2 O Estado da Arte
2.2 Teorias de Projecto
2.2.3 Semelhanças e Complementaridades entre a TAP e a TRIZ
Ambas as teorias, TAP e TRIZ, anteriormente descritas, aplicam-se (estudam) às fases iniciais do processo de projectar, especialmente destinadas à concepção de soluções, ao nível de abstracção mais elevado e, devido ao facto de serem teorias baseadas em princípios gerais, proporcionam bases científicas que suportam as decisões inerentes ao processo de projectar [Kim et al., 2000]. Tal facto justifica a sua actual popularidade, dada a necessidade de estabelecer metodologias científicas aplicáveis à actividade de projecto.
Embora as duas teorias tenham sido desenvolvidas independentemente e segundo abordagens distintas, muitos dos conceitos principais dessas teorias são bastante semelhantes, tendo [Kim et al., 2000] analisado alguns aspectos dessas semelhanças, nomeadamente o conceito de idealidade (good design), a análise substância-campo e a decomposição em zigue-zague, os princípios de invenção, as contradições e os axiomas, assim como a possibilidade de realizar as tarefas de projecto algoritmicamente,
proporcionando a construção de softwares (Aclaro e Ariz) para o efeito e permitir, assim, a realização de tarefas de projecto com a ajuda de computadores.
Tanto Altshuller como Suh estabeleceram um conjunto de princípios ou axiomas a partir dos quais puderam desenvolver uma variedade de métodos e algoritmos para resolução de problemas específicos de projecto. Ambos tentam, também, definir o que é uma boa solução ou um bom projecto e, interessantemente, chegam a definições semelhantes, independentemente um do outro [Nordlund, 1996].
Baseados nos seus princípios ou axiomas, Altshuller e Suh desenvolveram diferentes abordagens para alcançar um bom projecto. Altshuller desenvolveu um sistema de métodos para separar propriedades contraditórias, através de síntese inteligente e integração de parâmetros, enquanto Suh desenvolveu uma métrica e regras de análise que advertem o projectista caso esteja a criar más soluções.
A TAP auxilia o projectista na avaliação e na comparação de soluções, ao nível da estrutura do processo, porém, não possui nenhum instrumento de geração de soluções.
A TRIZ é um método muito útil para a resolução de problemas de criatividade, de modo individual, no entanto, requer que os problemas complexos, presentes no projecto de qualquer produto, com múltiplos requisitos, funcionalidades e contradições, sejam transformados em problemas simples [Gumus, 2005].
Enquanto a TRIZ tem a capacidade de gerar soluções inovadoras, a TAP tem a capacidade de definir e decompor sistematicamente o problema geral, assim como analisar a eficácia (effectiveness) da solução em termos de satisfazer os dois axiomas [Shirwaiker et al., 2007]. Uma combinação da TAP com a TRIZ associará as vantagens de ambas as abordagens para gerir a complexidade, ao mesmo tempo que cria soluções inovadoras para resolução dos problemas complexos.
Isto porque a TAP tem um modelo do processo de projecto de âmbito de aplicação muito alargado (geral), abrangendo todo o processo de projecto, desde a definição do problema até ao projecto de pormenor do produto e do processo de produção do mesmo, enquanto a TRIZ é mais focada na resolução da parte criativa e inventiva do problema de projecto.
Tate e Nordlund [Tate et al., 1995] apontam uma das propriedades complementares da TAP e da TRIZ, como sendo o facto de a TAP assinalar a existência de interdependências perigosas e tornar visíveis as interdependências entre as várias variáveis, ao passo que a TRIZ omite esta propriedade. No entanto, uma vez identificadas as interdependências conflituosas, a TRIZ oferece um conjunto de ferramentas para as resolver, o que não acontece na TAP.
Nordlund [Nordlund, 1996] sugere a hipótese de integração da TAP e da TRIZ, de modo a que a ferramenta de síntese facultada pela TRIZ complementaria a ferramenta de análise facultada pela TAP e tanto Tate [Tate, 1999] como Suh [Suh 2001] reconhecem que a TAP e a TRIZ se complementam mutuamente [Gumus, 2005].
Darrell Mann sugere que a TAP tem muito a oferecer à TRIZ em termos de melhor compreender tanto a natureza hierárquica do projecto como a necessidade de prestar atenção às inter-relações que existem entre os sucessivos níveis hierárquicos [Mann, 2002].
Ruihong, Runhua, e Guozhong [Ruihong et al., 2004] utilizaram a combinação da TAP com a TRIZ, na resolução de um “case study” referente à velocidade de uma “Máquina de Produção de Papel”, cuja matriz de projecto era acoplada, tendo utilizado a TAP para a análise e decomposição do problema em “miniproblemas” (problemas elementares ou individuais) e utilizado a TRIZ para obter as soluções para os “miniproblemas”.
Mais recentemente, Shirwaiker e Okudan [Shirwaiker et al., 2007], desenvolveram um modelo (framework) para o processo de projecto, a que chamaram “Synergistic Problem
Solving Approach”, que consiste na integração da TRIZ na metodologia da TAP, tendo em
vista a rentabilização (capitalize) dos pontos fortes de ambas as teorias.
Neste modelo, a TAP é usada para definir o problema sistematicamente e decompor (breaking up) os Requisitos Funcionais em elementos individuais de nível hierárquico mais baixo (básico). A TRIZ é usada para gerar soluções inovadoras para os problemas individuais e desenvolver os Parâmetros de Projecto que satisfazem os Requisitos Funcionais. No caso de a Matriz de Projecto ser acoplada, os Princípios de Separação da TRIZ podem ser aplicados para separar os Requisitos Funcionais que não sejam independentes.
Através da aplicação a um caso prático, comprovaram a compatibilidade de ambas as teorias e acreditam que a utilização do “Synergistic Problem Solving Approach” contribuirá para o aumento da eficiência e da qualidade da resolução de problemas.
O modelo “Synergistic Problem Solving Approach” visa a obtenção de sinergias originadas pela combinação das capacidades (capability) de análise detalhada da TAP com as capacidades (prowess) da TRIZ na geração de ideias inovadoras, ao longo de todo o processo hierárquico da TAP e de decomposição em zigue-zague entre os domínios funcional e físico.
A aplicação sistemática da metodologia (approach) é explicada através de um procedimento passo-a-passo (stepwise), composto por sete fases, começando com a definição do problema geral usando a TAP e terminando com a utilização da TRIZ para geração de conceitos e desacoplamento da matriz de projecto, e aplicação do segundo axioma para selecção da solução óptima, no caso de existir mais do que um conceito potencial.
Este modelo é apresentado com maior detalhe no ponto “4.2.24 - Modelo de Shirwaiker e Okudan” do Capítulo 4.