A
produtividade das culturas agrícolas é influen-ciada pelo estabelecimento das plantas no campo, que dependem do manejo e da qualida-de das sementes utilizadas. No entanto, os diferentes cultivos estão sujeitos às condições adversas no cam-po, por exemplo, a disponibilidade hídrica durante o período da semeadura, que poderá afetar a germina-ção das sementes, crescimento inicial do sistema radi-cular e emergência das plântulas.Considera-se a água como elemento essencial para o processo de germinação das sementes. Ao se hidrata-rem ocorre a reativação de diversas enzimas e síntese de outras, que irão desdobrar as substâncias de reser-vas, as quais são essenciais à retomada de crescimen-to do embrião da semente.
A primeira etapa da germinação se processa com a absorção de água pela semente, mediante embebi-ção. A embebição de água resulta na reidratação dos tecidos, com a consequente intensificação da respira-ção e de todas as demais atividades metabólicas que culminam com o fornecimento de energia e de nu-trientes necessários para a retomada do crescimento do eixo embrionário e emissão da raiz primária.
1 TECNOLOGIA, Boletim de Pesquisa de Soja, Rondonópolis, n.10, p.54-112, 2006.
A duração de cada estágio depende das propriedades inerentes às sementes, como a composição química, permeabilidade do tegumento, tamanho das semen-tes e absorção de oxigênio. Também há a dependência por condições de hidratação, como temperatura, umi-dade e composição do solo.
A quantidade total de água usada pelas sementes du-rante a embebição geralmente não excede duas a três vezes a massa da semente seca. Para desencadear-se o processo de germinação de sementes de milho é necessário haver embebição de 30 a 35% de água em relação a sua massa seca, enquanto que para semen-tes de soja é necessário haver embebição ao redor de 50% de água em relação a sua massa seca (PESKE;
PESKE,2011).
A disponibilidade de água do solo para a semente é determinada pelo potencial hídrico ou a força com que a água é retida pelo solo. Assim, um solo rico em argila retém muito mais a água do que um solo are-noso.
A diferença no potencial hídrico entre a semente e o solo é que irá determinar a disponibilidade e a taxa de transferência da água do solo para a semente. Po-de-se assumir que o solo sempre terá água para a se-mente germinar, entretanto a quantidade irá variar em virtude da umidade do solo. Mesmo num solo com umidade no ponto de murcha permanente, a semen-te irá embeber água, porém tão lentamensemen-te que semen-terá dificuldade de alcançar o grau de umidade
necessá-rio para desencadear o processo de germinação. Isso pode ocasionar a rápida deterioração das sementes.
A tolerância das sementes à escassez hídrica varia conforme a variedade utilizada, visto que, quanto mais baixo o vigor da semente maior será a intolerân-cia ao deficit hídrico. Quando é realizado semeaduras antecipadas e ocorre deficit hídrico, as sementes que possuem vigor reduzido prioritariamente apresentam alterações fisiológicas, pois as mudanças bioquímicas mais comuns são a diminuição do metabolismo res-piratório, ocorrendo com a baixa absorção de oxigê-nio, maior permeabilidade das membranas celulares, levando à perda de metabólitos e à diminuição da sín-tese de proteínas (FERRARI, et al., 2015).
Já o contrário, o excesso de chuva, logo após a seme-adura, pode ser um fator limitante à produção, por causar deterioração das sementes, levando à menor emergência das plântulas. O suprimento limitado de oxigênio para as sementes durante o processo de em-bebição induz uma alteração da via respiratória, po-dendo levar ao decréscimo do poder germinativo.
O solo com excesso de água também provoca injúrias pelo volume e pela velocidade de entrada de água nas sementes. Isso se dá pela diferença do potencial hídri-co do interior das sementes e o meio. Dessa forma, a semente danificada tem menor quantidade de ener-gia disponível para germinar, refletindo na redução do vigor.
8.2. Semeadura da soja
Aproximadamente 90% do peso da planta de soja é constituído por água, a qual participa em praticamen-te em todos os processos fisiológicos e bioquímicos da planta, sendo responsável por diversas reações, cuja exigência se intensifica principalmente em dois perí-odos: germinação-emergência e floração-enchimento dos grãos (FERRARI et al., 2015).
Durante o primeiro período, tanto o excesso como a falta de água são prejudiciais ao estabelecimento da cultura e à obtenção de uma boa uniformidade na po-pulação de plantas, sendo o excesso hídrico mais limi-tante do que o deficit.
