4.1 – Autonomia e Interesses
Salienta Regan, um dos aspectos a tratar quando analisamos a questão do bem- -estar dos mamíferos e das aves prende-se com a autonomia que estes animais manifestam possuir. Regan defende que eles possuem, tanto quanto nós, um determinado tipo de autonomia, a que chama de autonomia preferencial. Na concepção do autor, esse tipo de autonomia designa a aptidão dos indivíduos para agirem de forma a satisfazerem as suas preferências. Assim, porquanto existe uma correspondência observável entre as preferências desses animais e as suas acções, vemos confirmada a
ideia, respeitando a acepção reganiana de autonomia preferencial, de que eles são, como nós, seres autónomos.48
Outro aspecto importante a considerar são os interesses dos mamíferos e das aves. Com o intuito de mostrar em que grau os seus interesses se assemelham aos nossos, Regan começa por acentuar a nuance lógica que diferencia a afirmação «temos interesse em qualquer coisa» da afirmação «qualquer coisa é no nosso interesse». Podemos ter o interesse em roer as unhas, encher a barriga de doces ou fumar, porém nada disso, porque acarreta malefícios, é no nosso interesse. Do mesmo modo, não tenho interesse em acordar mais cedo todas as manhãs para correr durante meia hora, ainda que seja no meu interesse fazê-lo pelas vantagens que isso traria para a minha saúde.
Com base nesta nuance lógica, Regan estabelece a distinção entre duas possíveis acepções do conceito de interesse: por um lado, é possível falar de interesses
preferenciais, concernentes ao objecto das representações mentais volitivas dos
indivíduos, àquilo que eles conscientemente desejam ou preferem; por outro lado, também é possível falar de interesses no bem-estar dos indivíduos (welfare-interests), referentes àquilo que pode beneficiar – ou que se pensa que pode beneficiar – a sua qualidade de vida.49 Garante Regan, podemos atribuir, não só aos humanos, mas também aos demais mamíferos e às aves, interesses nestas duas acepções.
Desde logo, na medida em que esses animais são capazes, como nós, de exibir desejos e preferências – contemplámos já vários indícios que atestam a sua posse desses estados psicológicos – eles mostram ter interesse em certas coisas. Relativamente a isto, Regan esclarece que os interesses preferenciais não expressam um estado psicológico – um desejo ou preferência – sempre actual. Ora, todos nós temos os nossos objectos de interesse (por exemplo, no campo das artes, do desporto, do lazer, etc.); tal porém não significa que estejamos sempre a pensar neles. De acordo com o nosso autor, quando pensamos nos nossos objectos de interesse, o interesse é
episódico; quando não pensamos, mantemos um interesse disposicional.50 Sendo os
48
Cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, pp. 84-86. 49
Cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, p. 87. 50
mamíferos não-humanos e as aves dotados de memória, devemos reconhecer que também eles são capazes de possuir interesses episódicos e disposicionais.
Esta evidência é reforçada pela sua posse de crenças e desejos actuais e disposicionais, a qual analisámos atrás, de acordo com as orientações de Damásio e DeGrazia (vide secção 1.3 do terceiro capítulo da primeira parte). Assim, para contemplarmos essa sua capacidade, de ora em diante sempre que forem aqui referidos os interesses preferenciais desses animais será em ambos os sentidos episódico e disposicional.
Por outro lado, também é possível reconhecer que há certas coisas que são no
interesse desses animais, porquanto eles conseguem, tal como nós, assevera Regan,
usufruir de benefícios. Para se perceber como é que os mamíferos e as aves podem ser beneficiados, a próxima secção procurará atentar naquilo que o autor tem a dizer acerca das condições em que os benefícios ocorrem, tanto no nosso caso, quanto no caso desses animais. Subsequentemente, serão identificados alguns benefícios básicos que podemos ter em comum com eles. Depois disso, ver-se-á de que modo nós e esses animais podemos ser similarmente prejudicados.
