A Análise de Discurso de acordo com os postulados de Pêcheux (1969), um dos fundadores da AD tece críticas ao que interpreta como a afirmação do óbvio na análise de conteúdo, e tem como objetivo analisar não o conteúdo que está implícito ou explícito no texto, mas os processos sócio-históricos de significação, que o constituem (Orlandi, 1990, p. 243). No prefácio da obra de Pêcheux intitulada “Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux”, Gadet descreve a configuração epistemológica da AD:
(...) o que pode levar esse nome (por exemplo, existe uma disciplina “discourse analysis” na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos) não se apóia sobre a mesma configuração teórica, e não se reveste, de modo algum, da mesma forma. Na França a Análise do Discurso é, de imediato, concebida como um dispositivo
que coloca em relação, sob uma forma mais complexa do que suporia uma simples covariação, o campo da língua (suscetível de ser estudada pela lingüística em sua forma plena) e o campo da sociedade apreendida pela história (nos termos das relações de força e de dominação ideológica),
(GADET, 1997, p. 7-9). (grifo nosso)
Além da articulação entre língua e história, Gadet observa que para Pêcheux “é impossível a Análise de Discurso sem sua ancoragem em uma teoria do sujeito, tema que
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também deve ser visto como lugar problemático, que deve ser constituído”. Essa teoria do sujeito é de natureza psicanalítica, o que quer dizer que se trata de um sujeito dividido e heterogêneo (PÊCHEUX, 1975). Como formula Paul Henry, outro nome importante na constituição da Análise de Discurso, “o sujeito é sempre e, ao mesmo tempo, sujeito da ideologia e sujeito do desejo inconsciente e isso tem a ver com o fato de nossos corpos serem atravessados pela linguagem antes de qualquer cogitação” (HENRY, 1992, p. 188)10. Segundo Althusser (1970), o indivíduo se assujeita à ideologia. A evidência do sentido e a impressão do sujeito ser a origem do que diz derivam do assujeitamento.
Assim, a Análise de Discurso se propõe trabalhar no ponto em que se tocam língua, sujeito e ideologia, atuando “no entremeio” formado por Lingüística, Marxismo e Psicanálise (cf. Orlandi, 1996a, 2001a). Nesse quadro, a língua é concebida como sistema sintático passível de jogo (Pêcheux, 1975), sujeita à “falha”, isto é, à possibilidade do equívoco, do sentido outro; e o sentido outro emerge, pois há uma pluralidade de filiações ideológicas na história – o sujeito que enuncia o discurso é constituído pela ideologia, que muda sócio-historicamente. A contradição, a incompletude e o equívoco constituem o real da língua e tanto o imaginário quanto o real são intermediados pelo simbólico. Assim sendo, nessa constituição mútua, esse real está na linguagem em funcionamento, há espaço para o possível e para o impossível, pois o (real) não está fora da língua e o impossível é somente aquilo que não é acolhido pelo sistema linguístico; é o que o sistema não suporta, mas que surge no funcionamento da língua. Ou seja, o acesso ao impossível dá-se pelo possível, portanto, é nesse possível que é apreendido um ponto de falha, um equívoco, que aparece como o ponto em que o impossível (linguístico) chega a unir-se com a contradição (histórica) – esse é o ponto de encontro em que a língua toca a história” (GADET e PÊCHEUX, 1984, p. 63-64).
Cabe à AD compreender o processo de produção dos sentidos nas sociedades e na história e não só os sentidos prontos, institucionalizados. Ela se estabelece como prática de leitura que visa desnaturalizar os sentidos, pois os discursos, embora façam efeito como
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FERREIRA, M. C.L. A língua da análise de discurso: esse estranho objeto de desejo. In: INDURSKY, F. & FERREIRA, M. C. L. (Orgs.). Michel Pêcheux e a análise do discurso: uma relação de nunca acabar. São Carlos: Claraluz, 2005.
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óbvios, são construções linguístico-históricas que fazem a mediação entre o homem e sua realidade natural e social.
