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I.II TEORIA DO SIGNIFICADO E DA REFERÊNCIA DOS CONCEITOS E DOS JUÍZOS

I.II.I Semântica transcendental dos juízos especulativos

O projeto crítico kantiano, iniciado na Kritik der reinen Vernunft, é visivelmente uma contraproposta ao projeto de pesquisa da metafísica tradicional, particularmente ao adotado por Wolff e Baumgarten. Enquanto contraproposta, esse projeto origina-se da identificação do(s) equívoco(s), seguindo pela justificação ou argumentação de por que determinado resultado é errôneo e apresentação das suas causas. Cumprida esta etapa, dá-se a exposição das novas diretrizes de investigação. A ocupação de Kant, por mais de trinta anos, com a metafísica

expôs a teoria da solubilidade de problemas da razão especulativa. Mais tarde, tomou a forma de livro: A semântica transcendental de Kant. Esta proposta de leitura mostrou-se pertinente, dando origem a vários trabalhos.

30 A proposta inicial da pesquisa de Loparic consistia em elucidar a perspectiva do primeiro Carnap através da investigação de Mach e Kant, buscando defender a presença de uma teoria da ciência do ponto de vista heurístico (e não axiomática) no jovem Carnap.

31 Uma comparação entre as interpretações de Loparic e Hanna foi realizada por Meirelles (2006).

32 O termo “semântica transcendental” é utilizado por Loparic para caracterizar a teoria a priori da interpretabilidade das representações discursivas que constituem proposições sintéticas sobre representações intuitivas (cf. LOPARIC, 2000, 5-6). Quanto às razões pelo emprego do termo “semântica” em Kant, consulte Loparic (2005, xx-xxiii).

dogmática levaram à conclusão de que os princípios que esta se serve vão além de todos os limites da experiência, de forma que ela tropeça em contradições e caminha na escuridão (cf. KrV, A VII). A proposta kantiana é composta por duas partes: a crítica e a metafísica. Segundo o filósofo de Königsberg, a crítica investiga “a capacidade da razão humana quanto a todos os conhecimentos puros” (Ibid., B 869), a fim de, pela implementação de critérios de conhecimento seguro e confiável, demarcar os limites de razão humana. Esta parte propedêutica do projeto que consiste, grosso modo, numa investigação sobre o aparato cognitivo humano, é dividida em estética transcendental e em lógica transcendental. A metafísica, por outro lado, é definida enquanto a apresentação do sistema completo de conhecimentos puros a priori. Esse “sistema da razão” abrange dois objetos: a natureza e a liberdade (cf. Ibid., B 866-7). A natureza trata do o que é e suas leis compõem a metafísica da natureza. A liberdade encarrega-se sobre o que deve ser e suas leis constituem, por sua vez, a metafísica da liberdade. A filosofia especulativa ocupa- se do primeiro sistema - e se subdivide em filosofia transcendental33 e em fisiologia, sendo que esta última engloba a física racional e a psicologia - e a filosofia prática do segundo sistema - e subdivide em moral e em antropologia, sendo que a moral compreende o direito e a ética. No quadro geral, se pode dizer que a crítica é uma disciplina da metafísica, ou ainda, em sentido lato, a metafísica da metafísica. Ocupar-me-ei, neste item, em apresentar as diretrizes deste projeto crítico, as quais estão presentes, principalmente, na lógica transcendental da primeira Kritik e na analítica da segunda Kritik.

O ponto de partida da proposta crítica é a declaração de que a razão humana é capaz de resolver seus próprios problemas (Ibid., A VII, B 22, 791), isto é, que para todas as questões prescritas pela natureza de nossa razão é possível responder ou provar que não há solução possível. Essa afirmação, conhecida também enquanto tese de decidibilidade ou teorema de solubilidade, indica, por um lado, uma razão autogestora de problemas, na medida em que todos os problemas e questões são por ela criados, o que vem, por outro lado, a justificar o seu poder de determinar a validade ou nulidade dessas perguntas, sugerindo uma razão auto-reguladora e autolegisladora. O princípio lógico é de que quem gesta problemas tem a autoridade, ou melhor, a

