sociedade contemporânea2. Mas, ao tratarmos especificamente da produ-ção e disseminaprodu-ção de notícias – no caso, sobre a pandemia –, arriscamos ainda ir além: é no registro de uma espécie de senso comum ‘instituciona-lizado’ e ‘profissiona‘instituciona-lizado’, que age e reforça o senso comum em geral, que caracterizamos a prática jornalística que se tornou hegemônica, com um adendo de que, mais do que um movimento espontâneo, aqui se trata de um processo metodologicamente controlado pelas técnicas profissionais de produção da notícia, com seus critérios de atualidade, velocidade e ime-diaticidade, entre vários outros, cuja descrição ultrapassa os limites deste texto. Como já definimos em outro trabalho:
Na interseção entre as características do senso comum e os objeti-vos embutidos na disputa de hegemonia encontra-se, então, uma das mais importantes chaves de leitura do jornalismo e da imprensa propostos por Gramsci nas suas variadas referências: a necessidade de ‘inventariar’ esse senso comum, concedendo unidade e coerência ao que se apresenta disforme e disperso. Por isso, Gramsci pensa o jornal (e a revista) não como uma ação isolada ou voluntarista, mas como parte de um “organismo unitário de cultura”, que envolva a pro-dução de outros materiais e práticas e cujo objetivo deve ser gerar um “processo de desenvolvimento orgânico que conduza do simples senso comum ao pensamento coerente e sistemático” (GUIMARÃES, 2005, p. 304, grifos nossos).
Vejamos um exemplo. O mapeamento de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para os casos graves de Covid-19 foi objeto de inúmeras
2 Ultrapassa os objetivos deste texto o debate sobre a clara importância que as redes sociais assumiram como canais de informação nos últimos tempos. Vale registrar, no entanto, que pesquisas mostraram que a imprensa dita tradicional foi considerada a fonte mais confiá-vel de informação sobre a pandemia. Um estudo realizado pela agência Edelman em vários países apontou essa avaliação em 64% das pessoas. (LARA, 2020). No Brasil, na pesquisa Datafolha, 61% consideravam os programas jornalísticos de TV como os mais confiáveis, e 56% apontam os jornais impressos. Apenas 12% apontavam Facebook e WhatsApp como mais confiáveis (MARQUES, 2020).
notas técnicas de pesquisadores, que, entre outros pontos, demonstravam uma diferença de proporção da oferta nas redes pública e privada. Como desdobramento político dessa constatação, chegou ao debate público a de--fesa da unificação e centralização da fila de UTI em meio à pandemia, de modo a evitar mortes no SUS enquanto, em algumas localidades, sobra-vam leitos em hospitais particulares. Não se pode dizer que esse debate não tenha chegado à grande imprensa – ainda que seja possível ponde-rar se a penetração foi correspondente à relevância social do tema. Mas, aqui, alguns elementos que dizem respeito diretamente ao que estamos chamando de ‘modo de fazer jornalismo’, com toda sua funcionalidade ideológica, merecem observação. Primeiro, vale destacar o fato de a pauta ter ocupado fortemente os espaços de opinião. O caso mais facilmente ve-rificável é o do jornal Folha de S. Paulo, reconhecido por adotar uma linha editorial mais plural (sempre dentro de limites controlados, ressaltamos) que, na soma entre as versões impressa e online, conta com uma extensa e mais variada lista de colunistas e blogueiros.
