5 A EXECUÇÃO DO PRONATEC NO SENAI ESPÍRITO SANTO NO
5.5 SENAI COMO PRINCIPAL EXECUTOR DO PRONATEC
A centralidade no setor privado também pode ser percebida na forma de oferta dos cursos pelo Programa, quer na priorização da oferta de Educação Profissional de nível médio de forma concomitante, quer na FIC, quer na oferta dos cursos técnicos. Apesar das especificidades, ambas as ofertas estão focalizadas no treinamento de mão de obra com o objetivo de atender as demandas do mercado de trabalho que se confunde, nessa concepção, com as necessidades de desenvolvimento da nação.
Para atingir os objetivos do Pronatec é necessário conjugar todos os esforços visando garantir a expansão da educação profissional e tecnológica com qualidade contando com a participação da rede privada e “neste contexto, as entidades do chamado ‘Sistema S’ têm importantíssimo papel a desempenhar” (BRASIL, 2011, p. 31). Na mesma direção, o governo federal reforça que a implantação e ampliação das ações e projetos que compõem o Programa só serão viáveis “em parceria com as redes estadual e federal, instituições de ensino privadas e o sistema S de ensino” (BIFI, 2011, p. 16). Esse chamamento ao Sistema S é respondido pelos gestores do Senai como sendo a instituição que possui a maior estrutura de educação profissional do Brasil e da América Latina:
[...] O governo federal não fez uma opção pelo Senai, a opção foi pelo “Sistema S” como um todo. Só que a maior estrutura de educação profissional que tem no Brasil ela é do Senai, por ter essa estrutura já pronta e já disponível nas áreas que eram as de interesse do governo federal, casou de ser a entidade que deu o maior resultado em termos de matricula para o governo federal. O IFES tem uma boa estrutura, mas já era comprometida pela demanda que já existia, enquanto o Senai possuía a estrutura noturna bem demandada, mas no período diurno existiam lacunas que foram disponibilizadas para essas matrículas (GESTOR A).
Pela fala dos gestores, percebemos como está enraizada a concepção de que o Senai tem a melhor estrutura e experiência no campo da educação profissional. Apesar de termos discutido ao longo do texto que há outras questões envolvidas, como as ideológicas, políticas e principalmente financeiras.
[...] O Senai é a maior instituição de educação profissional da América Latina e o Governo Federal sabe disso. Quando se fala em formação profissional, o Senai é a instituição que trabalha melhor essas questões, o Ifes possui uma visão mais acadêmica do negócio e da tecnologia, o Senai tem uma visão de chão de fábrica. A função do Pronatec é preparar técnico, preparar o indivíduo que vai para a Indústria para trabalhar, por isso o Senai é a melhor instituição para se fazer esse tipo de parceria (GESTOR B).
Mais uma vez fica explícita na fala de um dos gestores a importância da parceria do setor público com o setor privado, como forma de “garantir” um melhor uso do dinheiro público e uma melhor formação desse trabalhador que será um potencial candidato para as indústrias. É preciso repensar a pedagogia da educação profissional no Brasil e buscar alternativas para a construção de uma nova pedagogia, voltada para os interesses dos trabalhadores e não fundada nos ditames de um mercado compulsivo.
No que tange aos maiores desafios enfrentados na implementação do Pronatec, as coordenadoras pedagógicas enfatizam a falta de preparação desses alunos antes de ingressarem, a má seleção feita pela Secretaria de Educação e as demandas que o programa trouxe num espaço tão curto de tempo:
[...] Os desafios estão ligados ao processo seletivo, a preparação do aluno para chegar aqui, o processo seletivo tinha que ser voltado a um momento de identificação com o curso, creio que com isso não haveria tanta evasão. (COORDENADORA PEDAGÓGICA A).
Em nenhum momento as coordenadoras pedagógicas citam a necessidade de se ofertar um ensino integral, de forma a oferecer a esses estudantes uma formação de mais qualidade. É preciso pensar em uma nova pedagogia, segundo a dialética teoria e práxis, em prol da educação humanizante e não alienada, que ofereça formação para a vida produtiva, mas que não se retenha a ela e sim a ultrapasse, pela proposta de um ensino integral, que englobe política, filosofia, ética e demais conteúdos.
