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Segurança: limitando as ações das crianças

4.1 Disciplinarização: formas para conseguir o comportamento desejado das crianças

4.1.3 Segurança: limitando as ações das crianças

A subcategoria segurança se refere à preocupação da escola, e consequentemente das professoras em resguardar a vida dos alunos, de manter a integridade física das crianças no ambiente escolar, seja na entrada das crianças (recepção pelo guarda da instituição) em um horário que as professoras já estão esperando as crianças na sala, na própria sala de aula, no refeitório, no parque, etc., ou seja, em todas as dependências da escola.

Synara: É...deixe eu perguntar outra coisa para vocês: é...como é essa escola que vocês estão vendo aí, o que faz nessa escola?

Manuela: Estudar, brincar, não correr pra não cair. (2º Encontro semiestruturado, atividade 2)

[...] de novo só o cuidado redobrado com as crianças, inclusive as professoras estavam proibindo que as crianças corressem para não se machucar. (Diário de campo, 3º dia)

Foi quando a professora viu Karina mexendo na lapiseira e perguntou “eu dei autorização para alguém fazer a ponta do lápis? Não quero ninguém fazendo a ponta do lápis”. Ela justificou que não queria que eles fizessem a ponta do lápis porque fica pontiagudo e pode ferir alguém, furar algum olho, etc. por questão de segurança ela prefere manter a ponta do lápis sem pontas afiadas. Enquanto ela falava isso, Karina furou o colega e a professora tomou o lápis dela. (Diário de campo, 6º dia)

Fábio disse que ia tentar reproduzir a experiência em casa (colocar pouca água no fogo para vê-la desaparecer no vapor), mas a professora foi logo dizendo que isso não era atividade para criança, que era perigoso que elas podiam observar o vapor quando a mãe colocasse água na chaleira. (Diário de campo, 7º dia)

A professora com medo, encerrou o recreio mais cedo e levou os alunos para a sala e explicou que a hora do brinquedo seria na própria sala porque fora estava tudo molhado. Porém, antes de brincar, eles iriam terminar a pintura que começaram antes do recreio. (Diário de campo, 14º dia)

Nesse dia, chovia bastante, havia muitas poças de água na parte sem cobertura da escola e no corredor que dá acesso a esse local, onde as crianças brincam. Por isso, quando as crianças brincavam, as professoras brigavam. Angélica até pegou um rodo para tirar o excesso de água que tinha no corredor. Parecia bastante preocupada com a segurança das crianças. Já as crianças pareciam alegres ao pular nas poças e cair na água. (Diário de campo, 14º dia)

Figura 09- Batente no corredor

Fonte: Registros da pesquisa.

Figura 10- Rampa de acesso ao pátio

Fonte: Registros da pesquisa.

A fala de Manuela, pedindo para “não correr pra não cair”, no encontro semiestruturado esclarece como a questão da segurança é enfatizada pela professora, consequentemente apropriada e reproduzida pela criança. Os registros do diário de campo também demonstram diferentes situações onde predomina a segurança: a correria das crianças em dias normais, o apontador do lápis, a experiência com fogo feita no refeitório e as poças de água em dias de chuva. E, as figuras 09 e 10 mostram o batente que preocupava as professoras quando as crianças estavam correndo, especialmente se tivesse chovido, pois ele ficava

escorregadio e as crianças poderiam se machucar e a rampa de acesso ao pátio, que foi construída para minimizar a altura do batente naquela parte.

Isso demonstra a grande preocupação que a professora tinha com a integridade física das crianças. O recreio, que geralmente parecia mais livre para as brincadeiras acontecerem de forma espontânea, também era controlado em nome da garantia de integridade física das crianças. Sobretudo, as professoras brigavam constantemente com as crianças porque elas corriam e inventavam outras brincadeiras que as preocupavam, como aconteceu na brincadeira das poças de água no corredor de acesso ao pátio, no dia em que estava chovendo, conforme foi apresentado.

Quanto à questão da preocupação com a segurança, Barbosa (2000) diz que ela impede a criação de desafios para as crianças. A ideia de passividade, de cuidado para não se machucar foram encontradas na pesquisa dessa autora. Corroborando essa visão, Faria (2007) afirma que o espaço externo e interno devem permitir o fortalecimento da independência da criança, precisa ser seguro, mas não ultraprotetor. Ou seja, não se deve impedir as experiências que favoreçam o autoconhecimento dos perigos e obstáculos que o ambiente proporciona por causa da segurança.

Além disso, Angotti (2010) assinala que, no recreio, as professoras se mantêm distanciadas de seus alunos, sentadas em suas cadeirinhas conversando com outros colegas e supervisionando a brincadeira das crianças para que não se machuquem. Diferentemente da pesquisa citada, percebeu-se neste estudo que, durante o recreio das crianças, a professora da turma acompanhada não ficava conversando com as colegas.

Porém, supervisionava os alunos, levava os cadernos das crianças para corrigir, para fazer atividades para classe ou para casa (devido à falta de xérox na escola), o que pareceu demonstrar um distanciamento da professora em relação aos seus alunos. Ao mesmo tempo, a professora permitia que mexessem em seu cabelo, às vezes sugeria algumas brincadeiras para as crianças brincarem.

Cabe lembrar que a questão da falta de xérox foi um dos problemas apontados pela professora durante as observações e na entrevista realizada com ela. Assim, devido à necessidade que a professora tinha em passar as atividades, mesmo com a falta de recursos para imprimir as folhas mimeografadas, ela utilizava o tempo do recreio para suprir essa necessidade.

Isso demonstra um alto grau de comprometimento da professora em relação à aprendizagem de seus alunos, pelo menos de acordo com a visão que ela tem de aprendizagem. Mas, com isso, deixava de interagir com seus alunos durante o recreio e perdia

a possibilidade de se aproximar das crianças e observá-las para descobrir os interesses das mesmas que podem ser transformados em projetos educativos mais significativos para o aprendizado das crianças. Talvez essa questão seja um dos problemas que a comunicação equivocada entre professora-aluno tenha provocado. O próximo tópico irá discutir sobre isso.