Assim é que Pêcheux (1999, p. 49-57)considera que, para estudar o sentido não se deve ficar na superfície da proposição, na sua relação com os designata (o mundo real), mas observar os procedimentos de montagem do discurso e que imagem eles constroem do mundo. Nosso olhar para o mundo não se dá diretamente – nós o percebemos conforme os discursos que falam dele; enxergamos o mundo pensado e rotulado de certa maneira, isto é, interpretado. O que se abandona aí é uma “imagem legível na transparência” das palavras, enquanto o discurso que constitui e atravessa essa imagem a deixa “opaca e muda”, isto é por ter-se perdido na memória um trajeto de leitura e produção.
Pêcheux (1983, p. 53) afirma que “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente para derivar para um outro”. Para a Análise de Discurso, o sentido não é compreendido como unidade fixa, já que é histórico. Ele é produzido em condições específicas, as condições de produção (CPs), que compreendem o objeto do discurso, a posição dos locutores (atravessadas pelas imagens sócio-historicamente construídas que têm de si mesmos e uns dos outros), o contexto imediato de enunciação (com suas determinações) e a conjuntura sócio-histórico- ideológica (cf. ORLANDI, 1983).
Também é de suma importância para esta análise o conceito de memória discursiva ou interdiscurso: uma voz sem dono que fala sempre, antes, em outro lugar e independentemente das intenções do sujeito falante (COURTINE, 1999, p. 15-22). Orlandi (2001a, p. 31) afirma que se trata do saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que interpela o sujeito. O conceito de memória foi apropriado pela Análise de Discurso por uma relação estreita que esta mantém com a história, relação que converge para a constituição do sujeito, que é um efeito da língua e da história.
Os processos discursivos constituem o espaço simbólico, lugar de onde observamos o seu funcionamento. Segundo Henry (1994, p. 52), podemos considerar que a relação do sujeito com os fatos históricos seja uma relação de significação, pois não há “fato” ou “evento” histórico que faça sentido, que não necessite de interpretação, que não
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encontre as suas causas e consequências. É deste ponto de vista que consiste para nós a história, nesse “fazer sentido, mesmo que possa haver divergências sobre esse sentido em cada caso”. Esses sentidos sedimentam-se, historicamente, como memória discursiva, estratificados e desnivelados pelas relações de força que determinam ideologicamente o discurso.
Segundo Orlandi (2001a, p. 96), “a ideologia se liga inextricavelmente à interpretação enquanto fato fundamental que atesta a relação da história com a língua, na medida em que esta significa”. É sobre esse ponto de vista que a memória discursiva é compreendida como espaço ideológico estruturante/estruturado em que se realiza a interpretação como efeito necessário da relação simbólica constituída entre o sujeito e o real da língua e da história11. Os efeitos dessa memória se manifestam na linearidade do discurso em diversos funcionamentos das formas lingüísticas e são índices das filiações históricas a partir das quais o sujeito produz interpretação. Para Zoppi-Fontana,
Podemos dizer que face a um fato (i.e. ao real histórico), a memória discursiva restabelece um não-dito que permite ao sujeito a interpretação. Assim, a descrição de um enunciado ou de uma seqüência coloca necessariamente em jogo (através da detecção de lugares vazios, de elipses, de negações e interrogações, múltiplas formas de discurso relatado...) o discurso-outro como espaço virtual de leitura desse enunciado ou dessa seqüência. É este discurso-outro que insiste enquanto presença virtual do interior da materialidade descritível da seqüência, que Pêcheux (1983) vai reconhecer como “lei do espaço social e da memória histórica, logo como o próprio princípio do real sócio-histórico”. Vemos, assim, afirmado o papel estruturante do interdiscurso (discurso-outro) em relação ao real histórico, ou dito de outro modo, o efeito de retorno que ele produz sobre o real a partir do qual e no qual ele próprio se constitui (ZOPPI-FONTANA, 2002, p. 88- 105).