Entre os primeiros resultados de uma busca rápida pela palavra-chave “fila única” no site do jornal, encontra-se, por exemplo, um artigo da seção ‘Perifa Connection’ (FRANCO et al., 2020), escrito a cinco mãos, entre elas a de Anielle Franco, irmã da vereadora assassinada Marielle Franco. Nele, argumenta-se a favor da unificação da fila, concluindo, em consonância com o discurso da campanha, que “o colapso também é ético e moral quando se esgotam recursos do SUS e existem leitos privados ociosos” (FRANCO et al., 2020). Nas primei-ras referências da mesma busca, é possível encontrar ainda outro artigo, de autoria de Sidney Klajner (2020), presidente da Sociedade Beneficente Isra-elita Brasileira Albert Einstein, com um título espantosamente afirmativo:
‘É hora de unir os sistemas de saúde público e privado’. No texto, ele reconhece o colapso do serviço público em algumas regiões, legitima o debate sobre a fila única, sugere cautela nos termos da negociação e, citando o caso exitoso das parcerias público-privadas que envolvem a entidade que preside, conclui:
“O ponto principal é estabelecermos como as esferas pública e privada da saú-de posaú-dem trabalhar em conjunto durante e saú-depois da pansaú-demia. Nenhuma na-ção deve prescindir de um modelo de integrana-ção entre o que existe de melhor, não importando se público ou privado, em benefício dos habitantes” (KLAJNER,
2020, grifos nossos). Entre muitos outros exemplos possíveis, incrementa esse
‘cardápio’ ainda o texto de um editorial (PÚBLICO..., 2020)3 (‘o que a Folha pensa’), em que o jornal reconhece que a unificação dos leitos é prevista em lei, recomenda cautela, alerta contra “tentações voluntaristas” de confisco de leitos “à base de canetadas” e conclui que a medida pode ser positiva como uma fonte alternativa de receitas para os hospitais privados – sem mencionar, em nenhuma linha, a motivação da campanha de reduzir as filas do SUS para salvar vidas na parcela majoritária da população que não tem plano de saúde.
Não é objetivo deste trabalho fazer análise de conteúdo ou do discurso so-bre cada um desses ou de outros textos jornalísticos, ao contrário: o foco é compreender a narrativa que resulta da articulação e desarticulação do con-junto, do somatório de fragmentos caóticos que conferem sentido a cada tema específico e ao debate sanitário como um todo no contexto da pandemia. E poucos exemplos parecem tão didáticos como esse em evidenciar os ingre-dientes variados que, “agregados” de modo “multiforme”, alimentam as con-cepções de mundo fragmentárias e incoerentes descritas no conceito de senso comum gramsciano. Como se pode observar, não há cobertura ‘contrária’ à unificação da fila, tampouco censura ao tema: há um ‘método’ de exposição e debate que ressignifica a pauta, diversificando-a para todos os gostos e tornando-a, de certa forma, independente do ‘fato’ original.
Sobre o mesmo tema, não faltaram também notícias, o tipo de produ-ção jornalística que ocupa o espaço reservado à ‘informaprodu-ção’ na organi-zação editorial dos veículos de imprensa. Em alguns casos, o público foi informado, por exemplo, sobre a recomendação de fila única aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde, sobre a ação de um partido político junto ao Supremo Tribunal Federal com o mesmo fim e a reação dos governadores, que solicitaram a recusa pelo STF4. O importante a se observar é que,
3 https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/publico-e-privado.shtml.
4 Ver, por exemplo: <https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/04/22/conselho-na-cional-de-sade-recomenda-fila-nica-com-leitos-privados-e-pblicos-a-paciente-de-covid-19.
ghtml>; <https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/31/psol-vai-ao-stf-para-que-sus--controle-leitos-privados-de-uti-e-crie-fila-unica.ghtml>; <https://saude.estadao.com.br/
noticias/geral,estados-veem-violacao-de-autonomia-em-pedido-para-fila-unica-de-lei-tos,70003299668>.
ao mesmo tempo, outras notícias e reportagens, produzidas por outros jornalistas, e eventualmente até distribuídas em editorias diferentes, in-formavam diariamente sobre o número de contaminados, mortos e doen-tes graves que aguardavam na fila de espera por um leito de UTI em cada cidade que, em momentos distintos, era mais fortemente atingida pela pan-demia. Duas pautas, duas notícias, isoladas e fragmentadas, que cumprem a promessa do papel democrático da imprensa de manter a sociedade infor-mada e oferecer as condições necessárias para que cada um pense ‘por si’
e forme a sua própria opinião sobre os mais diversos temas. E que, presas nos mesmos limites dessa concepção, afastam-se, metodologicamente, de qualquer esforço de unidade que permita compreender o mínimo dos funda-mentos dos fatos noticiados. Como nos ensinou um dos mais importantes estudiosos da história do jornalismo no Brasil, referindo-se a esse modelo informativo, “logo a grande imprensa capitalista compreendeu, também, que é possível orientar a opinião através do fluxo de notícias” (SODRÉ, 1999, p. 4). Ou, como escreveu Flávia Lima (2000), ombudswoman da Folha de S.
