Nome 3 Idade Tempo na Profissão
5 O DESENHO: AS EPISTEMOLOGIAS DA CULTURA PROFISSIONAL
5.4 A SENSIBILIDADE E A BELEZA DO TAPETE: SOMOS O QUE NOS PROPOMOS
A cultura profissional possibilita a compreensão do professor não apenas na dimensão humana, mas em uma perspectiva social, cognitiva e relacional. Para além do desenvolvimento do trabalho docente, enquanto integrante de um grupo profissional, ele vivencia situações de conflitos e ajudas para o desenvolvimento do seu trabalho que repercute diretamente na sua ação e na aprendizagem dos seus alunos.
Compreender esse processo permite que se tenha outro olhar para a escola e seus profissionais, assim como para os futuros professores em formação e iniciantes na profissão. Partindo do entendimento que a cultura profissional é um processo que se apresenta nas relações entre os sujeitos que formam um grupo profissional de determinada instituição e que são processos já naturalizados na própria vivência social, não é algo se apresenta de imediato.
Baseado no conceito antropológico, a cultura foi aqui compreendida como uma construção social e histórica, uma atividade da prática social e uma reflexividade expressa nos usos dos saberes em situações de interação (CARIA, 2008). Dessa forma, a cultura profissional não está visível para aqueles que estão imersos no processo.
Com o objetivo de identificar a cultura profissional dos professores da Escola de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, CEB/UEFS, a partir de sua organização enquanto grupo social, fiz uma pesquisa etnográfica com análise de dados baseada na Teoria Fundamentada em Dados. Para conhecer uma cultura de um grupo profissional foi necessária uma observação intensa e criteriosa sobre o contexto de trabalho e as ações dos profissionais a partir das interações sociais em momentos de socialização profissional; além da realização de uma atividade com o objetivo de compreender o que os professores pensam sobre a profissão e entrevistas com os professores. Foram realizados dois tipos de entrevistas: a semiestruturada e a narrativa, que foram utilizadas a depender da expansividade de cada sujeito.
A partir dos instrumentos ficou claro que a socialização institui a forma como o conhecimento profissional foi apreendido nos diferentes subgrupos profissionais de uma mesma instituição. Portanto, não pode ser compreendida distante da instituição com todas as demandas diárias ali representadas e a relação entre os seus profissionais.
Os elementos da cultura profissional pontuados pelo Grupo de Pesquisa ASPTI são: o papel institucional e a posição social ocupados, a identidade profissional e a atividade sociocognitiva em contextos de trabalho (CARIA, 2007). Tudo isso significa que para compreender a cultura profissional de um determinado grupo deve-se ter um olhar para a organização social da instituição e o desempenho do seu papel social, de seus profissionais apresentarem uma relação identitária com a instituição e enquanto categoria social de trabalho, além de um profundo
conhecimento teórico que dará sustentabilidade as suas atividades em contexto de trabalho.
Por estar localizado em um espaço acadêmico, o CEB/UEFS apresenta alguns elementos interessantes e, por vezes, contraditórios. Há uma clareza dos professores do papel social que a escola representa para a comunidade externa ao campus universitário e, por isso, há uma intensa procura por vagas. Outro ponto interessante é que não há dúvidas quanto ao papel social assumidos por seus professores. Pode-se afirmar que há um processo identitário solidamente construído por seus professores enquanto categoria profissional. Porém, falta uma vinculação identitária com a instituição mantenedora, isto é, há uma indefinição sobre a instituição responsável pela escola, se é a universidade ou o município de Feira de Santana.
Outro elemento evidenciado foi uma autonomia com relação ao trabalho pedagógico realizado. As decisões são tomadas em conjunto com todos os professores, o que demonstra um amadurecimento profissional da instituição quanto às garantias de aprendizagem e resultados apresentados. Para isso, há uma preocupação com a formação de professores e isso se torna um processo importante devido à alta rotatividade de profissionais que não se adaptam à proposta pedagógica da instituição, e como são vinculados ao município solicitam a remoção para outra escola. Essa autonomia voltada para o controle do trabalho tem provocado o isolamento da escola e seus profissionais.
Esse isolamento é provocado pelos constrangimentos que a escola e seus profissionais passam em diversas situações. Todavia, duas se destacam: um constrangimento institucional, que interfere diretamente na organização da escola, os constrangimentos entre os colegas de profissão fora da escola e os constrangimentos impostos pelos próprios professores aos colegas que trabalham na mesma instituição, geralmente os mais experientes impõe aos iniciantes, ou um subgrupo impõe a membros de outros subgrupos.
Importante também é a própria relação entre os colegas do grupo institucional. Em sua organização são divididos em subgrupos que na disputa de poder apresentam um processo de resistência. Esse poder não é direcionado para assumir cargos hierarquicamente superiores aos professores, mas um poder perito, um poder guiado para o reconhecimento de um status profissional diferenciado, de domínio de um conhecimento. Isso coloca as professoras do Centro de Educação
Básica da UEFS em um status superior aos demais professores da rede municipal. Aspecto autorreferenciado por eles mesmos quando afirmam “aqui nós estudamos e não ganhamos a mais por isso” (Profª Marys).