Entre os principais fatores do clima que determinam a melhor época de semeadura da soja está a umidade e a temperatura do solo por ocasião da implantação da cultura e, especialmente, durante a fase
reprodu-tiva. Para que isso ocorra favoravelmente deve haver adequada condição de umidade e aeração do solo e a semeadura deve propiciar o melhor contato possível entre solo e semente.
A semeadura da soja em solo com insuficiência hídri-ca, ou “no pó”, prejudica o processo de germinação, podendo torná-lo mais lento, expondo as sementes às pragas e aos micro-organismos do solo, reduzin-do a chance de obtenção da população de plantas desejada, em número e uniformidade. Embora não recomendado, em caso de se ter que semear nessa condição é imprescindível o tratamento de sementes com fungicidas, para prolongar por alguns dias a ca-pacidade de germinação destas, até a próxima chuva, Tecnologias1 (citado por GARCIA et al., 2007).
As sementes de soja necessitam absorver, no mínimo,
50% de seu peso em água, para assegurar uma boa germinação. Nessa fase, o conteúdo de água no solo não dever exceder a 85% do total máximo disponível e nem ser inferior a 50% da sua capacidade de retenção de água (FARIAS, et al., 2007).
De modo geral, semeaduras em épocas anteriores ou posteriores ao período mais indicado para uma dada região podem afetar o porte, o ciclo e o rendimento das plantas e aumentar as perdas na colheita. Isso porque a época de semeadura determina a exposição das plantas às variações na distribuição dos fatores climáticos limitantes ao crescimento e ao rendimento de grãos, contribuindo fortemente para a definição do resultado em termos de altura de planta e de produ-ção. Ou seja, a melhor época de semeadura para soja é a que permite, na maioria dos anos, que a implantação da lavoura, o crescimento e a reprodução das plantas ocorram sob as condições favoráveis de umidade e temperatura, conforme exigido por essa espécie. Na maioria das regiões produtoras, o melhor período de semeadura da soja é aquele que se inicia assim que as chuvas da primavera repuserem a umidade do solo e a temperatura permitir uma germinação e emergên-cia das plântulas.
A antecipação de semeadura da cultura da soja pode ocasionar uma condição temporária de escassez de água para a planta na fase inicial do seu desenvolvi-mento, que compreende os estádios da germinação,
emergência da plântula até a emissão do segundo trifólio, visto que esse período cerca de duas a três se-manas após a semeadura. Esse estádio coincide com a etapa de estabelecimento do estande na lavoura.
Apesar do risco de queda na produtividade, a anteci-pação da semeadura, na região norte do Mato Gros-so, é uma estratégia de manejo recomendada para o escape dos períodos de maior infecção pela ferrugem da soja, que é considerada a doença mais importante nessa região.
Embora o vasto conhecimento sobre o desenvolvi-mento das culturas, resultando na tecnificação das lavouras, a disponibilidade hídrica durante o desen-volvimento e o crescimento constitui-se, ainda, na principal limitação à expressão do potencial de ren-dimento da cultura e na maior causa da variabilidade da produtividade entre anos-safras.
Alguns fatores devem ser considerados para enfren-tar a falta de umidade no solo durante a semeadura:
a) semear em época recomendada e de menor risco climático; b) utilizar cultivares de alta qualidade e vi-gor, com maior tolerância ao deficit hídrico e com sis-tema radicular robusto e eficiente; c) tratar as semen-tes com fungicidas; d) semear em solos com maiores teores de matéria orgânica que propiciam maior ca-pacidade de retenção de água e f) utilizar práticas agrícolas do plantio direto.
8.3. Referências bibliográficas
FARIAS, J.R.B.; NEPOMUCENO, A.L.; NEUMAIER, N. Ecofisiologia da Soja. Circular Técnica. n.48, Londrina, Embrapa Soja. 2007.
FERRARI, E.; PAZ, A.; SILVA, A.C. Déficit hídrico no metabolismo da soja em semeaduras antecipadas no Mato Gros-so. Nativa, Sinop, v.03, n.01, p.67-77. 2015.
GARCIA, A.; PIPOLO, A. E.; LOPES, I.O.N.; PORTUGAL, F.A. Instalação da lavoura de soja: época, cultivares, espaçamento e população de plantas. Circular Técnica. n.51. Londrina, Embrapa Soja. 2007.
PESKE, S.T.; PESKE, F. B. Absorção de água sob estresse. Seed News. maio/jun. 2011;
TECNOLOGIA DE PRODUÇÃO. Boletim de Pesquisa de Soja, Rondonópolis, n.10, p.54-112, 2006.