4.2 Os encontros de formação: momentos, conteúdos e recursos pedagógicos
4.2.4 Seminário, palestras e assembleias: conectando saberes
participantes da mesma regional e de outras, ainda possibilita trocas entre as professoras participantes do Núcleo e atores de fora, como escritores, comunidade civil, pessoas dos movimentos sociais e pesquisadores, provocando reflexões sobre a própria prática, sobre o cotidiano escolar e sobre as questões raciais, inclusive na Educação Infantil. Também serve como inspiração para se pensar como desenvolver um trabalho antirracista na Educação Infantil e ainda possibilita um diálogo entre os saberes da prática e os científicos; favorecendo reflexões sobre um padrão de conhecimento que predomina nas academias como legítimos, que não podem traduzir sozinho a complexidade de uma sociedade plural como a nossa (Oliveira, L., 2018). Os conhecimentos tradicionais e práticos são essenciais podermos compreender a sociedade em sua diversidade cultural.
A partir das falas das entrevistadas e dos autores, entendemos o Núcleo de Estudos como uma comunidade de aprendizagem que uns aprendem com os outros. É também a oportunidade de valorizar o conhecimento de quem já possui saberes capazes de inspirar outras profissionais.
Desta forma, os Núcleos de Estudos reconhecem e distinguem as professoras participantes a partir de seus investimentos e conhecimentos sobre a temática; atribuindo-lhes responsabilidades de acordo com seus conhecimentos. Lica é uma professora que em 1995 entrou no universo da militância negra a partir da capoeira, quando considera que iniciou sua formação para a educação das relações étnico raciais, buscou se envolver e compreender as questões étnico-raciais, filiando-se ao Movimento Negro. Construindo nesses coletivos conhecimentos potentes que precisam ser compartilhados nos cursos de formação.
anexo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais Para Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultua Afro-brasileira e Africana dispondo que:
os sistemas e os estabelecimentos de ensino poderão estabelecer canais de Comunicação com grupos do movimento Negro, grupos culturais negros, instituições formadoras de professores, núcleos de estudos e pesquisa, como os núcleos de estudos afro-Brasileiro, com a finalidade de buscar subsídios e trocar experiencias para planos institucionais, planos pedagógicos, planos e projeto de ensino (CNE/CP 003/2004, AT. 5 p. 100).
É um desafio romper com o racismo que estrutura nossa sociedade, forjando desigualdades por séculos, por isso, a escola não pode trabalhar sozinha! É preciso ser realizado um trabalho antirracista coletivo, que conte com os esforços de todas as instâncias sociais, lideranças da comunidade, movimentos sociais, academia e governo para que ocorrera a reparação dos prejuízos sociais das populações que tiveram seus direitos, histórias e culturas negados por séculos, (CASTRO, 2015, COSTA, 2013; FEITAL,2016). Nesse sentido, Enedina Alves concorda que tais parcerias potencializam as formações. Por esse motivo, ela ainda destaca a importância de fazer parcerias com os movimentos sociais em especial os movimentos negros ao dizer que
Nesses 15 anos tivemos experiências com diferentes intelectuais ligado a academia, principalmente, UFMG, UEMG e PUC. Essa experiência se dá por professores participantes de palestras, ministrando cursos como o caso da PUC e além dessas parcerias acadêmicas construções fortes com pessoas ligadas ao movimento negro.
Como movimento social o papel dele é pressionar o estado para suas reivindicações.
O movimento negro é antigo, colocamos ali um marco de 1978. Final da ditadura reorganização da sociedade civil que é a história do movimento negro unificado. Que é quando o movimento ele vem com muita força fazendo a discussão do fim do racismo e das políticas afirmativas e reparatórias, que vem desde então trazendo também o movimento na educação. Trazia desde sempre, mas a partir de 1978 essa pauta é muito clara. A necessidade de as escolas trazerem essa pauta, rompendo com o currículo eurocêntrico e valorizando a formação dos diferentes grupos na formação nacional. Então o movimento negro é um movimento social que tem a característica dos movimentos social. Nos núcleos de estudos seguimos muito o que o próprio parecer que regulamentou as diretrizes das educações das relações étnicas raciais aponta. Para que possamos formar dar conta de implementar a lei é preciso buscar esse conhecimento em vários lugares. Seja nas pesquisas, nos movimentos sociais e precisamos buscar no movimento negro. Como diz a professora Nilma Lino Gomes, o movimento negro é um movimento educador. A participação do movimento negro é nesse sentido daquele que contribui para a formação da construção do núcleo. É claro que dentro do núcleo temos participações de pessoas que constroem o movimento negro. Assim é nesse sentido que trazemos a importância do movimento negro, como movimento social, como um movimento que tem a ensinar, que tem a dizer sobre e também nas próprias pessoas que algumas delas são militantes a algum tempo (Enedina Alves, conversa informal em 19/09/2020).
