navio de partida
4. Sem pedir licença muda nossa vida
Diante das minhas condições financeiras, ao terminar o Ensino Médio, procurei me inscrever nos vestibulares de instituições próximas à minha cidade. Limoeiro do Norte-CE e Mossoró-RN eram os dois destinos mais condizentes. Esta última cidade era
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mais distante, mas eu tinha uma tia com quem poderia morar, caso lograsse êxito no vestibular. No Campus da UECE, em Limoeiro do Norte, eram ofertados somente cursos de licenciatura: Letras, Geografia, Ciências e Pedagogia. Optei pelo primeiro curso, tendo em vista a minha afinidade com a língua portuguesa e a literatura. Além disso, havia a opção dos cursos de tecnólogos no Instituto Centro de Ensino Tecnológico – CENTEC8, também na cidade de
Limoeiro do Norte. Em Mossoró-RN, me inscrevi no vestibular da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN para o curso de Ciência da Computação. A escolha deste curso se deu pelo contato com a área, enquanto fui monitor de informática, e por considerar, à época, uma área mais promissora que a licenciatura. Realizadas as provas de três vestibulares, restava-me esperar ansiosamente pelo indeterminado amanhã que viria. A fracassada tentativa de ingressar em Ciência da Computação/UERN foi contraposta pelo 2º lugar obtido no curso de Letras/UECE e pelo disputado 3º lugar em Recursos Hídricos/Irrigação/CENTEC. Esses resultados me mostraram o quanto eu era capaz e o quanto valera à pena a dedicação dos meus professores para com o nosso aprendizado. Lembro-me de que, no universo da escola, foram aprovados apenas seis alunos, todos da minha turma. Se a minha educação não foi necessariamente propedêutica, eu a fiz assim, pois do contrário eu não teria chegado ao ensino superior.
Mais uma vez tive que passar por novas adaptações. Deixei novamente a zona rural e fui morar com outra tia (irmã de meu pai) em um espaço alugado por ela, exatamente com o intuito de me ajudar na nova caminhada. Os dois cursos passaram a ser o meu grande desafio. Aos poucos fui entendendo o mundo universitário e logo encontrei afinidade com as letras. Convivi com muitos professores que já atuavam em sala de aula e nenhum falava bem da sua profissão. Pelo contrário, o discurso era extremamente desanimador. No entanto, eu estava bastante envolvido e muito satisfeito com a possibilidade de ser professor. Ficava me colocando na posição que os meus professores do Ensino Médio ocupavam na minha vida. Tinha em mente que eu também gostaria de fazer a diferença na vida das pessoas. Eu sentia que eu deveria incentivar outros jovens com condições semelhantes às minhas a trilharem sua própria história a partir da educação. Para isso, eu precisava ser um educador reflexivo-transformador. Eu sentia a necessidade de desenvolver ações que pudessem transformar vidas.
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Na faculdade, eu encontrei pessoas de várias cidades, de diferentes posições sociais e com ideologias diversas. Neste ano (2002), passei a me compreender diante do mundo, a entender como se dava a manutenção do contexto onde eu nasci e como poderia fazer para transformá-lo. Acerca desse processo, Nascimento destaca que:
O ser humano por natureza é um ser de relação, e como ser social sofre influência da realidade, como também pode e é capaz de intervir nela. Neste sentido compreendemos que é nato ao homem à [sic] incumbência de buscar meios que favoreçam as transformações da própria natureza, objetivando solucionar problemas que surgem no cotidiano, viabilizando assim adaptações para viver e solucionar problemas da vida. A educação é um típico “que fazer” humano, ou seja, um tipo de atividade que se caracteriza fundamentalmente por uma finalidade a ser atingida, e na sociedade caracterizando um processo de mudança social. (NASCIMENTO, 2010, p. 2)
Dessa forma, durante a campanha eleitoral para presidência da República, que movimentava o país, resolvi iniciar novas mudanças e, assim, fiz uma opção ideológica, filiando-me ao Partido dos Trabalhadores. Participei com muito empenho de alguns atos durante a campanha eleitoral. A sensação era, realmente, de esperança por dias melhores. O resto da história, se o leitor morou no Brasil nos últimos 12 anos, conhece tanto quanto eu as melhorias que tem ocorrido.
Sentia que eu estava crescendo, que minha vida passava a ter sentido, pois “[...] o homem torna-se ser humano nas relações de convívio social e como indivíduo, quando descobre o seu papel, ou seja, sua função, tomando consciência de si mesmo, do outro e do mundo, [...] a partir do momento que consegue intervir na realidade em que está inserido.” (NASCIMENTO, 2010, p. 2). Portanto, eu tinha plena convicção de que ser um educador é tornar-se um instrumento de transformação social e agir politicamente para construir, a partir de sua prática pedagógica, um modelo de sociedade justo e igualitário com todos os seus cidadãos.
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Com o incentivo de minha mãe, me inscrevi, no final do ano de 2002, mais uma vez no vestibular para Ciência da Computação da UERN. O destino não nos pertence e sem pedir licença muda nossa vida. E assim aconteceu! Aprovado em 15º lugar, minha vida, aparentemente definida, passaria por novas mudanças. Tive que atravessar a ponte de 480m, desta vez, rumo à universidade em Mossoró. Não havendo como custear as despesas na cidade, fui acolhido por um amigo de uma professora do Ensino Médio por um tempo e, logo em seguida, fui morar em Baraúna (RN), na casa de uma tia-avó.
Como descrever a minha chegada à universidade? Talvez somente José de Alencar o conseguisse com toda a riqueza de detalhes que tenho em minha mente. O primeiro dia de aula é sempre o melhor e o mais esperado. No entanto, para mim não era apenas isso. Era uma sequência de novas vivências. Muitas incertezas e receios. Fui deixado na entrada pelo taxista e segui em um clima agradável de inverno pelo acesso mal cuidado da UERN até a biblioteca, para deixar minha bagagem com um amigo. Em seguida, me dirigiu à sala de aula. No caminho, eu não podia deixar de observar o quanto aquela universidade era grande.
O primeiro ano foi o mais difícil. Àquela época, não havia as condições de permanência e os programas de iniciação científica que conhecemos atualmente. No segundo ano, eu estava decidido a voltar a cursar Letras. Eu não gostava do curso que estava fazendo e as dificuldades financeiras estavam se intensificando. No entanto, depois de muito apoio e incentivo decidi continuar. Nos dois anos seguintes, me tornei monitor de algumas disciplinas. Além de receber uma bolsa de R$ 160,00, esse processo consolidou a minha vocação para ser professor. Mas eu já não pensava mais nisso, já que eu estava fazendo um curso de bacharelado. Nesses quatro anos, eu vivi a universidade. Ministrei cursos e apresentei trabalhos de iniciação científica nos principais eventos da universidade. Para não me desvencilhar da educação, eu cursei disciplinas no curso de pedagogia e fiz alguns trabalhos direcionados ao uso das novas tecnologias na educação. Com o lançamento do Programa Nacional de Incentivo à Formação Continuada de Professores de Ensino Médio - PRO-IFEM, tive a oportunidade de auxiliar o professor durante as aulas de informática para os professores. Esse projeto foi muito relevante, pois pela primeira vez eu percebi que podia me tornar professor de informática.
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