Rita de Cássia Pacheco Limberti149
As relações entre semiótica, semiologia e hermenêutica são absolu-tamente estreitas, sobretudo em se tratando de seu objeto: a significação. Percorrendo caminhos diversos e debruçando-se mais especificamente sobre um corpus ou outro, estas “ciências” se evocam mutuamente, numa
relação que, se não consideradas complementares, as perfilam entre as teorias que se postam em percursos adjacentes. Se a trajetória desses per-cursos não permite um paralelismo, considerando a natureza e a gênese de cada uma das teorias, intersecções pontuais ocasionam profícuos debates, proporcionando a oportunidade de um redimensionamento crítico não só a respeito dos pontos instáveis e vulneráveis do aparato teórico, como também daqueles ancorados na tradição e na aparente estabilidade que os sucessivos processos de homologação, proporcionados pela aplicação e experiência, conferem.
Nossa proposta, neste trabalho, é realizar um estudo a respeito do posicionamento de Paul Ricœur em relação à teoria semiótica de Greimas, contido em alguns capítulos de sua obra Lectures 2. La contrée des philoso-phes.150 Ressalte-se que nossa formação em semiótica greimasiana
demar-149 Doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo. Professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).
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cará o lugar de que falaremos, estabelecendo um diálogo com sujeitos de concepções bastante definidas, considerando que o tom crítico que Ri-cœur inevitavelmente assume para abordar a gramática narrativa de Grei-mas (e seus conceitos) o coloca, de antemão, na posição da hermenêutica. Salvo engano, o que Ricœur faz, ao levantar relevantes questionamentos, é aplicar, no aparato teórico metodológico da teoria semiótica greimasiana, uma abordagem hermenêutica, ou seja, ele estará perscrutando o percurso que Greimas fez para construir um percurso. Da mesma forma, procu-raremos construir nossa análise a partir de nosso próprio aparato, com a intenção de desmistificar, para ele e para nós mesmos, alguns percursos postos em questão.
Considerando que possivelmente teremos mais leitores que co-nhecem a tradição dos estudos sobre a hermenêutica que a semiótica, per-mitir-nos-emos ir fazendo, ao longo das considerações, esclarecimentos a respeito da gramática narrativa de Greimas.
O foco inicial das considerações de Ricœur a respeito da gramá-tica narrativa de Greimas151 incide sobre os quatro patamares de narrativi-zação, quais sejam:
- primeiramente, o nível que o autor denomina gramática fundamental,
que inaugura a noção de “narrativização”;
– em segundo lugar, a passagem da gramática fundamental à “gra-mática narrativa”, onde são introduzidas as considerações do “fazer”, do “querer fazer” e do “poder fazer”, sobre as quais se estabelece a noção de “enunciado narrativo”, a partir de um eixo sintagmático;
– em terceiro lugar, o “nível discursivo” (ou de superfície), em que
se realizam investimentos semânticos a partir de um eixo paradigmático.
p.389-458.
151 GREIMAS, Algirdas Julien. « Élements d’une grammaire narrative » in: Du sens. Essais
A quarta consideração que Ricœur coloca já não se encontra exata-mente na sequência dos níveis, mas sim no desenvolvimento da gramática de superfície. Trata-se das representações topológicas, ou seja, as alternân-cias esféricas das operações geradoras da narrativa, que sucedem, estabele-cem e homologam lugares, descrevendo as “sequências narrativas”.
Um primeiro apontamento se esboça quando o autor coloca a ques-tão a respeito da manutenção do modelo inicial durante o percurso. Ele observa que os graus sucessivos de narrativização se limitam a reiterar a força lógica inicial do modelo, a explicá-la, de modo a manifestá-la, dando aparência à estrutura profunda.
Não são poucas as críticas que a gramática narrativa de Greimas sofreu/sofre, sendo considerada uma “camisa de força” para a análise, onde se “enformariam” (colocar em uma forma) todos os textos – verbais ou não. Vale enfatizar, contudo, que esse aparato teórico-metodológico se engendrou nas pesquisas que remontam aos formalistas russos, à te-oria embrionária de Propp, as quais descrevem um percurso de gradual construção dessa teoria: ela emergiu dos próprios textos, ela nada mais é do que o registro de uma sintaxe invariante que foi observada à exaustão, primeiramente em estruturas narrativas “elementares”, populares, como os contos de fadas, posteriormente nas estruturas mais complexas, como os romances, as novelas, os poemas da literatura, atingindo, também, tex-tos de todas as outras artes, como filmes, quadros, esculturas, músicas, coreografias, espetáculos teatrais e até mesmo textos não categorizáveis ou enquadrados em algum tipo de gênero.
A apresentação esquemática, o rigor e a minúcia com que os pata-mares da análise são articulados, embora aparentem – talvez por ter um núcleo invariante – o “engessamento” a que nos referimos no parágrafo anterior, consistem num magistral trabalho de mediação. Ricœur avalia essa mediação como uma análise que privilegia a progressão em detrimento da
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pertinência. Nós diríamos que a observância da progressão não prescin-de prescin-de um exercício prescin-de análise e prescin-de interpretação, a qual, por si só já se autoriza a avaliar a pertinência concomitantemente. Embora a análise se esquematize em níveis, sabe-se que o objeto de análise não se apresenta des-segmentado. O que se tem é um todo significativo (condição para ser texto), cuja desconstrução decorre do processo analítico – calcado em um procedimento formal estabelecido – do fazer interpretativo.
Greimas já teria afirmado, em “Du sens” que
Pour ce faire, on doit concevoir la théorie sémiotique de façon telle qu’entre les instances fondamentales ab quo, où la substance
sémanti-que reçoit ses premières articulations et se constitue en forme signi-fiante, et les instances dernières ad quem, où la signification se
manifes-te à travers de multiples langages, um vasmanifes-te espace soit aménagé pour l’installation d’une instance de médiation où seraient des structures
sémio-tiques possédant um statut autonome – parmi lesquelles les structures narratives –, lieux où s’élaboreraient des articulations complémentaires de contenu et une sorte de grammaire, à La fois générale et fondamen-tale, présidant à l’instauration des discours articulés.152
Esse espaço de mediação a que o notável estudioso se refere en-cerra, entretanto, elaborações muito mais complexas do que possa pare-cer a princípio, considerando que as articulações ali operadas extrapolam os procedimentos de preenchimentos de componentes de uma gramática narrativa para depreender mecanismos de inteligibilidade que compreen-dem a construção de objetos culturais (como a literatura, a mitologia), os quais, ao partirem de elementos simples, descrevem um percurso comple-xo, que consiste em uma sucessão de contratos e escolhas de operações especializadas. Greimas, nesse célebre artigo, se dispõe a, segundo suas próprias palavras, “dar uma primeira idéia desse percurso”.153
152 GREIMAS, Algirdas Julien. Du sens. Essais sémiotiques. Paris: Le Seuil, 1970, p.159-160.
Interessante é notar que a discussão proposta por Ricœur apresen-ta, ela mesma, os argumentos apresentados acima, notadamente com a intenção de realizar um cotejo desse que são pontos nevrálgicos da teoria. A proposta do autor é discutir os níveis separadamente, o que acataremos como forma de organizar nossa discussão. Deter-nos-emos no nível fun-damental, onde se apresentam problematizações suficientes para a abor-dagem a que nos propusemos neste trabalho.