5 CAMPO: OBSERVAÇÕES E DISCUSSÕES
5.3 UMA ESTRANHA NA “TOCA” (RECIFE, 8 DE AGOSTO DE 2015)
5.3.2 sem muitas descobertas recife, 08 de outubro de
Mais uma vez fui acompanhada de Joaquim, que optou por usar sua camisa de botão verde acetinada (figuras 24 e 25). Nesta ocasião uma grande amiga pediu para se juntar a nós para conhecer a festa. Por gostar de uma estética glamourosa, a mesma afirmou que iria se “montar” inteira.
Figura 24: Joaquim em sua camisa verde acetinada, coturno e calça escura. Figura 25: Detalhe camisa verde
Embora fosse uma prática extremamente comum e corriqueira, chamou-me a atenção a vaidade de meu acompanhante ursino que, assim que combinamos nossa ida à Bear Celebration, agendou salão de beleza para ajustar a barba e fazer as unhas das mãos e pés, não me poupando de fotos orgulhosas do resultado final de seu rosto.
Quanto à minha amiga, ela vestia camisa de tecido fino, acompanhada de saia longa de tecido igualmente delicado. Estava bastante glamourosa e de salto alto, tendo o cabelo arrumado num coque.
Tive muita dificuldade para criar algo para vestir para a festa (em minha cabeça não consegui parar de repetir que precisava de roupas para a balada). Optei por um vestido tubinho preto de renda herdado de minha mãe, e por usar um par de botas pretas e arrematei com um brinco único de penas (earcuff), com cabelo preso e
batom vermelho. Hoje vejo que em todas as edições em que estive presente à Bear estava de preto, unindo uma estética glam rock que se mesclava, sobretudo com conforto.
Chegamos por volta das 23h30 e a festa ainda estava vazia. Como esperado eu e minha amiga chamamos bastante atenção por onde passamos. Muitos olhares nos acompanhavam. Quando observava que os olhares estavam muito intensos respondia com um sorriso, de modo que recebia um sorriso de simpatia em retorno. Por algumas vezes fui abordada para receber elogios ao meu look. Não vi o mesmo acontecer com minha amiga, o que me leva a crer que, embora feminina, estava com uma estética mais rock n‟roll, enquanto minha companheira de aventuras estava bem “travesti” – como gosta de se auto denominar em virtude de seu comportamento exagerado e expansivo. Interessante perceber que a androginia e o estilo rock n‟roll de minha indumentária me proporciona mais simpatia por parte dos Ursos da Bear Celebration que à minha amiga extremamente feminina.
Esbarrei com Pedro assim que cheguei. Sorri, trocamos dois beijinhos, perguntei como ele estava e se poderia contatá-lo por telefone ainda esta semana. Fui respondida com uma afirmativa e um sorriso acompanhados de desconfiança.
Desta vez minha estratégia era observar a festa por uma perspectiva diferente: deixei de lado o “preconceito” do que seria um Urso para olhar ao meu redor de uma maneira mais livre. Gostei bastante dos resultados, uma vez que constatei que a construção estética dos Ursos da Bear Celebration foge bastante dos estereótipos. Havia muitas calças com modelagem skinny, por exemplo, o que valorizava as pernas e nádegas de seus usuários. Em termos de camisas, o decote em V prevalecia, seja em camisas Pólo tradicionais, seja em camisas de algodão mais modernas. Creio que isto se dá em virtude do alto valor conferido aos pelos do corpo, e em especial aos do peito.
A grande observação da noite centrou-se na seguinte frase, que digitei em meu celular ainda sob efeito do álcool ingerido durante a festa: transitam entre uma formalidade heterossexual e uma dinâmica fashion homossexual.
Ou seja, foi-se o tempo em que para ser Urso, assim como para ser “homem heterossexual”, bastava se vestir e se portar a partir de uma performatividade viril,
que não dá margem a comportamentos ditos afeminados e a elementos de indumentária lidos como masculinos.
