formal de poderes>, para ser un <parágrafo de los valores materiales de todo el ordenamiento>. Es así como hay que comprender una visión sustancial de la seguridad jurídica basada en una concepción también sustancial de la legalidad. La sustancialización de la seguridad jurídica en el marco del Estado de Derecho es producto de la propia sustancialización de este tipo de Estado, pues la única forma de garantizar la primacía total de la Constitución es abandonar la idea de un Estado puramente legal, para pasar a ver al Estado de Derecho como un Estado inspirado por un conjunto de principios constitucionales, y en el que las normas jurídicas, fruto de la voluntad general, se someten a un

trabalho, a expressão “segurança jurídica material” e suas variações para fazer referência à segurança do direito atrelada à noção material de Estado.

Nesse contexto, mostram-se oportunas e esclarecedoras as considerações de Pérez Luño que, embora relativas ao Estado de Direito, mais se aplicam, segundo os pressupostos deste trabalho, ao Estado Democrático de Direito67:

“En el Estado de Derecho la seguridad jurídica asume unos perfiles definidos como: presupuesto del Derecho, pero no de cualquier forma de legalidad positiva, sino de aquella que dimana de los derechos fundamentales, es decir, los que fundamentan el entero orden constitucional; y función del Derecho que <asegura> la realización de las libertades. Con ello, la seguridad jurídica no sólo se inmuniza frente al riesgo de su manipulación, sino que se convierte en un valor jurídico ineludible para el logro de los restantes valores constitucionales”.68

Ante as considerações acima, tem-se que o Estado Democrático de Direito não convive com o dualismo “segurança jurídica versus justiça”69, porquanto a segurança jurídica deve compreender não apenas os ideais veiculados pela certeza – sob a ótica estritamente formalista –, mas deve garantir a efetividade do próprio ordenamento jurídico70, que, justamente por consubstanciar um Estado Democrático de Direito, deve, necessariamente, reconhecer e assegurar os direitos fundamentais da pessoa humana71.

canon de ‘razonabilidad’” (GARCÍA NOVOA, César. El principio de seguridad jurídica en materia tributaria. Madrid: Marcial Pons, 2000, p. 28-29).

67 Pérez Luño observa que no Estado de Direito “se instaura da protección de los derechos y libertades em la cúspide de las funciones estatales” (PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 20). Todavia, esta concepção mais se aproxima da noção de Estado Democrático de Direito adotada neste trabalho.

68 PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 20.

69 “La aproximación entre seguridad y justicia se produce ahora a partir de una concreción de ambos valores. El primero deja de identificarse con la mera noción de legalidad o de positividad del Derecho, para conectarse inmediatamente con aquellos bienes jurídicos básicos cuyo <aseguramiento> se estima social y políticamente necesario. La justicia pierde su dimensión ideal y abstracta para incorporar las exigencias igualitarias y democratizadoras que informan su contenido en el Estado social de Derecho” (PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 52). Cf. SILVA, Almiro do Couto e. Princípios da legalidade da administração pública e da segurança jurídica no Estado de Direito contemporâneo. Revista de Direito Público. São Paulo, v. 20, n. 84, p. 46 e ss., out./dez. 1987; SPITALER, Armin. Rechtssicherheit, Zweckmäβigkeit und Gerechtigkeit im Steuerrecht. In: SPITALER, Armin. Steuerberater-Jahrbuch 1957/58. Köln: Dr. Otto Schmidt, 1957, p. 154.

70 Cf. TORRES, Heleno Taveira. Direito constitucional tributário e segurança jurídica: metódica da segurança jurídica do Sistema Constitucional Tributário. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 27. 71 Cf. SILVA, José Afonso da. O Estado Democrático de Direito. Revista dos Tribunais, p. 10, v. 638, set. 1988.

Trata-se do conteúdo axiológico desse Estado72. Observe-se, portanto, nesse contexto, a segurança jurídica passa a ser, ela própria, um valor, na medida em que passa a ser concebida como “una concreción de las exigencias de la justicia que representa una <specifica eticitá del diritto>”73.

A essa concepção se constrasta aquela da segurança jurídica como “fato”, considerado ínsito a todo Direito, haja vista a normatividade a este inerente74. Com isso, vale observar, com Casás, que “un ordenamiento cuyo contenido no sea justo, nos permitiria arribar tan solo a la seguridad de la inseguridad, para comprender, entonces, que la seguridad jurídica debe ser sobre todo seguridad del Derecho mismo”75. Logo, não basta, no Estado Democrático de Direito a segurança de “qualquer direito”, mas, sim, do Direito que se coaduana com os ideais desse Estado, o que conduz a uma concepção material de segurança jurídica, compreendida como segurança do direito. Em suma, a segurança jurídica deve se assegurar, no âmbito do Estado Democrático de Direito, à realização dos valores consubstanciados por esse Estado e, consequentemente, a justiça material76.

Não se pode, entretanto, negligenciar a íntima relação entre a segurança por meio do direito e a segurança do direito, porquanto esta pressupõe aquela. Assim, se, por um lado, o direito deve contribuir para a segurança por meio da fixação de direitos e deveres, de modo a assegurar expectativas (segurança por meio do direito); por outro lado essa contribuição apenas será efetiva, caso o direito seja seguro (segurança do direito)77. Por

72 Cf. GARCÍA NOVOA, César. El principio de seguridad jurídica en materia tributaria. Madrid: Marcial Pons, 2000, p. 28-29.

73 PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 21. 74 Cf. PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 21.

75 CASÁS, José Osvaldo. Seguridad jurídica y tributación. Revista Jurídica de Buenos Aires. Buenos Aires, p. 128, 2001. As seguintes considerações de Pérez Luño são oportunas: “En su acepción estrictamente empírica puede existir una seguridad impuesta a través de un Derecho que garantice coactiva e inexorablemente el cumplimiento de una legalidad inicua. De hecho la manipulación de la seguridad jurídica por los despotismos de todo signo representa una constante histórica. En los Estados totalitarios los dogmas de la plenitud y autosuficiencia del ordenamiento jurídico, el principio de la inquebrantabilidad e inexorabilidad de la legalidad, la publicidad exagerada hasta la propaganda de la ley, así como el control de la discrecionalidad judicial han sido instrumentalizados al máximo para la imposición del monopolio político e ideológico. La seguridad jurídica, así entendida y degradad, no ha impedido la promulgación de leyes dirigidas a consagrar diversas formas de discriminación racial o poítica y, en suma, el control opresivo de la sociedad” (PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La seguridad jurídica. Barcelona: Ariel, 1991, p. 19-20). 76 Cf. HARTZ, Wilhelm. Mehr Rechtssicherheit im Steuerrecht: Ziele – Wege – Grenzen. In: THOMA, Gerhard; ZACHARIAS, O. H.; NIEMANN, Ursula. Steuerberater-Jahrbuch 1965/66. Köln: Dr. Otto Schmidt, 1965, p. 79.

77 ARNAULD, Andreas von. Rechtssicherheit: perspektivische Annäherungen an eine idée directrice des Rechts. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006, p. 79.

outro giro, tem-se que a realização da segurança por meio do direito deve estar assegurada, o que remete à segurança do direito78.

Diante disso, pode-se afirmar que a construção da segurança jurídica no âmbito do Estado Democrático de Direito não exige apenas que se realize a segurança jurídica por meio do Direito, porquanto se impõe a realização da segurança jurídica do próprio