Segundo Ato
D: Sei que os Lacônios, os quais perseguimos,
Não são responsáveis por todos os nossos problemas329.
É claro que a defesa aberta aos espartanos atiça ainda mais o ódio dos carvoeiros que se negam completamente a ouvir os argumentos de Diceópolis, uma vez que incontestável é a infração que o camponês cometeu contra as leis comuns da
polis. No entanto, vale a pena notarmos que semelhantemente ao que ocorre na
comédia Vespas, cujo coro reluta em ouvir os argumentos de defesa de Bdelicléon referentes à proibição que o jovem impôs ao pai de julgar; o coro de Acarnenses também se nega a ouvir o discurso de defesa do herói. Vejamos:
em Vespas:
Bdelicléon: Não há um caminho em que possamos introduzir
Uma discussão
E entrarmos uns com os outros em acordo, sem briga e sem este grito estridente?
Coro: Discutir com você, inimigo do povo,
Amante da monarquia
E de Brásidas comparsa e, ainda por cima, usa franjas De lã e a barba cresce sem aparar330?
Em Acarnenses:
Diceópolis: E não sabem por que fiz essas tréguas? Então
ouçam.
Coro: Ouvirmos a ti? Morrerás. Vamos te esmagar com essas
pedras331.
Tanto Bdelicléon quanto Diceópolis deslocam para o âmbito privado questões que são públicas. De um lado, Bdelicléon impede que seu pai Filocléon julgue nos tribunais da Heliéia, ou seja, impede a participação do pai no dispositivo público essencial para a manutenção da justiça na polis; de outro lado, Diceópolis não acata a
329 ARISTÓFANES. Acarnenses, vv. 309-10. 330 ARISTÓFANES. Vespas, vv. 471-76. 331 ARISTÓFANES. Acarnenses, vv. 293.
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decisão suprema da assembleia democrática e resolve comprar para si e sua família tréguas com Esparta. Desse modo, podemos dizer que os dois heróis cômicos, a princípio, contrariam instrumentos públicos para mostrar à cidade o caminho mais justo e sensato que deveria ser adotado por todos332. Contudo, no caso de Bdelicléon,
d As vespas, a atitude de aprisionar o pai, Filocléon, se dá como resposta ao vício do
velho que, na verdade, não julga de maneira justa, porém é viciado em condenar todos os acusados. Uma ação que, no final das contas, não auxilia em nada a promoção da justiça na polis, que requer que seus juízes absolvam ou condenem de acordo com as evidências demonstradas e não em função do sádico prazer condenatório. E, no mais, torna-se evidente que todos os velhos jurados são explorados de maneira leviana pela prestação de serviços que oferecem à polis. Nesse sentido, a ação de Bdélicleon visa o interesse de seus concidadãos, uma vez que o vício do pai não auxilia em nada na manutenção do bem-estar político, mas ao contrário, prejudica toda a comunidade. Assim, minar as ações de Filocléon na Heliéia repercute positivamente na vida da polis, que deixa de arcar com as consequências das atitudes de um cidadão que sacrifica a racionalidade jurídica a fim de beneficiar-se da satisfação de seu desejo particular de condenação, custe o que custar.
Quanto a Diceópolis, embora este tenha desmascarado os impostores em público, sua ação não foi suficiente para a assembleia perceber a manipulação elaborada pelos políticos no que diz respeito às questões bélicas. E, além do mais, com o início da chuva, as deliberações tiveram de ser interrompidas sem nenhuma possibilidade de se colocar em discussão a paz entre Atenas e os espartanos. Assim, contrariando a decisão democrática de continuidade das hostilidades, ele decide comprar privadamente tréguas com o inimigo lacônio. Logo, a ação do camponês visa apenas seu interesse particular de escapar da guerra, mas que em termos práticos não se mostra como benéfica ao conjunto da polis, precisamente porque é uma decisão que implica tanto na marginalidade espacial quanto comportamental do herói. Em outros termos, diferentemente de Bdelicleón, aparentemente a ação de Diceópolis
332 Em comentário à peça Acarnenses, Leo Strauss afirma que é porque Diceópolis mostra a via à cidade
que seu plano é bem-sucedido. Apesar de o agricultor privilegiar o âmbito privado da família, seu final é feliz, pois, se exprime em uma manifestação pública e, assim, mostra um caminho para a polis. Cf. STRAUSS, L. Socrate et Aristophane, p. 78. Todavia, penso que o posicionamento de Leo Strauss sobre o sucesso de Diceópolis não explica, de fato, de que maneira essa via se constituiria na peça. De minha parte, acredito que ela se elabora por meio da educação que se dá pelo viés do arrependimento.