Por outro lado, apresentam um orgulho em compreender o próprio trabalho ao mesmo tempo em que apresentam uma crítica à própria ação. Essa compreensão demonstra um domínio do conhecimento teórico do trabalho docente e sua transposição para a ação prática, uma reflexão sobre a própria ação. No entanto, não evidencia uma construção de saberes profissionais necessários para o desenvolvimento autônomo da atividade prática em contexto de trabalho, considerando a prática a partir da concepção de que os objetos de conhecimento são construídos contextualmente (BOURDIEU, 2009).
Para os professores, a prática sintetiza o fazer, mas não se reconstitui esses fazeres a partir de uma ressignificação do próprio conhecimento. Um exemplo é a falta de material registrado sobre as experiências que estão dando certo ao longo do trabalho pedagógico desenvolvido ou reflexões que tenham o conhecimento teórico como elemento de análise.
Enfim, pode-se sintetizar a cultura profissional do grupo profissional do CEB/UEFS, como estruturada com base em um poder perito. Esse poder direciona várias ações dentro do grupo e nas interações. Uma delas e talvez a principal seja agregar membros para se fortalecer durante as discussões teóricas; a estruturação do saber muito orientada pelo fazer.
Ao finalizar esse “tapete”, reflito se ele pode nos representar enquanto professores da Educação Básica e vejo o quanto a formação de profissionais para a Educação é complexa e subjetiva. Primeiro, a cultura profissional desses professores do CEB/UEFS não pode ser generalizada para outros espaços, pois o estudo da cultura deve ser contextualizado. Contudo, apresenta elementos necessários para a compreensão da profissão à frente de outras escolas municipais de Feira de Santana. “Somos o que nos propomos” é tentativa de afirmar que o sujeito tem uma capacidade sociocognitiva importante que precisa ser melhor explorada nos cursos de formação.
Alguns critérios que levaram ao êxito do trabalho pedagógico precisam ser pontuados. O fato de a escola ter sido implantada depois de um projeto teoricamente bem estruturado que delimitava a proposta pedagógica e suas concepções, possibilitou a compreensão do caminho percorrido e se um sujeito ou um grupo
propõe e os demais assumem potencializa-se ações e, consequentemente, seus resultados.
A partir das considerações e argumentos usados ao longo dessa seção, apresento uma síntese desta com o objetivo de evidenciar os conceitos discutidos, as relações entre eles e como se apresentam no grupo. Mais uma vez, afirmo que a proposta não foi apresentar uma verdade enquanto pesquisadora, mas apresentar uma verdade conhecida a partir dos olhos de outrem. Esse olhar mais a construção teórica definida possibilitou uma análise que pudesse auxiliar na compreensão da profissão docente, enfatizando a construção da docência como uma atividade imprescindível para a construção de uma identidade.
Essa construção identitária parte das relações entre sujeitos e colegas de profissão que, como toda relação, existe um poder que a retrata e que nem sempre é evidenciado ou reconhecido pelos demais. Enfim, o diagrama a seguir reflete as relações no contexto do Centro de Educação Básica da UEFS – CEB/UEFS na construção de um trabalho pedagógico com características inovadoras que implica em um elo de sustentação da organização desses profissionais nessa instituição. Independente de concepções pessoais e profissionais, esses professores se unem pela crença na sua proposta pedagógica. É ela o fio que define as relações, o trabalho, as identidades, em suma, a cultura profissional dos professores.
É com esta representação que concluo parcialmente essa pesquisa. Parcialmente, porque, como uma etnógrafa, preciso refletir em como esse processo me possibilitou ampliar a minha concepção de pesquisa e de compreensão do trabalho e do sujeito professor. Esse processo será descrito no que chamo de reflexões finais acerca da cultura profissional dos professores e seu reflexo na minha formação enquanto pesquisadora-professora.
Finalizo pontuando que a verdade é incompletável, já que não se deixa ver completamente, ou melhor, a miopia humana que não permite vê-la de forma completa, a descaracterizaria. Portanto, essa é a minha meia verdade.
Era dividida em duas metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada uma optou conforme Seu capricho, sua ilusão, sua miopia. (DRUMMOND, 2014) Diagrama 2: As epistemologias da Cultura Profissional Docente
A Cultura Profissional dos Professores do CEB/UEFS
IDENTIDADE PRÁTICA AUTONOMIA
Vivências Relações
Poder Perito
CONHECIMENTO SABER INTELECTUAL PROFISSIONAL
Relações Conhecimento prático Conhecimento/Saber Pseudoliberdade
Experiência Saber Fazer Falta de Controle das
Políticas Públicas Liberdade Teórica
Construção Social
REFLEXÃO SABER FAZER
Isolamento PSEUDOAUTONOMIA Poder Perito TRABALHO PEDAGÓGICO Poder Perito