Pode-se dizer que é com esse outro que se constitui uma relação de ligação, de identificação ou de transferência que permite a interpretação. É nesse sentido que o interdiscurso funciona como o lugar do outro. Essa relação,segundo Pêcheux (1990, p. 54), permite que as “filiações históricas possam se organizar em memórias e as relações sociais em redes de significantes”.Ainda afirma que a interpretação (ibidem, p. 57) se dá como
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Orlandi (1996b) afirma que “a interpretação é uma injunção. Face a qualquer objeto simbólico, o sujeito se encontra na necessidade de ‘dar’ sentido” (idem, p. 64). A autora avança ainda nessa direção identificando o sujeito do discurso à interpretação: “A interpretação faz o sujeito e o sentido” (idem, p. 83).
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tomada de posição, reconhecida como tal. Essa tomada de posição do sujeito é compreendida como gesto de interpretação marcado pela história e pela ideologia.
Zoppi-Fontana (2002, p. 88-105) observa que a memória é social, inserida numa coletividade, na sua relação com a linguagem e a história. Segundo Courtine (1994, p.5), “a linguagem é o tecido da memória, isto é, sua modalidade de existência histórica essencial” (grifos do autor; tradução nossa)12.
Segundo Pêcheux (1983, p.17), o acontecimento discursivo é o “ponto de encontro de uma atualidade e uma memória”. É pelo funcionamento da memória no acontecimento discursivo que os sentidos produzidos simultaneamente repetem e deslocam o já-dito, fazendo uma projeção e um retorno dos processos discursivos sobre si mesmos, dando lugar a novas interpretações.
Mas a memória ou interdiscurso não é um espaço uniforme é recortado pelas formações discursivas, que representam no discurso a pluralidade de filiações ideológicas.
A evidência do sentido – que faz com que uma palavra designe uma coisa – apaga o seu caráter material, isto é, faz ver como transparente aquilo que se constitui pela remissão a um conjunto de formações discursivas que funcionam com uma dominante. As palavras recebem seus sentidos de formações discursivas em suas relações. Este é o efeito da determinação do interdiscurso (da memória) (ORLANDI, 2001a, p. 46).
Essa autora (2001a, p. 43), ainda, afirma que “a formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada determina o que pode e deve ser dito. Por aí podemos perceber que as palavras não têm um sentido nelas mesmas, elas derivam seus sentidos das formações discursivas em que se inscrevem”. Segundo Pêcheux (1975, p.160),
O sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, etc., não existe em “si mesmo”, mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico, no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas. (...) as palavras, expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que a empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem
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Pêcheux (1997b, p. 162-167), ao definir formação discursiva (FD), afirma que tem por função a de simular, uma vez que no seu interior o sentido seja visto como transparente. Assim, o efeito de encadeamento do pré-construído e o efeito de articulação se constituem na própria materialidade do interdiscurso. Em (1997b, p. 164) este autor faz uma distinção entre o “sempre já aí” (pré-construído) e a “articulação”, que contribuem na formação do “sujeito na sua relação com o sentido”, disfarçando-lhe seu assujeitamento sob o aspecto da autonomia.
O “pré-construído”, compreendido como o “sempre-já-aí”, está na base do efeito da “realidade” e seu sentido sob o contorno da universalidade, isto é o “mundo das coisas” (Pêcheux, ibidem, p.164). A “articulação” designa o sujeito na sua relação com o sentido, fazendo com que ela signifique no interdiscurso: “aquilo que determina a dominação da forma sujeito”. Segundo o autor (ibidem) trata-se de “uma concepção do efeito de sentido como relação de possibilidade de substituição entre elementos (palavras, expressões, proposições) no interior de uma formação discursiva dada”.
Orlandi (1996a) faz uma distinção entre dois aspectos da memória. O primeiro é a memória institucionalizada, ou seja, o arquivo, o trabalho social da interpretação, que aponta quem (não) tem direito a ela. O segundo é a memória constitutiva, ou seja, o interdiscurso, o trabalho histórico da constituição da interpretação: “o dizível, o repetível, o saber discursivo” (ibidem, 1996a, p.67-8).
Também é de suma importância apontar que para a Análise de Discurso não há um caminho que nos direciona para realizar uma análise, mas diferentes formas-conteúdos históricos que podem ser observados num movimento de leitura (Orlandi, 2001a, p.19). Qualquer elemento pode ser estudado enquanto marca de discurso para interpretação. As regularidades das marcas linguísticas que aparecem no discurso fazem parte da identidade do discurso mobilizado pelo sujeito trazendo sentidos pré-construídos que figuram na memória do dizer da sociedade.