Paulo, no dia 5 de julho deste ano, num texto em que acusava o apoio do jornal à ditadura empresarial-militar: “é possível contar uma ficção dizendo só verdades”.
Parece claro que, ao questionar os limites da autonomia da iniciativa privada, o exemplo que acabamos de citar toca num ponto muito sensível do consenso social reafirmado cotidianamente, inclusive pelos grandes conglomerados empresariais de comunicação que monopolizam a chama-da grande imprensa no Brasil. Ilustra bem esse movimento o estratégico papel desempenhado pelo quadro sobre solidariedade empresarial criado pelo Jornal Nacional, em que diariamente executivos de grandes grupos econômicos apresentavam o quanto doaram ou empregaram de recursos próprios (leia-se: privados) para o combate à pandemia. Para além do con-texto atual, vale ainda mencionar, quase como uma curiosidade, que a
“livre iniciativa” é destacada nos princípios editoriais do Grupo Globo como um dos valores defendidos por compor o rol daqueles “sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente” (2011) – junto com ele, estão a democracia, as liberdades individuais, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza.
Apesar dessas constatações, a premissa de que a cobertura jornalística da grande mídia se orienta por ações de manipulação direta, associadas a in-teresses específicos e identificáveis, parece insuficiente para compreender o papel desempenhado por esses ‘aparelhos’, ainda mais num contexto atra-vessado por contradições como o da pandemia no Brasil. Por isso, vale nos determos em pelo menos mais um exemplo, que ilustre o processo que esta-mos tentando sinalizar sem se referir a tema polêmico e de interesse tão contraditório quanto a relação público-privado. Foi fartamente noticiada (e consta das chamadas de matérias que abrem este trabalho) a quantidade de municípios brasileiros que não contavam com nenhum leito de UTI, mobilizan-do inclusive reportagens narrativas, que contavam a história de pessoas reais que precisavam percorrer longas distâncias para conseguir uma internação.
Mesmo num momento em que um fenômeno importante como a pandemia de Covid-19 impõe aos veículos de imprensa a criatividade na construção de pautas novas, de modo a manter o tema aceso sem se reduzir à simples atualização do número de casos, foram raras (se é que existiram) as situações em que esses casos trágicos foram contextualizados com o debate sobre economia de escala ou a mera descrição do desenho federativo brasileiro construído pelo SUS, que pressupõe a regionalização e a construção de redes de saúde que ultrapassam os limites geográficos e que, concorde-se ou não, ajuda a explicar o fenômeno que agora se noticiava. Menos ainda se identificou a articulação dessa pauta com dados de realidade sobre a situação fiscal de estados e municípios, que remetem tanto à crise agravada pela pandemia quanto ao desenho tributário brasileiro.
Esse e vários outros exemplos evidenciam a recusa de chaves interpretativas que ultrapassem e antecedam (conceitualmente e não apenas temporalmente) o
‘fato’. E parecem mostrar a importância de se deslocarem as análises críticas da imprensa da simples denúncia de manipulação para o reconhecimento de pro-cessos mais sofisticados, que se imprimem historicamente no ‘método’ do tra-balho dos jornalistas, na concepção de notícia consensuada, na organização das seções que orientam a leitura de cada pauta, entre muitos outros aspectos. To-dos esses são mecanismos que, isolaTo-dos ou articulaTo-dos, instituem formas mais estruturais de controle (como no caso da relação público-privado), ao mesmo tempo em que criam limites para uma simples abordagem mais pedagógica mesmo em temas menos sensíveis (como no caso do desenho federativo).