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não auxilia em nada o bem-estar da polis, pois não corrige uma falha administrativa, nem serve para libertar os demais cidadãos dos conflitos sanguinolentos travados com os adversários, precisamente porque a paz comprada pelo herói é de sua exclusividade. No entanto, penso que é apenas aparentemente que a ação de Diceópolis possa ser considerada egoísta e não benéfica para a polis, pois, a princípio, o personagem tenta alcançar a paz para todos os seus concidadãos, só optando a fazer tréguas particulares porque seu plano fora abortado pela assembleia da Pnyx. E, na medida em que a ação dramática se desenrola, os atenienses se aperceberão de que o herói estava com a razão e, então, a postura inicial da polis, de ser favorável à guerra, mudará para o caminho que leva à paz.
Assim, com efeito, podemos dizer que ambos os heróis, Bdelicléon e Diceópolis realizam ações que, sob um primeiro olhar, parecem ferir o consenso público, ao lado do qual o coro se coloca e, em contrapartida, a ambos não é dada a chance da defesa argumentativa que a democracia assegura. Ora, se, de um lado, as ações dos heróis contrariaram os nomoi públicos em favor da vida privada, de outro lado, negando aos personagens o direito de defesa, os coros agem de maneira antidemocrática similar. O que, de algum modo, reforça a própria isonomia da democracia que, quiçá, pode ser e te didaà so à aà segui teà i a:à assi à o oà o à agiuà po à o taà p p iaà se à consultar ningu ,à ta à osà ega osà aà ou i à suasà az es .à Portanto, se aparentemente as ações dos coros não são democráticas, em essência elas manifestam a reação do dēmos frente os atos que se contrapõem a seus princípios,
reações essas que frequentemente deixam o âmbito do logos em direção ao ringue da
makhē.
Com efeito, o enredo de Acarnenses vale-se do chavão democrático da lisonja para mostrar de que maneira os embaixadores conseguiram a aprovação de suas despesas a despeito de serem charlatões: basta mencionar que os persas enviarão ouro aos atenienses e o apoio popular faz eco. E, aliás, a lisonja do público não é um expediente absolutamente inventado pelo dramaturgo, ela fazia parte do dia a dia da
polis, nos discursos dos líderes democráticos nas assembleias da Pnyx. O elogio era (e
talvez ainda seja) necessário no regime que necessita ganhar a aprovação popular, cujas decisões políticas dizem respeito a todos os cidadãos e que, portanto, precisam
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ser cativados. Logo, aqueles que, como Bdelicléon e Diceópolis, se dispõem a dizer algo que se oponha à fala bajuladora são vistos como inimigos do povo.
É, precisamente, na parábase, que Diceópolis se refere ao gosto demasiado dos atenienses por elogios, que acabam tornando-lhes cegos para outras vias de discurso:
Bem sei sobre
a maneira de ser dos nossos campônios, o prazer que sentem, Quando um impostor (alazon) qualquer os elogia a si próprios E à cidade com justiça ou injustamente.
Essas bajulações impedem que vejam que são levados333.
Desse modo, para que, então, Diceópolis consiga ser ouvido, antes de ser morto por apedrejamento tal qual uma judia adúltera do Antigo Testamento, astuciosamente, ele vira o jogo sequestrando os filhos dos acarnenses.
O sequestro dos carvões é o expediente que sinaliza aos espectadores qual é o personagem que, posteriormente, Diceópolis emprestará de Eurípides a fim de persuadir os acarnenses de suas justas intenções. E é somente com o apelo do sequestro que o coro cessa de arremessar as pedras e dá ouvidos ao agricultor.
Assim, Diceópolis deixa os carvoeiros à sua espera e se dirige à casa do poeta trágico Eurípides, em busca de um personagem cuja desgraça e justiça das ações seja capaz de suscitar a piedade, a benevolência e o convencimento dos acarnenses, obtendo, desse modo, o apoio dos carvoeiros na empreitada das tréguas privadas com os lacedemônios. Ora, Diceópolis sabe que sem máscaras não será capaz de persuadir os velhos combatentes de Maratona.
Diceópolis: Eurípides está aí dentro?
Escravo: Não está dentro e está aqui dentro, se consegues
compreender.