33 A filosofia transcendental, por considerar o entendimento e a razão enquanto um sistema de conceitos e princípios a priori que se referem a objetos (Gegenstände) em geral, sem assumir objetos dados (Objekte) (cf. KrV, B 873), pode ser identificada com a ontologia geral. Em termos mais precisos, a filosofia transcendental corresponde a uma versão crítica da ontologia geral tradicional. A ontologia geral kantiana pode ser descrita enquanto, de acordo com Loparic, uma semântica a priori do discurso objetivamente válido sobre a natureza (cf. LOPARIC, 2005, 11).

capacidade para decidir sobre eles. No presente caso, não se espera da razão que ela possa responder afirmativa ou negativamente a todos seus problemas, mas que solucione o problema ou prove que tal resultado não pode ser atingido, o que implica, consequentemente, que a razão kantiana é isenta de antinomias. O foco desse teorema kantiano da solubilidade são as proposições sintéticas34. A classe de problemas solúveis envolvendo as proposições analíticas é deixada de lado, já que não auxilia em absoluto para a ampliação do conhecimento objetivo. A classe de proposições sintéticas solúveis é, para Kant, equivalente à classe de proposições sintéticas possíveis, isto é, à classe de proposições sintéticas as quais satisfazem o requisito lógico da obediência ao princípio de não-contradição, bem como o requisito semântico de serem preenchíveis, ou seja, aplicados a dados do domínio da intuição sensível.

É interessante notar que o principal problema da metafísica não é solucionado pela identificação de problemas solúveis particulares, mas de classes inteiras de problemas que extrapolam os limites do conhecimento possível (cf. KrV, B 789). Segundo Kant, o sistema cognitivo humano trabalha com dois tipos de entidades de conhecimento: os objetos sensíveis (fenomênicos) e o sistema de objetos sensíveis, também denominado de objetos do pensamento. Essa classificação corresponde, respectivamente, à classe de incógnitas objetuais e às sistêmicas. A investigação da primeira Kritik demonstra que no âmbito especulativo somente a classe de incógnitas objetuais possui conceitos preenchíveis e satisfazíveis na sensibilidade cognitiva. Os conceitos resultantes da classe de problemas sistêmicos da razão teórica pura (tais como a teologia, a cosmologia e a psicologia) são ditos impossíveis ou indecidíveis. Por conseguinte, pode se afirmar que os limites do conhecimento especulativo coincidem com a classe de proposições sintéticas com sentido e referência no âmbito dos problemas objetuais.

A segunda tese fundamental do projeto de pesquisa kantiano é a de que os problemas são solúveis se puderem ser vinculados, de alguma forma, com objetos possíveis, isto é, a dados sensíveis (representações intuitivas). Essa exigência é válida universalmente para todos os conceitos e os juízos com pretensão à validade objetiva. O campo de objetos construtivamente possíveis abrange os domínios dos possíveis construtos na intuição pura, ou esfera dos esquemas puros, e o dos possíveis objetos empíricos ou exemplos. Esses domínios, a dos objetos empíricos

34 Uma prova da relevância das proposições sintéticas, segundo Kant, pode ser encontrada na “álgebra universal”. Conforme carta de Kant a J. Schultz em 25 de novembro de 1788, a “álgebra universal”, formada por proposições sintéticas, é qualificada enquanto maior exemplo de ciência ampliativa (cf. AA X, 554-558).

e a dos objetos matemáticos, são representados por estruturas empíricas ou puras de dados empíricos, e esgotam a esfera dos objetos possíveis. Essa esfera de interpretação dos juízos sintéticos a priori teóricos é determinado, por Kant, pelo estudo a priori da sensibilidade realizado na estética transcendental. Por conseguinte, essa teoria dos objetos dáveis na intuição é uma parte essencial da teoria da determinação dos predicados. As questões ou problemas que não cumprem com a regra supracitada – isto é, que não possuem objeto correspondente no domínio de dado sensíveis – são ditas “inválidas” ou “sem sentido”, posto que os predicados não podem ser determinados35. Para alguns comentadores de Kant, essas questões insolúveis não passam, no contexto da filosofia crítica kantiana, de problemas mal formulados, já que usa de conceitos e de uma forma lógica que não têm referência sensível. Vale destacar que, para o filósofo de Königsberg, assim como para a filosofia analítica contemporânea, as questões de significado e de referência são independentes e anteriores às epistemológicas (cf. LOPARIC, 2007).