Acompanhando as dinâmicas dos novos tempos, é possível crer que homens possam apresentar certo grau de vaidade (metrossexualidade) sem que isso comprometa sua masculinidade, e é isto, creio, o que faz com que os Ursos recifenses, embora herdeiros de uma dinâmica machista e patriarcal nordestina, possam apresentar tantos elementos de comportamento e estética destoantes dos Ursos norte-americanos.
Compreendi, a partir desta última incursão à Bear Celebration, que precisava traçar uma nova estratégia para a construção de minhas conclusões sobre o universo ursino recifense, e que era chegado o momento de realizar as entrevistas. Estas atuariam como uma fonte direta de elucidação sobre as dúvidas que nutria: teriam os exemplares ursinos entrevistados iniciado sua vida sexual a partir de uma performatividade afeminada para depois se portarem como Bears masculinos? Teriam as violências físicas e emocionais homofóbicas sofridas atuado como um gatilho para sua mudança de comportamento perante a sociedade? Será que todos os Ursos também idealizam o pertencimento a esta subcultura? Como lidam com a ambivalência masculino-feminino que possuem e, especialmente, como sua indumentária atua neste sentido?
5.4 3º MOMENTO: ENTREVISTAS E ANÁLISES
Finalizadas as incursões à Bear Celebration e autorizadas as entrevistas (concedidas voluntariamente) pelo comitê de ética da Universidade Federal de Pernambuco, havia chegado o momento de elucidar dúvidas levantadas ainda durante a fase etnográfica da investigação.
Pode-se afirmar que a estrutura das entrevistas seguiu o mesmo roteiro (anexo 1), havendo a inclusão de perguntas complementares com o intuito de reforçar uma linha argumentativa ou ainda, elucidar dúvidas que eventualmente surgiam. Assim, foram solicitados desde dados de identificação dos entrevistados a questões relacionadas à sua sexualidade, contato com membros ursinos, relação com a moda e indumentária, finalizando com a solicitação de fotografias dos quais os
entrevistados pudessem explicar composições de roupas/acessórios que já utilizaram ou utilizariam em diversos ambientes (trabalho, lazer, flerte etc.).
Como informado, a estratégia para a escolha dos informantes foi a de pinçar, por meio de conhecimento ou indicação, homens gays que se reivindicassem como Ursos e que fossem recifenses ou que residissem na cidade há bastante tempo. Objetivou-se selecionar apenas homens maduros, com idade acima dos 35 anos, uma vez que se acreditava que seriam mais estáveis econômica e emocionalmente. No entanto, como já mencionado, dois dos informantes possuíam idade inferior à estipulada: Victor (em virtude de seu comportamento maduro, apenas soube de sua idade ao iniciar a entrevista) e Rafael (como forma de elucidar algumas questões apontadas pelos entrevistados). Abaixo apresento o perfil dos informantes81:
JOAQUIM (figura 26)
Figura 26. Joaquim
41 anos, auto assumido negro, com tipo físico que chama de “médio” e morador do Bairro das Graças (Recife-PE). Como atividade física pratica o pilates. Mestre em Psicologia Clínica, especialista em Literatura Brasileira e graduado 3 cursos superiores. Nascido no Norte, residiu em diversas regiões do país até vir morar na cidade do Recife, que considera atualmente seu lar. Embora aprecie bastante
81
Achamos por bem reforçar que, seguindo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) do Comitê de Ética da UFPE, todos os nomes foram substituídos de modo a resguardar a identidade dos entrevistados.
frequentar as Bear Celebration, não parece ser popular no meio. Acompanhou-me em duas de minhas incursões à festa e não parecia possuir um círculo de amizades ursino, de modo que apenas cumprimentava alguns conhecidos à porta do Miami Pub.
