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Semântica de Frames: conceitos básicos

No documento annacarolinaferreiracarrara (páginas 47-50)

2.2 A Semântica de Frames

2.2.1 Semântica de Frames: conceitos básicos

A Semântica de Frames, desenvolvida por Fillmore e colaboradores nos últimos quarenta anos, aproximadamente (1975, 1977a, 1977b, 1982, 1985, entre outros), tem por pressuposto central que a significação das palavras deve ser descrita com base em frames

semânticos, entendidos como representações esquemáticas da estrutura conceptual e de padrões de crenças, práticas, instituições, imagens, dentre outros, que fornecem fundamentação para uma interação significativa em uma dada comunidade de falantes (FILLMORE et al., 2003, p. 235). Nesse sentido, a Semântica de Frames é um programa de pesquisa empírica que dá ênfase à continuidade entre linguagem e experiência, tendo em vista que, neste paradigma, uma palavra representa uma categoria de experiência.

Segundo Fillmore (1982, p. 111),

com o termo frame tenho em mente qualquer sistema de conceitos relacionados de tal modo que, para entender qualquer um deles, é preciso entender toda a estrutura na qual se enquadram; quando um dos elementos dessa estrutura é introduzido em um texto, ou em uma conversa, todos os outros elementos serão disponibilizados automaticamente. (FILLMORE, 1982, p. 111)14

Assim, a noção de frame a que temos acesso hoje está relacionada com a concepção introdutória de frame de caso15, “que caracterizava uma pequena ‘cena’ ou ‘situação abstrata’, de modo que, para entender a estrutura semântica do verbo, era necessário entender as propriedades da esquematização dessas cenas”16 (FILLMORE,

1982, p. 115).

O exemplo clássico usado por Fillmore (1982) para ilustrar a concepção de frame é a cena de transação comercial. O objetivo ao descrevê-la era mostrar que um grupo bastante extenso de verbos do inglês poderia evocar essa mesma cena de ‘evento comercial’. Os elementos desse esquema incluem uma pessoa interessada em trocar

14Tradução nossa para: […] By the term ‘frame’ I have in mind any system of concepts related in such a

way that to understand any one of them you have to understand the whole structure in which it fits; when one of the things in such a structure is introduced into a text, or into a conversation, all of the others are automatically made available.(FILLMORE, 1982, p. 111)

15 A noção de ‘case frames’ foi introduzida por Fillmore em 1968 no texto ‘The case for case’, em que o

autor define papéis semânticos, como Agente, Paciente e Instrumento (João quebrou a janela; João quebrou a janela com a pedra; A pedra quebrou a janela).

16Tradução nossa para: [...] in particular, I thought of each case frame as characterizing a small abstract

‘scene’ or ‘situation’, so that to understand the semantic structure of the verb it was necessary to understand the properties of such schematized scenes. (FILLMORE, 1982, p. 115)

mercadorias por dinheiro - o vendedor; e o comprador, que entrega o dinheiro ao vendedor em troca de mercadorias. Um evento comercial prototípico envolve, portanto, todos esses elementos - um comprador, um vendedor, mercadorias e dinheiro. No entanto, qualquer sentença que o falante constrói para falar sobre esse evento de transação comercial depende da adoção de uma determinada perspectiva sobre esse mesmo evento, por exemplo, comprar (1) enfoca as ações do comprador com relação às mercadorias

(Joaquim comprou uma casa), deixando em segundo plano o vendedor e o dinheiro; já o

verbo vender (2) enfoca as ações do vendedor com relação às mercadorias (Joaquim

vendeu a casa), deixando em segundo plano o comprador e o dinheiro; o verbo pagar (3),

por sua vez, focaliza o comprador tanto com relação ao dinheiro quanto com relação ao vendedor (Joaquim pagou 100 mil a Francisco), deixando em segundo plano as mercadorias.

De fato, a intenção de Fillmore ao dar esse exemplo da cena de ‘evento comercial’ foi argumentar que um falante qualquer não é capaz de entender os significados desses verbos sem que conheça os detalhes da “cena que propiciou o contexto ou a motivação das categorias que tais palavras representam”17 (FILLMORE, 1982, p. 116-117).

É, portanto, por esse motivo (cf. subseção 2.2.3) que a Gramática das Construções Cognitiva se conecta à Semântica de Frames: os frames se apresentam como uma das principais fontes de informação semântica da cena evocada por uma construção cujos papeis são postulados de acordo com o frame evocado pela estrutura gramatical da construção (GOLDBERG, 2006).

Além da noção de perspectiva - diferentes palavras assumem diferentes perspectivas ou esquematizações, enquadres (‘framings’) da mesma cena - a prototipia

17Tradução nossa para: [...] Again, the point of the description was to argue that nobody could be said to

know the meanings of these verbs who did not know the details of the kind of scene which provided the background and motivation for the categories which these words represent. (FILLMORE, 1982, p. 116- 117)

também é um conceito relevante para a Semântica de Frames ao permitir que a complexidade da conexão entre os usos de determinada palavra e as situações de mundo sejam atribuídas ao protótipo do frame contextual em vez de atribuí-las aos detalhes do significado da palavra. Assim, a palavra órfão, usada como exemplo por Fillmore (1982) pode ser definida como uma criança cujos pais não estão mais vivos e, então, passamos a entender essa categoria dentro de um determinado contexto: crianças, até uma certa idade, dependem de seus pais para que lhes seja garantido educação, saúde, segurança e afeto. A palavra órfão, no entanto, não traz em si nenhuma informação que nos impeça de classificar um jovem de 20 anos que não tem pais como um órfão, mas pressupõe-se que esse tem condições de se cuidar sozinho e, então, não é considerado um órfão. É, portanto, essa informação contextual que determina o fato de não ser adequado usar a palavra órfão para este jovem, e não uma informação que já está incorporada ao significado da palavra. Na situação prototípica, um órfão é aquele que ainda inspira cuidados, e esse exemplo nos leva a crer que uma categoria tem que ser ajustada a um contexto de instituições e de práticas (FILLMORE, 1982).

No documento annacarolinaferreiracarrara (páginas 47-50)