Essa regra da solubilidade de problemas teóricos envolve, em específico, dois elementos: 1) o da possibilidade dos conceitos que têm conteúdo no domínio dos objetos que nos são dados na intuição e 2) o da possibilidade de determinação da verdade ou falsidade dos juízos - usados na resposta dos problemas teóricos – neste mesmo domínio. A lógica transcendental ocupa-se destas questões, na medida em que busca saber que e como certas representações, incluindo conceitos, são aplicadas ou possíveis unicamente a priori (cf. KrV, B 80). Neste sentido, interpreto, seguindo Loparic, a lógica transcendental enquanto uma teoria a priori do significado e da referência dos conceitos e da verdade dos juízos a serem interpretados (sensificação) no domínio dos objetos acessíveis à intuição36. Esta teoria, denominada contemporaneamente de semântica, encontra-se a serviço do método de resolução de problemas heurísticos, conhecido na história da matemática, enquanto método de análise e síntese.

A caracterização kantiana da referência e do significado dos conceitos, enquanto a priori, ideal e (de acordo o jargão contemporâneo) construtivista, é uma generalização das teses

35 “É pois o caso de dizer, seguindo uma expressão corrente, que a ausência de resposta é também uma resposta, a saber, que é inteiramente nula e vazia uma pergunta acerca da qualidade de essa qualquer coisa que não pode ser pensada por nenhum predicado determinado, pois se encontra posta fora da esfera dos objetos que nos podem ser dados” (KrV, B 507n).

36 Dentro da interpretação semântica de Loparic, um conceito possível é entendido enquanto “uma representação formal-discursiva de uma condição universal ou propriedade de uma classe construtiva kantiana, associada a uma regra para engendrar, a partir de membros dados, os membros remanescentes dessa classe”. Este conceito terá significado objetivo apenas se estiver “relacionado a representações intuitivas de objetos enquanto condição universal de uma regra para a produção (constituição ou busca) dessas representações” (LOPARIC, 2005, 177).

sobre conceitos defendidas por matemáticos desde a antiguidade37 e, em grau menor, pela ciência da natureza. A eficácia heurística dessas ciências na solução de problemas - razão pela qual elas foram tomadas enquanto modelo de pesquisa - fundamentava-se, primeiro, sobre o fato de que os conceitos deveriam se referir a objetos possíveis, de forma que as respostas aos problemas eram apreendidas dos próprios objetos possíveis e, segundo, sobre a presença de condições a priori de possibilidade dos objetos tratados. No caso da matemática, em condições que regulam construções matemáticas e geométricas e, no caso das ciências naturais, em princípios da experiência possível (cf. LOPARIC, 2005, 19). O resultado foi uma semântica não do tipo realista, mas construtivista. A diferença entre ambas pode ser explicada, grosso modo, pelo conceito de interpretação. Diferentemente do primeiro tipo, em que interpretar significar associar, de alguma maneira, conceitos já formados, como objetos anteriormente dados, a semântica construtivista busca gerar através de uma operação de construção, um objeto que satisfaça as condições do conceito (forma representacional discursiva) ainda vazio e que o preencha. Assim sendo, o construtivista gera, primeiro, os dois lados da associação - o conceito e o “esquema do objeto” correspondente – e, depois, associa ambos38. Em linhas gerais, pode-se afirmar que a geometria euclidiana, a “álgebra universal” e a física newtoniana são as matérias- primas (fontes), usadas por Kant, para a determinação das formas dos problemas metafísicos, bem como das condições a serem satisfeitas para a sua solução, enfim, para a teoria semântica transcendental de tipo construtivista.

A terceira tese central para semântica a priori de Kant é a de que a possibilidade da forma discursiva/lógica das proposições sintéticas depende de sua sensificação (interpretação) por formas intuitivas dáveis na intuição sensível, pura ou empírica (cf. KrV, B 298). A tarefa de estabelecer que e como essa associação entre formas lógicas com formas intuitivas é possível encontra-se exposta na analítica transcendental, particularmente na parte dedicada à doutrina transcendental do juízo, a qual se subdivide em esquematismo transcendental e princípios do entendimento. Dado que, por um lado, nem todos os grupos de condições discursivas são irredutíveis às intuitivas – como é o caso das categorias -, e, por outro lado, que em todas as subsunções de um objeto num conceito, a representação do primeiro deve ser homogênea à

37 O procedimento adotado pelos matemáticos gregos consistia, em primeiro, pela construção de figuras e magnitudes na intuição pura e, em segundo lugar, pela aplicação desses conceitos no campo dos objetos empíricos.