4.2 – As Condições em que os Benefícios Ocorrem
No entender de Regan, tudo o que possibilita (ou surge como uma oportunidade para) a obtenção de uma boa qualidade de vida constitui um benefício. Observa o autor, nós, humanos, bem como os mamíferos não-humanos e as aves, somos similarmente dotados de uma identidade psicofísica cuja permanência temporal nos permite experienciar o fluxo contínuo dos momentos agradáveis ou penosos que integram a nossa vida. Perante esse facto, Regan retira uma conclusão a qual se enquadra perfeitamente nas explicações de Damásio e DeGrazia sobre a correspondência entre a satisfação ou não satisfação de desejos e o consequente desencadear de estados psicológicos aprazíveis ou desagradáveis (vide secção 1.2 do terceiro capítulo da primeira parte).
Conclui Regan, porquanto no nosso caso e no caso desses animais os diferentes momentos psicológicos que integram a vida de cada indivíduo se interpenetram como um todo, segue-se que a qualidade de vida, tanto no nosso caso quanto no caso desses animais, depende da experiência unificada que cada indivíduo vai acumulando ao longo do tempo. Portanto, não teremos uma boa qualidade de vida, nem nós, nem esses animais, se os nossos desejos forem satisfeitos apenas em ocasiões raras. Ao invés, a possibilidade de alcançarmos um nível aceitável de bem-estar depende das oportunidades que vamos tendo para satisfazer harmoniosamente – isto é, com regularidade e de modo equilibrado – os vários desejos que projectamos ao longo do tempo.51
Deste modo, um dos benefícios mais importantes que nós, os outros mamíferos e as aves podemos ter é a salvaguarda da nossa liberdade individual. Ao sermos livres, é-nos possível obter aquilo que nós mesmos acreditamos ser mais satisfatório e prazeroso para nós, constituindo assim a liberdade individual uma condição indispensável para conseguirmos uma boa qualidade de vida de acordo com as nossas próprias capacidades naturais enquanto indivíduos dotados de autonomia preferencial.
Regan explicita um dos sentidos essenciais em que a liberdade individual possibilita ampliar o nosso campo de satisfação. Com efeito, sabemos por experiência própria que nós, humanos, sentimos mais satisfação quando perseguimos aquilo que desejamos mediante os nossos próprios desígnios, sem imposições nem interferências exteriores. Para mostrar que assim é também no caso dos animais, Regan dá-nos o magnífico exemplo dos lobos. Temos todas as razões para acreditar que um lobo cativo satisfaz o seu desejo por comida ao comer de uma tigela, ao passo que um lobo livre sente satisfação adicional quando emprega a sua astúcia e talento de caçador em parceria com os outros membros da sua alcateia para satisfazer esse mesmo desejo. Regan constata assim que, em determinadas circunstâncias, a própria procura em satisfazer um desejo pode ser fonte de satisfação, quer para nós, quer para todos os mamíferos e aves. Há pois que respeitar a liberdade dos indivíduos – a sua autonomia
51
preferencial – de maneira a que possam perseguir os objectivos que eles próprios escolheram para si, um benefício crucial, tanto para nós, quanto para esses animais.52
Na pista destas considerações, Regan faz notar porém que a consumação de todo e qualquer desejo poderá, em algumas situações, revelar-se nociva, seja para a nossa qualidade de vida, seja para a qualidade de vida desses animais. Como já se mencionou, nem todos os nossos interesses preferenciais são no interesse do nosso bem-estar. Às vezes aquilo que queremos pode trazer maus resultados, e tal acontece, não só com os humanos, mas também com os mamíferos não-humanos e com as aves. Por exemplo, estes animais podem querer atravessar uma estrada movimentada sob o risco eminente de serem atropelados, ou invadir as propriedades das pessoas, uma audácia que, como é sabido, frequentemente não lhes reserva o melhor dos desfechos. Exemplos do género abundam.
