A escolha do “corpus” ocorreu por dois motivos principais. Primeiramente, por reconhecermos que a juventude tem um “olhar” particular sobre o trabalho e, apesar de estar inserida em um contexto que já apresenta seus próprios conceitos, é a etapa de vida que representa uma mudança na forma de entender alguns dos principais conceitos estabelecidos pela sociedade “adulta”. Ou seja, o jovem apresenta “novas” interpretações sobre o que significa o trabalho para ele e para o coletivo que o cerca, configurando essa fase em uma etapa instigante de pesquisar essas novas interpretações. Depois, a escolha também acontece pelo significado que atualmente representa a relação escola x juventude: neste momento da história da sociedade brasileira, a escola se torna ainda mais importante por apresentar o mundo do trabalho ao jovem, inclusive sendo responsável por preparar este aluno para trabalhar. Tais argumentos sustentam a escolha do “corpus” e estabelecem a importância de se aprofundar ainda mais as discussões sobre os sentidos do trabalho.
A produção dos textos que constituem o corpus desta pesquisa foi pensada, então, a partir de uma proposta de atividade escrita, apresentada a duas turmas do terceiro ano do ensino médio. A proposta, basicamente, foi trabalhada em quatro períodos, e seguiu passos bem definidos. Na atividade, demos plena liberdade aos alunos para que falassem o que significa para eles o trabalho, como este tema está presente em suas vidas, independentemente de eles trabalharem ou não. Muitas indagações e argumentações surgiram: o trabalho como sendo uma fonte de renda, um passaporte para a aquisição de bens materiais, uma atividade intrínseca à vida deles e que evocaria muitas responsabilidades, uma conexão com o mundo adulto, entre outras falas que surgiram. Mas eles não só falaram, tiveram de escrever uma palavra que fosse fundamental na conceituação da importância conferida ao
trabalho. Algumas surgiram com mais “força” e repetidamente, como responsabilidade, salário, sucesso e reconhecimento. Outras também apareceram: cooperação, futuro, determinação e crescimento profissional. O termo “interessante” ficou por conta da expressão
fim-do-mês, que denota uma sucessão de dias trabalhados, visando apenas ao dia do pagamento. E as poucas palavras que apareceram com um significado “mais negativo”, como
cansaço e dificuldade, remetendo à “penúria” do ato. Mas, para iniciar já aqui a apresentação
de um dos sentidos que mais “apareceu” em nossas conversas na sala de aula com os alunos, vale mostrá-lo, por meio do bloco semântico que apresenta o discurso de que quem trabalha deve ser reconhecido. O discurso social do “bom operário” que, ao vender sua força de trabalho em função da atividade desempenhada em seu local de trabalho, é (e deve) ser reconhecido.
Trabalhar PORTANTO ser reconhecido
Não trabalhar PORTANTO não ser reconhecido
Tr an sp o st o Tr an sp o st o
Não trabalhar MESMO ASSIM ser reconhecido
Trabalhar MESMO ASSIM não ser reconhecido
Este bloco semântico apresenta-nos as possibilidades argumentativas sobre o trabalho
conduz ao reconhecimento. Como dissemos, o reconhecimento surgiu, tanto na fala como na
produção dos textos, como um dos principais encadeamentos argumentativos ligados ao
trabalho. A fala dos alunos ressaltou que, apesar de sua compreensão de que aquele que
trabalha deve ser reconhecido pelo esforço prestado à empresa, o que acontece na prática é
Recíprocos
Recíprocos Conversos
justamente o converso desse encadeamento: trabalhar mesmo assim (PT) não ser
reconhecido.
Depois dessa etapa, introduzimos uma breve conceituação do que se entende por poesia, na tentativa de esclarecer sua função como gênero textual na sociedade. Abordamos os elementos e a estrutura que dela fazem parte do gênero, mas a ênfase principal foi dada em relação ao sentido de trabalho apresentado pelos dois textos poéticos. As poesias lidas foram:
Perguntas de um Operário Letrado
Bertold Brecht Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras? Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço? Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitoria. Quem cozinhava os festins? Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?
Tantas histórias Quantas perguntas
E um trecho do poema de Vinícius de Moraes:
Operário em construção
Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse, eventualmente Um operário em construção.
Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário. De forma que, certo dia À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado
De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa - Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão.
