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4.1 TRILHOS E TRILHAS NARRATIVAS

4.1.1 Selos e emblemas

Antigos selos de vintém, que no oval mostram uma ou duas grandes cifras. Têm o aspecto daquelas primeiras fotos, das quais, dentro das molduras laqueadas de preto parentes que nunca conhecemos olham para nós. Cifradas tias-avós ou bisavós.

(Walter Benjamin, 1995, p. 558-559) Todo colecionador é um historiador que procura, entre seus pertences, recompor algo da história do objeto ou de uma série de leitura por ele proposta. Essas séries podem ter um caráter nacionalista (colecionar selos de um país), temporal (colecionar selos de uma determinada época), temáticas (colecionar selos que tratem de um aspecto: borboletas, aviões, trens, presidentes, festas populares). O verdadeiro colecionador distingue o ato de juntar e o ato de colecionar. Para os colecionadores, os juntadores não têm critério naquilo que guardam, não sabem explicar o valor dos objetos, não manuseiam os objetos com um olhar de encantamento. A coleção sempre remete a uma série histórica, nem que essa seja perceptível apenas aos olhos dos proprietários. Uma história circunscrita no pequeno tecido celular gráfico da estampa:

Selos são cartões de visitas que os grandes Estados deixam no quarto das crianças.

Como Gulliver a criança visita país e povo de seus selos. Geografia e História dos liliputianos, a inteira ciência do pequeno povo com todos os seus números e nomes lhe é instilada durante o sono. Ela participa com interesse dos seus negócios, frequenta as suas purpúreas assembleias populares, assiste ao lançamento de seus naviozinhos e, com suas cabeças coroadas, entronizadas, celebra jubileus. (BENJAMIN, 1995, p. 59-60)

Todo estado independente, por menor que seja, legitima-se e faz- se conhecer interna e externamente com a impressão desses pedaços de papel com um valor simbólico estampado e com imagens ligadas à ideia de nação. Instaurado um novo sistema político, os símbolos nacionais devem ser refeitos (a bandeira, os brasões, os hinos). Moedas, cédulas e selos também passam por essa reelaboração: novas imagens da nacionalidade devem ser impressas, cunhadas para circularem entre seus cidadãos. No mais curto capítulo de Vida e Morte, Gonzaga de Sá monta uma série histórica analisando dois objetos surpreendentes: os emblemas e brasões das Províncias (estampados no Almanaque Garnier) e os selos nacionais com os fundadores da República. Quanto à questão dos selos, ela se resume a uma breve conversa entre Gonzaga e Augusto Machado, ocorrida por acaso no prédio do correio, que oferece uma leitura inusitada da história, quase imperceptível, a ser recomposta naquelas pequenas estampas:

─ Já viste os novos selos? Não te falei ontem em emblemas? Viste?

─ Alguns.

─ É bom ver. Tenho aqui de dez réis, vinte, cinquenta, cem, duzentos e quatrocentos.

─ O senhor faz coleção?

─ Não. Amo os homens ilustres e os selos trazem as efígies de alguns deles. Temos aqui: Aristides Lobo, Benjamin Constant, Pedr‘Alváres, Wandenkolk, Deodoro e Prudente.

─ Ideia feliz!

─ Pena é que, ao lado, não tragam alguns dados biográficos, para que os pósteros saibam quem

foram; e boas sentenças morais, para edificação dos contemporâneos e dos pósteros.

─ A ideia é excelente.

─ Teríamos, assim, o Plutarco Brasileiro em franquias postais. Embora sem isso, provocam reflexões. Quando olhares em Aristides Lobo, dez réis, dirás lá contigo: está aí um homem que nasceu para ser dez réis – o que não aconteceu com Benjamin que chegou a vintém. Felizardo! Vá que recebes uma carta urbana. Lá vem Wandenkolk, cor telha, cem réis. Pensarás de ti para ti – como foi longe! E não é tudo... Se ao mesmo tempo tivermos um Deodoro, verdoengo, duzentos réis, um Prudente, acinzentado, quatrocentos réis, e um Pedr‘Álvares, só cinquenta réis; e os outros? Eis aí como estava a pensar sobre os selos, e pensar sobre os selos é dos mais modestos propósitos intelectuais. Não te parece?