Regan esquematiza assim, ciente da falta de detalhe do seu esboço, as condições que considera indispensáveis para que nós, humanos, e também os mamíferos não-humanos e as aves, possamos obter uma boa qualidade de vida. Nós e esses animais vivemos bem se, de modo regular e equilibrado, (1) procuramos e obtemos o que preferimos; (2) encontramos satisfação na procura e obtenção do que preferimos; e se (3) o que procuramos e obtemos é no interesse do nosso bem-estar.53
Todavia, quando aquilo que preferimos é nocivo para o nosso bem-estar, será justificável que outros indivíduos interfiram na nossa vida com o intuito de nos proteger do mal que nos venha a acontecer devido às nossas acções? Regan defende que ninguém tem a prerrogativa de interferir de forma constante na vida de humanos adultos e psicologicamente normais, porque isso comprometeria o enorme benefício que é para esses indivíduos serem livres, do qual resulta a satisfação de agirem em função dos seus próprios desígnios.54 Penso que faz sentido esta advertência, pois sabemos que a percepção da nossa liberdade é, por si só, fonte de imensa satisfação, e, simetricamente, imaginamos que a ideia de não sermos completamente livres por causa de constantes interferências exteriores provocaria em nós profundo mal-estar.
52
Cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, pp. 90-92. 53
Cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, p. 93. 54
Porém em relação às crianças, Regan já admite ser justificável interferirmos constantemente na sua vida com o intuito de salvaguardar o seu bem-estar. Perante a extrema facilidade com que as crianças se metem em apuros, e porque uma tal interferência não afectaria a percepção que elas têm da sua liberdade ao ponto de provocar nelas um mal-estar de magnitude significativa, concordo com o autor. Essa interferência, esclarece Regan, provar-se-á benéfica se quem interfere age com a finalidade de ajudar aquelas crianças acerca das quais se sabe que: (1) têm uma preferência específica; (2) têm a capacidade para agirem de modo a alcançar a satisfação que elas acreditam que tal preferência lhes irá trazer; (3) se não forem impedidas, agirão na procura dessa satisfação; e (4) colocarão em risco a sua qualidade de vida se agirem desse modo. Regan denomina este tipo de interferência benéfica de
paternalismo.
Dadas estas condições, e por tudo quanto foi avançado até aqui, é pois fácil compreender que, além das crianças, também os mamíferos não-humanos e as aves pertencem ao grupo dos possíveis beneficiários deste tipo de interferência.55 Efectivamente, somos capazes (como vimos na primeira parte, na secção 3.3 do terceiro capítulo) de especificar quais são as preferências desses animais; sabemos que eles possuem, como nós, autonomia para agirem no encalço das suas preferências; e temos suficiente discernimento para perceber em que circunstâncias as suas preferências ameaçam o seu bem-estar. Por outras palavras, está ao nosso alcance agirmos contra os interesses preferenciais desses animais no interesse do seu bem-estar. Porém, devemos ser comedidos na nossa interferência, ou acabaremos por comprometer o benefício crucial que a liberdade representa para esses animais.56
55
Para a argumentação do autor sobre a questão do paternalismo dirigido aos animais, cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, pp. 103-109.
56
Regan oferece um óptimo exemplo no que concerne ao modo como podemos agir contra a autonomia preferencial dos animais para garantir o seu bem-estar: «[W]hen, for example, sick or injured animals, despite their behavioral protestations, are subjected to painful examinations or treatment in the course of receiving proper medical care.» T. Regan, The Case for Animal Rights, p. 108. Mais será dito na terceira parte sobre o paternalismo dirigido aos animais, quando abordarmos a posição anti-paternalista que Regan assume relativamente aos animais selvagens.
4.3 – Benefícios Biológicos e Sociais
Analisadas as condições em que os benefícios podem ocorrer, importa descobrir o quão semelhantes chegam a ser alguns dos benefícios que nós, humanos, os mamíferos não-humanos e as aves podemos obter. Claramente, aquilo que possibilita (ou surge como uma oportunidade para) a obtenção de uma boa qualidade de vida varia em função de cada indivíduo. É assim tanto com os humanos (no nosso caso, os benefícios variam consoante as idiossincrasias de cada um, a sociedade em que nos encontramos inseridos, etc.), quanto com os animais (no caso destes, os benefícios variam principalmente mediante o grau de complexidade mental de cada espécie). Apesar dessas variações, Regan chama a atenção para aqueles benefícios básicos que são porém comuns entre nós, os outros mamíferos e as aves.