Discutimos, então, com eles as compreensões dos textos lidos, seus sentidos e sua estrutura, no que muitas falas surgiram sobre os significados das poesias e conexão do tema com a sua “realidade”. Os principais apontamentos se deram relativamente ao fato de que, historicamente e inclusive na atualidade, o reconhecimento e os méritos ficam por conta dos patrões e donos das empresas e indústrias. A intenção e o nosso interesse eram justamente que os alunos notassem os sentidos dado ao trabalho nas duas poesias, e fizessem esse contraponto do significado do trabalho em sua vida pessoal e para a coletividade da sociedade. Acabou-se por discutir mais o trabalho no sentido individual, ou seja, eles falaram mais sobre suas próprias experiências e como percebiam este em sua vida, identificando-se com alguns dos sentidos apresentados pelas poesias, principalmente, quando elas apresentavam o trabalhador como sendo desconsiderado e não reconhecido historicamente na construção da sociedade do trabalho. Os trechos dos poemas confirmam isso. Bertold Brecht apresenta-nos um texto com inúmeras indagações sobre o protagonismo do trabalhador e a falta de reconhecimento do trabalhador, e os frutos desse seu trabalho, diante das “personalidades” que ficam com todo o prestígio pela execução da obra:
“Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?”
Já Vinícius de Moraes, no trecho apresentado, não traz especificamente a questão da falta de reconhecimento dado ao trabalhador, ele apresenta um operário que desconhece o produto final de seu trabalho. Nesse caso, o trabalhador não se reconhece como aquele que elabora e constrói tudo o que há de mercadorias na sociedade, assim como não percebe que nesse mesmo processo de construção, acaba por se formar e construir a sua vida. O trecho abaixo evidencia esse “desconhecimento”:
Mas ele desconhecia Esse fato extraordinário: Que o operário faz a coisa E a coisa faz o operário.
Em dado momento do poema, esse trabalhador, então, nota que é o verdadeiro construtor dos objetos e das coisas que o cercam, e constata o feito de seu trabalho. É uma realização para o trabalhador que percebe sua capacidade de transformar e construir:
De forma que, certo dia À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa - Garrafa, prato, facão - Era ele quem os fazia
Enfim, a poesia apresenta a transformação do olhar de um operário em relação ao mundo que o cerca. Esse mundo comete injustiças com esse trabalhador, ao privá-lo de ter acesso aos frutos surgidos a partir da transformação da natureza e da própria sociedade.
Em relação às turmas que foram desafiadas a discutir e a produzir textos sobre a questão do trabalho, são do terceiro ano do ensino médio, de duas escolas públicas estaduais, do centro de uma cidade do Planalto Médio do Rio Grande do Sul. São escolas de referência e tradicionais na cidade, que recebem, principalmente, alunos que trabalham (a maioria) ou estão aflitos na procura do primeiro emprego. Alguns, inclusive, mesmo muito jovens, já passaram por muitos locais de trabalho e estão desempregados. Ou seja, são jovens entrando na fase adulta, têm entre 17 e 22 anos de idade, e almejam outros ideais para seus futuros, como a constituição de família, aquisição de carro ou/e casa, dentre outros sonhos característicos da juventude pertencente à sociedade urbana brasileira.
Advindos principalmente de bairros mais “carentes” da cidade, esses educandos não encontram facilidade no êxito de seus sonhos. Por serem turmas do último ano do ensino médio, a construção do futuro é conversa na sala de aula. Mas, ao questionarmos os alunos sobre a continuidade dos estudos, no contato que tivemos com eles, nem a metade demonstrou que este é um objetivo palpável para um futuro próximo, enxergando no trabalho a grande aspiração deste momento de suas vidas.
Entretanto como não houve uma investigação dessa comunidade que cerca a escola e às quais os alunos pertencem, nossas observações sobre a turma são de certa forma limitadas,
assim como as concepções de trabalho que circulam por essas comunidades. O que se pode dizer é que no sentido de condições econômicas dos alunos, não há grande diferença. Na fala dos alunos, constata-se que são trabalhadores, filhos de trabalhadores.
Essa foi a caracterização das escolas e dos alunos que participaram da produção dos textos que serão analisados nesta dissertação. Os entendimentos sobre o significado do
trabalho tornam-se interessantes neste estudo também pelas diferentes compreensões da
“realidade” por parte dos estudantes. Certamente, esta realidade não é foco principal deste estudo, mas provoca-nos a perceber as diferentes manifestações que há sobre o trabalho na sociedade moderna e o que se apresenta sobre ele nos textos produzidos, indicando-nos a atualidade da discussão sobre o assunto.