─ De fato.

─ Bem! Escreve a tua carta. (VM, p. 55-56) A série de selos citada por Gonzaga começou a circular em 1900, tendo como um dos primeiros homenageados o ―fundador da nação‖, Pedro Álvares Cabral. Seguiram-se a ele os fundadores da República: os republicanos históricos e os primeiros presidentes do recém-instaurado sistema. Com isso, Gonzaga aproveitava para questionar alguns daqueles personagens homenageados, apontando discrepâncias entre o valor histórico e o valor de face da tarifa: personagens que mereciam o baixo valor que lhes era atribuído (Wandenkolk), outros que tiveram seu valor superestimado (caso de Benjamin Constant – um dos maiores divulgadores do Positivismo entre os militares) e Pedro Álvares com um valor abaixo da sua importância.

Ao atribuir uma leitura histórica diferenciada àqueles objetos, que não se restringia apenas ao valor de troca, Gonzaga se aproximava da atitude do colecionador. Num primeiro momento, Gonzaga sugere a impressão junto com as imagens dos selos de uma espécie de microbiografia dos homenageados ou frases edificantes. O que estaria sugerindo Gonzaga com essas microbiografias? A irrelevância daqueles republicanos que poderiam ter suas vidas contadas num minúsculo pedaço de papel? Como esses personagens históricos eram desconhecidos, denunciando a falta de adesão popular na República? É a

história não escrita daquelas imagens que Gonzaga tenta recompor e problematizar. O olhar de Gonzaga lembra o do cronista, que procura seus temas entre ninharias, nonadas, conseguindo extrair desta aparente insignificância dos objetos analisados uma série histórica surpreendente. Procedimento de leitura semelhante é utilizado na análise dos emblemas públicos, logo no início do mesmo capítulo:

─ A nossa insuficiência nas artes do desenho é manifesta. Não pecará tanto quanto à execução, mas no que toca à imaginação criadora é cousa que não se discute. As armas dos nossos Estados, das nossas cidades, o cunho das nossas moedas, são uma prova disso.

Não posso abrir o Almanaque Garnier e ver-lhe os mapas das nossas províncias, com os respectivos emblemas heráldicos, que não fique horripilado com aqueles bonecos que ladeiam uns escudos estrombóticos, cheios de montanhas e letreiros, além de arvoredos e papagaios – tudo que pode vir de mais extravagante e hediondo à cabeça de um sujeito doido e menos artista deste mundo. As armas da República então! – são de uma inépcia estonteadora. Aquele espadagão! Aquele fitão! Que coisa, meu deus!

A não ser o brasão d‘armas da cidade do Rio de Janeiro, que é de fato elegante, bem proporcionado, heráldico, significando a cidade, poucos de nossos emblemas públicos se podem salvar de um inteiro naufrágio na fealdade e na mais completa cretinice.

Como são diferentes dos coloniais! Basta a esfera armilar, atravessada pela cruz de Malta – símbolo do Reino do Brasil – outorgado não sei por que rei de Portugal, para mostrar como naqueles tempos havia mais gosto do que hoje, nas altas regiões. (VM, p. 53-54)

Os almanaques foram publicações prestigiadas desde o século XIX, trazendo calendário completo, matéria científica, literária, informativa (geografia e história) e, às vezes, recreativa e humorística. Algumas informações dos Estados vinham nessas publicações e o que saltava aos olhos de Gonzaga era a pobreza dos desenhos de símbolos, escudos, brasões de armas que se podia ver no almanaque. Nesse ponto,

Gonzaga assume um tom saudosista, vendo beleza no brasão de armas do Rio de Janeiro – feito durante o Império – e nas armas escudos do antigo sistema, quando comparados com os símbolos republicanos, manifestando uma implicância especial com o espadagão da República. Nos símbolos do passado, Gonzaga vê sobriedade e simplicidade, enquanto os símbolos republicanos são estrombóticos e reveladores de inépcia. O sentimento saudosista de Gonzaga, rapidamente delineado na análise dos emblemas dos Estados, ganha contornos mais fortes nos seus passeios pelos pontos esquecidos da cidade e pela recordação das marcas do passado colonial.