Dadas as profundas semelhanças anatómico-fisiológicas, metabólicas e homeostáticas que sabemos existirem entre o nosso organismo e os organismos desses animais, é inegável que, no plano biológico, partilhamos com eles benefícios importantíssimos como a alimentação, o repouso ou o abrigo. Assegura Regan, quer nós, quer eles, não só temos o interesse em conseguir tais benefícios, como esses benefícios também são no nosso interesse.
Relativamente aos benefícios que partilhamos com esses animais no plano psicológico, Regan dá especial relevo à sua capacidade para sentirem emoções sociais em muito similares às nossas.57 Eis mais uma observação sobre os mamíferos e as aves que se enquadra na teoria darwiniana. Com efeito, os ensinamentos de Darwin vieram marcar o passo para todos aqueles que lhe sucederam na compreensão de que as emoções não são um apanágio exclusivamente humano, mas representam um produto da evolução biológica de várias espécies.58 Sobre este assunto, Damásio é um dos actuais sucessores de Darwin, ao reconhecer na esteira do naturalista inglês que as
57
Para a argumentação do autor sobre os benefícios biológicos e psicológicos dos animais, cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, pp. 88-91.
58
Na opinião de muitos, a obra seminal de Darwin The Expression of the Emotions in Man and Animals ([1872], London, Fontana Press, 1999) permanece até à data como um dos melhores estudos científicos sobre as emoções, e porquanto aponta vários elementos comuns na expressão emocional humana e não-humana constitui ainda hoje um argumento de peso em defesa da continuidade das espécies.
nossas emoções primárias (aquelas mais fáceis de identificar: o medo, a raiva, o nojo, a surpresa, a alegria, a tristeza) e as nossas emoções sociais mais complexas (já aqui referidas: a inveja, a indignação, a compaixão, a culpa, a vergonha) são similarmente partilhadas por muitas espécies de mamíferos e aves.59
O motivo pelo qual essas espécies possuem emoções sociais, de acordo com esta concepção, é o seguinte. Aproveitando as explicações de Damásio, percebemos que as emoções sociais, com a ajuda dos sentimentos e da consciência alargada (coordenadora das inter-relações que o si conscientemente estabelece com os outros), abrem alicerces fundamentais para o desenvolvimento cognitivo de estratégias de cooperação. Porquanto essas estratégias têm valor adaptativo, não é pois de admirar que várias espécies de mamíferos e aves tenham desenvolvido emoções sociais complexas, uma constatação amplamente confirmada pela etologia contemporânea.60
Concerteza, também é sabido que existem mamíferos e aves que não revelam possuir um leque muito diversificado de emoções sociais porquanto não manifestam (normalmente) propensão para a aproximação e convivência com os seus conspecíficos.61 Todavia, não podemos deixar de notar que mesmo entre esses animais é possível encontrar comportamentos sociais filogeneticamente desenvolvidos (por exemplo, de cortejamento e acasalamento, de luta e dominância), e que esses comportamentos são por eles sentidos igualmente como necessários no plano emocional.
Por isso, quer sejam mais gregários e cooperativos, quer sejam menos dados a relacionamentos, todos os mamíferos e aves, por força das suas emoções, necessitam dos benefícios que advêm de viverem inseridos num ambiente social rico e estimulante dentro dos parâmetros de interacção próprios da sua espécie. Assim, à semelhança do
59
Cf. A. Damásio, Looking for Spinoza, pp. 43-47. 60
Baseada em dados do comportamento animal e da ciência da evolução, a argumentação filosófica de Midgley dá um forte contributo para sustentar esta evidência. Cf. M. Midgley, Beast and Man, pp. 126-140. Mais à frente, na terceira parte desta dissertação, teremos a oportunidade de apreciar o que Darwin tem a dizer sobre esta matéria.