OTÁVIO (figura 27)
Figura 27. Otávio
40 anos, designer de formação, mestre em Design e professor universitário também na área. Residente no Recife desde os seus 19 anos. 1,75m de altura, pesava cerca de 83kg ao momento da entrevista e se considera detentor de um tipo físico que popularmente é chamado de “socadinho”, que é o parrudo, forte (como se auto denominou). Diariamente pratica musculação e afirma ter um tipo físico que lhe proporciona um corpo musculoso, embora afirme que jamais terá “barriga de tanquinho”. Natural de Vitória de Santo Antão, foi criado desde a infância na cidade de Gravatá (localizadas no interior do Estado de Pernambuco). Em sua adolescência foi seminarista. Fez crer que havia frequentado poucas edições da Bear Celebration, e que não apreciava o evento em virtude de considerar suas edições bastante repetitivas (mesmo público e músicas, segundo ele). De opinião forte e tom de voz assertivo, mostrou-se bastante à vontade para compartilhar fatos íntimos e dolorosos de sua vida. Afirma preferir viajar para São Paulo para frequentar festas ursinas, no qual o ABC Bailão parece ter sua predileção. Hospeda-se na Av. Vieira
de Carvalho, point LBGTQ da cidade, para estar “em cima” dos eventos Bear da capital paulista.
VICTOR (figura 28)
Figura 28. Victor
28 anos, mestrando em Antropologia, considera-se agnóstico embora tenha tido uma formação cristã. Lê-se como negro e gordo (afirma que tem bastante orgulho em sê-los). Diz possuir um estilo clássico de se vestir. Possui uma gentileza no trato, e uma maturidade no falar, que fazem com que aparente ser mais maduro que a idade que realmente possui. Diz não gostar de ser tratado como fetiche em virtude de sua gordura corporal ou pelos (dentro e fora da comunidade ursina), por achar que isso o essencializa. Não costuma frequentar a Bear Celebration, mas deu a entender que aprecia ir ao Conchitas (bar vizinho ao Miami Pub, que também pertence ao contexto LGBTQ da cidade, distanciando-se em estilo da Bear Celebration). Não frequenta os círculos de sociabilidade ursinos da cidade, de modo que se relaciona comumente com pessoas pertencentes a outras subculturas LGBTQ da cidade.
Figura 29. Pedro
50 anos, morador do bairro de Boa Viagem, considera-se vaidoso e consumista. Formado em comunicação social com habilitação em jornalismo, é pós-graduado em marketing empresarial. Trabalha numa ONG voltada para o público LGBTQ e também organiza a única festa destinada ao público Urso na cidade do Recife, a Bear Celebration. De acordo com Henrique, é considerado a “rainha ursa” - cremos que em virtude de sua vaidade, bem como influência entre os Ursos de Recife e São Paulo. Considera-se peça fundamental na história da comunidade ursina pernambucana, muito embora tenha se mostrado desconfortável em tratar de assuntos ligados à história da comunidade ursina em Recife. Sempre que questionado sobre sua sexualidade e às violências sofrida por ser homossexual, mudava de assunto. Organiza os bearcontros na cidade, seja em eventos do Grupo Metrópole, seja em festas privadas.
RODOLFO (figura 30)
Figura 30. Rodolfo
40 anos, arquiteto de formação, com pós-graduações em segurança do trabalho, engenharia de segurança, gestão ambiental e gerenciamento de projeto. Católico
“não muito praticante”, como prefere falar, reside no bairro da Boa Vista. Descreve seu tipo físico como “mais para ursinho”, porque diz estar acima do peso, apesar de estar mais magro. Vaidoso e consumista, é adepto da musculação. Afirma ter se descoberto Urso há pouco tempo, e por isso diz que suas roupas não possuem as características de “roupas ursinas”. Vê na Bear Celebration um local seguro e acolhedor, já que sente que todos são bem recebidos, independente de idade ou tipo físico.