Esta teoria trabalha com o sentido, um sentido que não é traduzido, mas interpretado. A ideologia é entendida como mecanismo de produção que constitui os sentidos, de modo que a sua formulação intervém sobre os efeitos imaginários que estão materialmente inscritos na língua e no inconsciente. Assim, a materialidade do texto
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corresponde a “pistas” dos sentidos que se tramam nele. Desta forma, a linguagem vai além do texto, trazendo sentidos pré-construídos que são ecos da memória do dizer.
Nosso corpus é parcialmente constituído por depoimentos, textos orais, cuja especificidade histórica deve ser levada em conta. De acordo com Payer (2005, p. 49), a oralidade constitui-se como objeto de investigação nos estudos da linguagem a partir de diversas orientações teóricas:
Em um artigo de 1986, “Effets de langue orale”, F. Gadet e F. Mazière sintetizam essas orientações, observando que elas se estendem, de modo geral, desde as orientações sócio-históricas – que encontram o seu vigor na especificidade do discurso ordinário (por diferença aos enunciados de porta-vozes legítimos e institucionalmente relevantes) – e as orientações sociopolíticas – que se colocam contrárias à supremacia da escrita, valorizando sobremaneira a oralidade –; passando também pelas orientações psicológicas – que postulam a espontaneidade e a veracidade do oral, opostas à artificialidade da linguagem escrita – até as orientações de cunho sociolingüístico, que correlacionam as variedades orais com os elementos da situação social (o contexto de fala). Há ainda uma orientação estritamente lingüística, que, no entender das autoras, faz do oral às vezes apenas um complemento da escrita e outras vezes um sistema lingüístico que espera descrição, “na falta desta disciplina ter-se colocado questões melhores a esse respeito”, criticam as autoras.
Gadet e Mazière visam no referido texto, imprimir um modo de linearização dos enunciados articulados à oralidade. Por isso, há necessidade de colocar o oral como objeto da Análise de Discurso considerando que “a forma pela qual o oral ‘faz discurso’ não é a mesma do escrito” (1986, p. 5). Payer aponta que elas se preocupam então com o risco teórico de, ao tratar como diferentes o oral e o escrito, acabarem por dividir a unidade do sistema da língua. Assim, considerando que o oral e o escrito apresentam o mesmo sistema, as autoras se limitam a questionar o embaraço que surge do fato de que algumas categorias gramaticais bem assentadas para o domínio escrito podem não ser identificadas como tais no domínio oral. Nesse ponto, Payer (Ibid., p. 48-49) observa que as autoras não incluem em sua abordagem, para além da noção de sistema, a natureza histórica da linguagem e as implicações discursivas da relação entre oralidade e escrita, fundamentais para a teoria da Análise de Discurso.
Na perspectiva discursiva, há a necessidade de confrontar as condições de produção tanto do discurso oral quanto do discurso escrito; buscar as diferenças entre esses discursos decorrentes de suas condições de produção e levando em consideração a forma de
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construir significados conforme a situação discursiva. Em “Narradores de Javé”, Bergamaschi (2010)13 aponta que a escrita modifica a relação com as palavras, fixa as idéias, rouba-lhe o movimento; e, nesse sentido, afirma que a “escrita é a anti-fala” segundo Lefevre (1991, p. 164-165); do mesmo modo, afirma que a escrita não consegue suplantar inteiramente a tradição oral. “O importante é notar o caráter imperativo da escrita e do inscrito e sua duração. A escrita faz a lei. Muito mais ainda, ela é a lei. (...) ela obriga pela atitude imposta, pela fixação, pela recorrência implacável, pelo testemunho (transmissão e ensino) e pela historicidade assim estabelecida para a eternidade” (ibidem).
