Quando o mundo abandonar o meu olho. Quando o meu olho furado de beleza, for esquecido pelo mundo. Que hei de fazer. Manoel de Barros
O saudosismo invade. Invade e se apodera dos meus pensamentos fazendo-me levitar até os tempos de criança e me rever pelo olho da vida. O que vejo? Lá estou eu sentada à beira da rua com as mãos lambuzadas de laranja sentindo o suor escorrer em meu corpo depois de uma partida de taco33. Ainda consigo escutar meu coração assustado que brinca de esconder na escuridão da noite e pede socorro aos vagalumes para iluminar o caminho de volta. Espiando pelo olho da vida vejo meus pés descalços, estão encardidos. As marcas são do pó que cobre a rua e de cortes feitos por cacos de vidros nas brincadeiras de armadilhas. Essas marcas contam minhas experiências da beira da rua, experiências que me compõem.
E, agora como pesquisadora, estou novamente sentada à beira da rua. E é na experiência da beira, de perto e de dentro que procuro interpretar o que transborda a superfície do asfalto e calçamento que cobrem as ruas da Chico Mendes. Nesse transbordamento linhas são desenhadas de modo que provocam bifurcações, tensões, rompimentos, extensões...
Aos poucos me deixei levar pelas inquietações provocadas na distração da linearidade do meu conhecimento sobre as coisas do mundo e deixando-me afectar pela diferença que me compõe diante do Outro. Minha experiência da beira da rua agenciou-me no sentido de que me fez viver-junto-com34, livrando-me de um distanciamento asséptico da comunidade Chico Mendes. Agenciamento como uma “mistura de corpos reagindo um sobre o outro” (ZOURABICHVILI, 2004) que provocou uma desterritorialização sobre os meus pensamentos numa aproximação com o significado dado por Deleuze. “Agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que
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Brincadeira que utiliza tacos, bolas e casinhas e que envolve duas equipes compostas por duplas.
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muda necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões” (DELEUZE e GUATARRI, 1995, p. 37).
Essa simbiose fez-me declinar diante da heterogeneidade que se coloca no encontro com a “alma das ruas” (RIO, 2008) promovendo o acolhimento das diferenças que se tece na cultura dos seus pares promovendo fluxos moleculares35 (DELEUZE e GUATARRI, 1996)
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interpretação dos modos de viver. As pegadas aparentemente molares deixadas por mim no caminho traçado colocam-se como possibilidade do deslocamento dos meus pensamentos enrijecidos pelo tempo.Assim, sentada à beira das ruas da Chico Mendes encontro-me com as linhas que aos poucos se põem em relevo, habitam e inquietam meu modo de pensar. Linhas que nascem das vozes das crianças e de tantas outras que se cruzam e dão a essas a incorporação dos seus traçados sobre os seus próprios corpos. Perguntas são trazidas nas asas dos pássaros que bailam e que encontrei nas manhãs ensolaradas de domingo. Como surgem essas linhas que tensionam agora o modo de ver as crianças desse lugar? Quais vozes provocam eco em mim através dos diferentes discursos das crianças com os quais me encontrei nessa comunidade? Como produzir tensionamento a partir das linhas que contornam a pesquisa? Sob quais formas essas linhas desenham a superfície geográfica, histórica, cultural, social da infância desse lugar? Quais linhas provocam as intempéries resistindo à fixação da sua solidez? Por quais linhas estão conectadas minhas referências culturais a ponto de me fazer estranhar ou familiarizar diante daquilo que se passa em frente aos meus olhos?
Linhas que contam histórias e desafiam meu olhar desconfiado trazendo à tona um pressuposto importante para uma pesquisa etnográfica, o estranhamento. Sou aos poucos abduzida das linhas rotineiras que se colocam sobre os holofotes da história da infância criada a partir da modernidade. O rapto dá-se mediante ao que vivi com a etnografia e o que dela me provoca pensar dos modos de vida das crianças dessa comunidade. É no calor do calçamento que cobre as ruas por onde andei que me pego a perguntar: como era antes do asfalto
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Fluxos molares e moleculares são conceitos refletidos por Deleuze e Guatarri. Para os autores a ordem molar corresponde a um enrijecimento de possibilidades que delimitam objetos e sujeitos provocando uma segmentação, uma territorialização. Já a ordem molecular se põe como contrário dessa indicação. Revela-se como sendo fluxos de intensidades, de possibilidades de movimento, de devires de desterritorialização.
chegar? Como nasceram as ruas que ali estão? De onde nascem as linhas que estão atadas aos corpos das crianças dessa comunidade? Quais linhas desenham o mapa social da comunidade Chico Mendes na composição da emergência das suas crianças? Qual história faz-se presente no presente da história?
É preciso voltar no tempo para que possamos minimamente compreender o percurso das linhas que se põem como extensão de forças (CORAZZA, 2000) sobre as crianças do presente dessa comunidade que narram suas experiências no mundo submersas por discursos que se colocam como verdades para sua emergência. Para a autora, as linhas de força penetram as coisas e as palavras dos infantis de modo a produzir “práticas discursivas acerca do infantil, infância, das crianças & Cia” (CORAZZA, 2000, p. 48). Sigo assim, a tentar fazer um (re)conhecimento da história dessa comunidade e consequentemente das infâncias que nela habitam, partindo das questões que se põem no presente, sem com isso ter a pretensão de chegar à ponta da linha que se estende pelo tempo da história.