De acordo com Enedina Alves, essa estratégia de envolver diferentes atores na formação se constitui em uma experiência que favorece o processo formativo das professoras. Segundo
ela, esses momentos de trocas entre as escolas, academia e demais atores ocorreram mediante seminários, palestras e cursos.
As respondentes consideram que as discussões teóricas e inflexões que os pesquisadores e outros atores proveem causam reflexão sobre a prática em sala de aula, apontando ser um diálogo que conecta a prática com a teoria. Dessa forma a prática e a teoria se entrelaçam nos encontros de formação.
Para Castro (2015) e Oliveira (2016) é preciso alargar os elos entre academia e a Educação Básica para aumentar o alcance das professoras que estão nas escolas, fazendo com que tomem conhecimento das discussões que estão em pauta na academia e suas produções, promovendo a convergência entre a escola e academia; possibilitando uma relação dialógica entre os saberes práticos e científicos.
Nesse sentido, o diálogo entre a academia e as professoras na base da educação pode possibilitar “um giro epidêmico” que permite ao subalterno56 ser escutado e ter sua dimensão, cultural e intelectual reconhecidas e seus saberes legitimados (SPIVAK, 2010).
Outra questão colocada pela Mari que confirma os esforços do Núcleo em dar escuta as participantes foi a de que
ai algumas vezes também ele faz... sabe quando está tendo assembleia? E aí abre espaço para três, quatro pessoas falarem. Eles fazem isso também. E ali uma dúvida ou outra acaba surgindo também e a pessoa que está ministrando a palestra ela responde (Mari, professora EMEI, entrevista realizada em 13/05/2021).
Ainda, Mari apontou que mesmo quando o momento de formação é num formato mais convencional como palestras, assembleias há um esforço de não ser um monólogo.
A partir da fala da Mari entendemos que o palestrante tem um planejamento do tempo de fala e de escuta, ao dar oportunidades de as participantes falarem, exporem suas dúvidas e respondê-las. Dessa forma, as palestra e seminários apontam uma intenção de abrir espaços para a escuta das participantes, construindo um diálogo, uma troca nestes modelos de formação.
Assim sendo, os seminários e palestras se constitui em estratégias metodológicas que possibilitam uma relação política entre os saberes tradicionais e científicos em que as professoras e pesquisadores têm a possibilidade de ampliar seus olhares e perspectivas, favorecendo, inclusive, que a academia repense sua forma de produzir e reconhecer os conhecimentos.
56 Subalterno refere-se aquele cuja voz não é ouvida. o termo subalterno, Spivak argumenta, descreve “as camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”. SPIVAK, foreword: Upon Reading the Comapanion to Postcolonial Studies, p. XX (tradução da autora) apud Pode o Subalterno falar? (2010, p. 16).
Esses momentos de diálogo entre a academia e professoras também se conectam com a perspectiva da interculturalidade por possibilitar que a academia reflita sobre o mecanismo que incorporou diversas histórias culturais em um padrão de poder; impondo uma “hegemonia de controle de todas as formas de controle da subjetividade, da cultura e em especial do conhecimento, da produção de conhecimento” (QUIJANO, 2005, p. 121), excluindo importantes saberes tradicionais e culturas dos afro-brasileiros e indígenas nos currículos da academia.
Com a Lei n°12.711/2012, que prevê a reparação dos prejuízos na carreira universitária da população afro-brasileira e indígena, estabelecendo cotas nas universidades públicas para alunos oriundos de escola públicas e para a população negra, parda e indígena nas academias, estamos vendo a diversidade étnico-racial fazer parte de um espaço que lhes fora antes negado.
Com isso, as universidades precisam considerar a diversidade cultural e saberes outros como constituintes da produção do conhecimento para promover uma educação igualitária.
Sendo assim, os seminários, palestras e cursos realizados nos encontros formativos dos Núcleos promovem o diálogo entre a academia e as professoras participantes, teoria e prática, colaborando com a ampliação dos conhecimentos docentes. Além disso, essa troca entre pesquisadores e professoras pode provocar reflexões sobre mudanças estruturais no currículo das universidades, no sentido de se pensar em outras produções de conhecimento, diferentes do que é legitimado na academia.