RAFAEL (figura 31)
Figura 31. Rafael
Com 21 anos, Rafael abandonou o curso de direito no 3º período, quando decidiu cursar design de moda (sua formação). Passou por um processo de cirurgia bariátrica pouco antes de entrar na faculdade. Assumiu-se gay para seus pais ainda na adolescência e afirma ter uma família bastante acolhedora, que não criou nenhum problema (ao contrário dos pais de muitos amigos) ao saber que possuía um filho homossexual. Diz nunca ter sofrido nenhum tipo de violência homofóbica (nem no grupo familiar, nem na rua). Frequentou algumas edições da Bear Celebration, mas “enjoou” da festa em virtude das músicas tocadas. Em suas palavras: ―começa com Madonna e vai pra Whitney Houston e quando vê tá em
Abba... [inaudível] amor, isso aqui não é uma festa disco não, vamos botar um funk? Vamos botar uma Anitta, pelo amor de Deus porque não tá dando. E fui uma, fui duas, fui três, fui quatro, eu fiz ‗meu Deus, o som não muda‘‖. Representa os
Todas as entrevistas ocorreram em locais escolhidos de comum acordo entre a investigadora e os informantes. Algumas foram realizadas nas residências dos Ursos em questão, outras na própria UFPE e as últimas em cafés e restaurantes.
Embora tenha tido certa dificuldade em agendar entrevistas com muitos Ursos que estavam em minha lista de contatos, os 6 entrevistados acima foram bastante solícitos em contribuir para esta investigação (à exceção de Pedro, logo que nos conhecemos); alguns por vaidade, outros por acreditar que é necessário que se estude e se fale mais sobre Ursos e a comunidade LGBTQ no Brasil, especialmente em virtude do momento político de “retrocesso” que temos vivido.
Utilizando as técnicas propostas por Ferreira (2014) para a realização de entrevistas compreensivas – espelho, sumarização, complementar, incompreensão voluntária, silêncio e recuperação da técnica –, os “bate papos” duraram cerca de 1h30 e constituíram elementos chave para o descortinamento das últimas dúvidas relativas à comunidade ursina recifense e sua relação com a indumentária.
As entrevistas foram transcritas e analisadas junto às imagens colhidas na página da Bear Celebration no Facebook, e nas redes sociais dos entrevistados (Instagram, Whatsapp e Facebook), seguindo a técnica da análise de conteúdo para avalia-las posteriormente. O objetivo foi o de levantar mais elementos para a contextualização dos aspectos psicológicos, sociológicos e culturais dos entrevistados.
A organização da análise se deu, como informado na metodologia, em 3 polos cronológicos: pré-análise e leitura flutuante, exploração do material e classificação dos elementos constitutivos do conjunto e tratamento dos resultados (junto com a inferência e interpretação dos dados) (BARDIN, 2016).
Assim, as categorias teóricas e empíricas (sugeridas pela análise de conteúdo) foram separadas em mais de 30 classes (Ex. latência sexual, interesse por homens, conflito, preconceito etc.) que, posteriormente, foram arranjadas em 3 blocos por afinidade não só de discurso, como também de elaboração teórica. São eles:
BLOCO A |Violência e Performatividade Ursina;
BLOCO C | Entre o Corpo e o Artefato.
Realizadas durante o ano de 2017, as entrevistas compreensivas, mais que as incursões etnográficas, mostraram-se fundamentais para a compreensão da dimensão simbólica ocupada pelos artefatos de moda no universo ursino recifense. Suspeitávamos que muitos fatores estariam envolvidos como a herança machista e patriarcal do Nordeste brasileiro e ainda o processo contínuo e ininterrupto da construção de uma identificação ursina etc. Para além disso, tive a oportunidade de me deparar com aspectos que não haviam sido tocados na literatura ursina militante ou nos estudos acadêmicos aos quais tive acesso, como por exemplo, a dimensão ocupada pelas violências homofóbicas sofridas na infância dos Ursos entrevistados e em como elas foram fundamentais para que se tornassem quem são hoje.
A seguir são apresentados os 3 tópicos, cada um com dados e análises relativos aos depoimentos dos entrevistados. Seguindo o método da análise de conteúdo (BARDIN, 2016; CAVALCANTE ET AL, 2014), os resultados da exploração das entrevistas foram tratados, interpretados e categorizados no sentido de contar uma história ao leitor.