61
Digo normalmente porque até mesmos animais que são emblemáticos pelo seu carácter anti- social podem ocasionalmente manifestar carinho e afecto pelos seus conspecíficos. Veja-se o exemplo do encontro romântico entre glutões mencionado naquela que é, sem dúvida, uma das pesquisas mais impressionantes sobre a vida emocional dos mamíferos e das aves, da autoria de Jeffrey Masson e Susan McCarthy, When Elephants Weep (London, Vintage, 1996, cf. p. 114).
que sucede connosco, esses animais têm interesse (o qual é motivado emocionalmente) em estabelecer relações sociais no seio de um tal ambiente, e também é no seu
interesse viverem num tal ambiente, um ambiente capaz de lhes proporcionar uma boa
qualidade de vida porquanto lhes oferece oportunidades para satisfazerem os seus desejos de interacção social.
Assim se percebe que, embora os nossos interesses e os interesses desses animais (nas duas acepções de interesse acima propostas) possam evidentemente divergir – nós gostamos de arte, os porcos adoram chafurdar na lama, os papagaios têm uma predilecção em comer argila, e por aí fora – no que concerne àquilo que é essencial à biologia dos organismos e à psicologia das relações sociais, não encontramos entre os nossos interesses e os interesses desses animais diferenças significativas.
4.4 – Prejuízos Humanos e Animais
Viremo-nos agora para os prejuízos que nós, os mamíferos não-humanos e as aves podemos ter em comum. Nós e esses animais, assevera Regan, podemos ser prejudicados (harmed) – isto é, o nosso bem-estar pode ser gravemente diminuído – de duas formas: por inflição ou privação. Os indivíduos prejudicados por inflição sofrem física e/ou psicologicamente na medida em que padecem de uma dor duradoura e de grande intensidade.62 Regan ilustra esta questão recorrendo a exemplos que conhecemos da nossa espécie. Por exemplo, «sofrer» esporadicamente de enxaquecas ligeiras não envolve para nós verdadeiro sofrimento. Já agonizar com uma doença terminal ou perder alguém próximo são exemplos inquestionáveis de sofrimento. Regan refere-se a situações deste género como sendo paradigmas de sofrimento humano.
A partir destas observações, o autor infere que provocar dor física ou psicológica nos mamíferos não-humanos e nas aves pode não lhes causar sofrimento. Para causar sofrimento, a dor que lhes é infligida necessita de ter intensidade e duração
62
Para a argumentação do autor sobre o sofrimento, cf. T. Regan, The Case for Animal Rights, pp. 94-96.
consideráveis. Apesar de não conseguirmos determinar com exactidão o quão forte e longa a dor necessita de ser para que haja sofrimento, nem no caso desses animais, nem tão-pouco no nosso caso, porém, elucida Regan, é-nos possível saber com segurança em que circunstâncias esses animais sofrem se atentarmos nas mesmas evidências que nos levam a acreditar indubitavelmente que os nossos congéneres humanos estão em sofrimento. Ou seja, sabemos que esses animais sofrem se a sua situação for comparável a paradigmas de sofrimento humano: por exemplo, se eles forem gravemente feridos, impedidos de interagir com os seus companheiros, etc.. Assim, através deste tipo de comparações, conseguimos identificar também diversos
paradigmas de sofrimento animal.
Esta interpretação de Regan é corroborada por alguns aspectos já aqui evidenciados da complexidade mental dos mamíferos e das aves. Primeiro, esses animais são muito provavelmente capazes de sentir níveis de dor física com intensidade semelhante àqueles que nós podemos sentir. Verificámos na primeira parte (vide secção 4.3 do segundo capítulo) que a sua maquinaria responsável pela percepção consciente da dor é anatómico-fisiologicamente muito similar à nossa.
Depois, também há boas razões para considerarmos que esses animais conseguem sentir dor psicológica através de mecanismos anatómico-fisiológicos muito parecidos com os nossos. Vimos atrás (na secção 1.2 do terceiro capítulo da primeira parte) que a não satisfação dos desejos origina nos organismos conscientes estados psicológicos desagradáveis mediante o mapeamento neural de determinadas reacções corporais que são desencadeadas. Pelo-tanto, porque sabemos que as suas reacções corporais são similares às nossas e os seus dispositivos cerebrais que tornam conscientes essas reacções são similares aos nossos, devemos reconhecer que todos os mamíferos e aves serão capazes, como nós, de sentir dor psicológica em