38 Kant desenvolveu uma teoria construtivista de conceitos, na qual os conceitos representam somente propriedades que podem ser exemplificadas, seja na experiência possível, seja através de construções arbitrárias.

representação do segundo (de maneira que este último contenha o que está dado no primeiro), faz-se necessário um terceiro elemento que estabeleça a ligação entre o campo discursivo e o intuitivo, tornando, assim, possível a aplicação do primeiro ao segundo. Esta conexão é realizada por procedimentos de construção determinados por regras discursivas, de modelos intuitivos puros para conceitos. Essas construções devem ser a priori e, devido sua função, ser de um lado intelectual e, de outro, sensível (cf. KrV, B 176-9). A teoria que trata desse procedimento, viabilizador da realidade objetiva dos conceitos em geral é denominada, por Kant, de esquematismo.

De acordo com Kant, há três formas distintas de procedimentos para fornecer uma sensificação (Versinnlichung) ou interpretação sensível a um conceito, a saber, o empírico, o transcendental e o analógico. Cada tipo de conceito exige uma construção distinta para sua sensificação. O esquematismo dos conceitos empíricos é realizado pela construção de um esquema resultante de pontos coincidentes na sobreposição de vários exemplos de uma “entidade”. Um exemplo dado por Kant é do conceito de cachorro. (cf. Ibid., B 180)39. O

esquematismo transcendental consiste na análise das operações da determinação a priori do tempo à luz das categorias. Esta teoria, entendida, por Loparic, enquanto semântica a priori de conceitos e de juízos do entendimento puro (cf. LOPARIC, 2005, 204), ocupa-se da determinação do “sentido interno segundo sua forma” (KrV, B 155) e da execução da síntese entre os princípios do entendimento e as representações dos objetos em conformidade com as condições a priori discursivas dadas pelas categorias (cf. Ibid., B 152). Ambos os procedimentos são exigidos para a determinação do particular, a fim de subsumi-lo sob um universal (cf. Ibid., B 144-5, 176-7), e realizados demonstrativamente, por meio de esquemas. E, por fim, há o esquema analógico que trata das idéias da razão teórica e das idéias práticas em geral. Diferentemente do esquematismo empírico e do transcendental, que se ocupam com conceitos do entendimento - os quais possuem uma representação de um objeto que lhes é correspondente na intuição a priori -, as idéias da razão não possuem nenhuma representação sensível que lhes sejam adequadas. Consequentemente, a sensificação destas últimas idéias realiza-se somente de maneira indireta, ao passo que os primeiros (conceitos do entendimento) são relacionados diretamente ao domínio

39 A teoria do esquematismo empírico não foi tratada explicitamente por Kant. Além dos exemplos e comentários presentes no capítulo sobre o esquematismo na Kritik der reinen Vernunft, pode ser ligadas a este tema, com ressalvas, a exposição sobre as “idéias normais” na Kritik der Urteilskraft (cf. KU, § 17).

dos objetos possíveis, recebendo, desta forma, uma realidade objetiva teórica (cf. KrV, B 185-6, 221, 268). Esse procedimento indireto de interpretação sensível é realizado através da simbolização ou da analogia40 e, distintamente, das operações realizadas por esquemas, não pode gerar uma forma de conhecimento, posto a natureza ficcional desse procedimento, o que implica que a realidade objetiva (conteúdo) dada as idéias da razão irá sempre preservar algo ficcional.

Segundo Kant, o símbolo de uma idéia da razão pode ser compreendido enquanto um modo de representação do seu referente (objeto), segundo a analogia (cf. Log, A 63). A operação analógica se dá pelo cumprimento de duas tarefas, as quais são correspondentes aos dois movimentos do método de análise e síntese dos antigos matemáticos gregos. O primeiro movimento dá-se pela subsunção de um símbolo – aplicação de um conceito de idéia ao objeto de uma intuição sensível - e, o segundo, pela transferência de regras de reflexão do objeto sensível (símbolo) para o objeto de idéia. A primeira etapa correspondente à etapa de análise (movimento descendente) pode ser denominada simbolização propriamente dita. A segunda etapa dá-se na etapa de síntese (movimento ascendente) e pode ser chamada de esquematismo analógico propriamente dito41. O objetivo geral de transferir regras de reflexão de objetos dáveis na intuição sensível para objetos da razão em geral é descobrir o universal (a regra, o princípio ou a lei) a