[...] O desafio foi justamente aqui que foi a primeira unidade a ter o programa, a gente foi aprendendo e se adequando de acordo com o público e o programa, as adequações pedagógicas e administrativas, solicitar camisas, lanches, etc. existiram outras demandas que não competiam a área pedagógica, mas que foram absorvidas pelos pedagogos, passando a acompanhar também a parte administrativa. Particularmente eu prefiro trabalhar com o Pronatec por causa das idades de 17 a 19, via de regra eles são muito educados e respeitam muito, apesar de ser um nível menor, nunca tive problema comportamental. Eles sempre são bem tranquilos, diferente do público que paga, é um público que me identifico mais por ser um público jovem (COORDENADORA PEDAGÓGICA B).
A preocupação do corpo pedagógico deveria ultrapassar a questão comportamental. Superar a racionalidade presente na educação profissional requer um novo pensar filosófico de sua pedagogia, a superação do modelo de competências para outro modelo que seja mais abrangente e humanizador.
Visando superar um dos maiores problemas para a continuidade do crescimento
econômico experimentado pelo Brasil nos últimos anos “que é a falta de mão de obra qualificada” (BRASIL, 2011, p. 28) é que o Programa “nasce como estratégia não só para resolver a questão dos gargalos de mão de obra, mas também como instrumento de melhoria da qualidade da educação” (BRASIL, 2011, p. 30). A justificativa é utilizada também pelo relator da matéria na CEC, ao considerar que o atual momento histórico caracteriza-se por “grandes avanços científicos, e a chave para acompanhar
esta fantástica evolução é, com certeza, o amplo acesso ao ensino técnico- profissional” (BIFI, 2011, p. 14). Reforça esse raciocínio a alegação do gestor do Senai-ES:
[...] A fala de que não existiam pessoas qualificadas foi a bandeira inicial do Pronatec, mas a grande base do Pronatec é o acesso, a maior dificuldade era o acesso das pessoas a educação profissional, pois quem não tinha condição financeira ou não estava trabalhando, ele não tinha acesso a qualificação, pois existe um funil que afunila e não consegue incluir grande parte da população pois esta não se encontra qualificada. Por isso o Pronatec veio com esse intuito, de dar oportunidades para essa parte da população a qualificação profissional. Como se estava numa época de crescimento industrial gigantesco, o número de empregos criados, demonstrava que não existia população suficiente qualificada para acessar essas vagas no mercado de trabalho (GESTOR A).
Compilando essas ideias, a formação e a qualificação da mão de obra são compreendidas como investimento econômico, insumo para o desenvolvimento dos processos produtivos e, indiretamente, como direito dos trabalhadores.
Essa imagem da existência de um apagão de mão de obra ou de um apagão educacional além de carecer de uma comprovação empírica efetiva – de fato alguns estudos pesquisados não confirmam esta hipótese – remete, como indicam Frigotto e Ciavatta (2011), a uma situação conjuntural e provisória, que pode ser superada com ações direcionadas e efetivas. Tal interpretação, porém, deixa opaco o fato de que as determinações últimas do chamado apagão estão vinculadas à imposição da classe dominante brasileira de “um projeto societário de capitalismo dependente, associando-se de forma subordinada aos centros hegemônicos do grande capital e dos organismos internacionais, que representam seus interesses” (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2011, p. 632).
De acordo com Frigotto (2013, p. 632),
[...] os dados da Pnad mostram que apenas 9% dos jovens entre 18 e 24 anos entram no curso superior. É claro que vão faltar, especialmente em algumas áreas, profissionais qualificados. Como nos últimos cinquenta anos avançamos de forma pífia no aumento quantitativo e na qualidade dos jovens que cursam o ensino médio na idade adequada, a maioria só atinge o ensino fundamental, e as políticas de formação profissional para grande massa de jovens e adultos estão na lógica da improvisação, da precarização e do adestramento.
O discurso do apagão deflagra o intento de mascarar a real razão dessa falta de qualificação, ou seja, o mesmo desconsidera o processo histórico desigual brasileiro.