As relações entre o oral e o escrito, segundo Michel de Certeau (1996, p. 227), entende não ser possível separar essas duas práticas diante da força da memória e da prática tradição oral, já que “somente uma memória cultural adquirida de ouvido, por tradição oral, permite as estratégias de interrogação semântica, cujas expectativas a decifração de um escrito afina, precisa ou corrige”. Assim, a possibilidade de relativizar a pretensão de uma única produção favorecida pela escrita, em detrimento da oralidade, é uma evidência de que os registros escritos não apagam a experiência vivida. Portanto, é da memória que se produz marcas indeléveis nos corpos e que a própria polissemia da leitura revela.
Parafraseando Payer (2005, p. 47-56), é necessário refletir que a oralidade margeia as questões empíricas da produção textual, também com a escritura, com a história registrada, aquela que mereceu ser narrada por escrito. No entanto, também “a oralidade é historicamente produzida”, considerar o oral apenas no domínio da diferença empírica da produção de linguagem levaria a trazer no relato oral “elementos que, recortados das suas condições históricas de produção – a oralidade histórica – se inscreveriam na mesma concepção de história que dá continuidade à narração da história escrita já iniciada em outro lugar” (ibidem), ao qual seria acrescentado um apêndice, explicando um elemento, adicionando um acontecimento para uma mesma interpretação repetida, para o mesmo lugar discursivo de sujeito predominante na narrativa oficial da história. O oral conduz a uma interpretação discursivamente de que pode haver na oralidade um outro lugar de discurso – no nosso caso, conforme parte do corpus em questão, o do sujeito asilado – o
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A autora faz análise do filme: Narradores de Javé a memória entre a tradição oral e a escrita.htm. BERGAMASCHI, M. Ap. (18 maio 2010).
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sujeito que fala a partir de um lugar seu, inscrito em um outro lado da história oficialmente narrada. O trabalho com a oralidade pode conduzir, consequentemente, a encontrar-se de fato a diferença na pesquisa – um outro sujeito na/da história.
A Semântica do Acontecimento, trabalhada por Eduardo Guimarães, tem entre seus princípios que o sujeito é uma questão linguística, que se constitui pelo funcionamento da língua em que se enuncia algo, ou seja, o sujeito se constitui na e pela linguagem (referência a Benveniste). Entretanto, nessa linha, em consonância com a teoria anterior, compreende-se que a significação implica a relação dos sujeitos com o mundo em uma configuração que é necessariamente histórica; como afirma seu fundador: “para nós interessa, exatamente, a inclusão da história” na análise do sujeito e dos sentidos (Guimarães, 2002a, p. 65). Trata-se de um gesto teórico que questiona os limites do corte saussureano, tomado como paradigma fundamental para os estudos da linguagem.
Este corte saussureano põe os estudos da linguagem num novo caminho que se desdobra por várias direções: desde estudos comparatistas que se renovaram pela concepção de sistema de Saussure, até estudos sincrônicos que, lidando com os limites do objeto saussureano, buscam incluir no lingüístico o sujeito. Este é o caso, por exemplo, de Benveniste (1989, 1995) que instala um domínio específico para os estudos enunciativos, ou seja, para considerar o funcionamento da língua marcada pela relação que aquele que fala (o locutor) tem com a língua e que se marca na estrutura da língua. Estes trabalhos tiveram vários desdobramentos bastante conhecidos no Brasil, como a semântica argumentativa, desenvolvida a partir da noção de escala argumentativa de Ducrot (1983) e que aparece também nos trabalhos de Carlos Vogt (1977, 1980). A semântica argumentativa considera que o fundamento do sentido são estas relações “retóricas” que se marcam na língua, de tal modo que falar é ser tomado por estas relações de argumentação. O retórico é assim tomado como integrado no lingüístico. Para esta semântica o
sentido não é uma relação da linguagem com o mundo, constituído a partir de um conceito de verdade, mas uma relação própria do acontecimento de enunciação que constitui os lugares do locutor e seu destinatário 14
(GUIMARÃES, ibidem, p.65), (grifo nosso).
A língua é posta em funcionamento no momento em que o indivíduo ocupa uma posição de sujeito no acontecimento, sendo afetado pelo interdiscurso e produzindo sentidos. Esses sentidos são os efeitos da memória, das posições de sujeito, do cruzamento