40 Considerando que, por um lado, a verdade objetiva dá-se pela relação de preenchibilidade ou satisfazibilidade entre representações discursivas e intuitivas, e, por outro lado, os princípios do entendimento são condições a priori da verdade e da falsidade objetivas de todos os outros juízos sintéticos, quer esses sejam a priori, quer sejam a posteriori, Kant propôs uma teoria geral das condições de verdade e falsidade de juízos sintéticos a partir das quatro propriedades básicas de toda forma proposicional lógica (quantidade, qualidade, relação e modalidade). Dentre os estudos kantianos das operações categóricas, gostaria de destacar, por servir-se de analogias, a propriedade básica de relação. Na análise desta “classe”, Kant se ocupa, particularmente, com proposições predicativas, hipotéticas ou disjuntivas quantificadas universalmente. Os princípios essenciais da semântica kantiana desses juízos são as três analogias da experiência. O princípio semântico a priori da relação predicativa (expoente da relação sujeito- predicado) é a primeira analogia, a qual afirma que “todos os aparecimentos contêm o permanente (substância) como o próprio objeto, e o transitório como sua simples determinação, isto é, como um modo de existir do objeto” (KrV, A 182). O princípio semântico a priori da relação hipotética (fundamento-conclusão) consiste na segunda analogia, a qual diz que “tudo o que acontece, isto é, que passa a ser, pressupõe algo do qual se segue de acordo com uma regra” (Ibid., B 231-2). O princípio semântico a priori da relação disjuntiva (parte-todo) é a terceira analogia, conhecida também com “categoria da comunidade” ou de “ação recíproca entre agente e paciente”. Essa “regra” foi formulada duas vezes por Kant. Na primeira versão, a terceira analogia é descrita da seguinte forma: “na medida em que podem ser percebidas no espaço como simultâneas, todas as substâncias estão em constante ação recíproca” (Ibid., B 256). Na segunda versão, de cunho semântico mais acentuado, a comunidade é formulada enquanto “causalidade recíproca das substâncias no tocante a seus acidentes” (Ibid., B 181). Vale notar que essas analogias são, em grande parte, correspondentes com as leis da natureza, mais precisamente, com as da física newtoniana.

41 Essa operação analógica pode, frente ao método de análise e síntese, ser também caracterizada da seguinte maneira: ao se buscar qual o conceito a ser aplicado, se está no momento de análise. Ao se exemplificar analogicamente um conceito está se fazendo síntese (se está aplicando o conceito). Um bom exemplo disto, ainda que em outro contexto, é a aplicação das categorias: primeiro, há a descoberta das categorias (análise) e, segundo, a aplicação das categorias (síntese).

partir de um particular. Além disso, esta transferência possibilita a) enriquecer a pesquisa das idéias da razão teórica ou prática, dado que permite pensá-las de acordo com as exigências de objetividade requeridas originalmente para os objetos sensíveis; b) evitar o emprego de quadros ontológicos distintos, na especulação, daquele que o entendimento aplica à sensibilidade42. Logo, nota-se que o emprego desta operação tem um objetivo heurístico e que a parte decisiva deste procedimento é o ascendente, pois possibilita, através das idéias interpretadas analogicamente, a construção do sistema da natureza, oferecendo também diretrizes para a pesquisa sistêmica (teórica), assim como para o estabelecimento do sistema da liberdade.

A teoria da sensificação das categorias43 (parte central do esquematismo

transcendental) e a teoria da verdade dos juízos teóricos a priori em geral – incluindo, além dos juízos filosóficos, também os da matemática e os da física newtoniana – constituem, seguindo Loparic, uma teoria semântica a priori da satisfazibilidade das formas lógicas (de proposições e das categorias) procedentes do entendimento sobre o domínio das determinações temporais puras e das percepções empíricas (cf. LOPARIC, 2005, 23). Esta semântica transcendental, denominada por Kant de “lógica da verdade” (cf. KrV, B 87), objetiva, em última instância, encontrar as condições de verdade dos juízos teóricos a priori no domínio dos objetos possíveis. Por conseguinte, a tarefa geral da filosofia transcendental da razão especulativa consiste em responder a questão: ‘como são possíveis juízos sintéticos a priori do tipo teórico?’ (Ibid., B 73). A resolução deste problema, apesar de se concentrar na análise da possibilidade, abrange também a das condições e a do âmbito de validade das proposições sintéticas a priori. O resultado desta