Por essa perspectiva crítica,
[...] ressaltamos que ideologicamente a Teoria do Capital humano explícita no Pronatec tem essa intenção implícita de fazer com que as pessoas acreditem que estão sendo criadas condições de igualdades de acesso a empregos por meio do Programa. Por outro lado, essa mesma crença propaga que se não houver a inserção no mercado de trabalho é em razão das seleções que só absorverem os “melhores profissionais”, ou seja, a responsabilidade recai sobre os próprios sujeitos individualmente (SILVA, 2015, p. 126).
Nesse sentido, as reformas educacionais que foram implementadas nas últimas décadas no Brasil seguiram o ideário desse projeto e nele não está previsto, por exemplo, a universalização do ensino médio ou a formação integral dos trabalhadores e, assim “os que proclamam o apagão educativo, por sua posição de classe, não percebem que o mesmo é cria ou produto de suas decisões e políticas” (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2011, p. 632-633).
E por fim, foi perguntado às coordenadoras o que elas achavam do futuro do Pronatec?
[...] Alguns dizem que vai acabar, eu acredito que não, creio que teremos outras turmas de Pronatec, a medida que o MEC se organiza haverá outras possibilidades para que os técnicos de maneira geral sejam melhores avaliados, a essência e a metodologia deve ser mantida. Considero um bom programa, que necessita de algumas melhorias na prática, mas considero bem interessante. No aspecto educacional ele é benéfico (COORDENADORA PEDAGÓGICA A).
Concordamos com as falas das coordenadoras pedagógicas no que tange à continuidade do Programa. É essencial o preparo para a vida produtiva. O que criticamos é a postura de se educar estritamente para a “produtividade”, na perspectiva de instrução e adaptação. Defendemos e acreditamos no viés da práxis para a educação profissional, com vistas à demanda da igualdade e não da individualidade e competição, no qual os estudantes devem ser conscientes do processo produtivo alienante e do processo produtivo socializador.
[...] A nossa intenção é que ele continue, mas pelas mudanças do Governo, se continuar virá com outro nome. Para a instituição é bom, para a população também é bom, quem entrou e se esforçou, alcançou os resultados, temos vários exemplos de superação, é um programa muito bom para as pessoas que não teriam oportunidade de fazer cursos assim caso não fosse o Pronatec. Em relação ao apagão de mão de obra, avalio que talvez fosse restrito a determinada área, em geral talvez para uma área específica, as gratuidades existem para atender ao mercado do Espirito Santo, o apagão de
mão de obra é bem relativo, atualmente está difícil de conseguir estágio devido à crise no País, existem mais pessoas formadas e menos oportunidades de trabalho. Varia muito de acordo com o cenário e o mercado (COORDENADORA PEDAGÓGICA B).
Convém ressaltar que contrariando a concepção dos organismos internacionais que aponta a expansão, diga-se, a ampliação das vagas nos diferentes níveis de ensino como sendo a ocorrência da democratização educacional, a expansão precarizada, ora vivenciada no cenário da educação brasileira não pode ser caracterizada como um processo de democratização.
[...] Seria muito interessante para a população, sociedade e alunos que ele continuasse. Pois seria muito difícil para alunos de baixa renda manter um curso desse porte sem o aporte do governo. O Senai já formava essa mão de obra, mas com o Pronatec mais pessoas tiveram acesso aos cursos. As pessoas que se qualificaram conseguiram se inserir no mercado de trabalho (COORDENADORA PEDAGÓGICA C).
Isso requer não apenas o aumento do número de estudantes matriculados, mas a melhoria na qualidade do ensino ofertado, o que demanda prioridade de investimentos na política de educação do setor público desde a dimensão estrutural no interior das instituições educacionais de diferentes níveis – contemplando a ampliação do corpo de técnicos e de docentes – até a dimensão que trata da garantia das condições de acesso e permanência àqueles estudantes que se inserem na dinâmica dessas instituições educacionais.
Nesse sentido, o Pronatec forma-se na confluência de vários elementos. As políticas de um estado desenvolvimentista, característica do projeto neodesenvolvimentista, a compreensão da educação profissional como investimento em capital humano, a inserção de práticas gerencialistas na gestão estatal e a implementação de parcerias público-privadas são alguns desses elementos, gerando um Programa de característica líquida, com alta capacidade adaptativa e, por isso, que permite abordagens diversas para sua compreensão.